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O Kung Fu como ferramenta no desenvolvimento social em adolescentes

Educação Física

História e concepções da arte marcial Kung Fu e suas contribuições para o desenvolvimento social dos adolescentes.

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1. RESUMO

Este trabalho demonstra por meio de pesquisas bibliográficas e de campo como o Kung Fu pode ser usado para transformação social de adolescentes. Para isso, serão apresentadas as alterações e adaptações pelas quais o Kung Fu passou para chegar ao Kung Fu que conhecemos hoje. As técnicas desta arte marcial foram usadas na guerra, dada a sua extrema eficácia para treinar soldados; além disso, têm sido empregadas como forma de saúde e bem-estar ao longo do tempo, até que chegou aos cinemas onde ficou mundialmente conhecido. Tendo em vista que a adolescência é uma fase crucial para o pleno desenvolvimento do indivíduo adulto, pois nessa fase fatores como falta de disciplina, atividade física, paciência, respeito entre outros pode influenciar diretamente no comportamento adulto. O Kung Fu se mostra uma excelente ferramenta de formação social, por ser uma arte milenar que traz como bagagem o respeito e a disciplina além de estar ligado às filosofias taoista, confucionista e budista, ao ser trabalhado na adolescência pode recuperar ou mostrar virtudes que vão influenciar o adolescente na fase adulta. Para desenvolvimento social de qualquer adolescente, é indispensável a presença de uma atividade física durante a formação do indivíduo e o Kung Fu se mostra eficiente pois ao representar o combate, através desta simbologia, os movimentos podem atuar de forma global no indivíduo, podendo servir como instrumento na sua formação física, intelectual e emocional. Por meio das pesquisas bibliográficas e questionários aplicados em academias de Kung Fu de São Jose do Rio Preto- SP foi possível observar uma grande melhora em virtudes como respeito, humildade, perseverança, paciência e honestidade nos jovens e adolescentes que praticam esta arte marcial.

Palavras-chave: Kung Fu, Adolescência, Desenvolvimento Social.

ABSTRACT

This paper shows, using bibliographic and field research, how the Kung Fu can be used in a teenage social development context. To achieve it, changes and adaptations which Kung Fu has gone through until nowadays will be shown. Most of the techniques used in this martial art were used in war, since it was an efficient way to train soldiers. In addition, Kung Fu has being used to get a better health and welfare, until its popularity increased caused by the exposition on the movie theaters. Given that the adolescence period is a crucial part to the full development of the adult individual, so many factors such as lack of discipline, physical activity, patience, respect, among others, could induce in the adult behavior. It has also shown as an excellent tool of social development, since it is a millenary art that carries as base attitudes like respect and disciplines and taoists, confucianists and buddhist philosophies. To any kind of adolescent, it's indispensable to practice a physical activity during its formation and the contribution of the Kung Fu to it is that, representing a way of fighting, the movements act in a global way in the individual, which can cause a lot of gains in the emotional, intellectual and physical development. With the use of questionnaires in some Kung Fu fighting academies of São José do Rio Preto, it was possible to verify some kind of gains in virtues like respect, humble, perseverance, patience, honesty in the young people that practice this martial art.

Keywords: Kung Fu, Adolescence, Social Development

2. INTRODUÇÃO

Considerando o grande número de adeptos do Kung Fu, visto como uma prática milenar, verifica-se a influência e a importância dessa arte marcial para com as questões de disciplina.

Disciplina é uma virtude muito importante que pode influenciar no desenvolvimento social dos adolescentes e o Kung Fu, como será mostrado ao longo deste trabalho, pode ser usado como meio de desenvolvimento social em adolescentes.

Portanto o trabalho irá discutir de forma ampla a história e concepções desta arte marcial e suas contribuições para o desenvolvimento social dos adolescentes. O objetivo deste estudo está pautado em verificar a possibilidade de o Kung Fu ser uma ferramenta para o desenvolvimento social desse público.

A atividade física é indispensável durante a formação de adolescentes, nesta arte marcial estão envolvidos fatores psicomotores como ritmo, extensibilidade, coordenação global e fina, desenvolvimento de expressão corporal, práticas respiratórias para manutenção da saúde e características meditativas que viabilizam a auto percepção. Como está diretamente relacionado à educação física, fica evidente que seu uso no desenvolvimento social pleno, com a formação de uma consciência crítica, com conceito de cidadania, é bastante importante.

Nesse sentido, os próximos capítulos irão abordar os temas propostos no estudo.

