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Declaração textual: um elemento linguístico-textual e discursivo estruturante dos gêneros notícia e reportagem

Educação

Este estudo delimita-se a alguns aspectos linguístico-textuais e, em certa medida, discursivos dos gêneros notícia e reportagem que podem trazer dificuldades de leitura (e de produção escrita) a alunos do Ensino Médio. Mais especificamente, a pesquisa enfoca as diferentes formas de inserção de uma declaração textual obtida pelo repórter a partir de uma fonte de informação.

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1. RESUMO

A experiência do pesquisador como corretor de redações de um colégio particular do Estado de São Paulo permitiu observar, em textos noticiosos produzidos pelos alunos, duas inadequações linguístico-textuais. A primeira refere-se ao emprego da locução adverbial segundo; a segunda consiste na repetição excessiva do mesmo verbo dicendi. Constatou-se, nos materiais didáticos utilizados pela escola, a ausência de exercícios que focalizassem essas dificuldades, o que motivou a realização da pesquisa, visto que os resultados podem subsidiar a criação de material didático específico. Este estudo enfoca aspectos linguístico-textuais e, em certa medida, discursivos das formas de inserção de declarações obtidas pelo repórter a partir de fontes de informação. O objetivo geral é contribuir para a compreensão mais detalhada sobre o uso do recurso da declaração textual nos gêneros notícia e reportagem. Especificamente, objetiva-se fazer um levantamento das formas de apresentação da declaração textual em notícias e reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e comentários sobre aspectos discursivos referentes às formas linguísticas utilizadas para relatar as declarações. A metodologia é qualitativa: primeiramente, descreve-se o corpus, composto de 20 textos publicados nesses jornais em uma semana de abril de 2014: 10 textos de cada jornal – 05 notícias e 05 reportagens; em seguida, procede-se à identificação e análise das formas de declaração textual presentes no corpus, bem como comentam-se alguns aspectos discursivos. A fundamentação baseia-se em estudos da Comunicação Social sobre os gêneros notícia e reportagem e em estudos linguísticos sobre os modos de citação das declarações das fontes jornalísticas. Assim, colaboram na fundamentação manuais de redação de jornais e revistas de grande circulação e linguistas que estudaram o assunto. Essa fundamentação indicou quatro formas de inserção das declarações textuais: com emprego de verbo dicendi; com locuções; ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo; ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica). No corpus, identificou-se que a forma mais empregada é a com verbo dicendi, e a menos empregada é a com locuções. Observou-se, ainda, que os gêneros não apresentam sempre os mesmos verbos dicendi na introdução de declaração. Embora se empreguem muito mais frequentemente verbos mais básicos e mesmo “neutros”, como “afirmar” e “dizer”, ambos os gêneros apresentaram verbos interpretativos, que sustentam pressupostos e permitem inferências, como “acusar”, “negar”, “reagir”. Os resultados desta pesquisa contribuem para a compreensão mais ampla acerca do emprego da declaração textual como um elemento estruturante dos gêneros discursivos notícia e reportagem e podem subsidiar a preparação de atividades específicas que focalizem a leitura e a produção escrita dos gêneros em questão, o que, certamente, contribui para a prática deste pesquisador como professor de Língua Portuguesa e de outros professores da mesma área que atuem no Ensino Médio.

PALAVRAS-CHAVE: Gênero discursivo. Notícia. Reportagem. Declaração textual. Leitura.

ABSTRACT

The experience of the researcher as a school essays’ reviewer of a private school in the State of São Paulo allowed to observe two linguistic and textual inadequacies in news that were produced by students. The first refers to the use of the adverb segundo; the second is the excessive repetition of the same dicendi verb. Also, was verified a lack of exercises that focus on these difficulties in instructional materials used by the school, which led the research, since the results can support the creation of a specific courseware. This study focuses on linguistic-textual aspects and the discursive forms of insertion of declarations obtained by the reporter from information sources. The overall objective is to contribute to a more detailed understanding of resource usage of textual declaration in the genres: news and report. Specifically, the objective is to survey the forms of presentation of textual declaration on news and reports of the newspaper Folha de S.Paulo and O Estado de S. Paulo and commentary on discursive aspects related to linguistic forms used to report the declarations. The methodology is qualitative: first, describes the corpus, consisting of 20 articles published in these journal during a week in April 2014: 10 texts of each newspaper - 05 news and 05 reports; then proceeds to the identification and analysis of the forms of textual declaration of the corpus as well as commenting out some discursive aspects. The foundation is based on studies of Social Communication about news and reports genres and linguistic studies about quotation’s declaration of journalistic sources. Thus, this work is based on writing manuals of newspapers and magazines with wide circulation and linguists who have studied the subject. The theoretical bases indicated four ways of textual declarations: the usage of dicendi verb; with locutions; absence of explicit introducer due to the use of introducer in the same paragraph; absence of explicit introducer in an entire paragraph (by nominalization or only for typographic markup). In the corpus, it was identified that the most used form is the one with dicendi verb, and less used is the one with locutions. It was observed also that genres do not always have the same dicendi verbs in introducing declarations. Although it employed more often verbs and even more basic "neutral" as "afirmar" and "dizer", both genres showed interpretative verbs, which sustain assumptions and allow inferences as "acusar", "negar", "reagir". The results of this research contributes to the broader comprehension about the use of textual declaration as a structuring element of genres news and report and can support the preparation of specific activities that focus on reading and writing production of the genres news and report, which contributes certainly to the practice of this research as a Portuguese teacher and other teachers in the same area that are acting in high school. In future research, it is suggested the preparation of teaching materials that allow students to understand how it is used and the meaning’s effects produced by the use of linguistic-textual and discursive.

KEYWORDS: Discursive genre. News. Report. Textual declaration. Reading.

2. INTRODUÇÃO

Os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN – (BRASIL, 2000) propõem que o ensino de Língua Portuguesa na escola considere a linguagem em sua dimensão sócio-histórica. Tal concepção, sabe-se, envolve diretamente o trabalho com os gêneros discursivos, no sentido construído por Bakhtin (1992). Nesse contexto, a linguagem, tanto falada como escrita, é considerada um fenômeno heterogêneo e dinâmico, o qual é estruturado em diferentes níveis. Estes, enumerados conforme sua complexidade, são os seguintes: fonológico, morfológico, sintático, semântico, pragmático e discursivo. Nas palavras de Marcuschi (1996, p. 71-72),

a língua não é sequer uma estrutura; ela é estruturada simultaneamente em vários planos, seja o fonológico, sintático, semântico e cognitivo no processo de enunciação. A língua é um fenômeno cultural, histórico, social e cognitivo que varia ao longo do tempo e de acordo com os falantes: ela se manifesta no uso e é sensível ao uso.

Dada essa complexidade da língua, a produção textual escrita de um gênero discursivo, segundo Lopes-Rossi (2012, p. 233), requer vários níveis de conhecimentos, sendo eles, pela ordem de importância, sobre:

aspectos sociocomunicativos do gênero; elementos composicionais verbais e não-verbais; movimentos retóricos do gênero ([o tipo de conteúdo esperado em cada etapa do desenvolvimento do gênero,] se houver um padrão estável no gênero a ser produzido); aspectos de organização textual (frases, parágrafos, elementos de coesão), aspectos gramaticais (pontuação, concordância nominal e verbal, crase, regência nominal e verbal).

Desse modo, vale observar que o ensino compromissado com o efetivo desenvolvimento da competência linguística escrita precisa abordar todo esse conjunto de conhecimentos nas aulas de Língua Portuguesa. Dependendo do gênero discursivo a ser produzido, um ou outro nível de conhecimento pode mostrar-se mais complexo para os alunos e exigir explicações e exercícios específicos para seu domínio.

Dentre os gêneros discursivos que apresentam ampla circulação na sociedade, encontram-se os de caráter literário, científico, publicístico, jornalístico. A presente pesquisa detém-se nos de caráter jornalístico, particularmente a notícia e a reportagem, visto que eles integram os currículos do Ensino Básico e Médio, são solicitados em grande parte dos vestibulares brasileiros, bem como recomendados pelos PCN (BRASIL, 2000).

Por meio da experiência profissional deste pesquisador como corretor de redações de um colégio particular do Estado de São Paulo, observaram-se, nos textos produzidos pelos alunos, algumas inadequações relativas aos diferentes níveis de produção de sentido expostos anteriormente. Não que se ignorem a existência de outros níveis e as dificuldades apresentadas neles; todavia, como foi detectada uma dificuldade maior em um dos níveis – o que justifica explicações específicas –, elegeram-se como problema motivador desta pesquisa duas inadequações de caráter especificamente linguístico-textual cometidas pelos alunos, quando da produção escrita dos gêneros discursivos notícia e reportagem.

A primeira inadequação diz respeito ao emprego da locução adverbial segundo, cujo uso adequado parece não ser compreendido por muitos alunos, como indicam os seguintes exemplos: i) “Segundo Roberto, amigo e funcionário da mesma obra, diz que Fernando era um grande trabalhador; ii) “Segundo um amigo que também trabalhava na construção diz que ele aparentava estar bem”. Já a segunda, também observada nos textos produzidos pelos alunos, é referente à repetição excessiva do mesmo verbo dicendi (ou declarativo), sem variação. Ademais, constatou-se, nos materiais didáticos utilizados pela escola, a ausência de exercícios que tivessem como alvo essas dificuldades, fato que, também, motivou a realização da pesquisa, na medida em que os possíveis resultados desta podem subsidiar a criação de material didático específico sobre o tópico em questão.

Diante desse problema, este estudo delimita-se a alguns aspectos linguístico-textuais e, em certa medida, discursivos dos gêneros notícia e reportagem que podem trazer dificuldades de leitura (e de produção escrita) a alunos do Ensino Médio. Mais especificamente, a pesquisa enfoca as diferentes formas de inserção de uma declaração textual obtida pelo repórter a partir de uma fonte de informação.

O objetivo geral desta pesquisa é o de contribuir para a compreensão mais detalhada sobre o uso do recurso da declaração textual1 em notícias e reportagens. Especificamente, objetiva-se fazer: i) um levantamento das diferentes formas de apresentação da declaração textual em notícias e reportagens publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e ii) comentários sobre aspectos discursivos referentes às formas linguísticas utilizadas para relatar as declarações das fontes de informação.

Desse modo, as perguntas que orientam esta pesquisa são as seguintes: de quais maneiras os repórteres dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo apresentam o recurso da declaração textual e quais as principais características discursivas das escolhas empreendidas pelos repórteres?

A pesquisa justifica-se como uma contribuição para o trabalho deste pesquisador, também professor de Língua Portuguesa. Seus resultados podem beneficiar, também, outros professores da mesma área que atuem no Ensino Médio e que estejam trabalhando com seus alunos a leitura e a produção escrita de textos noticiosos.

