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ESPETACULARIZAÇÃO DA NOTÍCIA NO FUTEBOL

Comunicação e Marketing

Análise crítica em cima de algumas notícias que são informadas pelos meios de comunicação dentro do jornalismo esportivo.

índice

1. RESUMO

O jornalismo esportivo tem sido uma das áreas jornalísticas mais importantes e procuradas no país. Podemos ver esse crescimento através dos meios de comunicação, já que o esporte tem tido destaque com grandes espaços destinados ao jornalismo esportivo, principalmente, o futebol.

Esta pesquisa se insere na espetacularização da notícia, especificamente no futebol carioca. Onde é realizada uma análise crítica em cima de algumas notícias que são informadas pelos meios de comunicação dentro do jornalismo esportivo. Também é feita uma investigação de como surgiu o jornalismo esportivo no Brasil e a história da imprensa esportiva carioca.

Pesquisamos também as condições de trabalho do jornalista esportivo e as dificuldades que tiveram para obter o reconhecimento que possuem nos dias atuais, além da realização e de como é feita a pauta no jornalismo esportivo.

O estudo considera o jornalismo esportivo um produto da indústria cultural e sociedade do espetáculo, o que é reforçado pela integração entre a notícia e o capitalismo. Com base nessas teorias, entrevistas e notícias publicadas na imprensa esportiva carioca, a pesquisa discute a presença de notícias espetacularizadas dentro das produções jornalísticas esportivas no Rio de Janeiro, especialmente às que possuem um conteúdo da vida particular do jogador de futebol.

Palavras chaves: jornalismo esportivo; sociedade do espetáculo; espetacularização.

2. INTRODUÇÃO

A pesquisa irá se dedicar à espetacularização da notícia no futebol. O esporte futebolístico pode ser considerado um dos mais apropriados eventos para a mídia devido ao fato da surpresa dos resultados e da sensação de interatividade que o espetáculo oferece ao público. Mas, no caderno de esporte o que vem chamando à atenção são as inúmeras manchetes polêmicas da vida particular de jogadores, de preferência, que são renomados no meio futebolístico.

A presente pesquisa aborda o tema jornalismo esportivo brasileiro e carioca nos veículos de comunicação. E tem como problema a espetacularização da notícia, onde fatos corriqueiros da vida pessoal dos atletas são apresentados como se fossem grandes acontecimentos.

As hipóteses do trabalho entram no campo da sociedade do espetáculo dentro do jornalismo esportivo, as quais levam os meios de comunicação a fazer uma espetacularização da notícia. Seja em busca da audiência ou do capitalismo em que a sociedade convive, onde tudo é vendável.

O jornalismo esportivo no Brasil, que passa por seu principal momento, tem sido uma das especialidades jornalísticas mais importantes e procuradas no país. E quem fala sobre esse crescimento é o jornalista esportivo Juca Kfouri. “Paulo Mendes Campos, há anos, escreveu que a imprensa esportiva brasileira ainda estava à espera da sua “Semana de Arte Moderna”. Que a imprensa esportiva brasileira era uma coisa ultrapassada, gongórica, enfim, mal resolvida. Mal sabia ele que as coisas, em vez de caminharem na direção da Semana de Arte Moderna, caminharam na direção inversa, exatamente por começar a se resolver bem, do ponto de vista dela, imprensa esportiva, não do leitor, não do ouvinte, não do telespectador.” (KFOURI, Juca).

Podemos ver esse crescimento através dos meios de comunicação, já que o esporte ocupa grande parte do noticiário, principalmente o futebol. E com a perspectiva de Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas no país já a partir de 2013, com certeza cresce a importância do jornalista esportivo. Mas, como todo o mundo dos negócios, o jornalismo esportivo tem entrado num campo aonde os interesses mercadológicos vêm em primeiro lugar, transformando as notícias em espetáculo.

Kfouri explica como ele lida com esse fato dentro do jornalismo esportivo. “Oriento meus jornalistas para cuidarmos do que acontece dentro de campo. Vamos falar do gol do Romário, do frango do Maurício, da falta violenta do Gamarra, mas nada de bastidores. Não vamos nem sequer dar força para uma CPI, que está instalada, porque isso aí não é de interesse do torcedor. O torcedor quer bola na rede.” (KFOURI, Juca).

Festas regadas a bebida, mulheres, envolvimento no noticiário policial, guerra entre torcidas e dossiês contra jogadores polêmicos, entre outros. Este é o cenário atual do jornalismo esportivo no país do futebol que, aliás, mais parece matéria para caderno de Polícia. Portanto, é relevante pesquisar e realizar uma reflexão crítica desta situação em que se encontra o jornalismo esportivo. Se eles realmente estão comprometidos com os princípios do jornalismo e com a ética ou se deixaram envolver com o capitalismo e o espetáculo do esporte.

Para Ary Rocco, doutor em Comunicação e Semiótica, a espetacularização está relacionada com a busca de audiência, mas que ainda é possível fugir dessa estratégia da mídia. Basta sabermos escolher onde e o que quer ver e ouvir. “A grande salvação é que nem todo mundo faz isso. Cabe a nós enquanto consumidores da notícia escolher o que buscamos assistir”. (ROCCO, Ary).

A escolha do tema também se justifica pela familiaridade em que o aluno possui com o esporte, por ter sido atleta de futebol e ter conhecimentos básicos de como gira o noticiário esportivo. E claro, em contribuir de alguma forma para os estudos do jornalismo esportivo, que vem crescendo a cada ano.

O objetivo da pesquisa é realizar uma reflexão crítica do jornalismo esportivo brasileiro contemporâneo na mídia, investigando a forma com que a imprensa vem tratando o noticiário esportivo, bem como o processo de espetacularização da notícia. O que levam as editorias de esporte de variados veículos publicarem notícias que fogem do noticiário esportivo e entra no campo policial ou de fofocas.

Quanto aos procedimentos, a pesquisa possui dados bibliográficos, busca em documentos (como matérias jornalísticas publicadas em jornais e sites) e dados como opiniões e argumentos de profissionais que estão atuando no jornalismo esportivo. Como referenciais teóricos, trouxe autores como Guy Debord, Maurício Stycer, Antonio Albino Canelas Rubim, Paulo Vinicius Coelho, Mauro Betti, Viviane Borelli, Regina Toledo, Fábio Henrique Pereira, João Carlos Correia, Thaís Meinicke, Juca Kfouri e Adelmo Genro Filho.

Cabe registrar que a estrutura da pesquisa é composta por quatro capítulos.

No primeiro capítulo, a pesquisa aborda a história da imprensa esportiva no Brasil e da imprensa esportiva carioca. A partir disso, mostra como foi difícil a inserção do jornalismo esportivo nos meios de comunicação e o importante papel que teve para o desenvolvimento do esporte no país. Também foi pesquisado o jornalista esportivo, a sua dura missão em busca do reconhecimento da editoria e os caminhos árduos que ainda tem que percorrer para conseguir seu emprego na área.

No segundo capítulo “A Pauta no Noticiário Esportivo”, refletimos sobre como é realizada a produção da pauta nos cadernos de esportes. As buscas dos veículos de comunicação esportiva para a produção de uma pauta de qualidade e que tem a confiabilidade do seu público.

O capítulo 3 – “Espetacularização da Notícia”, é o capítulo de referencial teórico da pesquisa. A partir do conceito da Sociedade do Espetáculo de Debord analisaremos como o futebol se tornou mercadoria de consumo e espetáculo. O espetáculo é a principal característica da sociedade capitalista, que faz parte dos mecanismos dos veículos de comunicação. Mas analisamos se cabe ao jornalismo esportivo divulgar notícias da vida particular dos jogadores ou se essas notícias caberiam nas páginas policiais ou nos cadernos de fofocas.

No quarto e último, foi realizada uma pesquisa com jornalistas que atuam na área esportiva, foi questionado sobre a visão deles à respeito da espetacularização da notícia no futebol. Também analisamos os resultados obtidos com o trabalho científico, mostrando os principais fatores que levam a esse acontecimento no noticiário esportivo.

3. HISTÓRIA DO JORNALISMO ESPORTIVO NO BRASIL

Neste capítulo será abordada a história do jornalismo esportivo no Brasil. A relação de desconfiança sobre o futebol como manchete nos jornais da época e a dificuldade em que o jornalismo esportivo no Brasil teve para alcançar o patamar em que está atualmente. Também será contada a história da imprensa esportiva carioca, e como foi o início para a popularização do esporte na cidade. E mostra também como é o trabalho do jornalista esportivo e as dificuldades para se conseguir trabalhar numa redação de esportes, um mercado competitivo onde tem milhares de jornalistas se formando todos os anos em busca de uma oportunidade.

O jornalismo esportivo no Brasil, o qual passa por seu principal momento, tem sido uma das especialidades jornalísticas mais importantes e procuradas no país. O jornalista esportivo Juca Kfouri conta que no início de sua história esse crescimento não era visto com bons olhos. “Paulo Mendes Campos, há anos, escreveu que a imprensa esportiva brasileira ainda estava à espera da sua “Semana de Arte Moderna”. Que a imprensa esportiva brasileira era uma coisa ultrapassada, gongórica, enfim, mal resolvida. Mal sabia ele que as coisas, em vez de caminharem na direção da Semana de Arte Moderna, caminharam na direção inversa, exatamente por começar a se resolver bem, do ponto de vista dela, imprensa esportiva, não do leitor, não do ouvinte, não do telespectador.” (KFOURI, Juca). Outro que não acredita no sucesso do futebol no jornalismo esportivo segundo Kfouri era Graciliano Ramos. “Futebol não pega, tenho certeza; estrangeiros não entram facilmente na terra do espinho.” (GRACILIANO RAMOS). São com esses dois pensamentos que iniciamos a história do jornalismo esportivo no Brasil.

Para Paulo Vinicius Coelho (2003), em Jornalismo Esportivo, provavelmente nenhuma declaração de comentaristas antes de qualquer Copa do Mundo foi tão furada quanto a do Graciliano Ramos, no início do século XX. “Graciliano parecia convencido de que o jogo dos ingleses não iria conquistar adeptos no Brasil. Talvez o maior engano da história do esporte brasileiro”. (COELHO, 2003, p.7).