No capítulo II, será apresentado a história e evolução do Kung Fu: como essa arte marcial surgiu passando de uma técnica usada nas guerras para sobrevivência, até se tornar esta arte tão popular empregada atualmente tanto para saúde física quanto mental.

No capítulo III, serão apresentadas as questões referente à adolescência, uma fase tão importante para o desenvolvimento social, considerando sua faixa etária, suas mudanças fisiológicas e sociais e as possibilidades de se trabalhar essa fase.

No capítulo IV serão discutidas as possibilidades que o Kung Fu apresenta como ferramenta no desenvolvimento social, sua filosofia, métodos, que influenciam diretamente na conduta ética e moral do adolescente, que poderá desenvolver seu senso crítico tornando-o um adolescente mais bem preparado para a fase adulta.

Capitulo V será explicitada a forma com a qual este trabalho foi realizado a partir de pesquisas bibliográficas e pesquisa de campo.

Tudo isso levará as considerações finais em que serão percebidas, por meio da aplicação de uma pergunta, como o Kung Fu influencia na formação social e comportamental do adolescente.

3. CAPÍTULO II - História do Kung Fu

Embora hoje já seja possível encontrar várias academias de Kung Fu espalhadas pelo mundo, dentre seus variados estilos, nem sempre foi assim.

Para iniciar este trabalho, é importante que entenda o que significa o nome desta arte marcial que será o centro desta pesquisa. "Kung Fu é o termo que no Ocidente identifica popularmente as artes marciais de origem chinesa..." Acevedo, (2011, p. 14). Porém é possível encontrar como tradução literal o termo Kung Fu como trabalho humano, ou seja, qualquer habilidade que pode ser adquirida com esforço, perseverança, disciplina ao longo do tempo, assim relata Acevedo (2011).

Conforme o termo Kung Fu foi evoluindo, sua prática também foi, e assim passou a ter várias denominações/funções no decorrer da sua evolução como, técnica de sobrevivência, militar, saúde, entretenimento e autorrealização.

Entre 1100-256 a.C., as tropas chinesas praticavam rotinas (formas) com armas como forma de treinamento; em 476-221 a.C., o Kung Fu era conhecido como habilidade de ataque, e em 202 a.C.-220 d.C. era usado para referir-se à técnica de combate sem arma, conforme nos conta Acevedo (2011, p.29):

Outro documento bastante importante foi descoberto apenas em 1973, na província de Hunan, no sudeste do país. É uma pintura em seda na qual se podem ver 44 imagens de pessoas realizando uma série de exercícios com e sem armas. Essas figuras são acompanhadas por uma breve descrição, a qual sugere que podem estar imitando diferentes animais, como o urso, a cegonha, o macaco, o falcão, a águia, o dragão, etc. Alguns dos exercícios ilustrados são alongamento, flexões de joelho, flexões laterais e rotações de tronco, saltos e exercícios respiratórios. A arma que algumas das figuras parecem mostrar é o bastão longo (gun). Não há um consenso sobre o significado dessas imagens; para uns, trata-se de um manual de Kung Fu, enquanto para outros é apenas uma série de exercícios de ginástica (dao yin). Essas imagens datam da dinastia Han do Oeste (206 a.C.-24 d.C) sendo, portanto, o "guia" de exercícios mais antigo encontrado até hoje na China.

Como já foi dito acima, o Kung Fu foi utilizado como forma de exercitar o corpo e manter a saúde, conforme nos conta Acevedo (2011) ao relatar que o imperador Wen Cheng e sua imperatriz praticavam Kung Fu após o jantar e os soldados no período de descanso durante a colheita praticavam jiao di que era um tipo de combate desarmado.

São várias as história/lendas em torno da origem do Kung Fu. Dentre elas, há também, segundo a tradição, a história do monge hindu chamado Bodhidharma que após nove anos meditando em uma caverna ensinou uma série de exercícios aos seus discípulos que dariam origem ao Kung Fu, ignorando a tradição marcial existente na China antes da suposta chegada do monge hindu, já que a prática das artes marciais era algo comum, afinal a guerra e disputas territoriais eram frequentes. Por mais que tenha uma contradição sobre o monge indiano e sua existência, sua história costuma ser aceita no meio acadêmico, porém sua ligação com a origem ou influência no Kung Fu é impossível de ser determinada de maneira fidedigna.

