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Estudo sobre a relação da Educação Física Escolar no Processo de Formação do Cidadão em crianças do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental no município de Nova Friburgo

Educação Física

Cidadania, Educação, o papel da Educação Física Escolar na formação do aluno cidadão e a abordagem pedagógica da Educação Física Escolar.

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1. RESUMO

O presente estudo buscou desenvolver uma reflexão sobre a Cidadania especificamente na sua relação com a Educação Física Escolar, caracterizando-se como um trabalho de caráter qualitativo e exploratório. Inicialmente foram pesquisadas as diferentes acepções de Cidadania. Em seguida, foi abordado a Cidadania em relação à Educação e, em particular à Educação Física. O instrumento adotado para coleta de dados foi um questionário contendo perguntas aberta e fechadas, aplicado para oito professores regentes de turmas do 3º ao 5º ano do ensino fundamental de escolas municipais de Nova Friburgo, objetivando identificar se sua prática pedagógica vem contribuindo para a formação da cidadania do aluno. Concluiu-se que no nível do discurso todos os professores reconhecem a importância de se trabalhar a Cidadania nas aulas de Educação Física, no entanto, a ênfase de suas aulas ainda está no conteúdo Esporte, não levando o aluno a se apropriar do seu corpo, da cultura corporal e das relações sociais onde está inserido.

Palavras-Chaves: Cidadania. Educação Física. Escola. Formação. Ensino Fundamental.

ABSTRACT

This study sought to develop a reflection on the Citizenship specifically in its relationship with the School Physical Education and is characterized as a qualitative and exploratory work. They were initially surveyed the different meanings of citizenship. Then Citizenship was approached in relation to education and in particular to Physical Education. The adopted instrument for data collection was a questionnaire with open and closed questions, applied to eight school teachers of classes 3rd to 5th grade elementary school of public schools in Nova Friburgo, aiming to identify whether their teaching has contributed to the formation of citizenship of the student. It was concluded that the level of discourse all teachers recognize the importance of working Citizenship in physical education classes, however, the emphasis of their classes are still in the Sport content, not taking the student to take ownership of your body, body culture and social relations in which it operates.

Key-Words: Citizenship. Physical Education. School. Formation. Elementary School.

2. INTRODUÇÃO

É perceptível que o mundo vem a cada dia mais avançando em inúmeros aspectos e mais do que nunca é necessário que as escolas acompanhem de forma crítica essa evolução, que estejam atentas a essas transformações, de modo a favorecer o acesso ao conhecimento assegurando assim uma formação para a cidadania.

Uma instituição de ensino que tem a formação do indivíduo como prioridade, deve desenvolver meios de incentivar e proporcionar prazer, motivação e desafio para os alunos levando-os a serem capazes de aprender, desenvolver o senso crítico, questionar e conscientizar da sua importância no processo de transformação da sociedade (BRACHT, 2005).

Sem dúvida é através da educação que é possível promover a transformação do ser humano, e a escola é a instituição social onde isto só é possível se sua proposta pedagógica estiver voltada para a formação da cidadania, orientando-se segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998). Este importante documento assinala que:

o papel fundamental da educação no desenvolvimento das pessoas e das sociedades amplia-se ainda mais no despertar do novo milênio e aponta para a necessidade de se construir uma escola voltada para a formação de cidadãos” (BRASIL, 1998, p. 5).

Com isso, a escola se apresenta como uma instituição muito relevante na construção do conhecimento, desempenhando um papel social muito importante, a partir do momento que ela contribui não apenas para a preparação de um ser qualificado e com competências para a sua inserção no mercado de trabalho, mas principalmente, para a sua formação política, social e afetiva.

Ainda dentro desse contexto na perspectiva de fundamentar a responsabilidade da escola sobre a formação integral do ser humano, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/96, estabelece no sistema educacional brasileiro juntamente com outros componentes curriculares de caráter obrigatório na Educação Básica, a Educação Física (art. 26...).

Sendo uma disciplina que não deve abranger somente as valências físicas e motoras, mas principalmente deve colaborar significativamente na formação de valores, na socialização e integração do aluno. Porém, segundo Guimarães (2001) ela vem se distanciando dessas finalidades por força de seu processo histórico e por conta da formação obtida dos profissionais.

Tendo em vista esse contexto, pretende-se no presente estudo fazer uma análise sobre a contribuição da Educação Física Escolar na formação do cidadão. Para efeito da análise que se propõe nesse estudo, a cidadania é encarada como eixo principal do processo de formação das novas gerações, de modo que os alunos sejam capazes de conhecer, participar, desenvolver atitudes de respeito, dignidade, solidariedade mútua e interação com outras culturas corporais; compreendam que à medida que se colocam como seres integrantes da natureza, eles devem cuidar dela enquanto condição de vida e saúde; defendam que todos têm direito às atividades físicas e de lazer para uma vida saudável e bem-estar de toda a população, dentre outras (DARIDO, 2003).

Levando em consideração a temática Educação Física Escolar e sua relação com a construção da cidadania, este estudo adotará a perspectiva de fundamentação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998) partindo da hipótese de que as aulas de Educação Física pautada apenas no conteúdo do Esporte com ênfase apenas na dimensão do fazer, reduz sua possibilidade de auxiliar na formação da cidadania do aluno.

O propósito é entender a contínua relação entre Educação e Cidadania, e por extensão a Educação Física, sem a intenção de aprofundar origens históricas, mas de reunir alguns subsídios teóricos que possibilitem que a discussão caminhe muito além da explicação de uma simples correlação, realizada de um modo direto e irrefletido, entre a educação física escolar e a formação do cidadão. Portanto, visto que a Educação Física é um componente curricular obrigatório na educação básica, almeja-se discutir: a relação existente entre a participação nas aulas desta disciplina e o processo de desenvolvimento e formação da cidadania do aluno.

Por fim, na busca por obter respostas a tal questão motivadora para a elaboração deste trabalho, será utilizado como instrumento de pesquisa um questionário direcionado aos professores regentes em turmas do 3º ao 5º ano do ensino fundamental, onde o aluno se encontra mais receptivo a construção e incorporação de atitudes e valores relativos ao respeito às regras, em escolas municipais de Nova Friburgo, de modo a identificar se a sua prática pedagógica está contribuído para a formação do aluno cidadão.

