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Efeitos do exercício físico na construção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais dos sexos masculino e feminino

Educação Física

Quando se trata da pessoa com Deficiência Visual, a Imagem Corporal aparece como fator fundamental para a concepção do próprio corpo e de tudo o que o cerca.

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1. RESUMO

Quando se trata da pessoa com Deficiência Visual, a Imagem Corporal aparece como fator fundamental para a concepção do próprio corpo e de tudo o que o cerca. A Educação Física proporciona estímulo e aprendizagem da consciência corporal através de vivências corporais significativas, possibilitando àquele desprovido da visão, explorar os outros sentidos do corpo humano; permite a socialização e a afetividade, fatores também relevantes para o desenvolvimento do “eu” e compreensão do mundo. Considerando esta questão pertinente, seja pela carência de estudos e pesquisas relacionados, como pela necessidade constante de repensar as abordagens de trabalho e de conscientizar a população em geral, optou-se por realizar um estudo com os objetivos de: conhecer os efeitos do Exercício Físico na construção da Imagem Corporal de deficientes visuais; verificar e comparar a percepção da Imagem Corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão sedentários e ativos. Para tanto, contou-se com a colaboração de 8 deficientes visuais, sendo: 4 praticantes de Exercício Físico regular e 4 sedentários; 6 do sexo masculino e 2 do sexo feminino. Como metodologia, utilizou-se quadros semi-estruturados, relacionados à auto-percepção em relação à Imagem Corporal, aspectos psicossociais e competências motoras. Aplicadas as questões dos quadros e comparados os resultados, notou-se uma melhor percepção por parte dos deficientes visuais fisicamente ativos, que responderam de forma mais fiel e positiva nos diversos fatores abordados (estatura, peso, autoestima, funcionalidade, socialização). Evidentemente, as vantagens apresentadas por aqueles que praticam Exercício Físico regularmente são consequências dos inúmeros efeitos oportunizados por esta prática, sejam eles nos aspectos físico, social ou psicológico. Conclui-se que a Educação Física é fundamental no processo de construção de uma Imagem Corporal mais completa, cabendo ao profissional desta área facilitar o desenvolvimento do deficiente visual através da prática do Exercício Físico.

Palavras-Chave: Exercício Físico; Imagem Corporal; Deficiência Visual.

2. INTRODUÇÃO

A atenção do Profissional de Educação Física pelo trabalho com pessoas com deficiência está em processo de desenvolvimento, assim como também as adaptações urbanas para esta população nos diferentes espaços sociais. Este processo está em discussão e desenvolvimento em diferentes áreas de atuação profissional, e existe uma compreensão sobre certos pontos sobre como lidar com essas pessoas e suas necessidades, e como colaborar para com seu desenvolvimento cognitivo, afetivo social e motor.

Em relação a pessoas com deficiência visual, a imagem corporal aparece como fator fundamental para a concepção do próprio corpo e de tudo o que o cerca, pois isto tem influencia em diferentes dimensões na vida do individuo, desde auto-estima e auto-eficácia, até autonomia nas atividades cotidianas. De acordo com Nasário e Ernst (2011), a imagem corporal é a forma como o indivíduo compreende o próprio corpo, sendo essa imagem construída de forma subjetiva de si mesma.

A imagem corporal também é necessária para uma vida saudável, pois interfere nos aspectos motores, sócio-afetivos e psicológicos. A visão é considerada como muito importante nessa construção, pois permite uma observação concreta dos segmentos corporais, principalmente através da imagem especular. Por isso, os deficientes visuais podem apresentar maior dificuldade para formar a sua imagem corporal.

As propostas de trabalho da educação física desenvolvem um importante papel neste processo, uma vez que seu objeto de estudo e trabalho é o movimento corporal, o que proporciona estímulo e aprendizagem da consciência corporal através de vivências corporais significativas, possibilitando a socialização e a afetividade, fatores fundamentais para que uma pessoa possa desenvolver o “eu” e compreender o mundo à sua volta.

No sentido de compreender um pouco mais estas relações, pretendeu-se realizar uma pesquisa de campo (com deficientes visuais praticantes e não praticantes de exercício físico regular), visando-se obter resultados que confirmem a hipótese de melhor percepção corporal, autonomia, socialização, satisfação e confiança relativas ao próprio corpo por parte daqueles que praticam exercício físico regularmente.

Uma vez identificadas as diferenças entre praticantes e não praticantes de exercício físico regular, há de ser analisada a contribuição da Educação Física e suas melhorias para com todos os aspectos citados, que por sua vez, são fundamentais para um desenvolvimento do deficiente visual como um todo.

A escolha deste tema deu-se pela pertinência do estudo em questão, seja pela dificuldade em encontrar estudos e pesquisas relacionados, como pela necessidade constante de repensar as abordagens de trabalho, ou pela necessidade de conscientização da população em geral.

3. OBJETIVOS

3.1 OBJETIVO GERAL

Estudar os efeitos do exercício físico na construção da imagem corporal de deficientes visuais.

3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

a) Conhecer os efeitos do exercício físico na construção da imagem corporal de deficientes visuais.

b) Verificar a percepção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão sedentários e ativos.

c) Comparar a percepção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão sedentários e ativos.

4. METODOLOGIA

4.1 Tipo de Pesquisa

A pesquisa é do tipo descritiva, pois foram utilizados questionários para analisar a percepção corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão. A natureza da pesquisa é empírica, uma vez que pretendeu-se coletar dados que fornecessem indicadores das diferenças de imagem corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão.

Visou-se obter novos conceitos e sugestões que possam contribuir com a compreensão acerca da construção da imagem corporal, apresentando subsídios que demonstrem a importância da educação física para com esta construção.

Para a escolha do método, foi realizado um levantamento bibliográfico sobre estudos semelhantes, como: INTERDONATO, G. C.; GREGUOL, M. Auto-análise da imagem corporal de adolescentes com deficiência visual sedentários e fisicamente ativos. Conexões: revista da faculdade de Educação Física da UNICAMP. v. 7, n. 3, p. 1-13, 2009; NASÁRIO, J. C.; ERNST, T. N. Imagem corporal e a deficiência visual: A Educação Física na compreensão do corpo. X congresso nacional de educação - educere. Pontifícia Universidade Católica do Paraná. p. 260-272, 2011; ALVES, M. L. T.; DUARTE, E. Imagem corporal e deficiência visual: um estudo bibliográfico das relações entre a cegueira e o desenvolvimento da imagem corporal. Pós-graduação em Educação Física, Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.