Uma lenda que tornou famosa as habilidades marciais do templo shaolin é a referência aos 13 monges que lutaram pelo imperador com seus bastões, e em agradecimento o imperador permitiu a criação de uma força militar treinada pelos monges heroicos de shaolin. "Muitas das técnicas de combate próprias das artes marciais originaram-se a partir de experiências diretas no campo de batalha, em que o importante era sobreviver. Matar e não ser morto..." Acevedo (2011, p.57).

De qualquer maneira, o que se sabe é que o Kung Fu foi desenvolvido, inicialmente, para o âmbito militar, com objetivo de derrotar o inimigo no campo de batalha, e foi praticado por personagens famosos da história da China. Para exemplificar, podemos citar o general Qi que criou uma rotina, ou seja, uma série de exercícios de movimentos preestabelecidos para o desenvolvimento da habilidade marcial, com a qual treinou seu exército.

De acordo com o general, as técnicas de combate desarmado exercitavam membros e treinava o corpo, o que servia como base das técnicas de combate. Qi deu ênfase à preservação do bom estado físico das suas tropas, treinando com armas mais pesadas que o normal, usando sacos de areia amarrados nos tornozelos e usando armaduras mais pesadas. Ao longo de sua vida, Qi teve nove confrontos em campo da batalha: dos nove, venceu todos com quase nenhuma baixa, o que serviu para provar a eficácia dos seus métodos de combate. Acevedo (2011). Por fim, Qi conclui que "uma vez que se tenha adquirido a arte, deve-se experimentá-la contra um adversário”.

[...] ao praticar as rotinas das artes marciais, é preciso imaginar que se está atacando um inimigo real e não praticar técnicas de forma superficial[...]. Acevedo (2011, p. 97)

Outro militar muito importante foi Tang Shunzi (1507 - 1560) que destaca que o motivo das formas (taolu) é facilitar as variações e fazer com que o discípulo aproveite a mecânica corporal da melhor maneira possível.

Dentre os diversos estilos de Kung Fu, temos os estilos imitativos, que imitam formas de animais como tigre, leopardo, garça, serpente, macaco. Esse estilo representa certa energia e atitude específica que ajuda o praticante a se mover no combate. No fim da dinastia Song1, o Kung Fu já havia se tornado principal atração em celebrações, segundo Acevedo, (2011)

3.1 O Kung Fu no Período Republicano

O período republicano (1912-1949) foi uma fase de lutas internas e guerras na China, portanto não é de se estranhar que nesse período o progresso do Kung Fu teve um enfoque militar. Um dos líderes militares, Feng Yuxiang (1882-1942), usava além de um treinamento moderno como levantamento de peso, também provas de pista, corrida etc. As artes marciais chinesas, usadas não só para autodefesa, mas principalmente como instrumento de patriotismo, serviu de base para a criação das tropas de facões (da dao dui) as quais fizeram parte durante a segunda guerra Sino-Japonesa, pois as armas de fogo ainda eram escassas no exército chinês.

Em 1935, com intuito de recuperar o tempo perdido, um grupo de oficiais chineses viajaram durante cinco meses pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Áustria e Tchecoslováquia, para investigar seus modelos de educação e cultura física. Em 1936, as apresentações dos oficiais nos jogos olímpicos de Berlim foram bastante elogiadas, conforme o comunicado oficial dos jogos olímpicos de Berlim o qual citava que os exercícios apresentados pela equipe chinesa introduziram os espectadores em um mundo totalmente diferente.

Esses exercícios proporcionam ao corpo o mais alto grau de flexibilidade e elasticidade além da autodefesa. Esta delegação também realizou exibições de wushu em Hamburgo, Frankfurt e Munique. Na Alemanha, uma das oficiais chegou a impressionar Adolf Hitler que convidou a equipe para falar com ele e reservadamente, expressou admiração e classificou o que viu como prática ideal.

O surgimento do wushu moderno teve início a partir de 1949 e, em 1951, começaram a ser promovidas reuniões para discutir regulamentos para organizar a prática do novo Kung Fu, que era constituída de rotinas de forma simplificada e carentes de seu sentido prático original. Por isso, em 1957 foi feita uma reunião para diferenciar o wushu de prática marcial. Outra linha evolutiva do wushu acrescenta à sua prática técnicas de ataque e defesa com objetivo de reverter em parte a tendência que colocava em risco a tradição das artes marciais chinesas. Apesar da evolução do wushu, muitos estilos de Kung Fu tradicional conseguiram sobreviver, principalmente em áreas onde a revolução cultural não era tão intensa.