A seguir, com o objetivo de construir uma fundamentação teórica para este trabalho, serão abordados de forma inicial alguns conceitos como: Cidadania, Educação, o papel da Educação Física Escolar na formação do aluno cidadão e a abordagem pedagógica da Educação Física Escolar que orienta sua finalidade no interior da escola para formação da cidadania.

3. REVISÃO DE LITERATURA

3.1 Conceito de Cidadania

O termo cidadania tem se tornado um dos principais assuntos em evidência na atualidade, no qual tem sido conceituado e compreendido por diversos autores, promovendo a reflexão acerca das questões sociais voltadas para assegurar a participação social na busca por soluções.

Segundo Alvori Ahlert (2004), a cidadania passou a ser o foco de diversos discursos políticos e sociais, sendo assim, mesmo que superficialmente, será necessário entender a origem desse termo e como o seu conceito foi se modificando com o passar do tempo, objetivando facilitar a sua compreensão nos dias atuais e no posicionamento do ser humano frente a ela.

A cidadania teve suas raízes na Grécia, onde esta sociedade considerava que para ser cidadão era necessário participar, viver a vida da cidade. Ou seja, “uma sociedade em que a democracia era direta e não existia representante do povo, cada cidadão tinha acesso às assembleias nas quais podia argumentar em prol de suas posições” (AHLERT, 2004, p. 48).

Neste contexto o cidadão começou a ter um contato mais diretamente com o Estado, nessa perspectiva surgem direitos e deveres. Porém, é em Roma que o termo Cidadania assume um significado jurídico.

Alguns autores realizaram vários estudos referentes à Cidadania, procurando desenvolver um conceito cada vez mais completo e de fácil compreensão, dentre eles, encontra-se T. H. Marshall, um sociólogo britânico que construiu uma base de análise muito importante sobre esse termo, e até mesmo, muitos estudiosos citam em suas publicações e pesquisas a definição de cidadania dada por ele, que consiste na ideia de que:

A cidadania define-se como um status que é concebido aos indivíduos que são membros integrantes de uma comunidade, onde todos que possuem este status tornam-se iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status. Não existe nenhum princípio que determine quais serão esses direitos e obrigações, porém as sociedades nas quais a cidadania é um instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e a aspiração pode ser dirigida” (MARSHALL, 1967, p. 76).

Nessa definição, fica claro a grande contribuição dada pelo autor ao colocar a cidadania como um conceito em constante mudança e transformação, condição que a torna impossível de ser mensurada através de um medidor universal. Sendo assim, uma construção social e um conjunto comportamental que iria caracterizar o indivíduo como um cidadão, ao mesmo tempo em que marginalizariam aqueles que não apresentassem determinadas condutas.

Marshall (1967) relata outra perspectiva do conceito de Cidadania que serviu como base nesta pesquisa, a divisão da cidadania em três âmbitos: os direitos civis, os direitos políticos e os direitos sociais, os quais não surgiram simultaneamente, mas sucessivamente, desde o século XVIII até o século XX. De acordo com este autor, essa divisão é justificada mais pelas questões históricas do que pela lógica, onde ele dar uma definição para os três elementos, revelando que:

O elemento civil é baseado nos direitos relativos à liberdade individual – o direito de ir e vir, a liberdade de imprensa, pensamento e fé, o direito á propriedade e o direito á justiça, onde afirma que deve ser igual para todos. Já o elemento político, é entendido como o direito de participar no exercício do poder político, mesmo que seja de uma forma indireta na condição de eleitor. Por fim, o elemento social é composto por tudo compreendido desde o direito a um padrão mínimo de bem-estar econômico e segurança ao participar, por completo, na herança social, até o direito de acesso aos bens culturais e a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões impostos pela sociedade” (MARSHALL, 1967, p. 63-64).

Neste sentido, fica claro que a cidadania exige o exercício de deveres para que os próprios direitos se efetivem. Ou seja, cada indivíduo deve almejar a busca e a construção coletiva dos direitos; o exercício da responsabilidade com a coletividade; o cumprimento de regras e normas de convivência, produção, gestão e consumo que são estabelecidos pela coletividade; busca efetivamente participar da política a fins de controlar seus governos eleitos dentro dos princípios democráticos.

Segundo Teixeira e Vale (2000), a cidadania deve ser definida de uma forma que não haja uma abstração teórica. Desse modo, eles entendem que o termo cidadania não pode estar desvinculado das reais condições sociais, políticas e econômicas que constituem a sociedade. Explicam ainda que para uma cidadania efetiva é necessário reunir algumas categorias indispensáveis para seu exercício que implica, primeiramente, na participação organizada para que as pessoas não sejam objetos da ação, mas sujeitos integrantes da prática política da comunidade e, até a do Governo Federal.

É necessário ressaltar o posicionamento crítico de Marshall quanto ao uso do termo cidadania no modelo de produção capitalista, ao afirmar que:

[...] o contrato moderno é essencialmente um acordo realizado entre homens que são livres e iguais em status, embora não necessariamente que estejam em poder. O status não foi extinto do sistema social. O status diferencial, associado com classe, função e família, foram substituídos pelo único status uniforme de cidadania que ofereceu o fundamento de igualdade sobre a qual estrutura da desigualdade foi edificada” (MARSHALL, 1967, p. 79-80).

Segundo o autor, ao realizar esta reflexão entende-se o “direito” como uma máscara eficaz que disfarça a desigualdade. Dentre seus questionamentos, Marshall critica a forma de que ter o direito à propriedade não significa possuir efetivamente o direito de posse sobre a mesma, mas de comprá-la se puder. Além disso, o autor faz críticas a respeito da tão vangloriada liberdade de expressão, pois afinal teria importância se, por ignorância, um indivíduo tivesse pouco a dizer e nenhuma forma de se fazer ouvir.

Tal entendimento de que exercer a plena cidadania implica em propiciar igualdade de oportunidades a toda sociedade, o que difere de se apelar apenas ao conhecimento de Direitos e Deveres sem deles o indivíduo se apropriar.