4.2 Amostra

O estudo contou com a colaboração de deficientes visuais do sexo masculino e feminino, com idades compreendidas entre 12 e 17 anos. Seguindo um padrão semelhante ao do estudo realizado por Interdonato e Greguol (2009), foram avaliados 8 deficientes visuais, sendo: 4 praticantes de exercício físico regular (no mínimo 3 dias de exercício físico por semana, fora do ambiente escolar) e 4 sedentários (não praticantes de exercício físico); 6 do sexo masculino e 2 do sexo feminino. Os 8 deficientes visuais selecionados tinham baixa visão.

4.3 Instrumento

Neste estudo, avaliou-se a percepção da imagem corporal em indivíduos com deficiência visual, comparando adolescentes praticantes e não praticantes de exercício físico regular. Para isso, selecionou-se dois quadros (Anexos 3 e 4) semi-estruturados, utilizados por Interdonato e Greguol (2009), com questões relacionadas à auto-percepção em relação à sua imagem corporal, aspectos psicossociais e competências motoras.

Dentre os questionários encontrados, foram selecionados alguns que, em nossa análise, seriam mais adequados aos objetivos do trabalho. No entanto, no sentido de colher opinião sobre nossa escolha metodológica, foram enviados a dois docentes da FaEFi PUC-Campinas, nossos objetivos e metodologia com os instrumentos selecionados, para que os mesmos oferecessem contribuições sobre a escolha e coerência metodológica.

Local:

A pesquisa foi realizada na instituição: Pró-Visão Sociedade Campineira de Atendimento ao Deficiente Visual, sendo todos os 8 adolescentes avaliados (deficientes visuais com baixa visão) alunos da mesma.

A instituição dispõe de inúmeros serviços para os deficientes visuais: Triagem, Avaliação pedagógica, Alfabetização em Braille, Reabilitação Visual, Terapia em piscina, Educação Física (Natação e Recreação), Intervenção precoce, Atividades da vida diária, Orientação e Mobilidade, Atendimento/orientação às famílias, Acompanhamento escolar, Treinamento ocupacional, Atividades Profissionalizantes, Prestação de serviços a empresas (assessorias e consultorias), Impressão de material em Braille, Cursos para formação de educadores e técnicos. A instituição tem compromisso com a autonomia e independência da pessoa com deficiência.

4.4 Procedimento

Para a realização da pesquisa, foi necessário apresentar-se à instituição onde seriam coletadas as informações, e foi solicitada a leitura e assinatura da Carta de Autorização para Realização do Estudo (Anexo 1) por parte da direção da instituição, bem como também foi realizado um contato com o professor de educação física, o qual leu e assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo 2).

Posteriormente, foram selecionados, dentre os alunos da instituição, aqueles que fariam parte do processo de pesquisa. Considerando que os alunos selecionados são menores de idade, foi necessária a autorização dos pais, novamente por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Todos os adolescentes selecionados aceitaram participar da pesquisa, assim como tiveram a autorização de seus pais.

Os questionários selecionados permitiram uma avaliação íntegra da percepção corporal, de aspectos psicossociais e de competências motoras dos deficientes visuais participantes. Os questionários fazem parte do Quadro 1 e do Quadro 2.

4.5 Procedimento de Análise dos Dados

Uma vez coletados os dados necessários, analisamos e comparamos os resultados apresentados por deficientes visuais praticantes e não praticantes de exercício físico regular.

Os resultados são apresentados em forma de gráficos, elaborados pelo programa Microsoft Office Excel 2007, de forma que as diferenças dos resultados apresentados fiquem mais bem ilustradas. Uma vez concluídos, os gráficos estão anexados a este trabalho.

O objetivo da comparação citada foi comprovar uma melhor percepção corporal, autonomia, socialização, satisfação e confiança por parte daqueles que praticam exercício físico regularmente.

5. CAPÍTULO 1: IMAGEM CORPORAL E DEFICIÊNCIA VISUAL

5.1 Deficiência Visual

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2006, afirma:

Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas (ONU, 2006, p. 1).

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que 15,3% da população mundial (cerca de 978 milhões de pessoas dos estimados 6,4 bilhões de habitantes em 2004) possuem “deficiências graves ou moderadas”, enquanto 2,9% ou cerca de 185 milhões enfrentam “deficiências graves”. De acordo com dados do Censo IBGE de 2010, há no Brasil cerca de 45,6 milhões de pessoas com deficiência, o que corresponde a 23,92% da população.

A deficiência é um fenômeno global, frequentemente associado à pobreza, com impactos políticos, econômicos, culturais e sociais, e implicações para a sociedade como um todo.

A deficiência (física, auditiva, visual, mental ou intelectual, ou múltipla) pode existir desde o nascimento de uma criança, ou pode ser adquirida ao longo da vida.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 70% das deficiências poderiam ser evitadas, portanto é de suma importância a abordagem preventiva” (OLIVEIRA, 2010, p. 6).

Segundo Oliveira (2010), experiências internacionais têm demonstrado que o modelo centrado no tratamento, e não na prevenção, se tornou insustentável em quase todas as partes do mundo. Um avanço no processo educativo do país, junto da prevenção, se torna necessário, para assim conseguir a redução dos índices da deficiência.

Ao tratar de deficiência, cita-se também o aspecto da inclusão, onde busca-se uma sociedade onde todas as pessoas tenham não só os mesmos direitos, mas as mesmas oportunidades. No entanto, para tornar isso possível, é necessário respeitar as diferenças e garantir uma acessibilidade equiparada, de forma que todos possam desenvolver suas potencialidades.

Porém, há muito que fazer para atingir o estágio tão desejado pela sociedade atual, e que parece tão distante. Neste aspecto, percebe-se como igualmente importante, porém pouco discutido, o papel da pessoa com deficiência frente às inúmeras dificuldades encontradas, ou seja, sua postura.

Quando se fala da pessoa em situação de deficiência, está aí envolvida a relação entre a pessoa e o meio; e, como em qualquer relação, a responsabilidade por possibilitar o seu estabelecimento é tanto da pessoa como do entorno físico ou natural, tanto aquele construído pelo homem – as cidades – ou o ambiente social, também edificado pelo ser humano, que inclui as atitudes, as convicções pessoais e sociais e, finalmente, políticas e leis. Em suma, o espaço no qual uma pessoa desenvolve sua vida (SANCHEZ, 2012, p. 1).