Outra evolução do Kung Fu é o sanshou, que inclui técnicas do boxe ocidental, chutes e técnicas de luta. Os atletas combatem entre si em plataformas elevadas, com protetores bucais, peitoral, cabeça, caneleiras e luvas de boxe, assim como o wushu, o sanshou também perde elementos tradicionais do Kung Fu, como rotinas e manuseio de armas.

3.2 O Kung Fu No Cinema

A partir de 1960, com a ajuda do movimento new age, o oriente começou a ser visado, em especial pela televisão e pelo cinema que perceberam que o exótico Kung Fu poderia atrair milhares de espectadores para frente das telas.

Outro ponto importante foi o próprio misticismo e a imagem de invencibilidade que estão associadas ao Kung Fu. Eles ajudaram na sua popularização, sobretudo em 1973, quando três filmes de Kung Fu alcançaram recordes semanais de bilheteria nos Estados unidos, desencadeando um momento de euforia pela arte marcial.

Falar em Kung Fu no cinema é falar em Bruce Lee. Os filmes protagonizados pelo ator bateram recordes de bilheteria não só nos Estados Unidos, mas também na Ásia e Europa. Infelizmente Lee não pôde vivenciar seu sucesso, pois faleceu em 20 de julho de 1973, após ter tido uma misteriosa morte por reação alérgica a um medicamento. Até hoje, Lee é um mito das artes marciais, um ícone cultural de garra, força e filosofia de um oriente lançado para conquistar o mundo.

Formado no rígido sistema da academia chinesa de arte dramática Hong Kong, outro ator ícone do Kung Fu é Jackie Chan que alcançou estrelato em 1978. Junto dele também temos Jet Li, estrela de cinema de artes marciais, ex-campeão de wushu, que largou as competições em favor de sua carreira de ator.

Citamos uma vez mais Acevedo (2011, p. 169)

[...] o fato de o olhar do cinema ter se voltado para o Kung Fu, e para as artes marciais em geral, levou a sua idealização como uma poderosa ferramenta de transformação pessoal [...].

Assim como nos filmes e como diz Acevedo (2011) acima, o Kung Fu pode ser usado como ferramenta no desenvolvimento social, devido à sua filosofia e ética marcial.

4. CAPITULO III - A fase da Adolescência

Para entendermos melhor como o Kung Fu ajuda nesse processo, precisamos entender o que é a adolescência. Como mostra Papalia (2006, p.440)

Adolescência, uma transição no desenvolvimento entre infância e a idade adulta que envolve grandes mudanças físicas cognitivas e psicossociais inter-relacionadas.

E como afirma Bee (1997) trata-se do período de transição em que a criança se modifica física, mental e emocionalmente, tornando-se um adulto.

A adolescência dura aproximadamente 10 anos, mais comumente dos 12 aos 20, começa na puberdade, a maturidade emocional pode depender de realizações como descobrir sua identidade, tornar-se independente, formar relacionamentos, algumas pessoas nunca saem da adolescência independentemente da idade. Durante essa fase, as mudanças biológicas da puberdade resultam em rápido crescimento em altura e peso, mudança nas proporções e na forma do corpo e obtenção da maturidade sexual, essas mudanças físicas radicais fazem parte de um longo e complexo amadurecimento. Papalia (2006)

Algumas pesquisas de Papalia (2006) demonstram que a exacerbação de emoções e instabilidade de humor na adolescência têm ligação direta com a mudança hormonal. Nos rapazes, tais mudanças estão ligadas à agressividade, e nas moças está relacionado à depressão.

Percebe-se que a adolescência é uma fase em que todas as ações podem influenciar o rumo desses indivíduos na fase adulta, assim se posiciona Papalia (2006). Algumas pesquisas relatam que meninos que amadurecem mais cedo são mais equilibrados, tranquilos, afáveis, populares entre os amigos e inclinados à liderança, são mais cautelosos, mais dependentes dos outros limitados por regras e rotinas, têm melhor desempenho cognitivo durante final da adolescência e na idade adulta, já os com amadurecimento tardio, sentem-se mais incompetentes, inibidos, rejeitados e dominados, mais dependentes, agressivos, inseguros ou deprimidos.

A transição da infância para adolescência oferece oportunidades de crescimento, não só físico, mas também em competência cognitiva e social, autonomia, autoestima. Esse período também possui riscos, alguns jovens têm dificuldades para lidar com tantas mudanças. Nesta etapa da vida, muitos dos jovens estão direcionados a uma idade adulta satisfatória, enquanto aproximadamente 20% terão que enfrentar muitos problemas que estão relacionados ao seu bem-estar físico e mental. Os perigos incluem partos precoces, alta taxa de mortalidade, homicídio e suicídio, os fatores que contribuem para isso são consumo excessivo de bebidas alcoólicas, abuso de drogas e participação de gangues.