Dito isto, para efeito do estudo a que este trabalho se propõe adotaremos a perspectiva de Cidadania nesse nível mais superficial de transmitir o conhecimento ao indivíduo acerca de seus direitos e deveres contemplando apenas o nível instrumental do conceito.

3.2 A Perspectiva da Educação no Desenvolvimento da Cidadania

Desde há algum tempo, nota-se que nos debates e discussões relacionados ao sistema de ensino encontramos a correlação entre os temas Educação e Cidadania. Onde por um lado temos como uma das principais finalidades da educação o desenvolvimento e promoção da cidadania. Formação assegurada na Constituição Federal de 1988, artigo 205:

[...] a educação, como um direito de todos e dever do Estado e da família, deverá ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, objetivando o pleno desenvolvimento da pessoa, sua preparação para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mercado de trabalho” (BRASIL, 1998).

Embora saibamos que a educação tem por finalidade “preparar o indivíduo para a cidadania”, torna-se necessário ressaltar que esta expressão pode apresentar inúmeros significados, uma vez que vimos várias formas de definirmos Cidadania. A Constituição Federal deixa claro o papel da escola, enquanto um local fundamental para o desenvolvimento da cidadania na educação dos indivíduos.

Essa relação entre a educação e a cidadania é discutida por muitos autores, por exemplo, Benevides afirma que ”[...] não há dúvidas de que a educação política é entendida como educação para cidadania ativa, o que se torna o ponto principal da participação popular.” (BENEVIDES, 1994, p. 10).

Para a autora, a educação funciona como o caminho central e fundamental para a construção da cidadania, defendendo que essa educação deve ser promovida na prática, já que para aprender é necessário fazer, e com isso os espaços de aprendizagem da cidadania se expandirão para além da escola.

No entanto, quando nos depararmos com o texto “A Escola e A Construção da Cidadania”, do autor Antônio J. Severino, evidenciamos que para ele “a educação funciona como um meio para a cidadania e que a cidadania é entendida como uma qualificação da condição da existência dos homens” (SEVERINO, 1992, p. 9-10).

Nesse contexto, se a escola é o espaço que proporciona a aprendizagem da cidadania, de acordo com Severino ela não conclui no ambiente escolar, mas deve ser ali desenvolvida para que possa ser exercida no âmbito extraescolar.

Para Miguel Arroyo, o pensamento e a prática política sempre estiveram marcados pela ideia do despreparo das camadas populares para exercerem a cidadania, a participação. Logo, a educação seria a responsável pelo “treinamento” das habilidades necessárias à cidadania.

Com isso, o autor destaca como é importante não perder de vista o momento histórico em que nasce a relação entre educação, cidadania e participação: para ele, esse momento se refere àquele em que se fazia necessária uma massa de trabalhadores disponíveis e livres para o mercado que não ganhava espaço da agricultura, ou seja, “os súditos tinham que ser feitos cidadãos livres para a participação na cidade, no novo convívio social” (ARROYO; BUFFA; NOSELLA, 2000, p.38).

Além disso, o autor Arroyo nos relata ainda que:

passar por cima de tal lógica global e dos efeitos reais que ela legitimou, continuando defendendo que a educação é um ritual sagrado que serve como passagem para o reino da liberdade é uma forma de contribuir para que a cidadania continue a ser negada, reprimida e protelada” (ARROYO; BUFFA; NOSELLA, 2000, p.40).

Sua questão central é possibilitar, ou melhor, tornar explícito para os profissionais da educação e as camadas populares, os verdadeiros determinantes socioeconômicos para a exclusão da cidadania.

Para ele, a cidadania “não é uma questão pedagógica, e sim, uma questão política, pois reduzir a questão da cidadania dos trabalhadores a uma questão educativa é uma forma de ocultar a questão da base” (ARROYO; BUFFA; NOSELLA, 2000, p. 47).

Ainda segundo Arroyo (2000), pelo fato de que os aspectos políticos ainda sejam considerados um tabu dentro da nossa sociedade, a política não conseguiu conquistar o seu espaço dentro da educação brasileira, pois muitas vezes as decisões e os planos de nossos governantes fazem com que a cidadania esteja acima ou nada haver com a política.

No entanto, alguns autores abordam e revelam a correlação existente entre educação e cidadania, com o objetivo de comprovar como ocorrer à inseparabilidade entre esses dois termos dentro do processo educativo, nos mostrando que política e educação estarão sempre interligadas. Por exemplo, Ferreira (2000) nos relata que “[...] ao lecionar, o educador através da sua prática educativa sempre traz em si uma filosofia política, tendo a consciência disso ou não” (FERREIRA, 1993, p. 5). Já Freire (2000), afirma que “[...] não é possível separar política de educação, pois o ato político é pedagógico e o ato pedagógico é político”.

Neste sentido, buscando ressaltar ainda mais a importância de conhecermos a relação entre educação, cidadania e política na formação do cidadão, encontrarmos na atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, uma importante afirmação que:

[...] nomeia o Ensino Fundamental como educação básica e que tem por finalidade desenvolver o educando, assegurando-lhe a sua formação para o exercício da cidadania e fornecendo-lhe meios para progredir no mercado profissional e em estudos posteriores” (BRASIL, 1998, p. 41).

Ainda segundo a atual LDBEN, essa formação ocorre através de várias formas, dentre elas, destacamos:

I – o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;

II – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;

III – o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;

IV – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. (BRASIL, 2000, p. 30)

De certa forma, o sistema educacional em geral visa à integração do indivíduo ao conjunto da sociedade, ou seja, ela busca desenvolver a socialização, inclusive nos modelos das teorias críticas e transformadoras, como lembra o autor Ferreira (1993, p. 10), quando assinala que “[...] a luta pela definição dos fins da educação inscreve-se na luta de classes como luta por hegemonia”.

3.3 Cidadania: uma finalidade da Educação Física Escolar?

A Educação Física constitui o seu campo de trabalho fundamentado nas concepções de corpo e movimento. Tal visão permitiu a superação de sua condição histórica limitadora que se restringia aos aspectos fisiológicos e técnicos. Nos dias atuais, se considera as dimensões culturais, sociais, políticas e afetivas que constituem o corpus cidadão.