A metodologia empregada tem caráter qualitativo. Em primeiro lugar, descreve-se o corpus de pesquisa, composto de textos publicados nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo em uma semana do mês de abril do ano de 2014, compreendendo dez textos de cada jornal – cinco notícias e cinco reportagens. Em seguida, procede-se à identificação e análise das formas de declaração textual presentes no corpus, com base na fundamentação teórica, bem como comentam-se alguns aspectos discursivos.

A fundamentação teórica está baseada em estudos da área da Comunicação Social sobre os gêneros jornalísticos notícia e reportagem e em alguns estudos linguísticos sobre os modos de citação das declarações das fontes jornalísticas. Dessa forma, colaboram na fundamentação da pesquisa os manuais de redação de jornais e de revistas de grande circulação, quais sejam: o Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013); o Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo (MARTINS FILHO, 1997); o Manual de redação e estilo do jornal O Globo (GARCIA, 1992); o Manual de Estilo Editora Abril: como escrever bem para nossas revistas (EDITORA ABRIL, 1990); e os estudos de Maingueneau (2001), Charaudeau (2006) e Marcuschi (2007).

No que diz respeito à organização, a pesquisa está dividida em dois capítulos. No primeiro capítulo, expõem-se: i) a fundamentação teórica sobre os gêneros discursivos notícia e reportagem; ii) o recurso da declaração textual, sua relação com as fontes de informação e sua importância na redação jornalística, tendo como principal base teórica os manuais de redação; bem como iii) alguns aspectos discursivos da declaração textual no texto jornalístico, com base em estudos linguísticos de Maingueneau, Charaudeau e Marcuschi. No segundo capítulo, descreve-se o corpus de pesquisa e procede-se à sua análise. Em seguida, expõem-se as conclusões, e encerra-se a pesquisa com a apresentação das referências do material consultado.

3. CAPÍTULO 1

4. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Neste capítulo, apresenta-se a fundamentação teórica sobre notícia e reportagem e expõem-se o recurso da declaração textual, sua relação com as fontes de informação e sua importância na redação jornalística, tendo como base teórica os seguintes manuais de redação: Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013); o Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo (MARTINS FILHO, 1997); o Manual de redação e estilo do jornal O Globo (GARCIA, 1992); o Manual de estilo Editora Abril: como escrever bem para nossas revistas (EDITORA ABRIL, 1990); e alguns estudos da área da Comunicação Social. Por fim, apresentam-se aspectos discursivos das formas de declaração textual no texto jornalístico, com base em estudos linguísticos de Maingueneau (2001), Charaudeau (2006) e Marcuschi (2007).

4.1 O gênero discursivo notícia

Pode-se dizer que, dentre os gêneros jornalísticos, a notícia é o de maior conhecimento por parte do público não especializado. Alves Filho (2011, p. 90) acredita que a “notícia é um dos gêneros aos quais as pessoas estão mais intensamente expostas em sua vida cotidiana porque ela é difundida em inúmeros lugares e suportes”. De fato, a notícia é, consideravelmente, um gênero que se mostra muito presente em diversas esferas dos meios de comunicação, tais como o jornalismo impresso, o radiojornalismo, o telejornalismo e, particularmente no último decênio, o ciberjornalismo.

Há consenso entre jornalistas e pesquisadores da área da Comunicação Social de que o propósito básico do gênero discursivo notícia é o de tornar público um fato (KOTSCHO, 1989; LAGE, 1985; SODRÉ; FERRARI, 1986). Não quaisquer acontecimentos, visto que, como alerta Van Dijk (1998 apud ALVES FILHO, 2011, p. 91), “o fato precisa ser novo, recente e também relevante” (grifos do autor). De acordo com Lage (1985, p. 30), a notícia “é o relato de deslocamentos, transformações ou enunciações observáveis no mundo e consideradas de interesse para o público”. Segundo o mesmo autor (LAGE, 1985, p. 19), o gênero em questão consiste no “relato de um fenômeno social, presumivelmente de interesse coletivo ou de um grupo expressivo de pessoas”.

Para noticiar, não basta que o repórter conte os acontecimentos na ordem em que ocorreram – o que seria mais próprio dos gêneros em que prevalece a narração; é preciso que ele relate os fatos (LUSTOSA, 1996) e exponha os acontecimentos (LAGE, 1985), do mais importante para o menos importante, formando uma pirâmide invertida. O método justifica-se, pois, conforme orienta Castro (1991, p. 20), o repórter deve “concentrar todos os esforços na criação de uma abertura que atraia o leitor”. Ainda segundo esse autor, se “não pegamos o leitor na abertura, não pegamos mais”.

Nesse contexto, sobretudo o título de uma notícia precisa, obviamente, ser informativo e atraente o suficiente para fazer com que o leitor queira ler a matéria na íntegra. O Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo (MARTINS FILHO, 1997) recomenda o uso de verbos no título, a fim de deixá-lo mais impactante e expressivo. O mesmo manual sugere, ainda, que esses verbos apresentem-se no presente do indicativo, para dar maior força ao título (MARTINS FILHO, 1997). Um exemplo de título de notícia do corpus desta pesquisa, com essas características, é:

Estudantes acampados pedem mediação da ONU na crise (O Estado de S. Paulo, 07 abr. 2014) [grifo deste pesquisador].

Tendo o leitor se interessado pelo título da notícia, há outro recurso também empregado pelos redatores com vista ao envolvimento e à persuasão do leitor: o lead, do que se passa a tratar.

Tributário da noção de pirâmide invertida, o lead (do inglês to lead, que significa orientar, conduzir) foi introduzido pelo jornalismo norte-americano no decênio de 1950 e adotado no Brasil no mesmo período (LUSTOSA, 1996). Por meio desse recurso, o repórter procura responder, no primeiro parágrafo, de maneira breve, às seguintes questões: quem? fez o quê?, quando?, onde? como? e por quê? Estas são as seis questões básicas a serem respondidas pela notícia, reconhecidas pela maioria dos teóricos da área (cf. CASTRO, 1991; LUSTOSA, 1996; SODRÉ; FERRARI, 1986). A elas, Lage (1985) acrescenta outras duas: a quem? e para quê? Nas palavras do autor, o lead “é o relato do fato principal de uma série, o que é mais importante ou mais interessante” (p. 27); em sentido aristotélico, trata-se de uma proposição completa, na medida em que apresenta: o sujeito, o predicado e as circunstâncias. De maneira sintética, Castro (1991, p. 21) alerta que a “fórmula do ‘lead’ é bastante flexível, exceto num aspecto: é imprescindível deixar claro – e rapidamente – o que aconteceu”. Por sua vez, Lustosa (1996, p. 79) explana que, além do lead, a fórmula de 1950 para a produção de uma notícia eficiente incluía algumas outras exigências, as quais ainda perduram, a saber: “o máximo de clareza possível e a ordem direta, com sujeito, predicado e objeto, adotando-se a ordem indireta apenas quando não houver outras possibilidades”.

Um exemplo de um excerto de notícia do corpus desta pesquisa, com essas características, é:

Universitários de várias partes da Venezuela se mantêm em vigília há 14 dias na frente do prédio da ONU em Caracas. Ocupam a calçada diante do edifício e uma das pistas da Avenida Francisco de Miranda com mais de cem barracas e uma estrutura para atender os manifestantes. Opositores ao governo de Nicolás Maduro, os estudantes pedem envolvimento das Nações Unidas na crise (O Estado de S. Paulo, 07 abr. 2014).

No exemplo anterior, é possível encontrar respostas a todas as seis questões básicas, como se demonstra a seguir:

  • Quem? Universitários de várias partes da Venezuela;

  • o quê? se mantêm em vigília;

  • quando? há 14 dias;

  • onde? na frente do prédio da ONU em Caracas;

  • como? Ocupam a calçada diante do edifício e uma das pistas da Avenida Francisco de Miranda com mais de cem barracas e uma estrutura para atender os manifestantes;

  • por quê? Opositores ao governo de Nicolás Maduro, os estudantes pedem envolvimento das Nações Unidas na crise.

Dado que a notícia não consiste no fato em sua essência, mas, sim, em seu relato, ela não pode ser puramente objetiva. O Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013, p. 47) adverte, categoricamente: “Não existe objetividade em jornalismo”. A notícia, assim como todo gênero discursivo, está sujeita a crenças, valores, posições pessoais do repórter que a redigiu. Sendo a “versão de um fenômeno social” (LUSTOSA, 1996, p. 21), a notícia apresenta uma realidade sempre fragmentada, uma vez que transcreve somente parte de determinado fenômeno social e impõe uma visão pessoal do redator. Seu universo é o das aparências do mundo (LAGE, 1985).

O fato de a objetividade ser impossível em matéria de jornalismo não exime, porém, o repórter da obrigação de produzir um texto o mais objetivo e imparcial possível (FOLHA DE S.PAULO, 2013). Segundo o mesmo manual, para “relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse” (p. 47). Trata-se de uma questão retórica: como a função da linguagem dominante na notícia é a referencial2, a ênfase dá-se na mensagem, na própria informação a ser transmitida.

Sendo construção retórica referencial, a notícia trata das aparências do mundo. Conceitos que expressam subjetividade estão excluídos: não é notícia o que alguém pensou, imaginou, concebeu, sonhou, mas o que alguém disse, propôs, relatou ou confessou. É também axiomática, isto é, se afirma como verdadeira: não argumenta, não constrói silogismos, não conclui nem sustenta hipóteses. O que não é verdade, numa notícia, é fraude ou erro (LAGE, 1985, p. 25) [grifo do autor].

Na seção a seguir, expõem-se as principais características do gênero discursivo reportagem e, assim, fica estabelecida a diferença entre esse gênero discursivo e o gênero notícia.

4.2 O gênero discursivo reportagem

A reportagem não é um gênero fácil de ser definido. De um lado, há teóricos da comunicação social que a consideram uma notícia ampliada; de outro, há os que acreditam que ela seja um gênero autônomo. Diante disso, parece um caminho válido definir a reportagem por oposição ao gênero discursivo notícia.

Reportagem: “Gênero jornalístico que consiste no levantamento de assuntos para contar uma história verdadeira, expor uma situação ou interpretar fatos”; assim a define Lage (1985, p. 61). Desse modo, enquanto a notícia limita-se à cobertura de fatos, a reportagem cuida “do levantamento de um assunto conforme ângulo preestabelecido” (LAGE, 1985, p.46) [grifo do autor]. Em outro texto, o autor afirma: “a reportagem aborda um assunto em visão jornalística” (LAGE, 2012p. 39). Como não se depende necessariamente de acontecimentos, Lage (1985, p. 47) alerta que, na reportagem, “os assuntos estão sempre disponíveis, podendo ou não serem atualizados por um acontecimento”.