Segundo Papalia (2006) muitos adolescentes tornam-se menos ativos nessa fase da vida, somente 50% dos alunos dizem participar de alguma atividade física vigorosa pelo menos três vezes por semana. A falta do exercício afeta a saúde mental e física; mesmo atividades físicas moderadas trazem benefícios à saúde se praticada regularmente por pelo menos 30 minutos na maioria dos dias da semana ou, preferencialmente, todos os dias. Um estilo de vida sedentário pode resultar em maior risco de obesidade, diabete, doença cardíaca e até mesmo câncer. Um estudo britânico relata que crianças de 16 anos que participavam de esportes tinham menos problemas físicos ou emocionais e sentiam se melhor em relação a si mesmas do que seus colegas menos ativos.

Quando um adolescente morre geralmente é devido à violência, as principais causas de morte entre jovens de 15 a 24 anos são acidentes, homicídios e suicídios. A inexperiência e a imaturidade levam-nos a correr riscos e a agir com imprudência. A depressão é bastante comum na adolescência, quando o estado de depressão dura seis meses ou mais, sintomas como perturbação do sono e alimentação, dificuldade de concentração ficam evidentes. Um dos fatores causadores da depressão entre adolescentes é o isolamento, como afirma Papalia (2006)

Segundo estudos de Papalia (2006). Alguns aspectos imaturos do pensamento adolescente são tendência a discutir: estão sempre em busca de oportunidades para testar suas recém-descobertas. Indecisão: problemas para decidir coisas simples. Encontrar defeitos na figura de autoridade: os adultos responsáveis estão aquém de seus ideais. Suposição de invulnerabilidade: pensam ser especiais e não estarem sujeitos a regras que regem o mundo, pensamento egocêntrico que pode levar a autodestruição. Outro problema na adolescência é a delinquência, jovens que crescem em famílias com uma disciplina errônea e pouco afeto, tendem a ser delinquentes.

Tendo em vista o quanto as atitudes e ações na fase da adolescência são de extrema importância para que na fase adulta este jovem seja mais maduro e mais consciente de suas ações. Fica evidente que a principal tarefa na adolescência é confrontar a crise de identidade contra confusão de identidade, de modo a se tornar um adulto único com senso de identidade coerente. A identificação pessoal aparece quando os jovens escolhem os valores e as pessoas aos quais serão fiéis, em vez de simplesmente aceitarem as escolhas de seus pais.

5. CAPITULO IV - O Kung Fu no desenvolvimento do adolescente

Para desenvolvimento social de qualquer adolescente é indispensável a presença de uma atividade física durante a formação do indivíduo conforme afirma Murad (2007, p. 54) "a atividade desportiva é um fator cultural indispensável na formação plena da pessoa humana e no desenvolvimento civilizacional das sociedades".

Diferente de qualquer outra arte marcial, o Kung Fu é um sistema integrado com métodos físicos de combate, métodos de meditação, práticas de cura e filosofias éticas e morais, portanto pode-se dizer assim que o Kung Fu é um método de vida, como afirma Parulski (1996). Completando este relato, Imamura (1994, p. 31) diz:

Seu valor maior não está em ser uma arte de combate, mas sim por representar o combate, já que através desta simbologia, os movimentos podem atuar de forma global no indivíduo, podendo servir como instrumento na sua formação física, intelectual e emocional.

E ainda, para completar, Pantaleão (2004, p. 19) contribui com esse pensamento:

[...] a sabedoria chinesa deu origem a este sistema marcial, a partir da ideia central de que o homem, para viver e sobreviver conscientemente num padrão ético e moral coerente à sua natureza deve conhecer a si mesmo.

Como se pode notar, o Kung Fu vai muito além de apenas uma luta, pois foi criado não apenas para autodefesa, mas também para que a pessoa conviva em harmonia e alcance o autoconhecimento.

[...] o surgimento de uma arte marcial não depende somente da prática de certos movimentos e da capacidade de resistir a provações físicas, as artes marciais também têm um conteúdo intelectual e um sistema de valores; baseiam-se numa visão específica do universo e do lugar que o homem ocupa dentro dele No Kung-Fu não há como aprender seus movimentos de defesa e ataque, sem que estes estejam orientados por toda uma “filosofia sócio educacional. (REID e CROUCHER, 1983, p.29)

Para que as técnicas avançadas de Kung Fu não sejam confundidas com ensinamentos violentos, é preciso maturidade, reflexão e assimilação da disciplina e da ética preconizadas nos preceitos da arte, preceitos de disciplina, obediência às regras e respeito ao outro.