Coelho (2003) diz que Graciliano, autor de Vidas Secas, talvez tenha sido também o primeiro palpiteiro sobre esportes, daqueles que existem nos dias atuais. Nos primeiros anos de cobertura esportiva era assim. Poucos acreditavam que o futebol fosse assunto para estampar uma manchete de capa no jornal, já que nem o remo, o esporte com mais popularidade do país na época, estamparia as primeiras páginas de jornal.

A dúvida aconteceu porque o esporte predileto até mesmo de profissionais experientes, que escreviam para os cadernos especializados, já no meio do século XX, não tinha espaço na mídia, quem diria o futebol que estava chegando no Brasil. Paulo Vinicius Coelho (2003) diz que João Saldanha fez uma previsão no final dos anos 60, quando um aventureiro lançou uma revista totalmente dedicada ao futebol. A Placar não sairia dos primeiros números, imaginava Saldanha, que prestou grandes serviços ao esporte brasileiro.

Paulo diz, em seu livro Jornalismo Esportivo (2003), que a importância dos veículos que se dedicavam ao esporte começou mais cedo do que se pensavam. Em São Paulo, na década de 1910, haviam páginas de divulgação esportiva no jornal Fanfulha. Apesar de não ser voltado para as elites, não formava opinião, mas atingia um número cada vez mais numeroso na São Paulo da época: os italianos.

Coelho (2003) conta que o jornal trazia notícias de página inteira num tempo em que esse esporte ainda não agradava multidões. Não era o que hoje podemos chamar de jornalismo esportivo, mas se não fosse o Fanfulha, ninguém saberia como foi o primeiro jogo no estádio do Palmeiras. Nem que o futebol do Flamengo só havia nascido em 1911, apesar de o clube ter sido fundado para a prática do remo 16 anos antes.

Tudo foi registrado, mesmo não sendo aceito por muitos. Porque na redação do passado havia sempre alguém disposto a cortar uma parte a mais dedicada ao esporte. “Não existia o que se pode chamar hoje de jornalismo esportivo. Mas não fossem aqueles relatos, ninguém jamais saberia, por exemplo, quando e qual foi o primeiro jogo do velho palestra. Tudo foi registrado”. (COELHO, 2003, p.8).

Coelho (2003) diz que no início do século XX, o Rio de Janeiro respirava o Brasil. Os jornais dedicavam cada vez mais espaço ao futebol. Mais do que nas outras cidades do país. As partidas dos grandes times da época aos poucas foram ganhando destaque. Até que o Vasco, em 1923, conquistou a segunda divisão apostando na presença dos negros em seus quadros. Os negros entravam de vez no futebol, e tomavam a ponta no esporte. Era a popularização que faltava.

Na figura 1, podemos ver o destaque, sendo publicada uma edição especial, que o jornal A Tribuna deu para o título do Vasco da Gama. O jornal foi publicado em 21 de agosto de 1923.

Figura 1


A tribuna destaca o título de campeão carioca de 1923. Fonte: Blog Ranking & Futebol RJ

Coelho (2003) conta que em 1931, o Jornal dos Sports nasceu no Rio de Janeiro. Este que foi o primeiro diário exclusivo dedicado aos esportes no país. Sendo o primeiro a enfrentar a realidade que tomou contas dos diários esportivos a partir daí. A Gazeta Esportiva surgiu em 1928, mas que só se tornou um diário esportivo em 1947.

Coelho (2003) diz que Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, foi o fundador do Jornal do Sports no início da década de 1930. E que o Jornal dos Sports acompanhou a primeira grande crise do futebol brasileiro. A instauração do profissionalismo criou uma cisão entre os times tanto no futebol do Rio quanto no de São Paulo.

Os jornais cariocas acompanharam tudo como puderam. Com pouco espaço e dando mais destaque ao que acontecia dentro de campo do que à briga política entre todos os times. Isso até a pacificação, em 1937, quando entrou na moda o melhor estilo carioca de divulgar futebol. (COELHO, 2003, p.16)

Com o passar dos anos, revistas e jornais de esportes foram surgindo e desaparecendo. No Rio de Janeiro, a Revista do Esporte viveu bons anos no final da década de 1950 e o início dos anos 1960. Viu nascer Pelé e o Brasil ganhar títulos mundiais. Viu o futebol viver momentos de estado de graça. E mesmo assim não sobreviveu às adversidades.

Figura 2


Essa era uma publicação semanal da Revista do Esporte, com fotos e reportagens para aqueles que viveram os anos mágicos do futebol dos anos 50 e 60. Fonte: Blog Cacellain

Coelho (2003) conta que apenas no final dos anos 60 os grandes cadernos de esportes tomaram conta dos jornais. “De todo jeito, a partir da segunda metade dos anos 1960, com cadernos esportivos mais presentes e de maior volume, o Brasil entrou na lista dos países com imprensa esportiva de larga extensão.” (COELHO, 2003, p.10).

De acordo com Paulo Vinicius Coelho, os jornais se dedicavam aos esportes no espaço que lhes era possível. É claro que não havia a cultura dos grandes jornais esportivos de hoje, que são inteiramente dedicados ao esporte. Mas, mesmo assim, o jornalismo esportivo não era menosprezado e muito menos tinha a falta de interesses de seus leitores. Isso ocorria mais por uma falta de espaços nos jornais.

Paulo César Coelho (2003) conta que o futebol entrou mesmo no gosto da população depois da conquista da Seleção Brasileira. “Seleção que havia disputado sua primeira partida em 1914. Mas foi só a partir do começo dos anos 1940 que o futebol ganhou relatos apaixonados em espaços maiores. E com colunistas como Mário Filho e Nelson Rodrigues.” (COELHO, 2003).

Esse foi um pouco da rica história do jornalismo esportivo no Brasil que, mesmo nas adversidades, conseguiu se estabelecer e ganhar seu grande espaço na mídia. Na próxima seção será contada a história da grande cidade pioneira no jornalismo esportivo, o Rio de Janeiro.

3.1 Imprensa esportiva carioca

No artigo Imprensa esportiva carioca: surgimento, modernizações e segmentação, a jornalista Thaís Meinicke aborda o panorama da imprensa esportiva carioca, desde o surgimento, no século XIX, até os dias de hoje. Meinicke conta no artigo que para poder ser compreendido o desenvolvimento da cobertura esportiva, é necessário conhecer um panorama da imprensa carioca desde o momento em que o esporte começou a ganhar um espaço na mídia.

Meinicke fala que até o final do século XIX, a prática de esportes não fazia parte do cotidiano da população do Rio de Janeiro, muito pelo contrário, as atividades físicas pesadas eram consideradas prejudiciais à saúde. “Até o final do século XIX, a prática esportiva não era um hábito na vida da população do Rio de Janeiro. Ao contrário, eram evitadas quaisquer atividades físicas mais pesadas, consideradas, à época, como nocivas à saúde.” (MEINICKE, Thaís).

Mas, no final do século XIX, o esporte entrou na sociedade causando um grande impacto na vida social, o que provocou uma revolução moral e dos costumes entre os cariocas, como no padrão de beleza. Assim, os jogos esportivos, que antes eram considerados nocivos à saúde, foram aclamados pelas organizações médicas junto à imprensa e às famílias. Meinicke fala sobre a aceitação da população perante a atividade física. “Rapidamente essas atividades físicas começaram a fazer parte do receituário de uma vida “civilizada”, um tipo de vida que foi moda nos anos 1920, sendo seus praticantes conhecidos como “sportmen”.” (MEINICKE, Thaís).

No artigo de Meinicke conta que com a popularização da prática esportiva, a imprensa começou a divulgar o assunto em suas páginas. Com isso, as revistas de variedades começam a incluir em suas pautas a prática esportiva como exemplo de vida saudável e os jornais se veem obrigados a noticiar competições que ocorriam na cidade. Mesmo com esse acontecimento, o esporte ainda possuía poucos espaços dentro do jornal, sendo divulgadas notícias em pequenas colunas.

Meinicke cita em seu artigo que com a criação da Liga Metropolitana de Football em 1905, formada inicialmente por Fluminense, Botafogo, Bangu e Athletic and Football Club, o futebol começou a ganhar um espaço nas páginas dos jornais da cidade. Meinicke cita que Leonardo Affonso de Miranda Pereira afirma que os diários cariocas estavam preocupados mais com o evento social que girava em torno das partidas de futebol do que com as informações do jogo em si e diziam que os eventos contavam com “as mais distintas famílias da sociedade fluminense”.

Meinicke cita que para entender o processo que levou o futebol a ser inserido no cotidiano do brasileiro como cultura popular do país é preciso destacar alguns fatores. O caminho trilhado pela família Rodrigues na imprensa carioca, principalmente Mário Filho, que desenvolveu de forma revolucionária a cobertura esportiva. A implementação do futebol entre as classes mais baixas da sociedade, os aproximando da cobertura esportiva e o quanto colaborou para o desenvolvimento profissional do futebol e da profissão de jornalista esportivo no país.

Porém, Meinicke diz que a popularização do esporte sofreu represálias das classes mais altas, que refletiam na imprensa. Ela cita Leonel Kaz, que considera esse período o final da infância do futebol brasileiro, onde o país viveu a ascensão do homem do povo como futebolista e a resistência por parte dos clubes organizados.

Meinicke fala que com o passar do tempo a postura da imprensa vai se modificando à medida que o futebol se populariza na cidade, ficando sempre do lado das classes dominantes. “Se outrora a imprensa carioca fazia elogios ao esporte, ela vai gradativamente aumentando suas críticas e acusações, ressaltando a violência e descortesia do jogo de bola, postura que faz perceber como o futebol vai se desqualificando como um lazer fino.” (MEINICKE, Thaís).

Essa foi a história da evolução da imprensa esportiva no Rio de janeiro, onde as pessoas não eram favoráveis ao esporte. Mas com o passar dos anos, a postura da imprensa foi mudando e hoje se tornou uma das editorias mais importantes do estado e do Mundo. Na próxima seção serão contados os caminhos que o jornalista esportivo percorreu até chegar ao seu ápice ou não.