Noticia-se que um governo foi deposto; fazem-se reportagens sobre a crise político-institucional, econômica, social, sobre a reconfiguração das relações internacionais determinada pela substituição do governante, sobre a conspiração que levou ao golpe, sobre um ou vários personagens envolvidos no episódio etc. (LAGE, 1985, p. 46-47).

Transcreve-se a seguir outro exemplo do mesmo autor, fornecido em outro momento (LAGE, 2012, p. 39-40).

Um desastre aéreo, em termos de cobertura noticiosa, pode gerar, nos dias seguintes, o acompanhamento da remoção dos destroços, da recuperação dos sobreviventes (se houver), do sepultamento dos mortos e do inquérito sobre as causas. Em termos de reportagem, motiva textos sobre a segurança dos vôos, indústria aeronáutica, serviços de salvamento, operação de aeroportos, atendimento médico de emergência [...]. São, como se vê, coisas distintas.

Para Sodré e Ferrari (1986), o que caracteriza a reportagem é o tratamento narrativo; segundo eles, “será sempre necessário que a narrativa (ainda que de forma variada) esteja presente numa reportagem. Ou não será reportagem” (p. 15). Ademais, a reportagem investiga e interpreta (LAGE, 2012). Ou seja, ela aprofunda o fato, busca antecedentes e implicações de determinado acontecimento, bem como procura fazer com que o leitor sinta-se inserido no contexto, “o repórter cumprindo sua função primeira: colocar-se no lugar das pessoas que não podem estar lá, e contar o que viu como se estivesse escrevendo uma carta a um amigo” (KOTSCHO, 1989, p. 16).

De acordo com Kindermann (2013, p. 44), “a reportagem parte da notícia, desenvolvendo uma seqüência investigativa. Apura as origens do fato, razões e efeitos”. Em outras palavras, enquanto a notícia tem como objetivo tornar público um fato, a reportagem pretende oferecer detalhamento e contextualização ao que já foi enunciado (SODRÉ; FERRARI, 1986). Marques de Melo (2006 apud COSTA, 2010) argumenta no mesmo sentido, ao opor a notícia – “Relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social” (p. 55) – à reportagem, que, para ele, consiste no

Relato ampliado de acontecimento que produziu impacto no organismo social (desdobramentos, antecedentes ou ingredientes noticiosos). Trata-se do aprofundamento dos fatos de maior interesse público que exigem descrições do repórter sobre o ‘modo’, o ‘lugar’ e ‘tempo’, além da captação das versões dos agentes (p. 55).

No que diz respeito à organização, a reportagem apresenta um estilo menos rigoroso do que o da notícia; segundo Lage (1985), ela sofre variações dependendo do veículo, do público e do assunto. De acordo com o mesmo autor, o repórter pode, por exemplo, expor as informações, considerando a ordem decrescente de importância, ou, se preferir, narrá-las, contando a história, como se estivesse a escrever um conto ou uma crônica. De maneira análoga, Bahia (1990 apud KINDERMANN, 2003) elenca três formas de se organizar uma reportagem: i) em pirâmide; ii) em ordem cronológica – narração sequencial; e iii) em clímax ou remate incisivo, que consiste na combinação das formas anteriores. Nesta, é “dado ao primeiro parágrafo o ângulo mais dramático e depois segue a cronologia” (KINDERMANN, 2003, p. 39).

Em termos de classificação tipológica e estilística, Sodré e Ferrari (1986) apontam quatro modelos fundamentais de reportagem: i) a reportagem de fatos; ii) a de ação; iii) a documental; e iv) o perfil. Isso evidencia que as reportagens não são exclusivamente narrativas e baseadas em fatos; elas podem assumir caráter dissertativo-expositivo e abordar temas considerados de interesse coletivo.

A primeira apresenta os fatos por meio de um relato (que se pretende) objetivo e obedece, na redação, à forma da pirâmide invertida.

Já a segunda, por ser de ação, consiste no “relato mais ou menos movimentado” (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 52), o qual inicia sempre pelo fato mais importante e vai descendo aos poucos na apresentação dos detalhes. A reportagem de ação é também aquela em que o repórter, geralmente na condição de acompanhante de um determinado grupo de pessoas, participa dos fatos e vivencia determinadas situações (SODRÉ; FERRARI, 1986), chegando mesmo a narrar em primeira pessoa. Embora isso seja mais comum em telejornalismo, também é possível no jornalismo impresso. Para os autores, “o importante, nessas reportagens, é o desenrolar dos acontecimentos de maneira enunciante, próxima ao leitor, que fica envolvido com a visualização das cenas” (p. 52).

Por sua vez, a reportagem documental procura expor, de maneira objetiva, um tema de interesse para determinado público-alvo. Ela é dissertativo-expositiva, aproximando-se da pesquisa, e, às vezes, tem caráter denunciante. Nela, a ênfase não está em um fato, mas, sim, em um tema, que pode ter sido motivado tanto por um fato específico como por preocupações de uma determinada época. Ainda segundo Sodré e Ferrari (1986, p. 64), a reportagem documental, “na maioria dos casos, apoiada em dados que lhe conferem fundamentação, adquire cunho pedagógico e se pronuncia a respeito do tema em questão”. Ademais, ela apresenta, de forma recorrente, citações que complementam e esclarecem o assunto tratado. Como exemplo de temas geradores de reportagens documentais, podem-se citar: queda de cabelos, dietas alimentares, reciclagem de lixo, maus-tratos aos animais, dentre outros.

Por fim, há também as reportagens chamadas de perfil. Nestas, o enfoque é na pessoa – “seja uma celebridade, seja um tipo popular, mas sempre o focalizado é protagonista de uma história: sua própria vida” (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 126). Ainda sobre o perfil, Sodré e Ferrari (1986) esclarecem que as pessoas retratadas podem apresentar-se, no texto, como: i) personagem-indivíduo (que apresenta alguma peculiaridade que a singulariza); ii) personagem-tipo (que se insere em uma categoria: esportista, milionário, cantor, professor universitário, etc.); ou iii) personagem-caricatura (que se distingue por sua estranheza, seus gestos grotescos e sua tendência acentuada para a exibição).

Na seção seguinte, apresentam-se o recurso da declaração textual, sua relação com as fontes de informação, assim como explicita-se a importância desse recurso no texto jornalístico.

4.3 A declaração textual, sua relação com as fontes de informação e sua importância na redação jornalística

Em se tratando de jornalismo, as declarações textuais estão diretamente relacionadas à existência de fontes de informação que as enunciam. Assim, embora esta pesquisa, como já mencionado, focalize a declaração textual na sua condição de recurso linguístico, justifica-se uma exposição breve a respeito das fontes de informação.

As fontes de informação podem ser de caráter pessoal, institucional e documental, e o grau de confiança que se pode atribuir a cada uma é variável, podendo ser maior ou menor (LAGE, 2012).

Lage (2012) realiza, ainda, mais algumas categorizações e caracterizações no que diz respeito às fontes de informação, o que se expõe a seguir. Segundo ele, elas podem ser: i) oficiais (ligadas a entidades ou instituições), oficiosas (também ligadas a alguma instituição, mas não autorizadas para falar em nome desta) e independentes (desvinculadas de uma relação de poder ou interesse particular); ii) primárias (em que o repórter colhe o essencial para uma matéria, como fatos, versões e números) e secundárias (consultadas para a preparação de uma pauta ou contextualização); iii) de testemunhas (cujo discurso costuma ser marcado pela emotividade e modificado pela perspectiva) e de experts (geralmente procuradas em busca de versões ou interpretações de acontecimentos. Segundo Lage (2012, p. 49), poucas matérias jornalísticas

originam-se integralmente da observação direta. A maioria contém informações fornecidas por instituições ou personagens que testemunham ou participam de eventos de interesse público. São o que se chama de fontes [grifo do autor].

Desse modo, é a partir do contato com as fontes que o repórter coleta informações, as quais, se utilizadas na redação do texto, constituir-se-ão, em matéria de jornalismo, em declarações textuais.

Segundo O Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013), reproduzir declarações textuais “confere credibilidade à informação, dá vivacidade ao texto e ajuda o leitor a conhecer melhor o personagem da notícia” (p. 39). A tendência é que o leitor confie mais na informação, visto que “não é só o repórter que está dizendo aquilo; outra pessoa está confirmando a informação” (MARTINS FILHO, 1997, p. 86). No entanto, o repórter precisa ter sensibilidade e bom senso suficientes para usar o recurso de forma equilibrada, nem de mais nem de menos, reservando-o para informações de grande impacto (FOLHA DE S.PAULO, 2013; MARTINS FILHO, 1997). Para Martins Filho (1997), a inserção de uma declaração textual a cada um ou dois parágrafos do texto é o ideal.

Ainda de acordo com O Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013), informações de caráter universal não devem ser atribuídas a ninguém, mas, sim, assumidas pelo próprio repórter; por exemplo, escreve-se “A água ferve a 100ºC”, e não “’A água ferve a 100ºC’, informou o químico”.

Outro fator importante no uso da declaração textual é a fidelidade ao que foi enunciado. Na transcrição de declarações (como em qualquer espécie de transcrição), “é fundamental respeitar o contexto e a intenção de quem falou” (GARCIA, 1992). De modo análogo, instrui o Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013, p. 40): “Para facilitar a leitura, pode-se suprimir trecho ou alterar a ordem do que foi dito – desde que respeitado o conteúdo”. Deve-se, ainda, adaptar as declarações às normas gramaticais, acertar as concordâncias, eliminar as repetições muito frequentes e contornar os vícios de linguagem (a não ser que haja alguma razão para manter o texto literalmente). Essas adaptações não devem, porém, fazer com que a declaração assuma caráter artificial em relação à fonte que a enunciou (MARTINS FILHO, 1997, p. 87).

Para indicar as declarações textuais, usam-se travessões e, sobretudo, aspas, como indicam o Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo (MARTINS FILHO, 1997) e o Manual de redação e estilo do jornal O Globo (GARCIA, 1992). O Manual da Redação: Folha de S.Paulo (FOLHA DE S.PAULO, 2013), por sua vez, considera apenas o uso de aspas, não aceitando o uso de travessões mesmo em diálogos.

Há verbos que têm como função indicar a introdução ou a proveniência de uma declaração textual: são os verbos dicendi (ou declarativos). Dentre eles, o mais empregado é o verbo “dizer”; por ser mais neutro, simples e direto, costuma ser o mais adequado na maior parte das situações. No entanto, seu uso constante pode deixar o texto frio e monótono (EDITORA ABRIL, 1990). Para Coimbra (1993, p. 79), no jornalismo,

verbos dicendi comuns são, entre outros, afirmar, dizer, declarar, destacar, frisar, ressaltar. Estes verbos nem sempre aparecem antes de declarações breves. Às vezes aparecem, no texto, no meio da declaração, às vezes no final, às vezes nem sequer aparecem explícitos, ficando apenas subentendidos.