Isso fica evidente, pois o Kung Fu, como afirma Lima (2000) está ligado diretamente à filosofia taoísta, um dos fundamentos filosóficos que partem da base de igualdade de importância e interdependência dos seres, para os ambientes naturais e sociais que é um processo cíclico da natureza. O Kung Fu propicia uma ação educativa coerente com visão de homem, mundo e educação. Essa arte acompanha o povo chinês há milênios, evoluindo sem perder suas raízes, ou seja, à parte de defesa pessoal do Kung Fu e também o seu aspecto filosófico.

Nesta arte, estão envolvidos fatores psicomotores como ritmo, extensibilidade, coordenação global e fina, desenvolvimento de expressão corporal, práticas respiratórias para manutenção da saúde e características meditativas que viabilizam a auto percepção. A união de todos esses fatores confere caráter universal de arte ao Kung Fu e o transforma numa filosofia de vida. Como ele está diretamente relacionado à educação física, fica implícito o seu uso no desenvolvimento social, com a formação de uma consciência crítica, com conceito de cidadania.

É comum nas academias de Kung Fu o praticante se curvar ao entrar fazendo reverências ao local onde vai treinar. Isso demonstra respeito não só pelo local de treino, mas pelos ancestrais e mestres por terem se dedicado a aprimorar e perpetuar a arte. O cotidiano do ser humano é cheio de preocupações e quando ele se preocupa demais, deixa de viver o presente. Dentro da filosofia Kung Fu deve-se aproveitar o momento e entender que viver o momento é diferente de ser inconsequente, mas sim aprender com cada momento o que a vida proporciona. Geralmente o ser humano almeja ver-se transmutado, por isso busca um mestre, um deus, uma crença, algo que esculpa sua maneira de viver, Para os praticantes de Kung Fu o aprendiz deve achar dentro de si mesmo seu próprio artesão.

Os exercícios, movimentos do Kung Fu exigem autodisciplina, que aumentam a concentração, elevando a autoestima, aprimorando os mecanismos proprioceptivos e exteroceptivos criando situações que necessitam de garra e perseverança para atingir seus objetivos.

Para ilustrar melhor esses preceitos, pode-se ver como exemplo a tabela 1 de preceito do estilo garra de águia de Kung Fu.

Para complementar, veja-se a tabela 2 de virtudes criada pelo Mestre Chiu Ping Lok, criador do estilo de Kung Fu Fei Hok Phai.2

Como é possível observar nas imagens acima, as virtudes no Kung Fu são de extrema importância para o praticante. Não se aprende Kung Fu sem que se aprendam junto as virtudes, como respeito, educação, cortesia, esforço, dedicação e humildade. Todas elas são intrínsecas ao aprendizado da arte.

Na obra de Mocarzel (2011), relata-se que nos Estados Unidos da América (EUA), houve casos do Tai Chi Chuan, um dos estilos de Kung-Fu mais praticado no mundo ser utilizado, sob ordem judicial, como forma de controle da raiva, para jovens infratores, ou seja, as artes marciais podem ser um meio de curalização contemporânea para seus praticantes, servindo diretamente para elevar o seu caráter sócio educacional.

Um dos exemplos de jovens que conheceram o Kung Fu e com ele tiveram o grande avanço no seu desenvolvimento social é Steve DeMasco fundador da United Studios of Self-Defense (União de Centros de Autodefesa). Steve tinha uma mãe com deficiência física e um pai psicótico que batia e abusava sexualmente dele quando criança, Steve teve contato com a filosofia de Kung Fu que transformou profundamente sua vida. “Não posso lhe dizer que ter disciplina será uma garantia de sucesso, mas posso lhe dizer que a falta dela é uma garantia de fracasso." Steve Demasco (2007, p. 51)

Steve Demasco foi um dos únicos praticantes norte-americano a ser reconhecido oficialmente como mestre pelo mosteiro Shaolin, atualmente Steve da aula de Kung Fu para jovens delinquentes e órfãos.

6. CAPITULO V - Metodologia

Para a realização deste trabalho foram feitas pesquisas bibliográficas através do acervo da UNILAGO pautada em livros e através de sites acadêmicos, sites oficiais do Kung Fu, utilizando a análise crítica e interpretativa de Severino (2000) através das palavras chave, Kung Fu, adolescência e desenvolvimento social.