Com isso, a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a Educação Física assumiu uma nova condição: atuar numa perspectiva de cultura corporal, o que acaba ampliando o papel da Educação Física Escolar para o exercício da cidadania.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998, p.7) esses são alguns dos objetivos propostos para as aulas de Educação Física do terceiro ao quinto ano do ensino fundamental:

  • Compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercícios de direitos de deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito.

  • Desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania.

É notável que as aulas de Educação Física tenham tracejado de modo explicito que vem influenciando há um bom tempo à formação do cidadão como um ser social.

Para Melo e Simões (2007), diante das diversas transformações que aconteceram com a Educação Física desde o século passado, a educação Física teve papel fundamental no contexto do ensino fundamental para formação do aluno como cidadão.

Podemos ressaltar algumas menções que são feitas à Educação Física com relação à cidadania nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Para os autores, nos PCN’s a concepção de cultura corporal de movimento amplia a contribuição da Educação Física Escolar para que o exerça a cidadania. (MELO e SIMÕES, 2007).

Outro fator importante no eixo norteador dos PCN’s e que segue sendo citado pelos autores é de que a Educação Física tem o dever de incluir todos nas atividades escolares, independente da altura, peso, habilidades e dificuldades, objetivando todos os benefícios que a atividade pode proporcionara todos sem distinção.

A escola tem o papel fundamental na formação de seres críticos e sociáveis, e a Educação Física vem influenciando de muitas formas a coletividade e a interação no meio extraescolar, conforme pode ser comprovado em um dos trechos de uma publicação do autor Alvori Ahlert, onde relata que:

A partir da Educação Física escolar, desafia-se a escola a interagir mais com a sociedade através de projetos múltiplos e interdisciplinares, por exemplo, Rua do Lazer, Ginástica na Praia, no Parque, na Praça, Passeios Ciclísticos, Caminhadas Urbanas Interbairros para que a população conheça sua cidade, sua realidade e desenvolva um senso critico face aos problemas que esta realidade apresenta” (AHLERT, 2004, p. 56).

A Escola deve-se manter unificada com relação à educação e educação física escolar, tendo em vista a importância não só dos profissionais que lecionam, mas também todos profissionais que fazem com que a “engrenagem” funcione na formação do cidadão como um todo.

Essa aprendizagem da cidadania deve ser vivenciada na prática com todos aqueles que o educando tem contato, não só o professor é responsável, mas todos no ambiente escolar, desde o funcionário que atua na limpeza até a direção da escola” (MOLINA, 2010, p.18).

Nesse sentido, o autor assegura que a Educação Física Escolar é, assim, “uma área do conhecimento que, por excelência, pode lançar as bases para se colocar uma sociedade em movimento para buscar a cidadania plena” (AHLERT, 2004, p. 57).

De acordo com esses autores, buscar a cidadania através da Educação Física é considerado um ganho para a sociedade, pois existirá um relacionamento melhor entre os indivíduos nela inseridos e maior participação de todos em busca de um bem comum e maior conhecimento na busca da consciência política.

4. METODOLOGIA

O presente estudo é de caráter exploratório, pois objetiva a familiarização com os conceitos a respeito do problema a ser investigado, buscando torná-lo explícito ou realizar a construção de hipóteses relacionadas ao mesmo (GIL, 2010). Sendo de natureza qualitativa por se pautar no método sistemático de investigação, onde o pesquisador desempenha um papel fundamental na coleta e análise de dados (THOMAS e NELSON, 2002).

Para Gil (2010), uma pesquisa além de receber uma classificação segundo os seus objetivos, também possui uma classificação segundo os procedimentos técnicos, que nesse estudo se caracteriza como um Estudo de Campo. Para tanto será adotado como instrumento de pesquisa um questionário elaborado pelos próprios pesquisadores, a partir de questionários utilizados em outras pesquisas de igual natureza. O tipo de questionário a ser aplicado será semiestruturado por conter perguntas abertas e fechadas, que deverão ser respondidas pelos professores de Educação Física mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo B).

4.1 Coleta de dados

Foi realizado um levantamento junto a Secretária de Educação do município de Nova Friburgo com o objetivo de identificar quantas e quais escolas municipais tem na grade curricular a disciplina Educação Física.

A partir deste levantamento foram selecionadas as escolas que possuíam professores formados em Educação Física, independente do gênero, atuantes em turmas do 3º ao 5º ano do ensino fundamental.

O critério de seleção adotado para o segmento de ensino foi em função da faixa etária prevista para o 3º, 4º e 5º anos (8 a 10 anos aproximadamente) propiciando a formação moral do aluno.

Segundo Jean Piaget, nesta faixa etária a criança já saiu da fase conhecida como Anomia na qual ela é totalmente dependente de um adulto; passou pela fase Egocêntrica, onde há uma conduta intermediária entre as condutas socializadas e as puramente individuais e o adulto exerce pressão sobre o pensamento infantil através de intercâmbios verbais, e a criança passa a se socializar melhor de acordo com suas orientações. Entretanto, já apresenta algumas noções do que pode ser feito ou não; e, finalmente, passa a fase denominada Autonomia, em que a criança já é capaz de decidir, por exemplo, a brincadeira que o grupo pretende desenvolver, estipulando as regras e se fazendo cumpri-las, evidenciando a autonomia como uma das fases do juízo moral (PIAGET, 1977).

Feito a identificação das escolas e professores, nos dias 03, 05, 06, 10 e 11 de Novembro de 2015, comparecemos as escolas munidos com a Carta de Apresentação (Anexo A) para a Direção permitir nossa entrada na instituição, e com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo B) para os professores tomarem ciência sobre o estudo e o uso de suas informações. Mediante a assinatura do TCLE foi aplicado o questionário para 08 professores de Educação Física com faixa etária entre 36 e 57 anos de idade que lecionam em turmas do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental em escolas municipais de Nova Friburgo.

5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Ao realizar a análise e discussão dos resultados dessa pesquisa, buscou-se desenvolver uma análise reflexiva desses dados, correlacionando a revisão teórica da literatura a respeito da Cidadania, Educação e Educação Física Escolar; as respostas dadas pelos entrevistados e a análise dos pesquisadores (LUDKE; ANDRÉ, 1986).

