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Os Antigos Dizem

Educação

Os Antigos Dizem, projeto, educação, memória coletiva, folclore, alunos.

1 Justificativa

“Os Antigos Dizem” é um projeto que consiste na construção da memória coletiva. Este projeto tem como finalidade resgatar o folclore em suas várias facetas: fábulas, contos, lendas e mitos contados pelos antepassados, pois, acreditamos que muito da cultura neles contidos estão em um processo de esquecimento. Dessa maneira, buscaremos a memória dos alunos, a memória de seus pais, seus avós, os materiais disponivéis e os livros.

2 Objetivos

Pretendemos com este trabalho desenvolver um objetivo principal: resgatar o folclore através das crianças, jovens e adultos. No decorrer do processo criador e construtor, desenvolveremos a prática da oralidade, quando depois das pesquisas os alunos declamarão o resultado (de suas pesquisas) atribuindo significados ao que eles mesmos descobriram através dos estudos sobre o folclore.

Todo o trabalho está previsto para elaboração e conclusão no período de quatro aulas, com duração de 1h, salvo as pesquisas, que serão realizadas fora da escola. Dentro da sala de aula, no decurso do ciclo que propusemos, iremos utilizar esse tempo para construção e discussão sobre os materiais recolhidos.

3 Fundamentação teórica

Antes que possamos desenvolver o projeto “Os Antigos Dizem”, que iremos produzir a partir das pesquisas sobre o folclore, faz-se necessário imbuir os alunos do significado do que é folclore. Dessa maneira, consultamos Buarque (2004), Camara (1978), Quadros (1966), Moisés (1971) e Novaes (2003), sobre o assunto.

Para Buarque (2004), o folclore é “O conjunto ou estudo das tradições, conhecimentos ou crenças de um povo, expressos em suas lendas, canções e costumes” (Buarque, 2004 p.411), em sentido âmplo, o folclore são todos os conhecimentos acumulados por um povo e transmitidos através de canto, dança, mito, fábula ou conto. De acordo com Camara (1978), o folclore é a reunião do conhecimento de um povo. Segundo esse autor, o:

Canto, dança, mito, fábula, tradição, conto, independem de uma localização no espaço. Vivem numa região, emigram, viajam, presentes e ondulantes na imaginação coletiva (Camara, 1978 p.51).

 

Assim, como aponta Camara (1978), esses são os elementos que por meio do canto, da dança, mito, fábula, tradição e conto transmitem o conhecimento dos povos. No entanto, Quadros (1966), afirma que as histórias folclóricas podem ser distinguidas em quatro pontos: a fábula, o conto, a lenda e o mito. A fábula, diz Quadros (1966), é uma narração em geral feita de versos e os personagens são animais dotados das qualidades humanas. Para Novaes (2003), o mundo animal está organizado à semelhança e imagem da sociedade humana, e nas fábulas, a “leitura deve dar prazer e, ao mesmo tempo, dar alguma lição de vida” (Novaes, 2003 p.42), dessa maneira, analisamos o seguinte texto:

O lobo e a cegonha

Um lobo devorou sua caça tão depressa, com tanto apetite, que acabou ficando com um osso entalado na garganta. Cheio de dor, o lobo começou a correr de um lado para outro soltando uivos, e ofereceu uma bela recompensa para quem tirasse o osso de sua garganta. Com pena do lobo e com vontade de ganhar o dinheiro, uma cegonha resolveu enfrentar o perigo. Depois de tirar o osso, quis saber onde estava a recompensa que o lobo tinha prometido.

- Recompensa? – berrou o lobo. – Mas que cegonha pechinchona! Que recompensa, que nada! Você enfiou a cabeça na minha boca e em vez de arrancar sua cabeça com uma dentada deixei que você a tirasse lá de dentro sem um arranhãozinho. Você não acha que tem muita sorte, seu bicho insolente! Dê o fora e se cuide para nunca mais chegar perto de minhas garras!

Moral: Não espere gratidão ao mostrar caridade a um inimigo.