3.2 O jornalista esportivo

Para Coelho (2003) o jogo entre Botafogo e Fluminense é chamado de “Clássico Vovô” porque é o jogo entre os clubes mais antigos do futebol do Rio. Já o jogo entre Flamengo e Vasco passou a ser chamado nos anos 1940 de “Clássico dos Milhões”, por levar milhões de torcedores nas bilheterias dos estádios. Flamengo e Fluminense? Bem, o “FlaFlu” nasceu quarenta minutos antes do nada, como diria Nelson Rodrigues. Não há clássico em canto nenhum do Brasil que reúna tanta história. De acordo com Coelho, isso era fruto da maneira como se fazia jornalismo no Rio de Janeiro da época. Onde a informação precisa era menos importante. Os cronistas cuidavam mais dos personagens e suas histórias, romanceando-as.

Coelho (2003) diz também que as crônicas que Nelson Rodrigues escrevia não eram exatamente jornalismo, pois eram textos recheados de drama e de poesia. Ele conta um fato ocorrido no Maracanã, em 1950, que Nelson Rodrigues virou-se para Armando Nogueira, e perguntou-lhe: “O que foi que nós vimos, Armando?”. Nesse momento podemos observar que Nelson Rodrigues não escrevia os fatos que realmente acontecia e sim fantasiava a notícia.

De acordo com Coelho (2003) a miopia de Nelson Rodrigues tirava-lhe a possibilidade de enxergar qualquer coisa em um jogo de futebol, ainda mais em estádio grande como o Maracanã. E daí? Romance era com ele mesmo. Crônicas com drama e poesia enriqueciam as páginas dos jornais em que Nelson Rodrigues e Mário Filho escreviam.

Coelho conta que até jogo violento, como Bangu e Flamengo, que decidiu o Campeonato Carioca de 1966 – a partida não completou o tempo regulamentar porque o jogador Almir, do Flamengo, armou grande confusão -, era por eles tratado com rara dramaticidade. Essas crônicas motivavam o torcedor a ir ao estádio para o jogo seguinte e, é claro, para ver seu ídolo em campo. Essa dramaticidade servia para aumentar a idolatria em relação a este ou aquele jogador. Fazendo com que os seres mortais fossem alcançados da noite pra o dia à condição de semideuses.

Coelho (2003) cita que havia de fato espaço para a mistura desses dois estilos. E era o que se esperava de todo grande jornal, entre a mistura do romantismo e factual. “O fato é que há espaço para tudo e para todos. É impossível ler Nelson Rodrigues sem se dar conta da imprecisão de seus relatos de jogos.” (COELHO, 2003, p.18).

Um exemplo em que Coelho (2003) fala é a maneira como Nelson Rodrigues descreve o terceiro gol do Brasil no Mundial do Chile, 1962: “Djalma Santos pôs a bola na área e Vavá, com seu peito de aço, meteu a cabeça nela, fazendo 3x1”. Coelho (2003) diz que a forma correta deveria incluir a falha do goleiro Schroiff. E também que, de fato, Vavá com o pé direito na bola, não a cabeça.

Essa imprecisão diminuiu consideravelmente nos jornais dos anos 1970, graças ao compromisso da imprensa de contar a verdade. Coelho (2003) diz que a maneira como o Jornal da Tarde, em São Paulo, fazia jornalismo, ajudou a excluir esse mito. “O problema, evidentemente, é que o que é verdade, o que é opinião e o que é lenda se misturam e nem todo mundo é capaz de diferenciar o que é jornalismo do que não é”. (COELHO, 2003, p.19).

Paulo Vinícius Coelho (2003) diz que existe uma distorção difícil de corrigir, que é a maneira como cada jornalista esportivo de cada tempo se refere aos jogadores de capa época.

O resultado é, muitas vezes, uma crônica tão desprovida de paixão que é capaz de jogar na vala comum atletas que certamente já mereceram lugar na história. Gente como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto, Dunga. Gente que deu ao país o quarto e quinto títulos mundiais, e que jamais foi tratada com a relevância dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970. (COELHO, 2003, p.26)

Com o passar dos anos e o avanço da imprensa esportiva no Brasil, Coelho (2003) conta que o início do ano 2000 foi promissor. Sites dos mais variados assuntos pipocavam e tiravam jornalistas das redações mais importante do país. Profissionais qualificados e com anos de experiência no mercado de trabalho. Como o editor do caderno de esportes do Jornal da Tarde, de São Paulo, José Eduardo de Carvalho.

Em 2000 ele deixou o prédio do bairro do Limão, na capital paulista, para trabalhar no site da PSN, a Pan American Sports Network, canal a cabo à la carte que lançava também seu site na internet brasileira. Foi o mais expressivo exemplo de um período em que os sites começaram a ter importância e concorrer com os grandes jornais. (COELHO, 2003, p.25)

Coelho (2003) diz que a internet fez com que os jornalistas achassem que seria a profissão mais bem renumerada. É um desejo que dura muito tempo, especialmente no jornalismo esportivo. Só que esse primeiro impacto da internet durou menos de um ano. “Em 2001, a situação já era outra. Vários sites estavam anunciando falência. A PSN anunciou a falência em outubro, o que causou demissões não apenas nos sites, mas também na emissora de TV.” (COELHO, 2003, p.25).

Isso fez com que a internet deixasse bons profissionais sem emprego. Coelho (2003) conta que alguns nunca mais voltaram às editorias de esporte. Os jornais os substituíram por profissionais com salários mais baixos. Coelho (2003) diz, em Jornalismo Esportivo, que profissionais que tem uma situação salarial razoável no mercado de trabalho recebe todas as semanas e-mails de jovens profissionais em busca de oportunidade.

Há os que querem sua primeira oportunidade; os que sonham com um lugar em qualquer área do jornalismo e os que ainda nem entraram na faculdade, mas almejam praticar sua paixão. Vários deles entrarão no mercado de trabalho e deixarão suas marcas. Outros talvez nunca consigam sequer escrever uma linha sobre esportes. Questão de oportunidade. (COELHO, 2003, p.26)

 

É difícil ter uma chance em um mercado de trabalho que existem milhares de jornalistas formados todos os anos. O duro também é manter o salário elevado por muito tempo se há diversas ofertas de novos profissionais buscando uma chance. Se existe uma grande quantidade de estagiários em busca do processo de seleção para vaga de emprego, mesmo tendo um piso salarial muito aquém do que se espera do mercado.

Coelho (2003) diz que uma grande editoria de esportes costumava ter trinta profissionais na metade dos anos 1990. O processo era parecido como o de qualquer outra redação: um grupo seleto de profissionais consagrados que se misturava com jovens recém-formados. No início de 2002, a editoria de esportes da Folha de S.Paulo tinha cerca de 20 profissionais. A editoria ganhou destaque, recebeu aumentos salariais e se tornou uma das mais bem pagas do país.

Coelho (2003) diz que ainda assim, não é na editoria de esporte que estão os melhores salários, mas que é o grande foco dos profissionais que buscam oportunidades. Ele fala que isso é péssimo para o desenvolvimento da carreira de jornalista esportivo.

É para ela que seguem os focas, novatos que chegam sedentos de trabalho e de crescimento profissional. É assim desde que o jornalismo esportivo escreveu sua primeira página. As portas de entrada para novatos são a editoria de esportes e cidade. O que é ótimo para quem quer seguir carreira em outras áreas. E péssimo para o desenvolvimento da própria carreira de jornalista esportivo. (COELHO, 2003, p.27)

Coelho (2003) verificou que a profissão de jornalista esportivo, assim como o jornalista policial, era mal vista, e que qualquer pessoa poderia realizar essa função, porque era de entendimento que de futebol qualquer pessoa tinha conhecimentos suficientes para escrever uma notícia para o jornal e que tinha preconceito também com as pessoas que desempenhavam esse papel.

Durante todo o século passado, dirigir redação esportiva queria dizer tourear a realidade. Lutar contra o preconceito de que só os de menor poder aquisitivo poderiam tornar-se leitores desse tipo de diário. O preconceito não era infundado, o que tornava a luta ainda mais inglória. (COELHO, 2003, p.9)

Mauricio Stycer, em A História do Lance, conta que o jornalismo esportivo foi uma especialidade que menos tinha importância dentro do jornalismo. E que atraía profissionais com menos habilidades e ambições que os redatores políticos ou literários. Stycer cita o depoimento de Adriano Neiva, jornalista esportivo e historiador, conhecido como De Vaney, em que mostrava a situação desse profissional no início do século XX:

As funções não eram fixas nem, muito menos, compensadoramente remuneradas. A maioria dos “cronistas” trabalhava de graça, só para ter o ensejo de escrever em jornal, já que essa era a sua inclinação, e para poder, principalmente, defender o seu clube, porque, naquele tempo, tal como hoje, o “cronista” tinha seu clube preferido, com a diferença de que, antes, àquela época, ninguém fazia segredo disso. Pelo contrário. (NEIVA apud STYCER, 2008, p.172).

A comprovar o que Ruy Castro escreveu sobre o trabalho dos repórteres esportivos do Rio de janeiro em 1927. “Não fosse pelo lanche que os clubes ofereciam nos dias de treino, alguns desses repórteres morreriam de fome”. (CASTRO, Ruy). Stycer diz que De Vaney se lembra que os jornalistas de esporte não recebiam salários regulares, e que viviam com vales. “A maneira de pagá-los tinha um quê de burlesco e muito de humilhação: o vale, esse vale que foi o vale de lágrimas de duas gerações de jornalistas.” (NEIVA apud STYCER, 2008, p.173).

Para Stycer os textos de Adriano Neiva permite ver o jornalismo esportivo das décadas de 20 e 30 como um trabalho de profissionais despreparados, sem valorização e alheios a alguns padrões éticos, de preferência a fidelidade sobre a verdade factual e a sobriedade na escrita dos fatos.

Neste capítulo pudemos conhecer como foi dura e difícil a missão de poder tornar o jornalismo esportivo nessa massa que é hoje em dia, onde temos jornais exclusivos para os esportes e jornais que possuem cadernos esportivos. E também foi abordado o desenvolvimento do jornalismo esportivo no Rio de Janeiro. Além do trabalho do jornalista esportivo e as dificuldades para se conseguir trabalhar numa redação de esportes, um mercado competitivo onde tem milhares de jornalistas se formando todos os anos em busca de uma oportunidade.

No próximo capítulo será abordada a pauta no jornalismo esportivo, como os veículos de comunicação se preparam para poder organizar uma boa pauta para seus receptores.

4. A PAUTA DO NOTICIÁRIO ESPORTIVO

Nesse capítulo será abordado como é feita a seleção da pauta no jornalismo esportivo. Antigamente, os veículos priorizavam a qualidade da informação e a diferenciação em suas pautas.