Para fins de preservar o anonimato dos entrevistados na análise das respostas, os professores receberam uma identificação para que os seus relatos sejam identificados sem expô-los, por isso, seus nomes foram substituídos por Sujeito 1, Sujeito 2, e assim por diante até o Sujeito 8.

5.1 Análise e Discussão

A parte inicial do questionário aplicado buscou identificar o tempo de formação (Figura 1) e o tempo de magistério dedicado a Educação Física Escolar (Figura 2) como mostra os gráficos abaixo:

Com isso, verifica-se que no primeiro gráfico a maior concentração ocorreu entre os professores com mais de 20 anos de formação e no segundo gráfico, a maior concentração se deu entre os professores que já possuem aproximadamente mais de 20 anos trabalhando na Educação Física Escolar.

Ora, como os dados contidos nesses gráficos podem ser relacionados com o tema desenvolvido neste estudo, que aborda à contribuição dada pela Educação Física Escolar na formação da cidadania do aluno?

Dessa forma, na busca de obter uma resposta para tal pergunta em questão, devemos realizar uma reflexão de que se esses professores que estão trabalhando com a Educação Física, são formados a mais de 20 anos, significa que eles receberam uma formação ainda muito esportista, embora o contexto educacional na época estivesse passando por mudanças, já que em 1996 foi promulgada a atual LDB e em 1997 foi instaurado os Parâmetros Curriculares Nacionais no sistema de ensino brasileiro, que de certa forma favoreceu e deu uma importância maior a formação da cidadania.

Logo, isso aponta que esse professor no que se refere ao seu nível prático, ainda é proveniente de uma formação muito pautada no esporte que, consequentemente, embora ele já tenha 20 anos de prática na área escolar como professor de Educação Física, sugere que ele ainda por vir de uma formação acadêmica mais tradicional onde o conteúdo esportista era privilegiado, isso se reflita na sua prática.

Neste sentido, Darido (2003) em uma de suas publicações afirma que mesmo com o passar dos anos esse caráter esportivo e mecanicista ainda se faz presente na Educação Física Escolar, onde a autora retrata que “o papel do professor é bastante centralizador e a prática uma repetição mecânica dos movimentos esportivos” (DARIDO, 2003, p.03).

Além disso, a mesma autora expõe que, em determinados casos, a crítica exagerada aos esportes de rendimento voltou-se para o outro extremo, pois os alunos é que decidem quais atividades querem realizar na aula, ou seja, os próprios alunos podem escolher o jogo e a forma como querem praticá-lo, restringindo o papel do professor “a oferecer uma bola e marcar o tempo” (DARIDO, 2003, p.14).

Portanto, isso sugere a falta de criatividade, motivação e o comodismo que afeta em grande parte dos professores, principalmente, aqueles que já atuam por muito tempo nessa disciplina.

As perguntas 1, 2, 4 e 5 estão relacionadas à vivência durante a vida escolar desses professores na condição de alunos verificou-se que todos os professores vivenciaram o esporte na sua época escolar e que foi de suma importância para formação deles, o que pode ser comprovado no relato e na figura a seguir:

Comecei participando de competições na escola chegando a representar minha cidade (Presidente Prudente – SP) em campeonatos regionais, estaduais e nacionais. Vivenciei vitórias e derrotas, fortalecendo o caráter, o respeito e o companheirismo” (Sujeito 1).

Desse modo, quando perguntado sobre os conteúdos pedagógicos desenvolvidos em suas turmas do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental, identificou-se que as atividades de iniciação desportiva de modalidades diversas e jogos pré-desportivos obtiveram um percentual maior do que os percentuais obtidos com as atividades recreativas e àquelas voltadas para a estimulação psicomotora referente à pergunta 3 como demonstra o gráfico a seguir:

Além disso, a maioria dos professores entrevistados gostava de participar das aulas de Educação Física, devido às atividades serem bem construtivas, descontraídas e divertidas, fatores esses que podem ser comprovados na figura 5 e nas duas respostas a seguir:

Sempre gostei de recreação e jogos por ter facilidade de interagir com meus colegas e curiosidade em saber até onde poderia explorar as possibilidades de meu corpo e do espaço físico, como também o lado lúdico propriamente dito” (Sujeito 3).

Por que permitia conhecer e adquirir valores, as aulas eram dinâmicas e dava liberdade aos movimentos, facilitava as relações interpessoais e proporcionava um bem-estar físico e mental” (Sujeito 5).

Só uma minoria não gostava de participar das aulas pelo fato das aulas beneficiarem somente aos alunos que possuíam maior aptidão para o esporte, o que pode ser representado pelo seguinte relato:

Minha professora dava a bola para os alunos e ficava sentada vendo os alunos jogarem o “futebolzinho” na quadra. Só jogava quem sabia e quem não sabia ficava olhando como era o meu caso, que por ser uma criança que apresentava um grau de obesidade naquela época, odiava as aulas de Educação Física por não aguentar correr e ser “zoado” nos jogos que eu tentava participar” (Sujeito 7).

As respostas sugerem que nas aulas de Educação Física Escolar estejam sendo desenvolvidas as atividades que fizeram parte da trajetória estudantil dos professores, ou seja, o conteúdo privilegiado nas aulas são as atividades vivenciadas durante o período escolar, e talvez reforçadas com a formação acadêmica de cada um deles, como mostra o gráfico a seguir:

Assim, se grande parte dos professores pesquisados utilizam atualmente em suas aulas, atividades voltadas para o ensino dos desportos tradicionais, torna-se mais do que evidente que a Educação Física Escolar ainda continua caminhando em grande proporção no sentido de promover aulas que desenvolvam a aprendizagem de técnicas e fundamentos das modalidades esportivas para os alunos que apresentam maiores aptidões, fazendo com que a transmissão de valores e a formação do aluno para a cidadania fiquem em segundo plano.