(Esopo www.metaforas.com.br)

 

A lição a ser ensinada é a própria moral da fábula: “Não espere gratidão ao mostrar caridade a um inimigo”(Esopo www.metaforas.com.br). No entanto, o conto, segundo Quadros (1966), é uma narração novelesca que não tem lugar fixo para o desenvolvimento da ação, e onde os personagens aparecem sem se individualizarem. De acordo com Moisés (1971), o conto é a “enumeração de acontecimentos” (Moisés, 1971 p. 109), para ele, a palavra conto tem a função de estabelecer sentido aos vários episódios de fatos dentro da narrativa. Segundo esse autor, os contos são pequenas histórias que não possuem final. Novaes (2003) observa que nos contos populares não é possível saber onde eles teriam nascido e quem teria feito essas narrativas “Quem teria inventado essas estórias que os avós dos nossos avós já conheciam...” (Novaes, 2003 p.21). O conto “Branca e o selvagem”, é um excelente exemplo: sabemos que ele foi recolhido na Venezuela, mas não sabemos no entanto quem é o autor, somente podemos atribui-lo à sabedoria popular:

Branca e o Selvagem1

Branca tinha os cabelos crespos e os olhos esverdeados.

Era linda, porém estranha. Andava sempre meio distraída e quase nunca falava. Nem mesmo no dia em que a avó a levou junto com os meninos para tomar banho na lagoa das Corais, lá no meio do mato.

Os garotos iam na frente, preparados, com seus facões, as forquilhas para matar as cobras-corais que sempre apareciam por lá. As meninas iam atrás, fazendo festa para eles. Atrás de todos ia Branca, ouvindo os ruídos da mata; zumbidos, os gemidos, o sussurro da folhas. De vez em quando, parava e olhava para trás, pois tinha a impressão de quem alguém a seguia. Uns olhos, uma voz, uma sombra entre as folhas, refletindo-se com o sol da manhã

-Vamos, menina! – gritava a avó, apressando-

Mas Branca foi a última a chegar à lagoa das Corais, a última a pular nas águas escuras. E mesmo ali, no meio da lagoa, parecia-lhe que alguém a olhava, que alguém a chamava das árvores altas.

-É que no mato aparece o Selvagem, que enfeitiça as meninas bonitas – diziam as moças do povoado.

E Branca, encolhida numa pedra em que batia o sol, com os cabelos cheios de gotinhas brilhantes, via olhos de tigre e patas de veado atravessando, sem fazer barulho, o matagal.

Nisso, soprou um vento quente e alguma coisa enroscou-se em seus cabelos. Levantou-se assustada e dos seus cabelos crespos caiu uma flor de bucare2. Olhou para cima. A alta copa da árvore, cheia de flores amareladas, balançava com o vento.

E mais nada...

Branca nunca mais voltou à lagoa, nem quis mais entrar no mato.

-Vamos, menina. Vamos nadar – diziam-lhe as garotas.

Mas Branca movia delicadamente a cabeça e ficava em casa, sozinha, calada.

-É que ela tem medo do Selvagem – debochavam as meninas.

-Não, não tenho medo dele - respondeu certa vez Branca, mas ninguém a ouviu.

E assim foi o tempo.

À tarde, Branca saía na varanda. Sentava-se na cadeira de balanço da avó e olhava para longe, para além do rio, lá onde começa a mata cerrada. Com o vaivém da cadeira de balanço e a brisa batendo em seu rosto, lembrava-se do claro-escuro da mata e de novo ouvia os zumbidos, os gemidos e os sussurros.

E quando fechava os olhos e suspirava, tinha a impressão de que alguém muito forte subia com ela pelos troncos, bem lá no alto, até os galhos mais finos, de onde ela podia ver o rio, o povoado e sua casa, tudo distante e pequenino.

-O que há com essa menina, que parece abobada? – perguntou a avó uma tarde, olhando para Branca, que se balançava sorrindo, distante.

-Nada. O que pode haver?... São coisas da idade – respondeu a mãe.

-Será que o Selvagem não está enfeitiçando a menina? Dizem que ele enfeitiça as meninas, igualzinho uma jibóia. E quando elas estão bem abobalhadas, ele carrega nas costas e as leva para o mato.

-Isso é conversa. Ninguém nunca viu esse tal de Selvagem.

-Pois alguém deve ter visto alguma vez, porque dizem que ele é peludo como um urso, meio macaco, meio homem, com olhos de tigre e patas de veado.

E uma tarde, um dia após ter completado quinze anos, depois do pôr do sol, Branca desapareceu. Ninguém jamais soube o que aconteceu. Ninguém ouviu nenhum barulho, nem vozes ou gemidos.