No livro Jornalismo Esportivo Paulo Vinicius Coelho (2003) conta que rádios, jornais e emissoras de televisão há décadas dividem atenção do público, que procura ambiciosamente por notícias sobre esportes. O que também acontece nas outras editorias. Mas, a informação impressa tem um peso diferente na imprensa esportiva e nos demais meios de comunicação.

Coelho (2003) fala que no início do ano 2000, a direção da Editora Abril encomendou uma pesquisa sobre a revista Placar. O projeto editorial não previa que a publicação atingiria público de baixa renda e igual nível cultura. Porém, a pesquisa mostrou um dado surpreendente: apenas 20% dos leitores assíduos da revista possuíam computador em casa. A maior parte do público era das classes C e D da população. No mesmo período, as pesquisas apontavam o predomínio das classes A e B entre os leitores de revistas como Veja, Exame e a Playboy.

Para Coelho (2003) essa é uma informação que preocupa quem torce pelo sucesso da publicação esportiva. Nem tanto pelo conteúdo das revistas. Placar também tinha qualidade, com boas matérias, tinha a confiabilidade da informação como sua aposta. E atingia um público de baixo poder aquisitivo.

O que vale também para o Lance, a Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports. Coelho (2003) cita o Lance, como exemplo, que sempre colocou a qualidade da informação, a diferenciação de suas pautas, como o diário que pretende “fazer esportes como você nunca viu”, segundo o próprio slogan da empresa. Mas as pesquisas apontaram que o público do diário é predominantemente das camadas mais baixas. Então não seria o caso dessas mídias investir na classe mais baixa, mudando sua linha editorial voltada para essas classes, para aumentar o número de vendas? Coelho diz que a resposta definitiva à pergunta é não!

Coelho (2003) mostra que a história recente das publicações esportivas coloca isso de forma clara. A começar pela Gazeta Esportiva, histórico diário esportivo paulista, que circulava com desenvoltura nos anos 1960 e 1970. Gazeta teve números expressivos, era quase que obrigatória a sua leitura para quem tinha interesse em esportes. Era vendido numa época em que se buscavam informações esportivas na leitura dos jornais, sem precisar divulgar notícias tendenciosas. “Vendia em uma época em que a procura por informações esportivas se dava, sobretudo, pela leitura de jornais. Conseguia sucesso sem apelar para o aspecto popular da notícia nem para manchetes sensacionalistas.” (COELHO, 2003, p.84).

A partir do início dos anos 1980, Coelho (2003) cita que as manchetes ganharam um teor mais apimentado. Com isso, a busca pelo público mais popular caía na mesma medida em que as vendas baixavam. O que acabou desencadeando o seu desaparecimento das bancas.

No final dos anos de 1980, Placar também tentou dar uma levantada para o público popular. Mas Coelho (2003) diz que em setembro de 1988, como resultado das vendas da revista ficou parado desde 1985, a direção da Editora Abril resolveu apostar em projeto popular. Criando um nome especial para o relançamento da revista: Placar Mais!

Coelho (2003) diz que a aposta no público popular foi talvez o maior erro da revista, que teve uma queda de até quarenta mil exemplares semanais em suas vendas, herdada das edições temáticas que fizeram renascer entre 1994 e 1997. “Se apostar em qualidade editorial custa aos veículos da imprensa esportiva um público leitor das camadas mais populares significa tiro no pé. Como aconteceu nos casos de Placar e Gazeta Esportiva.” (COELHO, 2003, p.85).

Temos uma grande contradição, se levarmos em conta que as camadas mais baixas são as que produzem índices aceitáveis de audiência em emissoras de rádio, que possuem programação dedicada ao esporte. Programações essas que não tem conflito com os jornais que chegam as bancas. Coelho (2003) fala que os jornais precisam ter manchetes mais reflexivas e menos voltadas apenas para o fato que já é conhecido na véspera.

Coelho (2003) relata que a queda de 30% das vendas do Lance no período da Copa do Mundo possa ter começado justamente no dia da manchete “O time”. “Em que pese o exagero, ela pode ter dado no início da cobertura o tom que seria a Copa do Mundo do ponto de vista dos jornais: uma coleção de notícias já veiculadas nas emissoras de rádio, na TV e na internet.” (COELHO, 2003, p.25).

Quanto mais conteúdo a matéria oferecer, e quanto maior for a capacidade de prender o leitor que já possui as informações do noticiário esportivo e o que não tem essa informação, melhor será a formação dos jornais esportivos. Para que isso ocorra as empresas de imprensa esportiva precisam ter uma maior capacidade de investimento.

Neste capítulo pudemos ver como o jornalismo esportivo se preparou para conseguir chegar ao projeto editorial ideal. E também, a forma de escolhas dos conteúdos de suas pautas para que pudessem oferecer aos leitores informações com qualidade.

5. A NOTÍCIA COMO ESPETÁCULO

Neste capítulo será abordado o tema principal e muito importante da pesquisa que é a espetacularização da notícia, porque que essas notícias ganham cada vez mais espaços no noticiário esportivo. Também será tratado um dos motivos que levam os veículos de comunicação a se utilizarem da espetacularização da notícia, que é o capitalismo envolvido com a informação jornalística.

Em A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord (1997) diz que o espetáculo faz parte da sociedade, tornando-se um instrumento único. E que parte da sociedade tem o espetáculo concentrado no consciente. “Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada.“ (DEBORD, 1997, p.9).

Para Debord (1997) o espetáculo não são apenas imagens, mas que existe uma relação social entre pessoas, que são midiatizadas por essas imagens. Ele explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e dividida, onde as pessoas são obrigadas a observar e consumir essas imagens que lhe faltam na vida real.

O espetáculo que inverte o real é produzido de forma que a realidade vivida acaba materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, refazendo em si mesma a ordem espetacular pela adesão positiva. O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente. (DEBORD, 1997, p.10)

Figura 3


Ronaldinho vai jogar na cidade com mais bares do Brasil. Fonte: Jornal Meia Hora

Ronaldinho Gaúcho foi muito criticado quando era jogador do Flamengo, pelas suas noitadas. E quando decidiu sair do clube para jogar no Atlético Mineiro foi alvo de veículos de comunicação esportiva, dizendo que iria para Belo Horizonte curtir mais farras. E nesse tipo de notícia é exposta claramente a opinião de Debord, quando ele diz que o espetáculo não são apenas imagens, mas que tem uma relação social entre o público. Nesse caso, um jornal do Rio de Janeiro expondo uma situação para o público carioca, diretamente para a torcida do Flamengo.

Debord (1997) explica que o espetáculo é um mal necessário que está preso no interior da sociedade moderna, onde se contentam com esse desejo. O autor fala que a alienação do espectador está no resultado do seu próprio inconsciente, onde quanto mais ele reconhecer suas necessidades nas imagens, menos ele compreende sua própria existência e seus desejos.

A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de outro que lhes apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda parte. (DEBORD, 1997, p.19)

De acordo com Debord (1997) a imagem não segue uma lógica própria. Ela não tem vínculo com a realidade e o espetáculo, seu predomínio, é apenas um mediador. Ele cita que o espetáculo é o mundo da mercadoria que está dominando tudo o que é vivido. “É pelo princípio do fetichismo da mercadoria, a sociedade sendo dominada por coisas supra-sensíveis, embora sensíveis, que o espetáculo se realiza absolutamente.” (DEBORD, 1997, p.21).

Para Debord (1997) as relações entre os homens não são medidas pelo desejo de mercadorias, e sim pelas imagens diretamente. O autor fala também que existe um mundo em que imagem e real, espetáculo e realidade, já são misturados. E que precisa, agora, deformar o espetáculo.

Para o autor o espetáculo é o momento em que a mercadoria se tornou parte total da vida social. O público consome o imaginário, a mercadoria é uma ilusão e o espetáculo sua manifestação geral. Isso é claramente visível com relação à mercadoria, não se pode ver mais nada que não seja ela. Ele diz que isso é todo um trabalho vendido de uma sociedade, tornando um ciclo que deve ser mantido.

Debord (1997) compara o espetáculo como sendo um representante do dinheiro, que dominou a sociedade enquanto representação do caráter permutável dos bens múltiplos tendo seu uso incomparável. Com isso, ele define que o espetáculo é o dinheiro em que a sociedade só pode olhar, porque nele já obteve a totalidade do consumo que foi trocado com a totalidade da representação abstrata. “Tal enlace recobre a fabricação e veiculação, como programação, de espetáculos pela mídia e a transmissão de espetáculos culturais, políticos, religiosos e de outros tipos forjados por outros entes sociais.” (DEBORD, 1997, p.17).

Antonio Canelas Rubim (2000) diz que espetáculo, mercadoria e capitalismo estão totalmente ligados uns aos outros. E que deste modo, a sociedade do espetáculo pode ser interpretada como uma formação avançada do capitalismo. Rubim (2000) também explica que essa conexão entre mídia e espetáculo está privilegiada na atualidade.

Para Rubim (2000) as copas do mundo de futebol exemplificam essas celebrações espetaculares do contemporâneo. O autor cita que existem outras especificidades no processo de espetacularização, que é a cultura como espetáculo. Mas que, em uma sociedade do espetáculo, onde tudo tende ao espetacular, a espetacularização também possuiu obstáculos para operar.

Coelho (2003) aborda em seu livro, Jornalismo Esportivo, a notícia espetacularizada voltada para esporte. Para ele escândalo nunca faltou no esporte brasileiro. Ele cita exemplos de dirigentes que foram depostos dos clubes por improbabilidade administrativa, como o primeiro presidente de grande clube do futebol brasileiro. Tratava-se de Miguel Martinez.

Escândalos não faltam. Mas porque aumentou o interesse das redações nesses tipos de notícias? Coelho (2003) diz que esses tipos de matérias já existem há décadas. “Esses assuntos são áridos, não agradam todos os leitores – nem todos os jornalistas. Mas há os que se especializam nessas histórias.” (COELHO, 2003, p.87).

Para Mauro Betti, no artigo Esporte na mídia ou Esporte da Mídia, todo esporte que está na mídia é, na verdade, um esporte da mídia. O autor diz que se a mídia focasse o esporte como cooperação, autoconhecimento, sociabilização etc., em vez do habitual vitória-derrota, recompensa exterior, violência etc., mesmo assim estaria fragmentando e descontextualizando o fenômeno esportivo.