Tal preocupação fica evidente na perspectiva de Castellani Filho (2002) ao afirma que é possível trabalharmos com o esporte visando não somente o aprendizado do esporte em si, mas sim, o desenvolvimento de todos os aspectos do aluno, como exemplifica no trecho a seguir:

[...] desejamos que todo o conhecimento necessário à organização de um evento esportivo, por exemplo, seja entendido como um patrimônio de cultura corporal a ser estendida ao acervo cultural do aluno, de modo a permitir-lhe autonomia na realização de suas competições esportivas. Mais do que isso, perceberem-se capazes de realizarem seus jogos, ainda que não automática e mecanicamente, fará com que eles se sintam confiantes e sensíveis a possibilidade de chamarem para si a tarefa de resolução dos seus problemas, de todos eles, não somente daqueles restritos ao universo esportivo” (CASTELLANI FILHO, 2002, p. 62).

O autor defende ainda, que ao considerarmos a técnica esportiva, por exemplo, não devemos perder de vista que essa técnica é um conhecimento, portanto, ela deve estar presente nas aulas de Educação Física Escolar devido ao fato dela ser um saber que o aluno tem direito a acessar e não por melhorar o seu rendimento esportivo.

Em seguida, foi verificado que dentre as respostas dos professores o aspecto afetivo se colocou como o principal aspecto a ser trabalhado nas aulas de Educação Física para as turmas do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental, seguido pelo aspecto psicomotor e, por fim, pelo aspecto cognitivo.

Vejamos no gráfico a seguir:

Como comprovação de que a maioria dos entrevistados considerou o aspecto afetivo dentre os outros como sendo o mais importante para ser desenvolvido nas aulas de Educação Física, podemos citar o relato de um dos professores:

Acredito que os alunos se dedicam mais quando se sentem amados e queridos, o que passa para as suas relações extra salas. As aulas são uma forma de aprender a lidar com o afetivo aliado ao conhecimento teórico e prático” (Sujeito 8).

Durante a aplicação do questionário, no entanto, foi perceptível que os professores aos responderem as perguntas fizeram questão de enfatizarem que não se deve trabalhar somente um dos aspectos do aluno, e sim, procurar meios de proporcionar o desenvolvimento e o aprendizado integral desse aluno, de modo que todos os aspectos envolvidos nesse processo se associam e integram entre si, objetivando contribuir para a formação desse indivíduo, o que pode ser comprovado na resposta a seguir:

Considero que o aspecto cognitivo não se dissocia do social e do afetivo, pois acredito que as aulas de Educação Física devem visar o desenvolvimento integral desses aspectos já que uma aula dessa disciplina constitui num excelente momento para que os alunos pratiquem o respeito, a boa convivência, a atenção, as regras e normas, o envolvimento e o prazer” (Sujeito 6).

Para os professores, o desenvolvimento do aluno quanto a sua formação social torna-se importante devido ao fato de desenvolver a transmissão de valores e a formação do cidadão; a socialização e interação e a cooperação e o respeito ao próximo. Fatores esses que são mostrados no gráfico a seguir:

Promover um ensino que vise à formação de um indivíduo crítico, pensante e participativo no meio em que ele se insere, fazendo com que ele perceba sua importância no meio e a importância do meio para ele” (Sujeito 4).

A socialização do indivíduo ou da criança se dá através da integração de valores e normas de conduta, sendo assim, nas aulas de Educação Física encontram-se momentos aprovados e privilegiados para o desenvolvimento da socialização através de jogos e brincadeiras” (Sujeito 2).

Os alunos dessa fase vem carregados de problemas e traumas sociais, onde se trabalharmos a cooperação, a coletividade e o respeito ao próximo, eles aprendem a lidar com suas próprias experiências, o que acaba fazendo com que eles superem esses traumas” (Sujeito 7).

O gráfico a seguir, mostra o percentual que cada prática desenvolvida na Educação Física Escolar obteve entre as respostas coletadas, quando o assunto abordado foi o desenvolvimento do aspecto social, de modo que pudesse verificar os as práticas utilizadas em prol da sua melhoria após o mesmo ser trabalhado nas aulas.

Como nos mostra o gráfico a seguir:

Diante disso, vale ressaltar que todos os professores participantes da pesquisa identificam uma melhoria significativa no aspecto social do aluno após ser trabalhado nas aulas de Educação Física. Possivelmente, essa melhoria ocorra devido à cooperação e o trabalho em equipe, como relata um dos professores:

Os jogos cooperativos realizados durante as aulas possibilitam o aluno desenvolver os valores com respeito mútuo, confiança e trabalho em equipe, que para a criança, é nada mais, que uma grande brincadeira com os amigos e aí já está acontecendo de uma forma natural e espontânea uma socialização” (Sujeito 3).

Observou-se ainda que uma parte intermediária dos participantes envolvidos no estudo afirmou que as melhorias aconteceram por causa da atitude, como descreveu um dos entrevistados:

Através das atitudes nos jogos dentro da escola e nos momentos fora dela, no caso dos passeios” (Sujeito 6).

Por fim, notou-se que somente uma pequena parte das respostas obtidas destacou o comportamento como sendo uma das melhorias, quando se trabalha o aspecto social de uma criança. O que pode ser percebido na seguinte resposta:

Pode ser verificada através de melhoras no seu comportamento durante as aulas, em casa, na sala de aula, partindo de um tempo determinado e esperado” (Sujeito 1).

Sendo assim, quando abordamos as perguntas que dizem respeito à cidadania, verificamos que as respostas obtidas evidenciam uma tendência voltada para a formação da cidadania, reconhecendo que a escola sozinha não dá conta dessa complexa tarefa de ajudar as crianças, os adolescentes e os jovens no seu crescimento, desenvolvimento e aprendizagem.

Tanto que, para quase todos os professores, a construção da cidadania se dá através da sinergia entre o poder público, as organizações da sociedade civil, escolas, sindicatos, clubes de serviços, dentre outros. Porém, teve uma minoria que assinalou que a construção da cidadania depende somente das autoridades e da população, como evidencia o gráfico seguinte:

Em seguida, quando perguntado se a cidadania é uma temática importante dentro da Educação Física Escolar, obteve-se a seguinte resposta:

Essa realidade nos mostra que os professores de Educação Física Escolar trazem de sua formação acadêmica um conhecimento e uma preocupação intensa com as perspectivas de formar para a cidadania através de sua área de atuação.

Em outras palavras, isso significa que eles estão abertos a proposições de extensão e pesquisa junto às comunidades, a pedagogias participativas para o desenvolvimento de projetos que ajudem na organização das comunidades com as quais atuam.