Não obstante, o papel da pessoa com deficiência aparece como fundamental não só perante a inclusão, mas perante a própria saúde, autonomia, independência, e, consequentemente, a própria felicidade.

Dentre os diversos tipos de deficiência, há a deficiência visual.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a deficiência visual é um dano no sistema visual na sua globalidade ou parcialidade, podendo variar quanto às suas causas (traumatismo, doença, malformação, deficiente nutrição) e/ou natureza (congênita, adquirida, hereditária) e traduz-se em uma redução ou em uma perda da capacidade para realizar tarefas visuais (ler, reconhecer rostos, etc.) (ACAPO, 2009, p. 1).

Ao analisar os danos à visão, Oliveira e Silva (2013) afirmam que os deficientes visuais dividem-se em dois grupos: cego (acuidade visual menor que 3/60 metros, no melhor olho e com melhor correção, indo desde a ausência total de luz até a perda da projeção de luz); baixa visão (acuidade visual entre 6/18 e 3/60 metros no melhor olho com máxima correção, apresentando desde a condição de indicar a projeção de luz até o grau em que a redução da acuidade visual interfira ou limite seu desempenho).

Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2009), as principais causas de deficiência visual são: catarata, erros de refração incorrigíveis, glaucoma, degeneração macular, opacidade da córnea, retinopatia diabética, retinopatia da prematuridade, deficiência de vitamina A, retinoblastoma, descolamento de retina, rubéola, albinismo, retinose pigmentar.

Dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimam 161 milhões de pessoas deficientes visuais no mundo, sendo 37 milhões cegos e 124 milhões com baixa visão, 90% vivendo em países em desenvolvimento. A cada ano, entre 1 e 2 milhões de pessoas se tornam cegas, com mulheres correndo maior risco em relação aos homens. Quanto ao universo infantil, estimativas apontam para cerca de 1,4 milhão de crianças abaixo de 15 anos cegas.

No que diz respeito à questão histórica, sabe-se que os deficientes visuais, assim como os deficientes físicos, auditivos, mentais ou intelectuais, ou múltiplos, vêm enfrentando discriminações e dificuldades desde a História Antiga e Medieval.

Os primeiros avanços significativos deram-se ao longo do século XX.

A assistência e a qualidade do tratamento dado não só para pessoas com deficiência como para a população em geral tiveram um substancial avanço ao longo do século XX. No caso das pessoas com deficiência, o contato direto com elevados contingentes de indivíduos com sequelas de guerra exigiu uma gama variada de medidas. A atenção às crianças com deficiência também aumentou, com o desenvolvimento de especialidades e programas de reabilitação específicos (GARCIA, 2011, p. 1).

Devido ao elevado contingente de amputados, deficientes visuais, físicos, intelectuais e mentais no período pós-segunda guerra mundial, o tema ganhou relevância política não só no interior dos países, mas também internacionalmente, no âmbito da Organização das Nações Unidas.

A “epopéia” das pessoas com deficiência passou a ser objeto do debate público e ações políticas, assim como outras questões de relevância social, embora em ritmos distintos de um país para o outro.

Atualmente, Garcia (2011) afirma que já é possível visualizar uma tendência de humanização desse grupo populacional, apesar da ainda existência de discriminações e dificuldades. O amadurecimento das civilizações e o avanço dos temas ligados à cidadania e aos direitos humanos provocaram sem dúvida, um novo olhar em relação às pessoas com deficiência.

Levando em consideração o deficiente visual, Monteiro (2012) afirma que foi a partir do século XX que os olhares para o atendimento às suas necessidades se expandiram e ultrapassaram divisas, alcançando o continente americano e favorecendo a criação de institutos e escolas nos Estados Unidos e no Brasil. Neste último, foi fundado em 1854 no Rio de Janeiro, o Imperial Instituto de Meninos Cegos, atual Instituto Benjamim Constant (IBC), denominado assim em 1891 em homenagem a um republicano que dirigiu a instituição por três décadas.

As ações que visavam atender as necessidades do deficiente visual não se limitaram simplesmente à criação de instituições em diferentes países; elas foram além: invadiram as esferas legais e firmaram acordos internacionais. A primeira de todas as ações ocorreu em Paris, em um congresso internacional, onde se decidiu que o sistema Braille seria adotado como método universal de ensino para as pessoas cegas.

A partir da década de 1990, a realização da Conferência Mundial de Educação para Todos em Jomtien na Tailândia (1990), a Declaração de Salamanca de Princípios, Política e Prática para as Necessidades Educativas Especiais (1994) e a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência (1999) provocaram grandes mudanças e impulsionaram a criação de leis, decretos e programas para garantir os direitos e a inclusão social dos deficientes em diferentes partes do mundo (MONTEIRO, 2012, p. 6).

De fato, a evolução da sociedade e todas essas mudanças contribuíram e muito para com o deficiente visual, assim como para com as pessoas que apresentam outros tipos de deficiência, contudo, as dificuldades ainda estão presentes em seu cotidiano.

5.2 Imagem Corporal e Deficiência Visual

Dentre as dificuldades enfrentadas pelos deficientes visuais até os dias de hoje, vale aqui ressaltar uma das mais relevantes: a construção da imagem corporal.

Imagem corporal, primeiramente, é um dos aspectos da Psicomotricidade. É um conceito simples e, ao mesmo tempo, complexo. Simples quando é tratado como a noção que cada pessoa tem de seu próprio corpo e complexo quando assume sua conotação subjetiva, resultado das interações do corpo com o meio e com o outro (NASÁRIO; ERNST, 2011, p. 262).

“A imagem corporal é a forma como o indivíduo compreende o próprio corpo, sendo esta a imagem subjetiva de si mesmo formada na mente” (NASÁRIO; ERNST, 2011, p.260). Essa imagem é necessária para uma vida saudável nos aspectos motores, sociais, afetivos e psicológicos, uma vez que está relacionada e interfere diretamente nesses aspectos, seja proporcionando uma melhor compreensão do próprio corpo (potencialidades, limites, proporcionalidade), melhor autoconceito e autoestima, ou maior confiança e segurança.

Pode-se afirmar que a imagem corporal deve ser encarada como um processo complexo, dinâmico, vulnerável e extremamente dependente de nossas percepções.