Betti diz que admitir o esporte na mídia seria aceitar o pressuposto de que a mídia fosse capaz de abordar o esporte por inteiro, o que não é possível por dois motivos citados por Santaella. 1) pela própria natureza e limitações de cada esporte na mídia; 2) pelo fato de que cada mídia cumpre funções específicas. (SANTAELLA apud BETTI). Betti diz que o esporte na mídia é, inevitavelmente, sempre medido pelos interesses dos diversos meios de comunicação, mas o que se destaca é a televisão.

Por isso, é a televisão a mídia mais importante para entendermos as relações entre as duas instâncias. De fato, o esporte não teria alcançado a importância política, econômica e cultural de que desfruta hoje não fosse sua associação com a televisão, associação esta que criou uma “realidade textual autônoma”: o esporte telespetáculo. (BETTI, 2002).

Para Betti existem algumas características do esporte da mídia concentrada no caso da televisão, que são: 1) Ênfase na “falação esportiva”: que informa quem ganhou, quem foi contratado ou vendido, quem se contundiu, e até sobre a vida pessoal dos atletas. A falação também faz previsões, promete, cria polêmicas, faz críticas, elege ídolos e sempre que possível ela dramatiza; 2) Monocultura esportiva; 3)Sobrevalorização da forma em relação ao conteúdo; 4) Superficialidade; 5) Prevalência dos interesses econômicos.

Betti fala que se realizarmos um exercício de imaginação e com esperança. Ele cita o que deveríamos ler, ouvir e olhar como se existisse um outro lado, o do esporte na mídia. Para ele a cobertura de várias modalidades esportivas, inclusive as que são predominantemente amadoras; a presença de informações/conteúdos científicos sobre a cultura esportiva; análises aprofundadas e críticas a respeito dos fatos, acontecimentos e tendências nas várias dimensões que envolvem o esporte atualmente como economia, política, treinamento, tática, considerando o passado, o presente e o futuro; as vozes dos atletas profissionais e amadores enquanto seres humanos integrais, e não como máquinas de rendimento. Betti indaga, se todas essas características fossem adaptadas às características de cada mídia, preservando a forma espetacular que atrai o leitor, o ouvinte, o telespectador. Quem se arrisca a tentar?

Viviane Borelli, no artigo Cobertura midiática de acontecimentos esportivos, cita que Sergio Ricardo Quiroga observou que os pesquisadores precisam ter uma reflexão sobre o jornalismo esportivo e a forma de construção das notícias, necessitando ser mais criativas e contextualizadas. Quiroga também fala sobre a questão da violência no esporte, ele defende que os jornalistas esportivos tem um grande papel a cumprir para quer essa violência não aumente.

Borelli cita que Ronaldo Helal analisou a forma como os acontecimentos foram narrados na derrota do Brasil contra a França, na Copa do mundo de 98, e a representação social dos ídolos, através do jogador Ronaldinho, em quem tinha toda confiança dos brasileiros, o que foi divulgado na mídia. Helal fez uma análise sobre a construção do mito, ele dizia que Ronaldinho sempre aparecia em reportagens que salientavam sua juventude, talento, humildade etc. Mas, com o fracasso brasileiro naquela Copa, os jornais começaram a divulgar fatos que transformavam o mito, em homem comum.

Na derrota do ídolo, descobre-se o Ronaldo, o homem, o mortal e percebe-se a sua “humanização”. Depois o mito passa a ser visualizado com traços humanos, onde se fala em desafios, provocações e superações, inicia o processo de fala discursiva do herói. (HELAL apud BORELLI, 2001).

Borelli diz que assim como em outras áreas, os ídolos do esporte alimentam o imaginário dos receptores, que querem saber tudo sobre a vida pessoal e profissional dos seus ídolos. “A opinião pública passa a dirigir a atenção em torno destes acontecimentos esportivos, impregnados de complexidade.” (BORELLI, 2001).

Regina Toledo, no artigo O espetáculo midiatizado, a espetacularização da notícia pode ser encontrada em programas populares que possuem altos índices de audiência com temáticas que dão foco ao sensacionalismo e a emoção. Para ela essas situações, através de imagens, também ocorrem no esporte. “Mais recentemente, notamos que cenas esportivas aparecem como espetaculares em imagens sensacionalistas.” (TOLEDO, 2006). Toledo cita as cenas de violência e morte nos estádios de futebol, dentro e fora dos gramados, em detalhes pelos veículos de comunicação esportivos.

Figura 4


Exclusivo: Violência de torcedores assusta até a polícia Fonte: Lancenet

Esse gráfico mostra toda ação do caso criminoso no futebol, do qual dois vascaínos foram alvo de 50 agressores que fazem parte de organizada do Fluminense. Como podemos ver, essas informações contextualizam com o que Toledo argumenta.

Toledo diz que essas imagens invadem o espaço do receptor sem pedir licença. Mas, são essas imagens que trazem retorno financeiro e o aumento da audiência e fazendo com que o jornalismo mais sóbrio e investigativo acabe perdendo espaço.

O que podemos observar é que o espetáculo faz parte da sociedade. Mas, o problema é a forma como tem sido utilizado por parte dos veículos de comunicação. Para Toledo esse cenário midiático existe algumas tendências nas mídias. “A atitude sensacionalista foi desencadeada pela concorrência com a televisão, visando sobreviver.” (TOLEDO, 2006).

Para ela, a mídia impressa está sendo mais interpretativa e menos descritiva, utilizando textos que refletem as ações do fato. Ela também diz que, muitas vezes, matérias veiculadas no rádio fogem do padrão básico de comunicação.

Toledo sugere aos profissionais de comunicação esportiva a conhecerem a filosofia, a cultura e o significado antropológico do futebol para a sociedade. “Falta, e muito, oferecer, através da informação educacional sobre o esporte, perspectivas de uma vida mais saudável.” (TOLEDO, 2006). Para ela, seria importante divulgar uma informação mais cultural sobre o futebol e suas relações com a sociedade.

Na próxima seção será discorrida a outra causa para que o jornalismo espetacularizado ganhe espaço nas mídias.

5.1 A notícia como mercadoria

O autor Adelmo Genro Filho, em “O Segredo da Pirâmide”, cita Ciro Marcondes Filho como o principal ponto de pesquisa para seus pensamentos e diz que Marcondes segue as pegadas de Habermas. “Considera-se o jornalismo propriamente dito a atividade que surge em um segundo momento da produção empresarial de notícias, e que se caracteriza pelo uso do veículo impresso para fins – além de econômicos políticos e ideológicos. Somente no momento em que a imprensa passa a funcionar como instrumento de classe é que ela assume o seu caráter rigorosamente jornalístico.”

Para Adelmo isso ocorre exatamente ao contrário. A imprensa só assume um caráter rigorosamente jornalístico quando ultrapassa o seu funcionamento estrito enquanto instrumento de classe. Para Marcondes Filho, pensador marxista, o capital adquire um poder quase místico, fazendo com que o jornalismo apareça apenas para mirar-se nele e reproduzir as condições da sua acumulação.

Marcondes diz que a imprensa e o capitalismo “são pares gêmeos”. Adelmo confirma que a imprensa surgiu com o desenvolvimento do capitalismo, mas dizer que são “pares gêmeos” vai de encontro só com marxismo diminuído, com o método do “não é mais que” poderia percorrer. “A imprensa “não é mais que” fruto do processo de produção capitalista! O jornalismo “não é mais que” a informação transformada em mercadoria! A notícia “não é mais que” uma forma de circulação da ideologia burguesa!” (ADELMO, 2001).

Adelmo diz que esse tipo de pensamento despreza as mediações que se constituem como um movimento pelo qual o concreto é apanhado em sua produção histórica. “Poder-se-ia questionar: muito bem, o jornalismo é informação transformada em mercadoria. Mas nem todas as mercadorias são iguais. Além disso, será que todo o jornalismo será sempre, inevitavelmente, mercadoria?” (ADELMO, 2001).

O modo de produção capitalista não existe apenas para satisfazer os interesses particulares da burguesia, mas também como um momento da história universal. Uma parte significativa da sua existência é permanente e, outra, é perecível e será destruída se forem conquistados o socialismo e o consumismo.

Assim, as necessidades geradas pelo capitalismo são também moedas de duas caras: uma particular, do sistema burguês, e outra universal, que se agrega ao gênero ou a um longo período da história posterior.

Adelmo diz que é preciso superar tais análises “economistas” e dissolventes do jornalismo, sem deixar de recuperar sua intenção crítica em relação à ideologia burguesa que, hoje encontra na atividade jornalística um dos modos importantes de sua reprodução. Certamente, o controle e a manipulação são partes integrantes do jornalismo capitalista. Mas deduzir a totalidade do fenômeno jornalístico, como objeto teórico, a partir de afirmações de que no jornalismo “o valor de uso é subordinado ao valor de troca”, é entrar num caminho cujo retrocesso é o “jornalismo literário” do século passado.

Para João Carlos Correia (1997), em “O Admirável Mundo das Notícias”, o jornalismo vive sob o imperativo do fator econômico e do cumprimento da sua função pública. Por isso, o campo jornalístico conquistou uma autonomia destinada a manter sua liberdade ao poder econômico.

Correia (1997) diz que o jornalismo industrial e de massa está, desde seu início no século passado, ligado ao mercado. O tratamento da notícia como mercadoria não é uma novidade dos nossos dias de hoje. E que se constituiu nesse período em torno de uma imprensa voltada para o sensacionalismo e de uma imprensa mais virada para informação e os comentários. O que o tornou mais virado para satisfação das exigências do mercado e do polo cultural.

Ele quer dizer que com isso a comercialização das notícias é tão velha como a prática de ganhar dinheiro com as próprias notícias. João Carlos fala da informação orientada para as audiências e informações destinadas a angariar publicidade em detrimento de outras rubricas menos atraentes comercial e publicitariamente; a orientação editorial comercial que antecipe e mimetize o mercado e as modas e o peso das receitas publicitárias são indicadores que se encontram no peso das lógicas comerciais e que podem expressar o confronto entre os campos de produção jornalística e a expansão das lógicas do campo econômico.