Além desses apresentados pelo autor, outros verbos dicendi empregados com certa frequência são: acentuar, admitir, argumentar, garantir, informar, lembrar.

O Manual de Estilo Editora Abril: como escrever bem para nossas revistas (EDITORA ABRIL, 1990) chama a atenção para a importância dos verbos dicendi, esclarecendo que os trocar de forma indistinta pode levar à distorção, ou mesmo inversão, do sentido da declaração. Como se sabe, os verbos supracitados não são sinônimos perfeitos. “Cada um tem uma nuance que o diferencia dos outros” (COIMBRA, 1993, p. 79). Por exemplo: “’sou inocente’, disse” é muito diferente, semântica e pragmaticamente, de “’sou inocente’, alegou”. O mesmo manual indica também que, em declarações com mais de uma frase, a fonte deve ser identificada logo após a primeira frase e não ao final da última. Em casos assim, é pertinente dispensar o segundo verbo dicendi, por ser, quase sempre, redundante.

Transcreve-se a seguir exemplo de um excerto de reportagem do corpus desta pesquisa, com essas características:

A única ambulância está parada por falta de peças de reposição. “Dependendo das condições, as parturientes são transferidas”, afirmou Olga. “Aqui, estamos tecnicamente fechados” (O Estado de S. Paulo, 06 abr. 2014) [grifo deste pesquisador].

Outra consideração importante levantada pelos manuais (GARCIA, 1992; MARTINS FILHO, 1997; FOLHA DE S.PAULO, 2013) alerta sobre a mudança do sujeito da oração, que o emprego de aspas, de forma descuidada, pode produzir, transformando o discurso indireto em direto. Martins Filho (1997) ilustra o problema da seguinte maneira: “O prefeito garantiu que ‘eu não permitirei esse descalabro’”. O sujeito estava em terceira pessoa (garantiu), mas passou para a primeira (permitirei), o que quebra o ritmo e a estrutura do texto. O correto seria: “’Não permitirei esse descalabro’, garantiu o prefeito”, ou “O prefeito garantiu: ‘Não permitirei esse descalabro’”, ou ainda “O prefeito garantiu que não permitirá ‘esse descalabro’”.

Na seção que segue, apresentam-se alguns aspectos discursivos que incidem na produção da notícia e da reportagem, com base em Maingueneau (2001), Charaudeau (2006) e Marcuschi (2007).

4.4 Aspectos discursivos das formas de declaração textual no texto jornalístico

Em sua condição de gênero discursivo, a notícia está inserida em um domínio do espaço público, qual seja a práxis do jornalismo. Falar em notícia é falar, então, em um “conjunto de informações que se relaciona a um mesmo espaço temático, tendo um caráter de novidade, proveniente de uma determinada fonte e podendo ser diversamente tratado” (CHARAUDEAU, 2006, p. 132) [grifos do autor].

O discurso de informação midiático apresenta duas características essenciais: a efemeridade e a a-historicidade. Nesse contexto, é tarefa das mídias cuidar de acontecimentos que se situam numa cotemporalidade3 enunciativa; em outros termos, elas devem tentar aproximar ao máximo os dois extremos da cadeia temporal: o instante do surgimento do acontecimento – passando pela produção midiática e saída do produto midiático – ao instante do consumo da notícia (CHARAUDEAU, 2006). Caracterizam, portanto, o discurso midiático a busca da atualidade e a obsessão pelo presente. Ademais, como cabe às mídias reportar acontecimentos que ocorreram em locais próximos ou distantes daquele em que se encontra a instância de recepção – o que as levam a manter uma rede de colaboradores pelo mundo (correspondentes) e a apelar para todo tipo de testemunhas –, a instância de recepção é levada a crer que está “investida de um dom de ubiqüidade” (p. 135).

Sabe-se que acontecimento não é sinônimo de notícia. Aquele está no plano da realidade empírica, enquanto esta é construída a partir do filtro de um ponto de vista particular, sendo, pois, um objeto que é dado como um fragmento do real (CHARAUDEAU, 2006). Para Charaudeau (2006, p. 132), “o acontecimento só se torna notícia a partir do momento em que é levado ao conhecimento de alguém”. Diante disso, nem todo ocorrido torna-se notícia (ou reportagem), visto que os acontecimentos que se produzem no mundo são em número bem superior ao dos tratados pela mídia (CHARAUDEAU, 2006).

No que diz respeito ao modo de aparição do acontecimento, Charaudeau (2006) elenca três possibilidades: i) o acontecimento surge, com um caráter inesperado, visto que não foi previsto pelas expectativas da vida social, consistindo, pois, num acontecimento-acidente, como, por exemplo, as catástrofes naturais; ii) o acontecimento é programado devido à existência de um calendário que indica o desenvolvimento da vida social, como, por exemplo, os campeonatos esportivos e as manifestações culturais; iii) o acontecimento é suscitado, preparado e provocado por determinado setor institucional – como o poder político – que pressiona as mídias estrategicamente, o que consiste numa manipulação da origem do acontecimento e põe as mídias numa posição embaraçosa.

Ao selecionar os acontecimentos a serem noticiados, as mídias operam um recorte do espaço público (CHARAUDEAU, 2006). Um importante critério de seleção é o potencial de saliência do acontecimento, “que reside ora no notável, no inesperado, ora na desordem” (p. 141). Isso leva o autor a chamar a atenção para uma contradição apresentada pelas mídias: se elas noticiam o incomum e o extraordinário, estariam descartados de seu recorte os acontecimentos regulares e ordinários do cotidiano social? “Daí a incapacidade das mídias em tratar da outra face do dia-a-dia” (p. 142).

A estruturação do espaço social pelas mídias manifesta-se na criação de domínios de atividade. Estes, segundo Charaudeau (2006, p. 143), “refletem a maneira pela qual cada grupo social representa o conjunto de atividades realizadas por seus membros”. Para o autor, há três domínios de atividade, a saber: i) o domínio da atividade política (no qual se encontram aqueles que participam da cena do poder político); ii) o domínio da atividade cidadã (no qual estão os que participam da cena da vida social, como, por exemplo, manifestantes e grevistas); e iii) o domínio da atividade civil cotidiana (no qual se situam “aqueles que participam da vida social como atores-testemunhas de seu próprio cotidiano, ordinário ou extraordinário, e tendo passado pela experiência de heróis ou vítimas” (CHARAUDEAU, 2006, p. 144). Estes últimos são pouco colocados em cena pelas mídias.

Como a instância midiática não pode, evidentemente, inventar as notícias, ela deve fazer uso de fontes externas ou internas ao organismo de informação. De acordo com Charaudeau (2006), cabe, pois, à instância de produção as seguintes responsabilidades: “obter os meios de aceder a um máximo de fontes possíveis, verificá-las e apresentá-las” (p. 148). Quanto à forma de identificação da fonte, Charaudeau (2006) apresenta duas categorias: o modo de denominação e a modalidade de enunciação. No primeiro caso, identifica-se por meio do nome – seja de uma pessoa, seja de uma instituição –, podendo este vir ou não acompanhado de pronomes de tratamento, assim como do título ou função da pessoa. Já no outro caso, a identificação pode dar-se: por meio de verbos declarativos (de modalidade, para o autor), como, por exemplo, “anuncia”, “declara”, “diz”; por meio de locuções, como “conforme”, “de acordo com”, “segundo”; e pelo uso do condicional, o que indica uma distância em relação ao valor de verdade da declaração.

Na perspectiva de Authier-Revuz (1982 apud BRANDÃO, 2012), o discurso relatado é constitutivamente heterogêneo na medida em que nele o sujeito (no caso, aquele que relata) incorpora o discurso do outro. Nas palavras de Brandão (2012, p. 60), retomando Authier-Revuz (1982):

  • no discurso indireto, o locutor, colocando-se enquanto tradutor, usa de suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte do ‘sentido’;

  • no discurso direto, o locutor, colocando-se como ‘porta-voz’, recorta as palavras do outro e cita-as.

Maingueneau (2001) analisa as formas de discurso direto inserido no jornalismo como estratégias discursivas do repórter para marcar o que é de responsabilidade sua e o que é de responsabilidade da fonte. Para o autor, em geral, “o indivíduo que fala e se manifesta como ‘eu’ no enunciado é também aquele que se responsabiliza por esse enunciado” (p. 137) [grifos do autor]. Tal asserção mostra a importância de distinguir o discurso citante (do repórter) do discurso citado (da fonte), o que pode ser feito por meio do emprego de modalizadores. Maingueneau (2001) denomina essa estratégia de modalização em discurso segundo.

O emprego do discurso direto para marcar declaração de fonte de informação trata-se de uma encenação que contribui para a criação de um efeito de autenticidade, distanciamento, objetividade e seriedade (MAINGUENEAU, 2001). O autor esclarece que a frequente escolha do discurso direto pelos repórteres para desempenhar essa função deve-se a categorias próprias do gênero discursivo e ao propósito comunicativo de cada texto.

A declaração textual entre aspas apresenta-se como as palavras exatas que foram ditas pela fonte; no entanto, há todo um contexto (entonação, gestos, etc.) que não pode estar presente no enunciado citado. Desse modo, o discurso direto não pode ser objetivo: “por mais que seja fiel, o discurso direto é sempre apenas um fragmento de texto submetido ao enunciador do discurso citante, que dispõe de múltiplos meios para lhe dar um enfoque pessoal” (MAINGUENEAU, 2001, p. 141).

Segundo Maingueneau (2001), o discurso citante deve, em relação ao leitor, satisfazer a duas exigências: i) indicar que houve um ato de fala; ii) marcar a fronteira que o separa do discurso citado. Recursos tipográficos, como aspas, dois pontos, itálico e travessões, podem ser usados para delimitar a declaração textual citada (MAINGUENEAU, 2001). Ainda de acordo com Maingueneau (2001), em relação à primeira exigência, o ato de fala pode apresentar-se por meio dos seguintes recursos: i) emprego de verbos introdutores (os verbos declarativos); ii) emprego de grupos preposicionais (as locuções); e iii) ausência de introdutor explícito (marca apenas tipográfica).

Marcuschi (2007), por sua vez, também chama a atenção para a não neutralidade na reprodução de declarações textuais operada pelos repórteres. Para o autor, como estes procedem a uma nova seleção de termos e a uma nova construção sintática, não está nunca excluída “a possibilidade de distorção ou interferência no discurso relatado” (p. 146). Ademais, não há informação esvaziada de ideologia; Marcuschi (2007) esclarece que toda “informação é fruto de uma certa compreensão do fenômeno apresentado. E esta compreensão funda-se nas estruturas sócio-político-culturais daquele que informa” (p.146) [grifo do autor].