Além disso foi realizada também uma pesquisa de campo com os pais dos alunos de três academias da cidade de São José do Rio Preto, interior do estado de São Paulo, praticantes de Kung Fu, com o objetivo de verificar se houve melhora das virtudes dos filhos após a pratica do Kung Fu. Para a participação na pesquisa, os pais preencheram questionários, o termo de livre consentimento e livre esclarecimento.

A pesquisa de campo foi feita com os pais de dezenove adolescentes praticantes de Kung Fu, dos sexos masculino e feminino, entre 12 a 18 anos. Nesse questionário havia perguntas a respeito da melhora da agressividade, paciência, respeito, confiança, humildade, coragem, perseverança, honestidade, concentração, determinação, que são preceitos do Kung Fu, que estão relacionados ao desenvolvimento psicossocial dos adolescentes, além de uma pergunta aberta opcional sobre mudanças comportamentais.

7. CAPITULO VI - Resultados e discussão

A seguir, serão explicitados os resultados dos questionários representados pelos gráficos assim disposto: os números 1, 2 e 3 representam o quanto o aluno melhorou na respectiva virtude sendo 1: não mudou nada, 2: melhora regular e 3: grande melhora.

Como se pode notar, na figura 1 em termos de melhorias na agressividade, obteve-se os resultados 5% sem melhora, 37% melhora regular e 58% grande melhora. O resultado para paciência foi de 53% melhora regular, e 47% grande melhora. Em relação ao respeito com os pais, 5% sem melhora, 21% melhora regular e 74% grande melhora. Respeito com amigos apresentou 16% melhora regular e 84% grande melhora. Em termos de confiança 11% melhora regular e 89% grande melhora, finalizando assim a figura 1.

Figura 1: Representação gráfica das respostas obtidas pelo questionário aplicado aos pais dos alunos de Kung Fu, sendo as respostas representadas pelos números: 1 – sem mudança, 2- melhora regular, 3-grande melhora.

Já na figura 2, como se pode ver a seguir os resultados foram os seguintes: a) Humildade foi de 53% melhora regular e 47% grande melhora; b) coragem: 21% melhora regular e 79% grande melhora; c) perseverança: 26% melhora regular e 74% grande melhora; d) honestidade: 11% sem melhora, 5% melhora regular e 84% grande melhora; e) concentração: 32% melhora regular e 68% grande melhora e, por fim, com excelente resultado a determinação com 100% de grande melhora.

Figura 2: Representação gráfica das respostas obtidas pelo questionário aplicado aos pais dos alunos de Kung Fu, sendo as respostas representadas pelos números: 1-sem mudança, 2-melhora regular, 3-grande melhora.

Além das perguntas objetivas, o questionário continha uma pergunta aberta sobre outras mudanças que puderam ser observadas após a prática do Kung Fu. Dentre as respostas, foi possível observar uma grande melhora na autoestima, reforçando o relato de Tiba (1996) que diz que um dos fatores que leva à indisciplina está diretamente relacionada com distúrbios na autoestima. Foi possível observar também melhoras no desempenho escolar, melhora na timidez, na disposição, ansiedade e até mesmo, uma melhora significativa em um aluno autista em termos de concentração, paciência, coordenação motora principalmente responsabilidade.

Isso apenas comprova o que os autores relatam no capitulo IV como por exemplo, Parulski (1996) quando afirma que o Kung Fu vai além de uma luta e se mostra como forma de se desenvolver não só fisicamente, mas intelectualmente. Isso fica mais evidente ao comparar os resultados dos gráficos com os preceitos do Kung Fu garra de águia e Fei Hok Phai, que remetem a atitudes como respeito, perseverança, humildade e paciência, sendo que todos esses preceitos tiveram uma grande melhora após a prática do Kung Fu.

8. CAPITULO VII - Considerações finais

Por meio das pesquisas bibliográficas sobre a bagagem histórica do Kung Fu, seus preceitos éticos e morais que remetem à disciplina e também ao ser estudada a fase de transição entre fase infantil para a adulta denominada adolescência, pode-se concluir que o Kung Fu pode ser um grande aliado na formação da personalidade de um jovem. A fim de se comprovar esta teoria, parte-se para uma pesquisa de campo com pais de adolescentes praticantes dessa arte, em três academias de São Jose do Rio Preto - SP. Segundo o que se pôde avaliar a partir da percepção dos pais, a hipótese lançada no início deste trabalho ficou comprovada, uma vez que houve uma grande melhora em termos de mudanças comportamentais nos jovens praticantes, principalmente em relação à determinação, à confiança, ao respeito e à honestidade que são bases para um desenvolvimento social que possibilitam um melhor preparação para a vida adulta, desenvolvendo caráter e disciplina.