O jornalismo industrial e de massa está, desde o seu início no século passado, ligado ao mercado. A concepção da notícia como mercadoria não é, pois, uma novidade dos nossos dias. O campo jornalístico constitui-se nesse período em torno de uma imprensa voltada para o sensacionalismo e de uma imprensa mais virada para a informação e os comentários. Estas duas direções subsistiram e desenvolveram-se nos media, expressando-se na oposição entre o polo comercial, mais virado para a satisfação das exigências do mercado, e o polo cultural, centrado em imperativos profissionais e deontológicos. (CORREIA, 1997, p.100).

Correia cita dois fatores evidentes que são a publicidade e a propriedade. Embora seja claro o conteúdo que reflete sempre nos interesses dos que financiam a imprensa. Correia (1997) cita que McQuail aborda que a publicidade no jornalismo, ao contrário do que se pensa, não é apenas determinada pela circulação ou ibope, mas sim pela estrutura que integram essa audiência. “O desenho, a distribuição, o planeamento e a agenda dos medias refletem com frequência os interesses dos anunciantes”. (MCQUAIL apud CORREIA, 1997).

McQuail também diz que o segundo fator, que é a propriedade, se dá pelas pressões econômicas, o que significavam menos espaços para as notícias; menos recursos humanos em termos de jornalistas e menos disponibilidade para reunir material adicional que permita contextualizar os fatos.

Carlos Correia apesar de, geralmente, associar a formação de um jornalismo independente ao aparecimento da publicidade, já se verificou que a publicidade conseguiu exercer formas de constragimento oculto.

O autor cita um segundo grande fator econômico que é a estrutura da propriedade, a qual vem se alterando radicalmente no sentido de uma enorme quantidade de fusões.

Desde os anos 80 que se acentua a reentrada financeira traduzida por fusões, aquisições e cruzamentos de ações. A questão foi analisada minuciosamente do ponto de vista das consequências da concentração de capital na gestão das organizações mediáticas e, por conseguinte, da sua repercussão editorial. (CORREIA, 1997, p.110).

Correia diz que a questão que se levante na integração em grandes cadeias e conglomerados tem a ver com o efeito na necessidade que o retorno de investimento tem sobre o jornalismo praticado. Com isso, quanto mais lucro o veículo exigir, menos dinheiro terá para ser investido em jornalistas e cobertura noticiosa.

Com isso, a informação passou a ser determinada pelo mercado, onde notícias são vistas pelos seus produtores, não como um bem público, mas como mercadoria produzida para conseguir verba.

No texto de Fábio Henrique Pereira, Da Responsabilidade Social ao Jornalismo de Mercado, ele cita no capítulo “o fim da idade de ouro do jornalismo”, período que compreende o final da década de 40 e meados da década de 70, onde representa o auge da Teoria da Responsabilidade Social nos Estados Unidos.

A partir dessa época ele cita que a ideia do jornalismo como uma profissão voltada para os interesses do mercado começou a ganhar força. O “jornalismo de mercado” colocaria em xeque todo o ideal romântico que tem a profissão. E que de certa forma, existe uma radicalização do caráter mercantil da imprensa, com a própria produção noticiosa. Mas que, essa radicalização é resultado de alterações não apenas do jornalismo, mas em toda a sociedade. Fábio faz uma análise em cima de discussões feitas por Daniel Hallin; Allain Accardo; Ciro Marcondes Filho; Erik Neveu; Ignacio Ramonet e Bill Kovach e Tom Rosenstiel.

Fábio fala que a análise em discussão são as mudanças na estrutura das empresas de comunicação, que levaram a uma submissão da produção jornalística à lógica de exploração do sistema capitalista. Onde ele cita que a partir da década de 70, a maioria dos grandes jornais norte-americanos lançaram suas ações na bolsa de valores, fazendo com que a pressão pela busca de lucros e benefícios aumentasse em um prazo curto. O que aconteceu foi que as notícias deram lugar à cobertura de assuntos mais vendáveis e com alto conteúdo emocional, com único objetivo de maximização do público.

A informação se tornou de verdade e antes de tudo um mercado. Não possui valor específico ligado, por exemplo, à verdade ou à eficácia cívica. Enquanto mercadoria, ela está em grande parte sujeita às leis de mercado: da oferta e da demanda em vez de estar sujeita a outras regras, cívicas e éticas, de modo especial, que deveriam estas sim, ser as suas. (RAMONET, 2001, p.60).

Fábio diz que também é preciso destacar que, no Brasil, o processo de profissionalização das empresas jornalísticas não passou pelo mercado de ações. Mas, segundo Ribeiro (1994), ainda hoje a administração dos jornais é marcada pelo conflito entre o autoritarismo centralizador dos grupos familiares que controlam o jornal e a racionalidade de exigir metas e desempenhos profissionais.

A influência da lógica comercial nas redações trouxe a redução de custos na fabricação de notícias e um processo de precarização do mercado de trabalho. Para um jornalista conseguir um emprego ou conseguir um status, ele se vê cada vez mais tentado a desrespeitar algumas regras morais e deontológicas da profissão, como a checagem das fontes ou respeito à veracidade da informação.

Fábio diz que outro fator que ele coloca como o causador da notícia como mercadoria é o aparecimento de novos atores dedicados à mediação jornalística, os assessores de imprensa. Porque ao se tornarem entidades ativas, que oferecem aos jornalistas um grande volume de informações, eles saem da condição de ‘fontes’ e passam para ‘produtores de notícias’. Com isso, o jornalista perde o espírito de iniciativa, o que antes era determinante na profissão (não que ainda não seja), mas hoje a informação ficou “padronizada”.

Nesse capítulo pudemos discorrer sobre como se dá a espetacularização da notícia, os motivos que levaram as mídias a ter esse interesse na divulgação das reportagens espetacularizada. Também foi falado sobre a relação da notícia como mercadoria, até que ponto o capitalismo influencia nas reportagens que são divulgadas.

6. A ESPETACULARIZAÇÃO DA NOTÍCIA NO FUTEBOL: na visão dos jornalistas

Este capítulo analisa as opiniões de jornalistas sobre a espetacularização da notícia no jornalismo esportivo, preferencialmente no futebol.

No livro História do Lance, Mauricio Stycer cita que Thomaz Mazzoni aponta os principais problemas do jornalismo esportivo no século XX. Segundo Mazzoni, os jornalistas são culpados pelo mau comportamento dos torcedores e também dos jogadores: “Se essa imprensa foge da sua verdadeira missão, se é escandalosa e perniciosa, envenena o ambiente: os jogadores vão a campo mal-intencionados, os “torcedores” ficam de prevenção contra tudo que não seja do seu lado.” (MAZZONI apud STYCER, 2008, p.174).

Stycer cita que Mazzoni atacou o sensacionalismo da imprensa no livro que publicou sobre a Copa do Mundo de 1938. Para ele, era o que incomodava e causava os exageros no noticiário esportivo.

Previno os leitores que não me animei a publicar este livro com o intuito de explorar o sensacionalismo, gênero esse, infelizmente, de jornalismo esportivo muito em voga em certa imprensa que de outro modo não teria público e que, no entanto, muito mal faz ao esporte. (NEIVA apud STYCER, 2008, p.172).

Stycer também cita outro texto, também da década de 30, que Mazzoni acusa os colegas de profissão de inventarem entrevistas com jogadores para se promover e valorizar o noticiário. Mazzoni colocou na conta de alguns repórteres a violação da regra mais importante do jornalismo: “Na maioria das vezes é o entrevistador quem “inventa” as declarações, e não o entrevistado... No Rio, chegou-se ao cúmulo dos repórteres cumprimentarem um jogador na rua e, no outro dia, publicar uma sua entrevista!” (MAZZONI apud STYCER, 2008, p.174).

O jornalista Sidney Rezende escreveu um texto sobre o tema Jornalismo esportivo e o corporativismo da imprensa. No texto, Sidney aborda a cobertura por parte da imprensa no caso do atacante Fred como decepcionante. “O Fred não podia ser alvo de agressões. Nem físicas e nem psicológicas”, declarou. “Decepcionante a cobertura da imprensa do caso. Principalmente quando se nega equilíbrio e equidistância, resumidas palavras; “isenção”. O caso é sério.” (REZENDE, 2011).

Figura 5


Repórter do Jornal Extra nega acusações de Fred. Fonte: Jornal Extra

Nesse caso, a notícia divulgada gerou uma complicação envolvendo torcedor, jogador e jornalista. O caso foi parar até na delegacia, devido o Repórter do Jornal Extra divulgar que o jogador estaria num bar conhecido da Zona Sul do Rio com outro atleta do clube bebendo caipsaquês e com mulheres, isso dois dias antes de uma partida. Fred diz em entrevista que o jornalista, Caio Barbosa, o persegue com esses tipos de notícias, e acusa a imprensa de incentivar a violência contra os atletas.

Sidney Rezende também indaga. “O Fred não pode nominar jornalistas e dizer o que pensa de suas práticas? Não pode reclamar da forma como os repórteres abordam o seu trabalho? O Fred não pode acusar o repórter de incitar torcedores à violência?”. Para Rezende, é claro que ele pode. Mas, a diferença é que o jogador não possui o espaço na mídia para criticar a imprensa. E a imprensa tem toda uma bancada preciosa para falar tudo o que pensa sobre o Fred. Rezende fala que a imprensa precisa ser responsável. “A liberdade que temos exige responsabilidade. Não podemos nos beneficiar do poder de expressão jornalística para oprimir alguém, pessoa física ou jurídica. Muito menos pelo nefasto sentido do corporativismo.” (REZENDE, 2011).

Para Rezende, noticiar que o Fred estava bebendo um dia antes do jogo interessa ao torcedor do Fluminense e aos amantes do futebol brasileiro. E achar normal que as pessoas ataquem a integridade física de outra não faz sentido.

As notícias publicadas nesta pesquisa são relativas à espetacularização da notícia nos cadernos de esportes cariocas. Foram realizadas entrevistas com seis jornalistas da imprensa esportiva e que estão trabalhando atualmente com esporte. O objetivo das entrevistas é compreender melhor a opinião dos profissionais da imprensa na espetacularização das notícias envolvendo o futebol. Os jornalistas foram questionados sobre a forma como eles abordam o tema.