Nesse sentido, relatar ou citar o pensamento de alguém implica certa tomada de posição diante do exposto (MARCUSCHI, 2007), o que remete à parcialidade. Para o autor, esta “se dá na introdução do discurso alheio, seja como interpretação, seleção ou avaliação” (p. 146). Em outros termos, ao introduzir uma declaração textual o repórter interpreta o dito por meio da inserção de determinado verbo dicendi (ou declarativo), seleciona o que deve ou não ser relatado, procede a recortes, o que denota uma avaliação. Portanto, é praticamente impossível informar neutramente. A informação, no caso da declaração informada, é sempre a apresentação de um discurso interpretado (MARCUSCHI, 2007).

Para Marcuschi (2007), as formas linguísticas mais frequentes no relato de declarações (ou opiniões, no entendimento do autor) são as seguintes: i) mediante a introdução de um verbo; ii) mediante a produção de uma nominalização; iii) mediante o emprego de construções adverbiais (locuções); e iv) mediante dois pontos ou inserção aspeada no texto. Em relação à primeira forma, o autor acredita que os verbos introdutores de declarações (ou verbos dicendi) funcionam como parafraseantes sintéticos, na medida em que eles “resumem em uma só palavra o sentido geral do discurso a relatar” (MARCUSCHI, 2007, p. 149). Tais verbos indicam uma ação sobre o discurso relatado.

A questão central, no entender de Marcuschi (2007), é a de saber até que ponto é possível relatar a declaração de alguém sem, ao mesmo tempo, interpretá-la de algum modo ou em alguma direção. Nas palavras do autor:

Tudo se resume no seguinte: qual a diferença entre se relatar que alguém “disse” algo ou que alguém “declarou”, “enfatizou”, “confirmou”, “reiterou”, “revelou”, “advertiu”, “contou”, “condenou”, “elogiou”, “confessou”, “achou” isso ou aquilo com seu discurso? A hipótese que tento defender é a de que a ação desses verbos hierarquiza, reforça, discrimina, classifica, etc. os autores das respectivas opiniões relatadas (MARCUSCHI, 2007, p. 158) [grifos do autor].

Além de os verbos marcarem uma ação sobre o discurso relatado, eles cumprem, também, uma função, qual seja a de estruturar a argumentação (MARCUSCHI, 2007). Em termos mais precisos, “estruturar um processo de organização que se dá a partir de um texto (relato) montado a partir de outro texto (opinião)” (MARCUSCHI, 2007, p. 165). De acordo com Marcuschi (2007), ambas as modalidades que caracterizam os verbos introdutores, ação e função, podem coadunar-se, de forma que estes exerçam uma ação direta sobre o sentido do discurso relatado e cumpram “uma função reordenadora do texto dentro da economia jornalística” (p. 166).

É importante reiterar que é muito difícil informar sem manipular, por melhores que sejam as intenções (MARCUSCHI, 2007). Desse modo, é evidente que “as estratégias jornalísticas para relatar opiniões não são uma mera questão de estilo, pois as palavras são instrumentos de ação e não apenas de comunicação” (MARCUSCHI, 2007, p. 168). Para finalizar esta seção, retoma-se Charaudeau (2006), segundo o qual:

O universo da informação midiática é efetivamente um universo construído. [...]. O acontecimento não é jamais transmitido em seu estado bruto, pois, antes de ser transmitido, ele se torna objeto de racionalizações: pelos critérios de seleção dos fatos e dos atores, pela maneira de encerrá-los em categorias de entendimento, pelos modos de visibilidade escolhidos. Assim, a instância midiática impõe ao cidadão uma visão de mundo previamente articulada, sendo que tal visão é apresentada como se fosse a visão natural do mundo (p. 151) [grifos deste pesquisador].

No capítulo seguinte, descreve-se o corpus de pesquisa e, em seguida, procede-se à identificação e análise das formas de declaração textual presentes no corpus, assim como são comentados os principais aspectos discursivos relativos às formas linguísticas empregadas no discurso relatado.

5. CAPÍTULO 2

6. AS FORMAS DE DECLARAÇÃO TEXTUAL NA FOLHA DE S.PAULO E EM O ESTADO DE S. PAULO: DESCRIÇÃO E ANÁLISE DE DADOS

Neste capítulo, apresenta-se o corpus de pesquisa, composto de textos publicados nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, no período que vai do dia 05 ao dia 07 do mês de abril do ano de 2014; o corpus compreende 10 textos de cada jornal – 05 notícias e 05 reportagens. Ainda nesta etapa, procede-se à identificação e análise das formas de declaração textual presente no corpus (10 notícias e 10 reportagens), com base na fundamentação teórica.

Assim, responde-se às perguntas de pesquisa: i) de quais maneiras os repórteres dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo apresentam o recurso da declaração textual e ii) quais as principais características discursivas das escolhas empreendidas pelos repórteres? Ademais, vale observar que tais perguntas correspondem aos objetivos específicos desta pesquisa, quais sejam fazer: i) um levantamento das diferentes formas de apresentação da declaração textual em notícias e reportagens publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e ii) comentários sobre aspectos discursivos referentes às formas linguísticas utilizadas para relatar as declarações das fontes de informação.

6.1 O corpus da pesquisa

Embora a preocupação deste estudo não seja quantitativa, no decorrer desta seção e das próximas deste capítulo serão apresentados alguns quadros, os quais objetivam indicar a dimensão numérica da apresentação de declarações textuais em notícia e reportagens, nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, e, ainda, as formas como essas declarações apresentam-se e seus principais aspectos discursivos. Ressalta-se que os textos que compõem o corpus de pesquisa foram escolhidos aleatoriamente em relação ao plano conteudístico e temático; o único requisito considerado para a seleção dos textos é o fato de estes terem apresentado ao menos uma declaração textual.

Os Quadros 1 e 2 quantificam as declarações textuais apresentadas em ambos os gêneros e fornecem exemplos.

Quadro 1: Quantidade de declarações textuais apresentadas nas notícias e reportagens do jornal Folha de S.Paulo

Declarações textuais na Folha de S.Paulo

Gênero

Quantidade

Exemplo

 

Notícia

 

16

A empresa informou que está “em total conformidade” com as normas de trabalho nacionais e internacionais e “pronta para colaborar com as autoridades”. (05 abr. 2014).

 

Reportagem

 

29

“A juventude demonstrou sua inquietação com os descaminhos da economia e o recrudescimento da inflação. As ruas foram inequívocas na rejeição à corrupção e escancararam a urgente necessidade de profundas mudanças nas instituições e nas práticas políticas”, afirmou. (05 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

Quadro 2: Quantidade de declarações textuais apresentadas nas notícias e reportagens do jornal O Estado de S. Paulo

Declarações textuais em O Estado de S. Paulo

Gênero

Quantidade

Exemplo

 

Notícia

 

15

Marrey acusa o rival de manter em sua equipe “pessoas importantes defendendo claramente um projeto de redução da independência funcional” – prerrogativa que tanto os promotores prezam. (05 abr. 2014).

 

Reportagem

 

29

“Eles chegaram ao complexo fortemente vigiado e estavam à espera do comboio para seguir adiante”, disse o freelancer, que testemunhou o tiroteio. (05 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

Observa-se que tanto a notícia como a reportagem apresentam declarações textuais com significativa frequência, o que justifica a escolha desses gêneros discursivos para esta pesquisa. Conforme explicitado pelos autores citados no Capítulo 1, o emprego desse recurso contribui para a criação de um efeito de autenticidade, distanciamento, objetividade e seriedade (cf. MAINGUENEAU, 2001).

Embora a quantidade de declarações textuais seja bastante semelhante se se compararem as notícias de ambos os jornais e, igualmente, as reportagens, trata-se de uma coincidência, visto que, como já mencionado, os textos foram selecionados de forma aleatória. Ademais, esclarece-se que não é pertinente comparar a quantidade de declarações textuais apresentadas pelos dois gêneros discursivos, visto que a reportagem é, essencialmente, um gênero mais longo do que a notícia – o que, evidentemente, traduz-se na apresentação de um número maior de declarações textuais.

Para esta pesquisa, interessa destacar, a partir dos resultados dos Quadros 1 e 2, a ocorrência das declarações textuais nos dois gêneros discursivos – notícia e reportagem –, em proporções semelhantes nos dois jornais.

6.2 Formas de declaração textual

Com base na fundamentação teórica apresentada no Capítulo 1, foi possível perceber, em relação às formas como as declarações textuais apresentam-se nos textos noticiosos, algumas possibilidades recorrentes na perspectiva de todos os autores consultados (MAINGUENEAU, 2001; CHARAUDEAU, 2006; MARCUSCHI, 2007). Dessas possibilidades, foram criadas quatro categorias que sintetizam as formas possíveis de inserirem-se declarações textuais em uma notícia ou reportagem, as quais seguem:

  • Com o emprego de verbo dicendi;

  • Com o emprego de locuções;

  • Ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo;

  • Ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica).

Feita essa categorização com base na fundamentação teórica, é de interesse desta pesquisa verificar se as quatro formas apresentam-se, e com que frequência, nas notícias e reportagens do corpus.

O Quadro 3, a seguir, expõe as formas de declaração textual apresentadas nas 05 notícias do jornal Folha de S.Paulo.

Quadro 3: Formas de apresentação de declarações textuais em notícias da Folha de S.Paulo

Forma de apresentação

Quantidade

Exemplos

 

 

 

Com o emprego de verbo dicendi (grifados nos exemplos)

11

Até a noite de ontem, a companhia informou não ter recebido “qualquer auto de infração” do Ministério do Trabalho. (05 abr. 2014).

“Se houver 1% de chance de dar problema, preferimos não fazer”, disse Darlan Mendes, um dos organizadores do encontro. (06 abr. 2014).

O líder do PSDB no Senado Federal, Aloysio Nunes Ferreira, acredita que queda da presidente Dilma Rousseff se deve “ao conjunto da obra: Petrobras, inflação que está voltando, falta de correspondência entre os anúncios do governo e a realidade”. (07 abr. 2014).

 

Ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo (grifados nos exemplos)

 

2

Questionado, o ministro negou que o governo tenha desistido de um projeto próprio. “Pode acontecer de apresentar o projeto próprio, mas quero ver se construo consenso previamente.” (05 abr. 2014).

“[O sinal] pode vir de uma série de equipamentos diferentes”, disse o oceanógrafo Simon Boxall. “Nós já vimos erros e exageros nesse caso todo.” (06 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica)

 

2

“Se um governo encaminhar mais um projeto, o que vai acontecer é que nós não vamos conseguir com rapidez ter a aprovação de nada.” (05 abr. 2014).

A vendedora Maria Werneck, 49, também viu pedaços despencarem. “Ninguém sabe quando pode cair mais.” (06 abr. 2014).