Em contrapartida, quando os pesquisadores perguntaram como a escola em que eles atuavam trabalhava a cidadania, foi perceptível que dentre as respostas um número satisfatório de professores afirmou que a cidadania é trabalhada de forma individual, através dos conteúdos curriculares e que ocorre também através dos projetos que acontecem de forma isolada em cada disciplina.

Apenas uma pequena parte assinalou que os projetos voltados para a formação da cidadania desenvolvidos pela sua escola são de caráter interdisciplinar, ou seja, são projetos que visam envolver todas as disciplinas, os professores e alunos, fazendo com que as possibilidades de formação da cidadania sejam ampliadas.

Portanto, a maioria das respostas apontou que os projetos existem numa perspectiva individual de cada professor, onde o mesmo planeja e executa determinado projeto para a sua disciplina, aplicando-o numa turma específica, sem que abranja toda a escola.

Tais respostas podem ser comprovadas nos percentuais das respostas obtidas conforme o gráfico a seguir:

Logo, o gráfico evidencia que a maior parte das respostas obtidas considerou a cidadania como um assunto que deve ser abordado e trabalhado de modo que seja ela abrangida dentro dos projetos isolados de cada disciplina ou aconteça de forma individual através dos conteúdos curriculares, o que acaba diminuindo muito a capacidade e o alcance destes projetos atingirem as metas mais básicas de formação para a cidadania, justamente, por ocorrem de forma fragmentada.

Apesar dos professores terem consciência a respeito do potencial da Educação Física colaborar com a formação da cidadania, as instituições de ensino parecem não se encontrar em condições pedagogicamente organizadas para absorver as ações dentro do contexto educacional.

Partindo nessa perspectiva, Castellani Filho (2002), expõe que a Educação Física é uma disciplina que apresenta dificuldades de se desvincular do desporto de performance, prevalecendo quase sempre às modalidades mais tradicionais: futebol, basquetebol, voleibol e handebol.

Ao observar essa necessidade de que a Educação Física possui de se desvencilhar dessas amarras pedagógicas, ultrapassadas e alienadas, o autor enfatiza ainda que:

O ensino da Educação Física Escolar tem se caracterizado pela limitação de reprodução dos gestos motores, imitação de modalidades esportivas com todas as suas características competitivas, aperfeiçoamento de gestos, busca de desempenho, enfim um ensino que procura acentuar a especialização destas manifestações” (CASTELLANI FILHO, 2002, p.04).

Ficou evidente, portanto, que dentre as escolas da amostra, as aulas de Educação Física ainda seguem o modelo tradicional, no qual o esporte, suas técnicas e fundamentos são encarados como conteúdo principal com ênfase apenas no plano motor. Sem que os conteúdos sejam explorados de forma mais ampla para o aluno, de modo que este conhecimento contribua efetivamente na sua formação como um todo, agregando valores, regras, normas, respeito, companheirismo e outros aspectos relevantes na sua formação como cidadão.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atualmente, encontramos muitos discursos sobre a temática cidadania e educação, cujo objetivo é desenvolver o entendimento da relação existente entre o sistema de ensino brasileiro e a formação do indivíduo para a cidadania, de modo que possamos compreender o papel desempenhado pela educação no processo de formação cidadã dos alunos.

Em outras palavras, isso significa dizer que essa deve ser a preocupação fundamental da escola estando presente não somente nos debates pedagógicos, mas que se aproxime da prática pedagógica dos professores com vista a promover a conscientização de todos os envolvidos no processo de aprendizagem.

Através do presente estudo foi possível verificar que a produção do conhecimento sobre Cidadania e Educação Física Escolar merece maior atenção, pois embora os professores tenham consciência de como a Educação Física é importante neste processo, na prática muitos deles ainda estão fechados à visão do esporte como principal conteúdo a ser desenvolvido nas aulas, não levando o aluno a se apropriar do seu corpo e das práticas da cultura corporal do contexto social onde está inserido. Ainda no que se refere à investigação realizada, percebemos que além da aplicação de questionário seria interessante a observação de um conjunto de aulas para confrontarmos o discurso e a prática dos professores.

Neste sentido sugerimos que o espaço de discussão e a produção do conhecimento na Educação Física sejam ampliados de modo a alcançar a prática do professor na escola. Principalmente a realização de pesquisas abrangendo diferentes contextos socioeconômicos, instituições de ensino e segmentos educacionais da Educação Básica.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AHLERT, Alvori. Educação Física Escolar e Cidadania. Revista VIDYA, Vol. 24, nº 42, p. 47-60, Jul./Dez. - Santa Maria, 2004.

ARROYO; M.; BUFFA, E; NOSELLA, P. Educação e Cidadania: quem educa o cidadão? 8ª Edição, São Paulo: Cortez, 2000.

BENEVIDES, M. V. M. Cidadania e Democracia, Lua Nova, nº 33, p. 5-16, 1994.

BORGES, Cecília Maria Ferreira. O Professor de Educação Física e a construção do saber. Campinas, SP: Papirus, 1998.

BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto Alegre: Magister, 3ª Edição, 2005.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC / SEF, 1998.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: MEC, 1997.

BRASIL. Lei no 9.394/96- Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 1996.

BRASIL. Constituição Federal de 1988. Promulgada em 05 de outubro de 1988.

CASTELLANI FILHO, L. Classes de aceleração: uma proposta pedagógica para a educação física. In: Política Educacional e Educação Física. 2ª Edição, Campinas, São Paulo, 2002.

DARIDO, Suraya Cristina. Educação Física na Escola – Questões e Reflexões. Rio de Janeiro, RJ: Guanabara Koogan S.A., 2003.

FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. 3ª Edição. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

GIL, Antônio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 5ª Edição. São Paulo: Atlas, 2010.

GUIMARÂES, Ana Archangelo, et al. Educação Física Escolar: Atitudes e Valores. São Paulo, Vol. 7, nº 1, p. 17-22, Jan./Jun., 2001.

LUDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.

MARSHALL, T. H. Cidadania, Classe Social e Status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

MELO, Joana de Barros; SIMÕES, José Luís. A Contribuição da Educação Física, no Ensino Fundamental, na Formação do Cidadão. Anais I Congresso Nacional de Educação Física, Saúde e Cultura Corporal – CNEF – Recife 03 a 06 de Julho de 2007.