O primeiro entrevistado foi o jornalista Décio Lopes, que trabalhou por 14 anos na TV Globo, como repórter e editor chefe do Globo Esporte e Esporte Espetacular. E desde 2004 apresenta e produz o Expresso da Bola, no SporTv. Para Décio Lopes a espetacularização da notícia no futebol é deprimente. “Vejo deprimido. Acho que isso é um caso para psicanalistas do que para jornalistas, afinal de contas este é um movimento em que as redações reagem a um comportamento doentio do público”, declarou. Para ele, os jornalistas se convencem de que estão no caminho certo e buscam cada vez mais essas espetacularizações. “Os jornalistas, com o sucesso das “reportagens”, vão se acostumando a essa temática e vão convencendo-se, pelo sucesso alcançado, de que são ótimos comunicadores e profissionais eficientes”.

De acordo com Décio Lopes, o esporte é apenas mais um apropriado da espetacularização da notícia, que desconhece países, níveis de escolaridade e índices sociais. O jornalista também fala o que é ser um bom jornalista. “Acho que o papel do bom jornalista é resistir, insistir na boa história, no personagem rico, na notícia, no furo, na informação”, declarou. “O papel do executivo de comunicação é resistir. É não entregar-se como prostituta a quem dá mais. O papel das assessorias é criar pautas mais interessantes e inteligentes.” Décio também fala que isso não pode ser apenas colocado na conta da imprensa e que a sociedade também leva parte da culpa, pois é ela que alimenta essas notícias.

O segundo entrevistado foi o jornalista Sergio Du Bocage, que é participante do “EsporTVisão”, da TV Brasil, e colunista do Jornal dos Sports. Para ele, o futebol é um espetáculo e uma das atividades que mais mexem economicamente no mundo. “O esporte sustenta o custo de emissoras de TV, o esporte é vinculado ao jornalismo. São com essas verbas de um que o outro se sustenta”, disse. Bocage diz que essa relação entre espetáculo e esporte existe pelo fato do futebol ganhar notoriedade com a presença do ídolo. Ele conta que a imprensa em geral vive a procura desse ídolo, e que é um fato comum essa procura para que a informação ganhe dimensões maiores.

Fábio Azevedo, repórter da ESPN Brasil no Rio de janeiro e apresentador do “Bate-Bola II” foi o terceiro a ser entrevistado. “Em primeiro lugar, jornalismo esportivo não é jornalismo de fofoca”, declarou. Segundo ele, só é válido divulgar esse tipo de informação quando o ato fora de campo atrapalhar no rendimento do jogador no trabalho de jogo. Ele cita um exemplo: “Fred é flagrado tomando quarenta caipsaquês e não dorme na concentração do Fluminense e está fora do jogo, pode ser considerada notícia esportiva”. Mas quando o assunto não interfere no trabalho do atleta, esse tipo de notícia deve ser desconsiderado do noticiário esportivo e ser publicado em outra editoria. Por exemplo: “Fred é flagrado tomando quarenta caipsaquês, é notícia? O problema é dele, da família dele, da filha dele. Agora, Fred é flagrado tomando quarenta caipsaquês e dirige o carro após deixar o restaurante, é notícia porque ele está cometendo uma infração. Porém, em termos esportivos não. É mais uma área policial do jornalismo factual em geral”, argumentou.

Fábio Azevedo fala que o maior problema dessas notícias é que existe um grande mercado disposto a consumir esse tipo de informação, e que esse é o fator principal para o acontecimento da espetacularização da notícia. Fábio também é contra as publicações de reportagens sobre a vida particular dos jogadores nos cadernos esportivos, a não ser que essas informações constam um fator prejudicial do atleta dentro de campo, em sua performance como jogador de futebol. “Eu sou contra o jornalismo fofoca, desde que o assunto não interfira dentro de campo”, disse.

O quarto entrevistado foi Ary Rocco, doutor em Comunicação e Semiótica. Ary também é colunista de futebol do programa “No Mundo da Bola”, pela Rádio Jovem Pan AM. Para Ary Rocco, ainda é possível fugir dessa estratégia da mídia, basta escolhermos onde e o que queremos ver e ouvir. “A grande salvação é que nem todo mundo faz isso. Cabe a nós enquanto consumidores da notícia escolher o que buscamos assistir”, declarou.

O professor também definiu o conceito de espetacularização baseado nos conceitos de Guy Debord a respeito da sociedade do espetáculo, grande consumidora dos produtos da indústria comunicacional, com o objetivo de satisfazer uma felicidade momentânea.

Rocco diz que hoje o jornalismo em geral é o culto da celebridade. E que, o futebol, por ser um esporte preferido, se torna uma grande isca para a espetacularização. Ele diz que os atletas são, hoje, os personagens da Indústria do Entretenimento. “Os atletas são hoje os personagens que vendem jornais, revistas e dão audiência na TV e no rádio”, declarou.

Rocco diz que essas notícias são divulgadas nos cadernos de esporte por três motivos, são eles: 1) porque seus personagens são esportistas (os mesmos fatos provocados por artistas de televisão e/ou da música são divulgados nos cadernos de Cultura e Artes e Espetáculos). É a mesma lógica; 2) porque, em geral, e principalmente em alguns dias da semana, quando não tem jogos, os cadernos de esporte tem dificuldades em realizar boas pautas, o que faz com que as notícias espetacularizadas se tornem interessantes para atrair o leitor e ocupar espaço; 3) atraem leitores e vendem jornais, que é a lógica capitalista do jornalismo.

O quinto entrevistado foi Kleber Vieira, Editor de Esportes do jornal O Povo Rio. Kleber é totalmente contra essas matérias sobre a vida particular do atleta nos cadernos de esportes. “Concordo que são matérias que não tem caráter esportivo, e que deveriam estar nas páginas de fofocas e afins. Mas, infelizmente, a crônica esportiva está cheia de amadores, pessoas que não tem conhecimento do que é notícia, e transformam qualquer coisa em manchete”, declarou. Para ele, existem jornalistas mal instruídos, que fazem da falta de notícia o espetáculo.

Segundo Kleber, essas notícias dentro do noticiário esportivo apenas servem para criar rancor entre o torcedor e o jogador, principalmente o torcedor fanático, que pensa com a emoção e não com a razão. “Dentro do noticiário esportivo só serve para criar certa animosidade do torcedor contra o jogador, principalmente do torcedor fanático, que não raciocina direito, e acha que a paixão pelo clube está acima de qualquer coisa. Até mesmo da integridade física e moral das pessoas e das instituições”, disse.

Kleber diz ainda que alguns jornalistas não checam as origens, as fontes; e acabam escrevendo um texto unilateralmente, sem conhecer as duas versões, e transformam qualquer coisa em espetáculo. Devido a isso, ocorre o crescente número de processos na Justiça, de desmentidos e erratas, de direitos de resposta, e até agressões por parte de pessoas que se sentem ofendidas com as reportagens.

O sexto e último entrevistado foi Evaldo José Palatinsky, radialista de esportes da rádio CBN. Segundo ele, o interesse do público é o fator principal e que acaba influenciando na publicação de matérias da vida particular do jogador. “O jornal quer vender; a Tv, o Rádio e a Internet querem audiência. Com isso, essas bobagens são as que mais dão retorno imediato”, disse. Para ele é nessa hora que existe um problema grave. “Basta você postar um texto analisando taticamente, com toda a seriedade, a atuação de um jogador de futebol e você terá um retorno x. Mas, se postar que soube de fonte segura que esse mesmo jogador passou a noite numa boate da Zona Sul, seu retorno será x+10. É aqui que reside um problema grave: vale a divulgação de qualquer coisa, mesmo ligada à vida privada, em nome da audiência?”

Para Evaldo o papel do editor, o papel do chefe de reportagem e o papel do próprio jornalista deve ter sempre uma visão crítica do seu próprio trabalho, tudo isso é fundamental para que se respeitem os limites da fronteira ética. “Quantas injustiças irreparáveis foram cometidas com publicações que eram falsas ou de fontes duvidosas? Precisamos pensar sobre isso e discutir permanentemente em nossas universidades e redações”, declarou.

6.1 Análises dos resultados

Percebi que a espetacularização da notícia se dá pelo instinto da sociedade contemporânea e também pelos interesses econômicos da mídia, em que está interligado. Segundo o Ary Rocco, a causa desse acontecimento é por causa da sociedade do espetáculo, que é a grande consumidora dos produtos da indústria comunicacional, que tem o objetivo de satisfazer uma felicidade momentânea.

Outro fator que pude observar foi que a espetacularização da notícia está cada vez mais forte por causa da concorrência entre os veículos de comunicação, onde todos querem ser o primeiro a divulgar um fato para obter audiência. Para Toledo, esse fato se desencadeou pela concorrência da televisão com os outros tipos de mídia.

Sidney Rezende também comenta sobre o caso citado na Figura 5(34). “O Fred não pode nominar jornalistas e dizer o que pensa de suas práticas? O Fred não pode acusar o repórter de incitar torcedores à violência?”. Para Rezende, é claro que ele pode. Mas, a diferença é que o jogador não possui o espaço na mídia para criticar a imprensa. Rezende fala que a imprensa precisa ser responsável. “A liberdade que temos exige responsabilidade. Não podemos nos beneficiar do poder de expressão jornalística para oprimir alguém, pessoa física ou jurídica. Muito menos pelo nefasto sentido do corporativismo.” (REZENDE, 2011).

Para Rezende, noticiar que o Fred estava bebendo um dia antes do jogo interessa ao torcedor do Fluminense e aos amantes do futebol brasileiro. E achar normal que as pessoas ataquem a integridade física de outra não faz sentido.

Outro motivo que puder ver com as pesquisas é que jornalistas divulgam essas informações com intuito de se promover e ganhar destaque com uma matéria espetacularizada publicada. Stycer cita um texto, também da década de 30, que Mazzoni acusa os colegas de profissão de inventarem entrevistas com jogadores para se promover e valorizar o noticiário. Mazzoni colocou na conta de alguns repórteres a violação da regra mais importante do jornalismo: “Na maioria das vezes é o entrevistador quem “inventa” as declarações, e não o entrevistado... No Rio, chegou-se ao cúmulo dos repórteres cumprimentarem um jogador na rua e, no outro dia, publicar uma sua entrevista!” (MAZZONI apud STYCER, 2008, p.174).