Com o emprego de locuções (grifadas nos exemplos)4

 

1

Para o diretor do departamento de infraestrutura do Instituto de Engenharia da USP, Roberto Kochen, “quando há indício [de] anomalia, é mais prudente isolar a área”. (06 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

Por meio do Quadro 3, observa-se que as notícias da Folha de S.Paulo apresentaram todas as quatro formas possíveis de introdução de declaração textual. No entanto, é visível que aparece com muito mais frequência a categoria “com o emprego de verbo dicendi”. Ainda em relação a essa categoria, houve variação dos verbos dicendi empregados, o que se detalha mais à frente, no Quadro 7.

O Quadro 4, por sua vez, expõe as formas de declaração textual apresentadas nas 05 reportagens do jornal Folha de S.Paulo.

Quadro 4: Formas de apresentação de declarações textuais em reportagens da Folha de S.Paulo

Forma de apresentação

Quantidade

Exemplos

Com o emprego de verbo dicendi (grifados nos exemplos)

17

O ex-governador disse que há um “clamor coletivo” por avanço e que o brasileiro que melhorou de vida “não se contenta meramente em sair da linha da pobreza”. (05 abr. 2014).

“Não tenho final de semana, férias. Se você para de fazer vídeo, as pessoas te esquecem”, diz Mederi Corumbá, fundador do Galo Frito, segundo canal com mais inscritos do YouTube Brasil. (06 abr. 2014).

“Ruanda é um vulcão adormecido que pode explodir a qualquer momento. Enquanto a justiça não for feita, o país nunca terá paz”, afirma. (07 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo (grifados nos exemplos)

7

“Acho que Kerry voltará, porque não abandonamos o processo”, afirmou. “Vamos continuar a negociar como combinado, e espero que ao menos uma vez a paciência dos EUA se esgote com Israel, e não com os palestinos.” (05 abr. 2014).

Para Daniel Tártaro, diretor de integração digital da Ogilvy, a popularidade de aparelhos que permitem assistir à internet na sala de TV abre oportunidades ainda maiores. “O consumo de vídeo on-line começa a migrar para a sala de TV, para o momento de lazer em família.” (06 abr. 2014).

Foi aí, aponta o presidente da associação em Cuiabá, Luis Verdu, que muitos empresários falharam. “Pessoas com dinheiro foram fazendo por conta própria. Tememos uma guerra de concorrência.” (06 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica)

4

“Virei celebridade em congressos de educação. Agora quero fazer mestrado em inovação no ensino.” (06 abr. 2014).

“Constato que a história se repete e nunca se faz nada. A cada nova matança, o mundo diz ‘nunca mais’. Será que quer dizer isso mesmo?” (07 abr. 2014).

“Vimos os belgas medirem nossos narizes e dizerem que hutus não eram tão elegantes e inteligentes como tutsis. E fomos nós, ruandeses, que aceitamos pegar machetes e massacrar nossos amigos.” (07 abr. 2014).

Com o emprego de locuções (grifadas nos exemplos)

1

Para Rusesabagina, Kagame, no poder há 14 anos, chefia uma “ditadura sem precedentes”. (07 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

O Quadro 4 revela que também as reportagens da Folha de S.Paulo apresentaram as quatro formas possíveis de introdução das declarações de fonte de informação. Observa-se, novamente, frequência bastante maior, em relação às outras, da categoria referente às declarações textuais introduzidas “com o emprego de verbo dicendi”. Foi observada, também, a variação dos verbos declarativos empregados, o que será comentado mais à frente, no Quadro 8. Ademais, nas reportagens, ao menos no que diz respeito à Folha de S.Paulo, constatou-se um uso mais frequente da categoria “ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo” do que o observado nas notícias do mesmo jornal.

O Quadro 5, na sequência, expõe as formas de declaração textual apresentadas nas 05 notícias do jornal O Estado de S. Paulo.

Quadro 5: Formas de apresentação de declarações textuais em notícias de O Estado de S. Paulo

Forma de apresentação

Quantidade

Exemplos

Com o emprego de verbo dicendi (grifados nos exemplos)

9

“Não há um único projeto que ponha sob ameaça a independência dos promotores, isso é um fantasma que quer esconder a falta de projeto”, reagiu Elias Rosa. (05 abr. 2014).

“Não sei como essas pessoas vão reagir quando virem seus retratos”, disse Bush, em entrevista para a filha Jenna Bush Hager [...]. (05 abr. 2014).

“Não confiamos em todos os líderes políticos da oposição, só nos mais jovens, como Leopoldo López”, afirmou o estudante de música Pedro Jesús Gómez, de 21 anos. (07 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo (grifados nos exemplos)

4

A restauradora Claudia Tavaglieri, do bairro Pirapitingui, diz que a medida funcionou. “Antes, a gente ficava até dez dias sem água e o caminhão-pipa chegava com a escolta, pois o povo atacava. Pelo menos agora, todo mundo recebe água.” (06 abr. 2014).

A dona de casa Maria José da Silva, de 65 anos, do Jardim Oliveira 2, junta a roupa da semana para lavar toda de uma vez. [...]. Como o líquido sai da torneira amarelado, ela tem de comprar água de galão para o consumo e reclama do gasto extra. “São dois galões por semana, o que dá R$ 48 por mês.” (06 abr. 2014).

O chanceler sueco, Carl Bildt, declarou que a integração da península [da Crimeia] ao território russo é inaceitável. “Devemos ser firmes na aplicação da lei internacional.” (06 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica)

2

A torneira do banheiro virou o despertador da comerciante Maria Marlene, de 56 anos, moradora do bairro Cidade Nova, em Itu, na região de Sorocaba. Ela acorda com o barulho da água chegando, por volta das 3h, e corre para abastecer, durante a madrugada […]. […]. “Chegamos a ficar uma semana inteira sem uma gota de água, por isso compramos todos esses recipientes.” (06 abr. 2014).

Seu vizinho, o também comerciante Francisco Rodrigues dos Santos, lucra com a crise, vendendo galões de água potável. “É o que mais vendo, mesmo sem ter água na minha torneira.” (06 abr. 2014).

Com o emprego de locuções

0

---

Fonte: Corpus da pesquisa

Nas notícias de O Estado de S. Paulo, não se apresentaram todas as categorias de introdução de declaração textual, o que está evidenciado no Quadro 5. Como nos dois quadros anteriores, observa-se maior frequência da categoria “com o emprego de verbo dicendi. A variação dos verbos declarativos empregados nessa categoria de declaração será apresentada no Quadro 7.

O último quadro desta seção, referente às formas de declaração textual apresentadas nas 05 reportagens do jornal O Estado de S. Paulo, é apresentado a seguir.

Quadro 6: Formas de apresentação de declarações textuais em reportagens de O Estado de S. Paulo

Forma de apresentação

Quantidade

Exemplos

Com o emprego de verbo dicendi (grifados nos exemplos)

20

“Hoje, depois de dois mandatos, deixo o Palácio do Campo das Princesas pela mesma porta da frente, rumo a novas lutas a que me levam compromissos sociais, históricos e políticos”, disse o agora ex-governador. (05 abr. 2014).

“Não tenho plano de saúde. Vivo da ajuda financeira dos meus seis filhos e do aluguel de quartos da minha casa”, disse. (06 abr. 2014).

“Karzai será a versão afegã de (Vladimir) Putin em sua relação com (Dmitri) Medvedev”, comparou, em referência ao presidente e ao primeiro-ministro da Rússia. (06 abr. 2014).

Ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo (grifados nos exemplos)

7

“Dependendo das condições, as parturientes são transferidas”, afirmou Olga. “Aqui, estamos tecnicamente fechados.” (06 abr. 2014).

Tendo por base a experiência anterior, Kugelman avalia que a data-limite para a definição do futuro das tropas americanas é o mês de outubro. “No Iraque, o presidente (Barack) Obama só abandonou a ideia de manter tropas no país em outubro de 2011, porque ainda não tínhamos um acordo.” (06 abr. 2014).

A atriz Arlete Salles disse que sempre vai lembrar de Wilker “com um sorriso no rosto, jamais angustiado”. “Era apaixonado pelo que fazia, pela vida. Era um homem para se gostar.” (06 abr. 2014).

 

Ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica)

2

“Há um sentimento generalizado de que o País, depois de um período de avanços sociais e econômicos, parou de melhorar”. (05 abr. 2014). [Olho da reportagem].

“O Brasil precisa e quer a união dos brasileiros. E se Pernambuco se uniu, o Brasil também irá se unir”. Eduardo Campos. Ex-governador de Pernambuco e pré-candidato do PSB ao Palácio do Planalto. (05 abr. 2014). [Olho da reportagem].

Com o emprego de locuções

0

---

Fonte: Corpus da pesquisa

No que diz respeito ao Quadro 6, os dados das reportagens de O Estado de S. Paulo são bastante similares aos das reportagens do outro jornal, salvo o fato de aquelas não apresentarem a categoria de introdução de declaração textual “com o emprego de locuções”. Novamente, o número da categoria “com o emprego de verbo dicendi” é bastante elevado em relação ao das outras. Como nos outros casos, houve a variação dos verbos dicendi empregados pelo repórter, o que será detalhado mais à frente, no Quadro 8.

A análise dos dados desta seção responde à primeira parte do objetivo desta pesquisa – qual seja: o levantamento das diferentes formas de apresentação da declaração textual em notícias e reportagens publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado. A segunda parte do objetivo, referente a algumas características discursivas das declarações textuais, é o que se realiza na seção seguinte.

6.3 Principais características discursivas das declarações textuais

Como já mencionado no Capítulo 1, as mídias fazem uso de fontes de informação porque não podem, evidentemente, inventar as notícias (CHARAUDEAU, 2006). Essas fontes concedem declarações, as quais podem ser reproduzidas nos textos mediante o uso do discurso direto. No entanto, conforme explica Maingueneau (2001), o discurso direto é uma encenação que visa a um efeito de autenticidade da declaração da fonte. Nesse contexto, no espaço entre a enunciação da declaração e sua reprodução em texto, o repórter dispõe de variados meios para que a declaração textual, ao se transformar em notícia ou reportagem, impregne-se de um enfoque pessoal (MAINGUENEAU, 2001). Vê-se, portanto, que não existem as supostas neutralidade e objetividade (MARCUSCHI, 2007).

Desse modo, ao relatar a declaração de alguém, o repórter implica-se em certa tomada de posição, que, na introdução do discurso de outrem, pode revelar-se na interpretação, seleção ou avaliação do exposto (MARCUSCHI, 2007), como já visto na fundamentação teórica. Em especial, o verbo dicendi que introduz a declaração textual é uma marca linguística que permite inferências sobre o posicionamento do repórter frente à declaração relatada, o que justifica o interesse desta pesquisa em comentar as escolhas dos verbos dicendi nas notícias e reportagens.