Ainda sobre a imagem corporal, Nasário e Ernst (2011) complementam que a visão é muito importante para sua construção, pois permite uma observação concreta dos segmentos corporais, principalmente através da imagem especular. Por isso, os deficientes visuais podem apresentar maior dificuldade para formar a sua imagem corporal.

Uma vez desprovidos da visão, os deficientes visuais devem explorar outros sentidos do corpo humano para formar a imagem corporal.

Desta forma, a deficiência visual (cegueira ou baixa visão) traduz-se na construção da imagem corporal por outros meios sensoriais: o tato, a audição e a propriocepção. Dentre esses meios, o tato exerce um papel preponderante, pois é através dele que se concretiza a existência dos objetos e dos outros.

Entretanto, Alves e Duarte (2008) citam que a utilização desses meios sensoriais durante o processo de formação da imagem corporal resulta na construção de uma representação pobre e distorcida do corpo humano, com alterações na proporcionalidade das diversas regiões corporais.

Segundo os mesmos autores, o processo de construção dos deficientes visuais é baseado no aspecto da funcionalidade, onde um corpo é bem visto quando desempenha suas funções de modo satisfatório. Por sua vez, os valores culturais de beleza e normalidade impostos pela sociedade não exercem grande influência sobre o processo de construção da imagem corporal de pessoas com deficiência visual. No entanto, os contatos sociais por eles estabelecidos exercem um papel preponderante na compreensão do mundo, nas relações presentes na sociedade, bem como nos níveis de autoconceito e autoestima desenvolvidos.

O ser humano é um ser essencialmente social, de maneira que as experiências vividas por cada indivíduo são influenciadas e interferidas por todos aqueles que estão ao seu redor no dia-a-dia. Da mesma forma, a imagem corporal também é influenciada pelo outro, pelas relações sociais e, principalmente, pela convivência com pessoas próximas.

Percebe-se então, uma relação de contribuição mútua, onde a imagem corporal inicialmente formada na mente de cada indivíduo facilita a socialização, a afetividade e a mobilidade, assim como, se explorados, estes aspectos contribuem para uma construção de imagem corporal mais completa.

Portanto, “a construção e o desenvolvimento da imagem corporal de pessoas com deficiência visual sejam satisfatórios, é necessário que sejam estimulados de diversas formas desde seu nascimento” (ALVES; DUARTE, 2008, p. 154).

Tendo em vista essa estimulação desde o nascimento da criança deficiente visual, percebe-se como fundamental a participação das pessoas mais próximas.

Os pais e parentes próximos exercem papel importante no desenvolvimento da imagem corporal da criança com cegueira. Aspectos como autoestima e autoconceito estão relacionados com a sua crença de como seus pais e pessoas próximas avaliam seu corpo. As atitudes e comentários a respeito de seu corpo, bem como os relacionados com valores corporais, como, por exemplo, a obesidade, influenciam o processo de desenvolvimento da imagem corporal dessas crianças (PIERCE; WARDLE, 1996, citado por ALVES; DUARTE, 2008, p. 151).

As pessoas mais próximas não devem, portanto, superproteger a criança ou adolescente deficiente visual, mas sim permitir-lhes oportunidades de explorar livremente o próprio corpo, o ambiente, e de se socializar.

À medida que se torna mais velho, o deficiente visual também pode e deve fazer o seu papel, não se acomodando em função de suas limitações e evitando viver às custas das pessoas mais próximas. Para isso, o deficiente visual deve ter coragem para tomar decisões e agir, assim como deve enfrentar as inúmeras barreiras existentes, conquistando autonomia, pois desta forma, as vivências e experiências serão meras consequências.

Segundo Nasário e Ernst (2011), através da interação e das vivências, o deficiente visual conquista um corpo seguro, relacionando-se melhor com o mundo e com os outros. Essa conquista de um corpo seguro significa ter autoestima e relacionar-se de forma positiva consigo mesmo, ou seja, ser feliz.

Assim, não é a falta de visão que irá definir a autoestima ou autoconceito de uma pessoa, e sim o resultado de suas vivências e experiências.

Ainda neste sentido, Alves e Duarte (2008) afirmam que a imagem corporal do cego ou da pessoa com baixa visão está relacionada com as mudanças provocadas em suas experiências corporais, e estas, por sua vez, são encaradas de modo peculiar por cada pessoa.

Deste modo, pode-se dizer que é essencial, para a construção e compreensão da imagem corporal, a capacidade de adaptação da pessoa com deficiência visual frente a um mundo cheio de diversidades, quer sejam tradicionais ou apoiadas em mudanças constantes.

Logo, é notória a contribuição da Educação Física nesta questão, uma vez que seu objeto de estudo e trabalho é o movimento corporal, estimulando a consciência corporal através de vivências corporais significativas, possibilitando a socialização e a afetividade, fatores fundamentais para que uma pessoa possa desenvolver o “eu” e compreender o mundo à sua volta.

Percebe-se então, a necessidade de informação e conscientização de toda a população quanto à oportunidade do deficiente (em especial o deficiente visual) desfrutar dos imensuráveis benefícios que podem ser proporcionados pelo exercício físico, sejam eles relacionados aos aspectos físicos, sociais ou afetivos. Dentre tantos benefícios importantes para o deficiente visual, destaca-se a construção de uma imagem corporal mais completa.

6. CAPÍTULO 2: EXERCÍCIO FÍSICO E IMAGEM CORPORAL NA DEFICIÊNCIA VISUAL

6.1 Exercício Físico e Pessoa com Deficiência

De acordo com Júnior (2012), o esporte praticado por pessoas com deficiência surgiu na década de 1940, na Inglaterra, como medida terapêutica, visando proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas com sequelas obtidas durante a Segunda Guerra Mundial.

Não houve grandes progressos por um período de 20 anos. Enfim, segundo Júnior (2012), em 1960, foi realizada a primeira edição dos Jogos Paralímpicos de Verão, em Roma, na Itália. Porém, só no ano de 1989 viria a ser criado o Comitê Paralímpico Internacional, entidade que celebrou um acordo com o Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2001. A partir desta data, definiu-se que a cidade-sede das olimpíadas também organizaria os Jogos Paralímpicos.

A iminente evolução deste tema, ao tomar proporções globais, fez do esporte um forte aliado do movimento de conscientização da população quanto às potencialidades da pessoa com deficiência.