Dizem as pessoas que a avó tinha razão. Que o Selvagem chegou silencioso, pisando mansinho, que a colocou nas costas, atravessou o rio caminhando sobre as águas e se embrenhou no mato, levando Branca para uma casa construída para ela nas árvores. Que lá ele a alimenta com frutas e sementes, enfeita-lhes o cabelo com flores e lambe sem parar a planta dos seu pés.

E ninguém sabe se Branca não volta porque está fraca e assustada ou porque não quer descer da árvore enfeitiçada do Selvagem. (Contos de Animais Fantásticos, 1986 p. 101 à 106)

 

Para Novaes (2003), o conto não possui um lugar fixo para seu desenvolvimento e não se pode definir quem é o autor, pois esse deriva do povo ou o folclore.

A lenda, segundo Camara (1978), já possui um propósito: fixar alguma mensagem: “A Lenda é um elemento de fixação. Determina um valor local. Explica um hábito ou uma romaria religiosa” (Camara, 1978 p. 51). No entanto, para Quadros, a lenda pressupõe lugares e personagens determinados. Geralmente, as narrativas atribuem caráter heróico às personagens. Para Buarque (2004), a lenda é uma tradição popular de caráter maravilhoso, em que os fatos são deformados pela imaginação do povo ou do poeta. Refletindo sobre esses aspectos, analisamos o seguinte texto:

O Curupira

É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.

Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia, rindo-se em silêncio.

O Curupira é como um tapuio3 pequeno; tem os dentes verdes e os pés colocados às avessas.

Quando perseguido pelo Curupira, o melhor meio de fugir-lhe é atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó, entrançadas; ele entretém-se a examinar o achado e a destrança-lo, e enquanto isso, o perseguido escapa-se. (Simões, 1996 p. 110)

 

Nesse trecho, o que fica caracterizado é o valor do local, nesse caso o Norte do Brasil. Simões (1996), aponta que existem também algumas considerações sobre a religião “deixando pelo caminho cruzes”, simbolos que remetem ao cristianismo. No entanto, nota-se outros elementos nas lendas:

Bão-ba-la-lão

Senhor Capitão,

Em terra de mouro4

Morreu seu irmão,

Cozido e assado

No seu caldeirão;

E foi enterrado

Na cruz do Patrão

Capote5 vermelho

Chapéu de galão6

Negro cativo

Não tem presenção

De dia e de noite

C’ os cacos na mão (Camara, 1978 p.59)

 

Nesse caso, o recurso utilizado para fixação da idéia é a sonoridade, as rimas, a constante remissão aos atributos do exército e uma sutil, porém, não menos enfática, “cruz do patrão”, elemento que também remete ao cristianismo.

Os Mitos, para Quadros (1966), são lendas, em que a ação das personagens está a encargo de seres sobrenaturais que, segundo Quadros (1966), possuem as mesmas paixões dos seres mortais. De acordo com Novaes (2003), os mitos nascem no espaço sobrenatural dos deuses e, segundo esse autor, os mitos explicam a origem da vida e do universo:

No princípio Deus criou o ceú e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: Exista luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas. E chamou à luz dia e às trevas noite. E fez-se tarde e manhã: o primeiro dia. (Biblia apud Gleiser, 1997 p. 31)

 

Esse mito da criação é comum à sociedade ocidental, porém, de acordo com Novaes (2003), os mitos são seres sobrenaturais e explicam o universo e a vida. Dessa maneira, outro exemplo de mito da criação é extraído de P’ an Ku escrito no século III da era cristã:

A criação do mundo não terminou até que P’ an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada7 do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade (Gleiser, 1997 p.33/34).

 

Nesse mito da criação, retirado do folclore chinês, explica-se o início da vida, com a morte de P’ an Ku. Porém, não há indicações de como teria ocorrido a morte dele. No romance de Terenci Moix, encontra-se outro mito, no qual, há uma disputa que originou o mundo e mantém o equilíbrio entre o “bem e o mal”:

Canto o supremo mistério da vida do Bem sobre o mal. Canto o combate fratricida que dividiu os homens em sua origem. Canto a ressurreição da vida sobre a morte...