Segue, pois, o levantamento dos verbos apresentados no corpus desta pesquisa. Reitera-se que não é pertinente separar, neste momento, os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, visto que os temas dos textos são diferentes e aleatórios. Para referência aos jornais, utiliza-se FSP, para Folha de S.Paulo, e ESP, para O Estado de S. Paulo. Todos os grifos em negrito são do pesquisador.

O Quadro 7 expõe os verbos dicendi apresentados em 05 notícias dos jornais Folha de S.Paulo e 05 de O Estado de S. Paulo, assim como reproduz o excerto da notícia em que cada verbo apresentou-se.

Quadro 7: Verbos dicendi apresentados em notícias da Folha de S.Paulo e de O Estado de S. Paulo

Verbos

Quantidade

Exemplo

Afirmar

8

“Saí correndo, quase que vou para o beleléu”, afirmou. (FSP, 06 abr. 2014).

Dizer

5

Aécio disse que as pesquisas ainda não refletem um “cenário real de intenção de voto” porque a campanha oficial não teve início. (FSP, 07 abr. 2014).

Informar

2

Até a noite de ontem, a companhia informou não ter recebido “qualquer auto de infração” do Ministério do Trabalho. (FSP, 05 abr. 2014).

Acreditar

1

O líder do PSDB no Senado Federal, Aloysio Nunes Ferreira, acredita que queda da presidente Dilma Rousseff se deve “ao conjunto da obra: Petrobras, inflação que está voltando, falta de correspondência entre os anúncios do governo e a realidade”. (FSP, 07 abr. 2014).

Acusar

1

Marrey acusa o rival de manter em sua equipe “pessoas importantes defendendo claramente um projeto de redução da independência funcional” […]. (ESP, 05 abr. 2014).

Atribuir

1

Aécio atribui a “erros repetidos” do governo a queda da presidente Dilma. (FSP, 07 abr. 2014).

Contar

1

“Na última chuva, os três tomaram banho de chuva”, conta Souza. (ESP, 06 abr. 2014).

Cravar

1

“Temos no ar o cheiro de um projeto autoritário”, cravou o opositor, que foi procurador-geral três vezes (1996/2004) e, depois, serviu ao Executivo [...]. (ESP, 05 abr. 2014).

Declarar

1

O chanceler sueco, Carl Bildt, declarou que a integração da península [da Crimeia] ao território russo é inaceitável. “Devemos ser firmes na aplicação da lei internacional.” (ESP, 06 abr. 2014).

Negar

1

Questionado, o ministro negou que o governo tenha desistido de um projeto próprio. “Pode acontecer de apresentar o projeto próprio, mas quero ver se construo consenso previamente”. (FSP, 05 abr. 2014).

Reagir

1

“Não há um único projeto que ponha sob ameaça a independência dos promotores, isso é um fantasma que quer esconder a falta de projeto”, reagiu Elias Rosa. (ESP, 05 abr. 2014).

Reclamar

1

A dona de casa Maria José da Silva, de 65 anos, do Jardim Oliveira 2, junta a roupa da semana para lavar toda de uma vez. [...]. Como o líquido sai da torneira amarelado, ela tem de comprar água de galão para o consumo e reclama do gasto extra. “São dois galões por semana, o que dá R$ 48 por mês.” (ESP, 06 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

Como se pode perceber pelo quadro anterior, foi constatada, nas notícias de ambos os jornais, uma variação total de 12 verbos introdutores de declaração. No corpus de notícias analisado, os verbos dicendi mais empregados pelos repórteres foram os verbos “afirmar” e “dizer”. Verbos dicendi como “afirmar”, “dizer”, “informar”, “contar” e “declarar” podem ser considerados mais básicos e mesmo “neutros”, no que diz respeito ao posicionamento ou interpretação do repórter em relação à declaração textual inserida.

Já verbos de mesma função como “acreditar”, “atribuir” e “negar” apresentam pressupostos e permitem inferências relativas ao contexto em que foram empregados.

Ao relatar que a fonte acredita em algo, o repórter livra-se da responsabilidade pelo conteúdo da declaração textual, e esta, apresentada não como fato, mas, sim, como opinião puramente pessoal da fonte, torna-se facilmente contestável. Em relação ao verbo “atribuir”, os efeitos de sentido são semelhantes aos produzidos pelo verbo anterior. Como "a negação é sempre polifônica" (ORLANDI, 2012, p. 89), o emprego do verbo dicendi “negar” pressupõe a existência de outro discurso que se opõe ao da fonte, afirmando o que esta nega.

Ainda sobre as notícias do corpus, os verbos dicendi que mais parecem denotar uma interpretação (ou posicionamento) do repórter em relação à declaração relatada são os verbos “acusar”, “cravar”, “reagir” e “reclamar”. É importante reconstruir, ao menos parcialmente, os contextos em que esses verbos foram empregados. Isso será feito, a seguir, por meio da reprodução de excertos das notícias em que os verbos dicendi em questão apresentaram-se. Os grifos em negrito são do pesquisador.

Candidatos a procurador-geral focam

orçamento e independência

Na reta final das eleições do Ministério Público paulista, os dois candidatos ao cargo de procurador-geral de Justiça protagonizaram queda de braço em um ambiente de forte tensão e concentram seus discursos em dois pontos de grande relevância para os promotores: orçamento e independência.

[…]

Marrey acusa o rival de manter em sua equipe “pessoas importantes defendendo claramente um projeto de redução da independência funcional” – prerrogativa que tanto os promotores prezam. “Temos no ar o cheiro de um projeto autoritário”, cravou o opositor, que foi procurador-geral três vezes (1996/2004) e, depois, serviu ao Executivo – Marrey foi secretário dos Negócios Jurídicos da Prefeitura (gestão José Serra), secretário da Justiça no governo Serra e secretário de Governo de Alberto Goldman. “Não há um único projeto que ponha sob ameaça a independência dos promotores, isso é um fantasma que quer esconder a falta de projeto”, reagiu Elias Rosa. (O Estado de S. Paulo 05 abr. 2014).

Os atores presentes na notícia reproduzida representam um grupo social e estão inseridos no domínio da atividade (CHARAUDEAU, 2006) política, domínio esse em que é mais comum a circulação de discursos opostos. Nesse contexto, relatar que um candidato acusa o outro de algo consiste, evidentemente, na interpretação, por parte do repórter, da declaração textual daquele como uma acusação. Ademais, relatar que o candidato acusado cravou uma resposta indica objetividade, austeridade e um discurso de combate, contra o qual o primeiro, dialógica e dialeticamente, reage.

Na sequência, transcreve-se outro excerto de notícia, mediante o qual se comenta o verbo dicendi “reclamar”.

Itu vive há 2 meses com cortes de água

A torneira do banheiro virou o despertador da comerciante Maria Marlene, de 56 anos, moradora do bairro Cidade Nova, em Itu, na região de Sorocaba. Ela acorda com o barulho da água chegando, por volta das 3h, e corre para abastecer, durante a madrugada […]. O bairro é abastecido uma vez a cada dois dias, mas às vezes a água da rua acaba antes de completar o enchimento. “Chegamos a ficar uma semana inteira sem uma gota de água, por isso compramos todos esses recipientes.”

[…]

A dona de casa Maria José da Silva, de 65 anos, do Jardim Oliveira 2, junta a roupa da semana para lavar toda de uma vez. [...]. Como o líquido sai da torneira amarelado, ela tem de comprar água de galão para o consumo e reclama do gasto extra. “São dois galões por semana, o que dá R$ 48 por mês.”

[...]. (O Estado de S. Paulo, 06 abr. 2014).

O contexto da notícia anterior consiste no racionamento de água na cidade de Itu (SP). Dadas as dificuldades que a falta de água produz, sobretudo em relação às donas de casa, pode-se inferir que o repórter interpretou a declaração da fonte como uma reclamação, e não como uma simples afirmação, como o emprego de verbos mais “neutros” indicaria.

O Quadro 8, por sua vez, expõe os verbos dicendi apresentados em 05 reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e 05 de O Estado de S. Paulo, assim como reproduz o excerto da reportagem em que cada verbo foi empregado pelo repórter.

Quadro 8: Verbos dicendi apresentados em reportagens da Folha de S.Paulo e de O Estado de S. Paulo

Verbos

Quantidade

Exemplo

Dizer

24

“Não vai existir o governo João Lyra. Vai ser a conclusão do governo Eduardo Campos”, disse. (FSP, 05 abr. 2014).

Afirmar

8

“Na minha cabeça, devo ter 20 anos de idade. Tenho o mesmo tipo de furor que lembro de ter tido aos cronológicos 20 anos, tenho o mesmo tipo de dúvida, de inquietação, de seguranças e inseguranças”, afirmou o ator em entrevista recente. (ESP, 06 abr. 2014). [Olho da reportagem].

Lembrar

3

Pelo Twitter, o ex-prefeito do Rio César Maia lembrou do tempo em que o ator teve cargo público: “Honrou a prefeitura quando presidente da Rio-Filme (empresa fomentadora de cinema).” (ESP, 06 abr. 2014).

Acrescentar

1

“Há limite para o tempo e o esforço que os EUA podem despender se as próprias partes não estão interessadas em medidas construtivas para seguir adiante”, acrescentou. (FSP, 05 abr. 2014).

Apontar

1

Foi aí, aponta o presidente da associação em Cuiabá, Luis Verdu, que muitos empresários falharam. “Pessoas com dinheiro foram fazendo por conta própria. Tememos uma guerra de concorrência.” (FSP, 06 abr. 2014).

Avaliar

1

Tendo por base a experiência anterior, Kugelman avalia que a data-limite para a definição do futuro das tropas americanas é o mês de outubro. “No Iraque, o presidente (Barack) Obama só abandonou a ideia de manter tropas no país em outubro de 2011, porque ainda não tínhamos um acordo.” (ESP, 06 abr. 2014).

Comentar

1

“Zé morreu. Um grande amigo, uma grande pessoa querida e especial na minha vida. Perdemos um dos bons, inteligência e sensibilidade. Triste demais”, comentou a atriz Paula Braun. (ESP, 06 abr. 2014).

Comparar

1

“Karzai será a versão afegã de (Vladimir) Putin em sua relação com (Dmitri) Medvedev”, comparou, em referência ao presidente e ao primeiro-ministro da Rússia. (ESP, 06 abr. 2014).

Expressar

1

O presidente afegão, Hamid Karzai, expressou “profunda tristeza” pela morte de Anja e os ferimentos de Kathy. (ESP, 05 abr. 2014).

Negar

1

Ele [Rusesabagina] nega se ver como um “Schindler ruandês”: “Sou um homem comum que fez o que deveria ser feito”. (FSP, 07 abr. 2014).

Postar

1

“É com muito pesar que veja a saída de cena fora do combinado do meu amigo e conterrâneo Zé. Se é assim essa vida, vai com Deus e obrigado por tudo”, postou o humorista Tom Cavalcante. (ESP, 06 abr. 2014).