O interesse da pessoa com deficiência pela prática do esporte surgiu também como consequência dessa evolução, despertado pela participação de atletas de vários países nos Jogos Paralímpicos.

Júnior (2012) afirma que a participação do Brasil nos Jogos Paralímpicos teve início em 1976, em Toronto, no Canadá, e que a primeira medalha veio quatro anos mais tarde, em 1980. A criação do Comitê Paralímpico Brasileiro deu-se apenas em 1996. O autor complementa que, na década de 1980, a prática da educação física nas instituições de ensino especial para cegos e para surdos avançou significativamente. Foi com essa prática que muitos atletas paralímpicos brasileiros foram revelados.

Apesar dos avanços ao longo dos anos, o caminho percorrido pelo deficiente visual e por qualquer outra pessoa com deficiência para a prática de esportes e exercício físico em geral permanece difícil.

Ciente das dificuldades superadas, há de se atentar para a necessidade de melhorias em vários aspectos no que diz respeito à prática de exercício físico por parte dessa população.

Infelizmente, poucas são as oportunidades oferecidas para que estes jovens se engajarem com sucesso em programas de atividades físicas. As barreiras impostas a este acesso vão muito além das arquitetônicas, incluindo também a falta de capacitação de profissionais para lidar com esta população, de materiais apropriados e, principalmente, de informação para os próprios jovens com deficiência e suas famílias (INTERDONATO; GREGUOL, 2009, p. 3).

Ao tratar do deficiente visual, não podemos deixar de citar algumas outras barreiras que dificultam sua inclusão na Educação Física: social, econômica, física e atitudinal. Dentre as diversas barreiras, a da acessibilidade e a da informação necessitam de uma atenção especial.

Todavia, a capacitação do Profissional de Educação Física e sua conduta são aquelas que se provam fundamentais para o sucesso deste procedimento.

6.2 Capacitação e Metodologia do Profissional de Educação Física

Em relação à capacitação deste profissional, sabe-se que, atualmente, embora se tenha um conhecimento mais amplo sobre o deficiente visual, as oportunidades de trabalho e, consequentemente, convivência com esta população, são escassas. Não obstante, a disciplina Educação Física Adaptada foi incluída na grade curricular muito recentemente, fator que exige uma qualificação maior através de especializações e cursos relativos à deficiência, oferecidos em pequeno número no Brasil.

Segundo Costa, Freitas e Santos (2012), os Profissionais de Educação Física que atuam ou irão atuar com o deficiente visual devem ter um conhecimento da psicomotricidade, orientação, estimulação essencial e mobilidade que vai além do aprendido em cursos superiores.

Por sua vez, Oliveira e Silva (2013) afirmam que não existe uma metodologia específica para dar aulas de Educação Física para a pessoa cega ou de baixa visão. Segundo os autores, o necessário é ser claro nas explicações, ter paciência, equilíbrio, a confiança dos alunos, segurança em seu trabalho e planejamento adequado da aula para atingir os objetivos propostos.

Atualmente, sabe-se que as aulas de Educação Física para deficientes visuais são realizadas em diversos lugares, dentre eles: associações, clubes, entidades assistenciais, ONGS, escolas especiais, ou ainda na rede de ensino; seja ela municipal, estadual ou particular, pois com a inclusão acontecendo a todo vapor, são muitos os alunos que participam ativamente dessas aulas.

Porém, Oliveira e Silva (2013) esclarecem que, para que se tenha um bom trabalho com este grupo específico, o número de alunos com cegueira total ou de baixa visão não deve ser superior a 10 para a maioria das atividades (ginástica geral, futebol de cinco, goalball, natação, etc.), mantendo, sempre que possível, os alunos com cegueira total e baixa visão juntos. No entanto, os autores citam que, para atividades como ginástica de solo, judô, xadrez e atletismo, o número de alunos deve ser menor, pois sempre é necessária a presença de um guia, seja para acompanhar ou para orientar.

Ainda neste sentido, percebe-se de suma importância a escolha de um local adequado para o desenvolvimento das atividades, que apresente um ambiente seguro, arejado, com piso uniforme, não representando nenhum tipo de perigo para o deficiente visual. Sabendo disso, deve-se evitar um ambiente com escadas, construções inacabadas, muito barulho, com piso muito liso e escorregadio. Se o ambiente de trabalho for a piscina, é importante haver raias, para que se possa desenvolver corretamente os diferentes estilos de nado, garantindo também a direção correta do nadador; a profundidade deve ser apropriada para as aulas.

Uma vez atendidos todos esses requisitos, o Profissional de Educação Física deve priorizar o aluno e suas necessidades, de maneira que este esteja ciente dos objetivos da aula, do espaço físico utilizado, do material utilizado e de uma eventual mudança no ambiente.

6.3 Benefícios do Exercício Físico para o Deficiente Visual

A Educação Física como um ambiente de educação do corpo para, pelo e do movimento (Freire 1995, citado por Costa e Winckler, 2012, p. 15) é um cenário extremamente rico para o desenvolvimento da pessoa com deficiência (COSTA; WINCKLER, 2012, p.15).

Os benefícios do exercício físico para o deficiente visual podem ser divididos em diferentes aspectos: físico, social e psicológico.

Gallahue e Ozmun (2001) escrevem a respeito do desenvolvimento motor, do nascimento à idade adulta, abrangendo o estudo de fatores afetivos e cognitivos básicos que afetam o desenvolvimento motor ao longo de cada período do desenvolvimento humano. Os autores explicam que o exercício físico proporciona benefícios no que se refere ao aspecto físico, como: força, resistência, coordenação, flexibilidade, entre outros, podendo afetar a qualidade de vida de maneira geral.

Em relação a este aspecto, Vieira (2010) cita benefícios proporcionados pelo exercício físico: melhoria das condições orgânicas e funcionais (aparelhos circulatório, respiratório, digestivo, reprodutor e excretor); melhoria na força e resistência muscular global; ganho de velocidade; aprimoramento da coordenação motora global e ritmo; melhora no equilíbrio estático e dinâmico; prevenção de deficiências secundárias; manutenção e promoção da saúde e condição física; desenvolvimento de habilidades motoras e funcionais para melhor realização de atividades físicas.