Pois contam as histórias de nossos pais mais distantes que, em um princípio, habitavam o céu multidão de deuses que o homem não podia alcançar. E os homens viviam na ignorância, pelo que eram parecidos com os bichos.

Mas um filho dos deuses apiedou-se da solidão dos homens, deixou-se comover por sua ignorância e quis ensinar-lhes o que os deuses sabiam... ( Moix, 1986 p.70)

O Deus referido é Osíris. Nesse poema, a disputa entre “Bem e o Mal” é reconstituída entre Osíris, O Deus que desceu para viver ente os homens e Seth o Deus invejoso. Seth esquarteja o irmão e joga-o no mar provocando o:

mal (que) abate-se implacavelmente sobre as colheitas. O mal assenhora-se das almas. Maldito Seth, maldito irmão, que depois de assassinar continua sua negra missão (Moix, 1986 p.71 grifo nosso)

 

E segundo consta no romance, as trevas dominaram até o nascimento de Horos, filho do sol (Osíris). E dessa maneira, o próprio Horos diz:

Chego no longo combate contra meu tio Seth, o do nome ensanguentado. Persegui-o por todas as cidades que balizam o rio dos rios. Nunca houve combate mais árduo! A eternidade contudo, há de saber que, na longa luta contra as trevas, o Bem voltou a reinar em terra egípcia (Moix, 1986 p. 72).

 

O mito contido no poema é do folclore egípcio, e nesse caso, o mito procura responder, através dos deuses a disputa entre noite e dia, trevas e luz, bem e mal, ou a eterna dicotomia humana.

Como apontamos, o objetivo do projeto “Os Antigos Dizem”, consiste na construção da memória coletiva, dessa maneira resgataremos algumas partes do folclore. Todo esse processo será realizado dentro da sala de aula, colheremos fábulas, contos, lendas e mitos, pois acreditamos que através dessas pesquisas conseguiremos ensinar conhecimentos para a vida e valorizar toda a cultura contida nessas histórias.

4 Programação das aulas

 

1° aula: Apresentação do projeto, discussão sobre os objetivos (livro), explanação sobre o material e o prazo que será utilizado para início e término do projeto.

2° aula: leitura dramatizada.

3° aula: leitura dramatizada.

4° aula: leitura dramatizada

5 Referências Bibliográficas

Moisés, Massud. A criação Literária; 4°edição, São Paulo: ed. Melhoramentos, 1971.

Novaes, Nelly Coelho. O Conto de Fadas: simbolos mitos arquétipos; São Paulo: DCL, 2003.

Camara, Luis Cascudo. Literatura oral no Brasil, São Paulo editora José Olympio 1978.

Quadros, Jânio. Curso Prático da Língua Portuguesa; São Paulo: editora Formar, 1°edição 1966.

Buarque, Aurélio de Holanda Ferreira. O Dicionário da Língua Portuguesa, Curitiba: editora Positivo, 6°edição 2004.

Gleiser, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de Criação ao Big Bang, São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Simões, João Lopes Neto (1865-1916). Lendas do Sul, São Paulo: Globo, 12° edição 1996.

Contos de Animais Fantásticos. São Paulo: editora Ática 1986.

Moix, Terence. Cleópatra: rainha e mulher, trad. Eduardo Brandão, São Paulo: Círculo do livro 1986.

 

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1 Branca e o Selvagem é um conto recolhido por Verônica Uribe e Carmen Dearden em diversas regiões da Venezuela, esse conto fez parte das Edições Ekaré-Banco del Libro e está baseado em vários relatos recolhidos por Santos Erminy Arismendi e publicado no livro Huellas folklóricas.

2 Bucaré: árvore da família das leguminosas, integrantes das matas, comum em toda a Ámérica tropical, e que em setembro se cobre de grandes flores amareladas. Também conhecida como bucaré, suinã e açaçurana.

3 tapuio: qualquer mestiço trigueiro e de cabelos lisos e pretos.

4 mouro:indivíduo dos mouros, povos que habitavam a África, homem que trabalha muito.

5 capote: casacão militar, peça do vestuário semelhante ao casaco.

6 galão: tira ou cadarço, de tecido bordado ou de fios entrelaçados, usado como enfeite. Tira de ponta dourada, usada como distintivo no boné de certas categorias de militares e funcionários.

7 abóbada: céu, espaço sideral e os astros ai visíveis.


Publicado por: Fábio Oliveira

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