Sendo assim, fica a sugestão para que as escolas, famílias e o governo incentivem a prática cotidiana desta arte a fim de que se crie uma geração de pessoas mais ética e comprometida com os verdadeiros valores da humanidade já citados aqui e, assim, possa ser construída uma sociedade que entenda, definitivamente, o quanto é importante que se cresça e evolua tendo bases solidas e verdadeiras.

9. Referências Bibliográficas

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LIMA, L. M. S. O Tao da educação: a filosofia oriental na escola ocidental. São Paulo: Ágora, 2000.

MOCARZEL, R. C. S. Artes marciais e jovens: violência ou valores educacionais? Um estudo de caso de um estilo de Kung-Fu. (Mestrado em Ciências da Atividade Física). Universidade Salgado de Oliveira, Niterói, 2011. 108 f.

MURAD, M. Sociologia e educação física: diálogos, linguagens do corpo, esportes. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

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Severino, Antônio Joaquim, Metodologia do trabalho cientifico. São Paulo: Cortez, 2000

TIBA, Içami. Disciplina, limite na medida certa. São Paulo: Gente, 1996

10. Anexo - A

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Declaro que fui esclarecido, de forma detalhada sobre a pesquisa, que tem como título "O Kung Fu como ferramenta no desenvolvimento social de adolescentes" bem como da importância da sua realização. Esta pesquisa tem por objetivo mostrar os possíveis benefícios que o Kung Fu pode ter no desenvolvimento social se for praticado durante ou desde a adolescência.

O responsável por essa pesquisa, Professor Me. Ednei Previdente Sanchez, endereço eletrônico: (EDNEISANCHES35@hotmail.com) Professor do curso de graduação em Educação Física na faculdade União das Faculdades dos Grandes Lagos - UNILAGO, garante aos participantes:

  • Não há nenhum risco aos participantes da pesquisa, já que os entrevistados serão submetidos apenas a um questionário de perguntas.

  • É garantido ao entrevistado, se for da sua vontade, deixar a pesquisa a qualquer momento.

  • Prestar esclarecimentos antes e depois da pesquisa.

  • A identidade dos participantes não será revelada e as informações que forem prestadas poderão ser utilizadas somente para fins científicos.

_______________________________________
Nome do participante da pesquisa

_______________________________________
Assinatura do participante da pesquisa

11. Anexo – B

Questionário de percepção dos pais em relação aos filhos praticantes de Kung-Fu

Preencha abaixo com os dados do seu FILHO (A)

Tempo de prática_________________                  Graduação______________________

Idade_________                                                 Sexo_____________

Leia atentamente cada afirmativa e assinale um número que corresponde apropriadamente.

1- Nada                     2-Razoavelmente                     3-Muito

 

PERCEPÇÃO DOS PAIS APÓS A PRÁTICA DE KUNG-FU

     

1

Com a prática de kung-fu, a agressividade de meu filho (a) diminuiu

1

2

3

2

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) ficou mais paciente

1

2

3

3

Com a prática de kung-fu, o respeito entre meu filho (a) com pais melhorou

1

2

3

4

Com a prática de kung-fu, o respeito entre meu filho (a) com os amigos melhorou

1

2

3

5

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) se sente mais confiante

1

2

3

6

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) ficou mais humilde

1

2

3

7

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) se mostrou mais corajoso

1

2

3

8

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) demonstrou estar mais perseverante

1

2

3

9

Com a prática de kung-fu, meu filho (a) ficou mais honesto

1

2

3

10

Com a prática de kung fu, meu filho (a) está mais concentrado

1

2

3

11

Com a prática de kung fu, meu filho (a) está mais determinado

1

2

3

12

Com a prática de kung-fu, as virtudes de meu filho (a) ficaram mais evidentes

1

2

3

Comente brevemente as mudanças comportamentais que ocorreram com a pratica do Kung Fu (Opcional)

_____________________________________________________________________

_____________________________________________________________________

_____________________________________________________________________

1 .: Período entre (960-1279), Época dos exames militares.

2 Fei Hok Phai ou estilo da Garça Voando, é um dos estilos de Kung Fu mais populares no Brasil, foi criado pelo Mestre Chiu Ping Lok.


Publicado por: Vitor Rogério Bigotto Zigar

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