Quanto ao aspecto social, Daltro (2004) cita:

O processo de desenvolvimento humano e, consequentemente, desenvolvimento motor, ocorre em ambientes sociais. O ambiente no qual este acontece é, na maioria das vezes, de brincadeiras, jogos, atividades e esportes, sendo, assim, influenciado pelo ambiente cultural no qual o individuo está inserido. As atividades de que as crianças e adolescentes participam são importantes na socialização. Esta é frequentemente citada como um dos objetivos a serem alcançados com o exercício físico (GALLAHUE; OZMUN, 2001, citado por DALTRO, 2004, p. 53).

Sobre este aspecto, Vieira (2010), cita benefícios proporcionados pelo exercício físico: estímulo à independência e autonomia; socialização com outros grupos; estímulo à prática do exercício como lazer, reabilitação e competição.

Por último, mas não menos importante, encontra-se o aspecto psicológico. Este aspecto necessita de uma atenção especial, uma vez que está relacionado com a imagem corporal, autoestima e potencialidade do indivíduo.

Em relação a este aspecto, Vieira (2010) cita benefícios proporcionados pelo exercício físico: melhoria e desenvolvimento de autoestima, autovalorização e autoimagem (imagem corporal); experiência com possibilidades, potencialidades e limitações; vivência de situações de sucesso e superação de situações de frustração; promoção e encorajamento do movimento; motivação para atividades futuras; desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas.

6.4 Exercício Físico e Imagem Corporal na Deficiência Visual

Especialmente para os deficientes visuais, a independência e a autonomia, que lhes permitem realizar as atividades diárias por conta própria, são fundamentais, trazendo consigo consequentes benefícios, como por exemplo, o auxílio na construção de uma imagem corporal mais completa e positiva. Essa autonomia e independência podem ser conseguidas com a prática de exercício físico.

Em relação à imagem corporal, Alves e Duarte (2008) citam:

A prática esportiva exerce papel importante na reconstrução da imagem corporal pela pessoa com deficiência visual, pois proporciona a descoberta do corpo, de seus limites e possibilidades. Nesse sentido, o esporte é fundamental já que fornece experiências corporais positivas para o praticante deficiente. Este vivencia seu corpo de variadas formas e o descobre como um corpo possível e repleto de potencialidades (ALVES; DUARTE, 2008, p. 148).

A descoberta do próprio corpo é “peça chave” na construção da imagem corporal, e isso acontece, principalmente, pela prática de atividades motoras. Porém, como afirmam os autores, a descoberta não deverá ser de um corpo doente e limitado, mas sim de “um corpo possível e repleto de potencialidades”.

Percebe-se necessário ressaltar que todos os exercícios físicos, sejam as que utilizam o corpo como forma de expressão (música, dança e teatro) ou as que permitem uma vivência e experiência do próprio corpo (atividades esportivas adaptadas), auxiliam na formação da imagem corporal.

Ao participar desses tipos de atividade, o deficiente visual, não possuidor do sentido visão, pode e deve utilizar-se dos outros sentidos que possui, buscando um conceito mais amplo de si mesmo.

Da mesma maneira, o Profissional de Educação Física responsável deve aplicar brincadeiras que provoquem uma aprendizagem por meio da priorização de outros sentidos, como o tato, a audição e a propriocepção, facilitando o trabalho do deficiente visual.

“Através das atividades realizadas, o aluno deficiente visual deve entender que ele não tem apenas um corpo, mas que ele é um corpo, que se relaciona com o ambiente e com as pessoas” (DARIDO; RANGEL, 2005, citado por NASÁRIO; ERNST, 2011, p. 270).

Quanto aos cuidados a serem tomados ao se trabalhar com esta população, Oliveira Filho (2003), citado por Nasário e Ernst (2011) afirma:

Ao buscarmos estimular uma criança com cegueira ou baixa visão estaremos oferecendo subsídios para promover um desenvolvimento harmônico, observando principalmente os estímulos que lhe são escassos ou ausentes, e buscando desenvolver os que são mal aproveitados. Nesse processo, é muito importante a variação e mudanças constantes de métodos e técnicas, para não criar vícios, nem esquecer conteúdos (OLIVEIRA FILHO, 2003, citado por NASÁRIO; ERNST, 2011, p. 270).

A individualidade do aluno deficiente visual também deve ser considerada pelo Profissional de Educação Física responsável, de forma a se respeitar os limites e potencialidades de cada um quando na busca de seu desenvolvimento e aprendizagem.

De acordo com Nasário e Ernst (2011), outro exercício que pode ser explorado ao se trabalhar com esta população, e que apresenta muitos benefícios, é a equoterapia. Segundo os autores, a equoterapia é um exercício que movimenta praticamente todas as partes do corpo, o que faz o indivíduo perceber, sentir e vivenciar as formas corporais.

A Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-BRASIL, 2012) define a equoterapia como um método terapêutico que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiência e/ou com necessidades especiais.

Assim sendo, o cavalo proporcionaria ao praticante a criação de uma melhor imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favoreceria a estruturação do “eu”.

Portanto, pode-se perceber que:

São muitas as atividades que favorecem a construção da imagem corporal de indivíduos deficientes visuais, e que podem ser utilizadas pela Educação Física na busca de uma melhor qualidade de vida. De maneira geral, pode-se dizer que todas as atividades que utilizem a expressão corporal, o corpo como instrumento ou que permitam desenvolver a percepção dos segmentos corporais, ou seja, todas as situações de vivência corporal, auxiliam na formação da Imagem do próprio corpo (NASÁRIO; ERNST, 2011, p. 272).

Em suma, o papel do exercício físico demonstra-se essencial, uma vez que utiliza o corpo como instrumento, permite e proporciona vivências corporais necessárias através de atividades distintas. O deficiente visual passa a ser conhecedor do outro e daquilo que está ao seu redor, torna-se saudável e capaz de realizar o que deseja.

7. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO

7.1 Resultados

Uma vez realizada a pesquisa de campo na instituição Pró-Visão Sociedade Campineira de Atendimento ao Deficiente Visual, obteve-se resultados relevantes através dos quadros previamente selecionados. Para melhor representação das diferentes respostas dadas pelos deficientes visuais com baixa visão sedentários e fisicamente ativos, optou-se pelo emprego de gráficos.

Primeiramente, serão apresentadas as respostas dos quadros.

O Quadro 1 refere-se à imagem corporal, considerando a percepção do deficiente visual quanto às características do próprio corpo e carisma.