Revelar

1

[…] recentemente, mesmo com cinco décadas de dramaturgia, revelou, numa entrevista: “Eu sou uma pessoa que até hoje não sabe se quer ser ator. Eu tenho crises e falo: ‘Ah, essa coisa não é a minha praia, não quero fazer mais isso’. Na minha cabeça, devo ter 20 anos de idade. Tenho o mesmo tipo de furor que lembro de ter tido aos cronológicos 20 anos, tenho o mesmo tipo de dúvida, de inquietação, de seguranças e inseguranças”. (ESP, 06 abr. 2014).

Fonte: Corpus da pesquisa

Como se pode observar no quadro anterior, apresentou-se, nas reportagens de ambos os jornais, uma variação total de 12 verbos introdutores de declaração, valor esse que coincide com o conjunto de verbos dicendi apresentados nas notícias, conforme Quadro 7. No corpus de reportagens analisado, os verbos dicendi mais empregados pelos repórteres foram – como nas notícias – os verbos “dizer” e “afirmar”. No caso do Quadro 8, verbos dicendi como “dizer”, “afirmar”, “acrescentar” e “comentar” podem ser compreendidos como mais básicos e mesmo “neutros”, no que diz respeito ao posicionamento ou interpretação do repórter em relação à declaração da fonte de informação. Os outros verbos declarativos apresentam pressupostos e permitem inferências relativas ao contexto em que foram empregados.

Relatar que determinada fonte lembrou algo sugere que a lembrança seja um fato, e não uma opinião pessoal da fonte; ademais, lembrar pressupõe um acontecimento passado, algo de que já sabe, mas ao qual se quer remeter. Com o emprego do verbo dicendi “apontar”, o repórter livra-se da responsabilidade pelo conteúdo da declaração textual, bem como indica tratar-se de opinião pessoal da fonte, portanto contestável. Os mesmos efeitos de sentido possíveis são observados em relação ao verbo declarativo “avaliar”. Por sua vez, o verbo dicendi “comparar” pressupõe algo (um fato, um acontecimento, um discurso) com o que se compara. No contexto, expressar é menos “neutro” que afirmar, comentar ou dizer; trata-se de revelar algo por meio do tom da fala e dos gestos, em outras palavras, por meio de todo o corpo. Como já mencionado, o emprego do verbo dicendi “negar” pressupõe a existência de outro discurso que se opõe ao da fonte, afirmando o que esta nega. Postar, por sua vez, revela a situação de produção do discurso, a saber, determinada rede social, situação de produção essa própria da contemporaneidade. Por fim, o verbo dicendi “revelar” pressupõe que a informação declarada estava oculta ou consistia em segredo.

A análise dos dados desta seção responde à segunda parte do objetivo desta pesquisa, qual seja comentar alguns aspectos discursivos referentes às formas linguísticas utilizadas para relatar as declarações textuais. Na sequência, apresenta-se a Conclusão.

7. CONCLUSÃO

A experiência profissional do pesquisador como corretor de redações em um colégio particular do Estado de São Paulo possibilitou o contato direto com produções escritas de alunos de Ensino Médio. Tal contato permitiu que se observassem, nos textos produzidos pelos alunos, algumas inadequações relativas aos diferentes níveis de produção de sentido, como o sintático, o semântico e, mesmo, o discursivo. No entanto, como foi percebida uma dificuldade maior em um dos níveis, elegeram-se como problema motivador desta pesquisa duas inadequações de caráter especificamente linguístico-textual cometidas pelos alunos, quando da produção escrita dos gêneros discursivos notícia e reportagem. A primeira dizia respeito ao emprego da locução adverbial segundo; a segunda era referente à repetição excessiva do mesmo verbo dicendi (ou declarativo), sem variação.

Nesse contexto, este estudo delimitou-se a alguns aspectos linguístico-textuais e, em certa medida, discursivos dos gêneros notícia e reportagem que podiam trazer dificuldades de leitura (e de produção escrita) a alunos do Ensino Médio. Mais especificamente, a pesquisa enfocou as diferentes formas de inserção de uma declaração textual obtida pelo repórter a partir de uma fonte de informação.

O objetivo geral desta pesquisa foi o de contribuir para a compreensão mais detalhada sobre o uso do recurso da declaração textual em notícias e reportagens. Especificamente, objetivou-se fazer: i) um levantamento das diferentes formas de apresentação da declaração textual em notícias e reportagens publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e ii) comentários sobre aspectos discursivos referentes às formas linguísticas utilizadas para relatar as declarações das fontes de informação. Assim, as perguntas que orientaram esta pesquisa foram as seguintes: i) de quais maneiras os repórteres dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo apresentam o recurso da declaração textual e ii) quais as principais características discursivas das escolhas empreendidas pelos repórteres?

O corpus de pesquisa, composto de textos publicados nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, mais precisamente de dez textos de cada jornal – cinco notícias e cinco reportagens (total de 20 textos), evidenciou que tanto o gênero discursivo notícia como o reportagem apresentam uso frequente da declaração textual. De acordo com a fundamentação teórica, o emprego desse recurso, em específico nos textos noticiosos, contribui para a criação de um efeito de autenticidade, distanciamento, objetividade e seriedade (cf. MAINGUENEAU, 2001).

Em relação ao primeiro objetivo específico, a fundamentação teórica indicou quatro formas possíveis de inserção das declarações textuais pelo repórter: com o emprego de verbo dicendi; com o emprego de locuções; ausência de introdutor explícito, devido ao emprego de introdutor no mesmo parágrafo; ausência de introdutor explícito em todo o parágrafo (seja por nominalização, seja por marcação apenas tipográfica). Considerando o corpus de pesquisa analisado, observou-se que, em ambos os gêneros, a forma mais empregada é a introdução com verbo dicendi, e a menos empregada é a introdução com locuções (ver nota 3, na página 32), categoria essa que, no jornal O Estado de S.Paulo, não apresentou nem uma ocorrência.

No que diz respeito ao segundo objetivo específico, foi observado que as notícias e reportagens não apresentam sempre os mesmos verbos dicendi na introdução de declaração textual. Nesse contexto, o repórter, por meio do verbo que emprega, interpreta a declaração da fonte de informação e revela um posicionamento frente a ela (cf. MARCUSCHI, 2007). Embora seja evidente, em ambos os gêneros, o emprego muito mais frequente de verbos mais básicos e mesmo “neutros”5, como “afirmar” e “dizer”, tanto as notícias como as reportagens apresentaram verbos interpretativos e ideológicos, que sustentam pressupostos e permitem inferências, em maior ou menor grau, relativas ao contexto em que foram empregados, quais sejam os verbos: “acreditar”, “acusar”, “apontar”, “atribuir”, “avaliar”, “comparar”, “cravar”, “expressar”, “lembrar”, “negar”, “postar”, “reagir”, “reclamar” e “revelar”. Entre outros efeitos de sentido possíveis, observa-se que o repórter, em determinados contextos, não se limita a somente relatar, de forma imparcial, a declaração concedida por sua fonte de informação; mais do que isso, ele a interpreta como uma acusação, uma negação, uma reclamação – o que, geralmente, revela-se no verbo dicendi escolhido para introduzir a declaração.

Os resultados desta pesquisa contribuem para a compreensão mais ampla acerca do emprego da declaração textual como um elemento estruturante (embora não obrigatório) dos gêneros discursivos notícia e reportagem. Considerando esses resultados, é possível subsidiar a preparação de atividades específicas que focalizem a leitura e a produção escrita dos gêneros em questão, o que, certamente, contribui para a prática deste pesquisador como professor de Língua Portuguesa e de outros professores da mesma área que também atuem no Ensino Médio. Ademais, os verbos observados no corpus e citados anteriormente podem oferecer subsídios para um trabalho futuro com produção de notícias e reportagens, de forma que o professor apresente aos alunos um repertório de verbos dicendi, para que estes tenham ideias de possibilidades de variação – ainda que os verbos listados não sejam os únicos verbos introdutores de declaração textual possíveis.

Fica como sugestão para futuras pesquisas a preparação de material didático que permita que os alunos compreendam o modo como se emprega a declaração textual, qual o seu papel na estruturação da notícia e da reportagem, bem como quais os efeitos de sentido possíveis de serem produzidos mediante o emprego desse recurso linguístico-textual e discursivo.

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KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. 2. ed. São Paulo: Ática, 1989.

LAGE, Nilson. A estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 1985.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.

LOPES-ROSSI, Maria Aparecida Garcia. A produção escrita de gêneros discursivos em sala de aula: aspectos teóricos e sequência didática. Signum: Estudos da Linguagem, Londrina, v. 15, n. 3, p. 233-245, 2012.

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MARCUSCHI, Luiz Antônio. A ação dos verbos introdutores de opinião. In: ______. Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 146-168.

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O pesquisador autoriza a cópia total ou parcial desta obra, apenas para fins de estudo e pesquisa, sendo expressamente vedado qualquer tipo de reprodução para fins comerciais sem prévia autorização específica do autor.

Gustavo Henrique de Toledo Ferreira

Taubaté, dezembro de 2014.

1 As nomenclaturas “declaração textual” e “declaração de fonte de informação” são usadas indistintamente nesta pesquisa.

2 Segundo Jakobson (1969 apud BARROS, 2014), a linguagem apresenta seis funções, sendo cada uma centrada em um elemento do processo de comunicação. Em sua perspectiva, as seis funções são as seguintes: i) referencial (centrada no contexto ou referente); ii) poética (centrada na mensagem); iii) fática (centrada no contato); iv) metalinguística (centrada no código); v) emotiva (centrada no remetente); e vi) conativa (centrada no destinatário).

3 Termo empregado por Charaudeau (2006), para diferenciar-se do termo “contemporaneidade”. Para o autor, o termo “contemporaneidade”, corrente, entre outros, no domínio filosófico, histórico e científico, cobre um espaço de tempo muito mais extenso do que o coberto pela cotemporalidade midiática.

4 É pertinente esclarecer e justificar por que motivo essa categoria apresentou índice tão ínfimo. Por meio da apreciação do corpus da pesquisa, pôde-se observar que, embora bastante comum, o emprego de locuções é consideravelmente mais frequente quando o que se tem é uma declaração relatada em discurso indireto – fenômeno não abordado pela pesquisa em tela –, e não uma declaração textual, em discurso direto, objeto desta pesquisa. Por exemplo: “Para empresários e associações, na concorrência que deve se instalar após o torneio, os mais prejudicados serão os pequenos hotéis” (Folha de S.Paulo, 06 abr. 2014) [grifo deste pesquisador].

5 As aspas justificam-se pelo fato de a neutralidade não depender apenas do verbo e, para além dessa razão, não existir de fato, conforme Marcuschi (2007).


Publicado por: Gustavo Henrique de Toledo Ferreira

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