MOLINA, Flaviana Fellegger. Educação em valores nas aulas de educação Física: análise de projeto que visa à cidadania e autonomia dos educandos. Tese (Mestrado em Educação Física) 2010. Universidade São Judas Tadeu. São Paulo.

PATACO, Vera Lucia Paracampos. Metodologia para trabalhos acadêmicos e normas de apresentação gráfica. Vera Lucia Paracampos Pataco, Magda Maria Ventura, Érica dos Santos Resende – 4ª Edição, Rio de Janeiro: LTC, 2008.

PIAGET, J. O Julgamento Moral na Criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

SEVERINO, A. J. A escola e a construção da cidadania. In: SEVERINO, A. J. et al. Sociedade civil e educação. Campinas: Papirus, São Paulo: Ande, 1992.

TEIXEIRA, Paulo Marcelo Marini; VALE, José Misael Ferreira do. Ensino de Biologia e Cidadania: problemas que envolvem a prática pedagógica de educadores. In: NARDI, Roberto (org.). Educação em ciências: da pesquisa à prática docente. São Paulo: Escrituras Editora, 2000. [Educação para a Ciência].

THOMAS, J. R.; NELSON, J. K. Métodos e tipos de pesquisa. 3ª Edição. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

8. ANEXOS

8.1 ANEXO A

CARTA DE APRESENTAÇÃO

Universidade Estácio de Sá
Jardim Sans Souci, s/nº Braunes – Nova Friburgo – RJ
CEP 28610-010
+55 22 25251500
http://www.estacio.br/campus/nova_friburgo

Prezado Diretor (a),

A Universidade Estácio de Sá, representada por mim, Professora Maria Fatima Paiva, vem solicitar autorização para realização de estudo sobre a contribuição da Educação Física Escolar para a formação da cidadania. Tal ação faz parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em fase de desenvolvimento, pelos discentes: Geovani Venancio Neves e Hugo Thurler Ornellas, matriculados no 6º período do curso de Educação Física (Licenciatura) desta instituição, orientados e supervisionados por mim.

Para tanto, pretende-se aplicar, questionários anônimos aos professores de Educação Física da rede municipal de ensino com o objetivo de identificar como a Educação Física Escolar tem contribuído na formação do aluno cidadão nas escolas municipais de Nova Friburgo.

Na certeza de contar com a sua colaboração, coloco-me à disposição para qualquer esclarecimento, que se faça necessário e desde já agradeço.

Atenciosamente,

Maria Fatima Paiva.
Mestre em Educação
Professora da disciplina – Trabalho de Conclusão de Curso
Universidade Estácio de Sá – Nova Friburgo

8.2 ANEXO B

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Eu,___________________________________________________________, declaro que participarei, por livre e espontânea vontade, da pesquisa de campo a ser realizada pelos alunos Geovani Venancio Neves, matrícula 201301464236 e Hugo Thurler Ornellas, matrícula 201301746142, sob orientação da professora Maria Fatima Paiva da Universidade Estácio de Sá – Campus Nova Friburgo – RJ.

Declaro estar ciente de que a pesquisa constará da aplicação de um questionário, que será registrado pelos pesquisadores, e que as informações prestadas por mim serão mantidas sob sigilo, visto que ao estudo interessam os resultados sem a identificação individual, preservando minha privacidade.

Declaro, ainda, que minha participação será voluntária e que estarei à vontade para pedir esclarecimento e para me retirar do estudo, sem que isso implique em qualquer dano, custo ou penalidade à minha pessoa.

________________________________________
Nome do (a) participante

9. APÊNDICE I

QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PROFESSORES

Prezado colaborador, agradecemos a atenção dispensada a este trabalho que tem por finalidade levantar dados sobre o Estudo sobre a relação da Educação Física Escolar no Processo de Formação do Cidadão em crianças do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental no município de Nova Friburgo.

- Idade: ________

- Sexo: ( ) Masculino           ( ) Feminino

- Tempo de Formação: _________

- Tempo de Magistério dedicado a Educação Física Escolar: _________

1) Você teve alguma vivência com esportes na sua época Escolar?

( ) Sim           ( ) Não

2) Achou importante tal vivência?

( ) Sim           ( ) Não

Justifique:

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

3) Atualmente, quais atividades vêm sendo desenvolvida por você em turmas do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental?

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

4) Você gostava das Aulas de Educação Física?

( ) Sim           ( ) Não

Por quê?

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

5) Dentre as atividades praticadas no seu período escolar, você utiliza alguma delas nas aulas que você vem ministrando?

( ) Sim           ( ) Não

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

6) Enumere em ordem crescente de importância os aspectos que devem ser trabalhados nas aulas de Educação Física.

( ) Cognitivo           ( ) Social           ( ) Psicomotor           ( ) Afetivo

( ) Outros: ___________________

7) Conforme a resposta acima, justifique a opção de maior importância.

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

8) Na sua opinião, de que forma pode ser trabalhado o aspecto social nas aulas de Educação Física do 3º ao 5º ano Ensino Fundamental?

_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

9) Você acredita que é possível identificar alguma melhoria no aspecto social do aluno após ser trabalhado nas aulas?

( ) Sim           ( ) Não

10) Se a resposta acima for positiva, como esta melhora pode ser verificada?

________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

11) Na sua opinião, a construção da Cidadania é responsabilidade de:

( ) Autoridades políticas

( ) Da população

( ) Das autoridades e da População

( ) Da sinergia entre o poder público, as organizações da sociedade civil, escolas, sindicatos, clubes de serviços, etc.

( ) Da escola

12) Você concorda que a cidadania é um tema importante na Educação Física Escolar?

( ) É de alta importância

( ) É de média importância

( ) É de pouca importância

( ) Nenhuma importância

13) A escola onde você atua trabalha a cidadania através de:

( ) Projetos interdisciplinares

( ) Projetos isolados em cada Disciplina

( ) De forma individual, através dos conteúdos curriculares

( ) Não responderam

POR GEOVANI VENANCIO NEVES E HUGO THURLER ORNELLAS


Publicado por: GEOVANI VENANCIO NEVES

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