Quadro 1: Percentuais de respostas relacionados à Imagem Corporal

A princípio, é possível verificar que os deficientes visuais fisicamente ativos percebem o próprio corpo e carisma de forma mais positiva que os deficientes visuais sedentários.

Nas alternativas de Estatura e Peso, os deficientes visuais fisicamente ativos apresentaram uma percepção mais fiel do próprio corpo. As respostas foram mais compatíveis com o observado em medições prévias de estatura e massa corporal dos mesmos, quando os dados foram enquadrados nos parâmetros estabelecidos pelo CDC (2000) para esta faixa etária.

Por sua vez, as alternativas de Aparência Estética e Carisma também apresentaram diferenças significativas de respostas, representadas pelos gráficos abaixo:

Gráfico 1: Aparência Estética

Gráfico 2: Carisma

As respostas dadas pelos deficientes visuais fisicamente ativos são extremamente positivas; todos se consideram bonitos e, três, do total de quatro, se consideram simpáticos.

Em contrapartida, os deficientes visuais sedentários são mais rigorosos com a própria aparência e carisma; apenas um se considera bonito e, dois, do total de quatro, se consideram simpáticos.

Em geral, os deficientes visuais fisicamente ativos acreditam ser mais bonitos e carismáticos que os deficientes visuais sedentários.

O Quadro 2, apresentado a seguir, refere-se a satisfação com a percepção da imagem corporal e a percepção psicossocial do deficiente visual.

Quadro 2: Percentuais de respostas dos aspectos relacionados ao nível de satisfação e aspetos psicossociais dos deficientes visuais fisicamente ativos (F.A.) e sedentários (SED.)

Dentre as alternativas mais relevantes e diferenças mais evidentes encontradas, selecionou-se as representadas pelos gráficos abaixo:Assim como no primeiro quadro, são verificadas diferenças significativas nas respostas de deficientes visuais fisicamente ativos (F.A.), representadas em vermelho, e deficientes visuais sedentários (SED).

Alternativas relacionadas ao Próprio Corpo:

Gráfico 3: Se sente bem com o Próprio Corpo

Gráfico 4: Tem confiança no Próprio Corpo

Gráfico 5: Já teve vergonha do Próprio Corpo

As respostas dadas pelos deficientes visuais fisicamente ativos são completamente positivas; todos se sentem bem com o próprio corpo e tem confiança no mesmo. Nenhum deles revelou já ter sentido vergonha do próprio corpo.

Por outro lado, os deficientes visuais sedentários não responderam com equivalente positividade; do total de quatro, três se sentem bem com o próprio corpo e apenas dois tem confiança no mesmo. Apenas um revelou nunca ter sentido vergonha do próprio corpo.

Em geral, em relação ao próprio corpo, os deficientes visuais fisicamente ativos têm menos vergonha, se sentem melhor e têm mais confiança do que os deficientes visuais sedentários.

Alternativa relacionada a Outras Pessoas:

Gráfico 6: Se julga diferente das Outras Pessoas

Ao observar o gráfico, nota-se que apenas um dos deficientes visuais fisicamente ativos se julga diferente das outras pessoas, enquanto que dois deficientes visuais sedentários, do total de quatro, apresentaram a mesma resposta.

Em geral, pode-se dizer que os deficientes visuais fisicamente ativos acreditam ser mais parecidos com outras pessoas, deficientes ou não, do que os deficientes visuais sedentários.

Alternativa relacionada à Aparência:

Gráfico 7: Se importa com o que as pessoas pensam de sua Aparência

Ao observar o gráfico, nota-se que apenas um dos deficientes visuais fisicamente ativos se importa com o que as outras pessoas pensam de sua aparência, enquanto que três deficientes visuais sedentários, do total de quatro, se importam com o mesmo fato.

Em geral, pode-se dizer que os deficientes visuais fisicamente ativos não dão muita importância à opinião de outras pessoas sobre sua aparência, o que não ocorre com os deficientes visuais sedentários.

Alternativa relacionada a Amizades:

Gráfico 8: Se considera uma pessoa com Muitos Amigos

Ao observar o gráfico, nota-se que três deficientes visuais fisicamente ativos, do total de quatro, acreditam possuir muitos amigos, enquanto que apenas um deficiente visual sedentário apresentou a mesma resposta.

Em geral, pode-se dizer que os deficientes visuais fisicamente ativos acreditam possuir mais amigos do que os deficientes visuais sedentários.

7.2 Discussão

Procurando seguir os objetivos específicos do trabalho, vale a pena relembrar: conhecer os efeitos do exercício físico na construção da imagem corporal de deficientes visuais; presente nos capítulos 1 e 2; verificar a percepção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão sedentários e ativos; presente na apresentação dos resultados; comparar a percepção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais com baixa visão sedentários e ativos; presente na discussão; abordado a seguir:

Primeiramente, deve-se lembrar de que a imagem corporal inicialmente formada na mente de cada indivíduo facilita a socialização, a afetividade e a mobilidade, assim como, se explorados, estes aspectos contribuem para uma construção de imagem corporal mais completa.

Considerando o fato de que a pesquisa realizada analisou deficientes visuais adolescentes, que ainda estão em processo de experiências e desenvolvimento e que, por isso, não apresentam uma imagem corporal completa formada na mente, percebe-se que o diferencial apresentado por deficientes visuais fisicamente ativos e sedentários é consequência da socialização, afetividade e mobilidade de cada um.

Desta forma, compreende-se que os deficientes visuais fisicamente ativos responderam de forma mais positiva devido à prática do exercício físico, que permite todos os aspectos citados acima.

A fim de garantir uma análise detalhada que comprove esta hipótese, optou-se por uma discussão sequencial, de acordo com a ordem dos quadros e gráficos apresentados; segue a análise:

Os resultados do Quadro 1 evidenciam a primeira vantagem dos deficientes visuais fisicamente ativos sobre os sedentários proporcionada pela prática do exercício físico: a percepção mais fiel do próprio corpo, no que se refere às características de estatura e peso.

Por sua vez, os gráficos 1, 2 (quadro 1), assim como o gráfico 7 (quadro 2), envolveram diferentes questões, todas elas diretamente relacionadas à autoestima. São diversos fatores que podem interferir na autoestima de um deficiente visual, tais como: independência, autonomia, funcionalidade e socialização. Esses fatores estão inter-relacionados, assim como podem todos ser potencializados com a prática de exercício físico regular.

Nos gráficos 3, 4 e 5 (quadro 2), também há relações com a autoestima, porém, o aspecto principal neste caso é o da funcionalidade, onde um corpo é bem visto quando desempenha suas funções de modo satisfatório, transmitindo segurança e confiança. Novamente, destaca-se a importância da prática do exercício físico nesta questão, uma vez que só se adquire esta funcionalidade através de experiências corporais, descobrindo-se potencialidades e limites. O aspecto da vergonha pode representar tanto o fator da baixa funcionalidade quanto o da baixa socialização, ambos potencializados com prática do exercício físico, como observado anteriormente.

Quanto ao gráfico 6 (quadro 2), este aborda uma questão de caráter muito pessoal, todavia, o fato de um deficiente visual se achar diferente das demais pessoas pode estar relacionado com o não estabelecimento de uma relação social adequada, devido à superproteção da família ou à própria exclusão deste. Assim, destaca-se mais uma vez o papel do exercício físico, que pode garantir esta inclusão e socialização.

Acerca do gráfico 8 (quadro 2), já sabendo que a própria prática do exercício físico possibilita a socialização e a afetividade, percebe-se nitidamente o por quê da vantagem apresentada por deficientes visuais fisicamente ativos, que ainda constroem uma imagem corporal mais completa que os deficientes visuais sedentários, como observado anteriormente.

Considerando o estudo realizado por Interdonato e Greguol (2009), ao qual se seguiu um padrão semelhante de pesquisa, através dos quadros semi estruturados (Quadro 1 e Quadro 2), seguem os resultados encontrados:

No respectivo estudo, todos os deficientes visuais apresentaram uma percepção fiel de sua imagem corporal e elevada autoestima, mostrando, em geral, um bom nível de satisfação sobre seus atributos. Os deficientes visuais fisicamente ativos demonstraram percepção expressivamente superior apenas quanto às competências motoras, que não fizeram parte dos quadros deste trabalho.

Ainda assim, ao analisar minuciosamente a pesquisa realizada pelos autores, percebe-se que, na maioria das perguntas também utilizadas neste trabalho, os deficientes visuais fisicamente ativos responderam de forma ligeiramente mais positiva que os deficientes visuais sedentários, o que não deixa de significar uma melhor autoestima, confiança, satisfação e socialização.

Portanto, seja de forma expressiva ou não, é evidente que os deficientes visuais fisicamente ativos levam vantagem sobre deficientes visuais sedentários em diversos aspectos.

8. CONCLUSÃO

Comparada, por vezes, a percepção da imagem corporal de adolescentes deficientes visuais sedentários e fisicamente ativos, não há como negar o fato de que as vantagens apresentadas por aqueles que praticam exercício físico regular são consequências dos inúmeros efeitos oportunizados por esta prática, sejam eles nos aspectos físico, social ou psicológico.

Ciente de que esses aspectos, assim como a melhor percepção da própria imagem corporal, são essenciais para que o deficiente visual possa ter autonomia, desfrutar de uma vida mais saudável, com maiores possibilidades e, assim, atingir a felicidade, é imprescindível a informação, conscientização e disponibilidade de toda a população, incluindo do próprio deficiente visual.

O bom desempenho, o positivo autoconceito e a boa sociabilidade dos deficientes visuais praticantes de exercício físico regular podem e devem servir de exemplo para os demais, principalmente quanto a possibilidades, capacidades, autoestima, confiança e afetividade, de maneira a encorajá-los e a despertar o interesse pela prática do exercício físico.

Apesar do lento progresso em relação a estudos, conhecimento, tecnologia, estrutura (local adequado, materiais e equipamentos), divulgação, acessibilidade e profissionais qualificados, a tendência atual é a de um desenvolvimento cada vez maior nesta área, não só devido à maior quantidade de deficientes visuais em âmbito mundial, mas também à crescente demanda.

Por fim, a Educação Física, reconhecidamente benéfica à saúde, aparece como fundamental também no processo de construção de uma imagem corporal mais completa, cabendo ao profissional desta área facilitar o desenvolvimento do deficiente visual através da prática do exercício físico.

9. REFERÊNCIAS

ACAPO. Cegueira. Associação dos cegos e Amblíopes de Portugal, 2009. Disponível em: http://www.acapo.pt/information.asp. Acesso: 05/04/2013

ALVES, M. L. T.; DUARTE, E. Imagem corporal e deficiência visual: um estudo bibliográfico das relações entre a cegueira e o desenvolvimento da imagem corporal. Pós-graduação em Educação Física, Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008. Disponível em: http://eduem.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/1936/1936. Acesso: 11/03/2013

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COSTA, A. M.; WINCKLER, C. A Educação Física e o Esporte Paralímpico. In: MELLO, M. T.; WINCKLER, C. Esporte Paralímpico. São Paulo, Editora Atheneu, p. 7-24, 2012.

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GALLAHUE, D. L; OZMUN, J. C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo, Editora Phorte, p. 1-50, 2001.

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INTERDONATO, G. C.; GREGUOL, M. Auto-análise da imagem corporal de adolescentes com deficiência visual sedentários e fisicamente ativos. Conexões: revista da faculdade de Educação Física da UNICAMP. v. 7, n. 3, p. 1-13, 2009. Disponível em: http://fefnet178.fef.unicamp.br/ojs/index.php/fef/article/view/454/324. Acesso: 11/03/2013

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VIEIRA, A. Atividade física: tudo o que você queria saber sobre qualidade de vida e promoção da saúde em diversos aspectos. São Paulo, Editora Farol do Forte, p.10-20, 2010.

10. ANEXOS

10.1 Anexo 1 - Carta de Autorização da Instituição

10.2 Anexo 2 - Termo de Consentimento livre e esclarecido do Professor da Instituição

10.3 Anexo 3 – Quadro relacionado à Imagem Corporal

Autores: INTERDONATO, G. C.; GREGUOL, M. Auto-análise da imagem corporal de adolescentes com deficiência visual sedentários e fisicamente ativos.

10.4 Anexo 4 – Quadro relacionado ao nível de satisfação e aspetos psicossociais dos deficientes visuais fisicamente ativos e sedentários

Autores: INTERDONATO, G. C.; GREGUOL, M. Auto-análise da imagem corporal de adolescentes com deficiência visual sedentários e fisicamente ativos.


Publicado por: Rafael Valle

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