Devido esses fatores, vejo que essa questão abre vertentes para ambos os lados, sociedade e jornalismo, em que ninguém carrega sozinho a espetacularização da notícia. Os dois tem sua parcela, tanto a sociedade que busca essas notícias e o jornalismo que quer ganhar audiência e vender o produto para captação de recursos financeiros.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluindo o trabalho pesquisado, constatamos que a espetacularização da notícia se dá porque a sociedade contemporânea tem concentrado dentro de seu consciente, fazendo com que o instrumento do espetáculo e a sociedade se tornem únicos. E esse modo que a mídia apresenta o jornalismo esportivo mostra o aspecto capitalista, que usam da espetacularização, em busca de lucro.

Se a mídia não publicar assuntos sobre esportes não comuns, nunca irá saber se o receptor tem interesse apenas pelo futebol, ou se ele só procura o futebol por um comando da mídia, que acaba criando um roteiro dos assuntos esportivos: o dia-a-dia dos clubes, treinos e a vida particular dos jogadores. A monopolização de um ou dois esportes representa a ineficiência de informações, pois outras atividades esportivas são excluídas deste processo. Com isso, a mídia esportiva acaba prendendo-se naquilo que poderá resultar em uma maior vendagem dos jornais, com a realização de pautas espetacularizadas sobre a vida particular do jogador.

Notou-se nas entrevistas com os jornalistas que atuam na editoria de esportes que a espetacularização da notícia realmente não é uma questão muito agradável, e que a maioria citou o fator capitalista como o principal argumento para que a espetacularização da notícia no futebol seja abordado nos cadernos de esportes.

Vale lembrar que o veículo de comunicação pode ser uma empresa, em busca do lucro capital, porém, a influência dessa ação mercadológica na cobertura esportiva não deve existir.

8. Bibliografia

COELHO, Paulo Vinicius. Jornalismo Esportivo. São Paulo: Editora Contexto, 1ª edição, 2003.

STYCER, Mauricio. História do Lance: Projeto e prático do jornalismo esportivo. São Paulo: Editora Alameda, São Paulo, 2009.

Sites

BETTI, Mauro. O esporte na mídia ou esporte da mídia. Motrivivência. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/5929

BORELLI, Viviane. Cobertura midiática de acontecimentos esportivos. Disponível em: http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/69091043172603617173111127019307506949.pdf

CORREIO, João Carlos. O admirável mundo das notícias: Teorias e Métodos. Disponível em: http://www.livroslbcom.ubi.pt

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo? Disponível em: http://www.ebooksbrasil.com/eLibris/socespetaculo.html.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: Para uma teoria marxista do jornalismo. Disponível em: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196.htm

MEINICKE, Thaís. A imprensa esportiva carioca. Disponível em: https://paginas.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/8o-encontro-2011-1/artigos/Imprensa%20esportista%20carioca%20surgimento-%20modernizacoes%20e%20segmentacao.pdf/view

PEREIRA, Fábio Henrique. Da responsabilidade social ao jornalismo de mercado: o jornalismo como profissão. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/pereira-fabio-responsabilidade-jornalista.pdf

RUBIM, Antonio Albino Canelas. Espetáculo, Política e Mídia. Disponível em: http://vsites.unb.br/fac/comunicacaoepolitica/Albino2002.pdf.

REZENDE, Sidney. Jornalismo esportivo e o corporativismo da imprensa. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/141226

TOLEDO, Regina. O espetáculo midiatizado. Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/index.php?section=8&edicao=16&id=151&tipo=1&print=true

KFOURI, Juca. Jornalismo Esportivo: uma visão crítica. Disponível em: http://www.bb.com.br/portalbb/page251,138,2517,0,0,1,6.bb?codigoMenu=5253&codigoNoticia=6743&codigoRet=5257&bread=3

9. Anexos

9.1 Lista de Figuras

FIGURA 1: Jornal A Tribuna. Salve, Campeão glorioso de 1923! Rio de Janeiro. Acesso em: 10/09/2012. Matéria Capa. Disponível em: http://rankingrj.blogspot.com.br/2012/02/vasco-da-gama-campeao-carioca-de-1923.html

FIGURA 2: Revista do Esporte. Jairzinho do Botafogo. Rio de Janeiro. Blogcacellain. Acesso em: 10/09/2012. Disponível em: http://cacellain.com.br/blog/?p=11152

FIGURA 3: Jornal Meia Hora. Caderno de Esportes. Ronaldinho vai jogar na cidade com mais bares do Brasil. Rio de Janeiro. Acesso em: 15/09/2012. Matéria Capa. Disponível em: http://terceirotempo.bol.uol.com.br/noticia/Flamengo-10/Destaque_no_Brasil_Ronaldinho_jogara_na_cidade_com_mais_bares_no_Brasil-67671

FIGURA 4: Site do Lancenet. Exclusivo no L!NET: Violência de torcedores assusta até a polícia. Rio de Janeiro. Acesso em: 22/09/2012. Disponível em: http://www.lancenet.com.br/minuto/Exclusivo-LNET-Violencia-torcedores-policia_0_773922609.html

FIGURA 5: Site do Jornal Extra. Esportes. Repórter do EXTRA nega acusações de Fred. Rio de Janeiro. Acesso em: 19/09/2012. Disponível em: http://extra.globo.com/esporte/fluminense/reporter-do-extra-nega-acusacoes-de-fred-2447702.html

9.2 Entrevistas

Entrevista 1 - Décio Lopes

Décio Lopes
Apresentador e produtor do Expresso da Bola, do SporTv.
Entrevista concedida via rede social, o Facebook, no dia 28 de setembro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Décio Lopes: Vejo deprimido. Fico muito triste que o jornalismo - não apenas esportivo torne-se isso. Você abre a primeira página de um grande portal e há três notícias - ao lado de 16 bobagens sobre mulheres-frutas, novelas, atores de Holywood e atletas. Lamentável. Acho um caso mais para psicanalistas do que para jornalistas, afinal de contas este é um movimento em que as redações reagem a um comportamento doentio do público (obviamente reforçando esse comportamento). Mas vem do público. Ele quer essas bobagens, ele consome avidamente esse lixo, ele pede mais. O site quer cliques. De preferência, cliques fáceis, sem apuração, sem história, sem sequer notícia. O jornalista, com o sucesso das "reportagens" (entre aspas, por favor), vai acostumando-se a essa temática e vão convencendo-se, pelo sucesso alcançado, de que são ótimos comunicadores, profissionais eficientes (palavrinha odiosa). O esporte é apenas mais um braço deste monstro, que desconhece países, níveis de escolaridade e os índices sociais de uma sociedade.
Acho que o papel do bom jornalista é resistir, insistir na boa história, no personagem rico, na notícia, no furo, na INFORMAÇÃO. O papel do executivo de comunicação responsável é resistir. É não entregar-se como prostituta a quem dá mais (cliques, no caso). O papel das assessorias (e nestas, infelizmente, o nível vem caindo muito) é criar pautas mais interessantes, mais inteligentes, que associem os seus clientes a fatos mais nobres que esquecimentos de calcinhas e "flagras" (obviamente produzidos) de biquíni pequeno. Mas, repito: não podemos ser populistas e demagogos. Esta culpa precisa ser dividida com o público. É ele que realmente alimenta a besta da bestificação da notícia.

Entrevista 2 - Sergio Du Bocage

Sergio Du Bocage
Participante do “EsporTVisão”, da TV Brasil, e colunista do Jornal dos Sports.
Entrevista concedida via e-mail, no dia 14 de outubro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Sergio Du Bocage: Nem sempre a notícia ganha espaço no caderno de Esportes. Não podemos generalizar. O caso do goleiro Bruno, do Flamengo, sai no caderno Geral, página de polícia. No caso específico do Fred - e do Ronaldinho -, essa notícia foi veiculada ali porque envolvia a torcida, o mau desempenho dele e a repercussão dentro do clube. O Adriano, quando se envolveu naquela questão da moça baleada na Barra, foi parar nas páginas policiais. O futebol é um espetáculo. É uma das atividades econômicas que mais gira dinheiro no mundo! Seus ícones tornam-se notícia quando saem da normalidade, pois é isso que faz com que algo seja notícia. Lá fora, astros da NBA ou do futebol americano passam pelo mesmo. Você tem dúvida? Um esporte só ganha notoriedade, principalmente aqui no Brasil, quando surge um ídolo - e assim foi na F1, na ginástica, no vôlei etc. E como somos o país do futebol, a imprensa em geral vive em busca desse ídolo, para manter essa chama constantemente acesa e sendo renovada. Natural, portanto, que tudo o que diz respeito a um ídolo ganhe dimensões maiores. Se o filho de um microempresário atropelar e matar alguém na estrada vai merecer notinha, mas o filho do Eike Batista. É a mesma situação. E poderíamos dar vários outros exemplos aqui. E tenho certeza de que você os conhece bem. O esporte sustenta o custo de emissoras de TV - na Globo, por exemplo, o Esporte é vinculado ao Jornalismo! São com as verbas de um que o outro se sustenta. E você sabe quem é quem, não é? Os jornais dedicam cadernos especiais ao Esporte, em época de Copa e de Olimpíada, são encartes, todos vendidos! No Jornal Nacional tem um bloco diário de Esporte, os gols da rodada têm um bloco patrocinado. Os dois maiores eventos do mundo são relativos ao Esporte. Nada mais justo que demos a ele esse caráter de espetáculo.

Entrevista 3 - Fábio Azevedo

Fábio Azevedo
Repórter da ESPN Brasil no Rio de Janeiro e apresentador do “Bate-Bola II”.
Entrevista concedida via e-mail, no dia 12 de novembro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Fábio Azevedo: Em primeiro lugar jornalismo esportivo, não é jornalismo de fofoca. Agora quando questões fora de campo atrapalham o rendimento dentro de campo, aí eu acho que vale você trazer esse tipo de informação. Por exemplo, Fred é flagrado tomando quarenta caipsaquês, é notícia? O problema é dele, da família dele, da filha dele. Agora, Fred é flagrado tomando quarenta caipsaquês e dirige o carro após deixar o restaurante, é notícia porque ele está cometendo uma infração. Porém, em termos esportivos não. É mais uma área policial do jornalismo factual em geral. No esporte é flagrado tomando quarenta caipsaquês e não dorme na concentração do Fluminense e está fora do jogo, pode ser considerada notícia esportiva. O grande problema é que há um mercado para consumir esse tipo de informação por isso a espetacularização dessa notícia, outras mais as festas do Ronaldinho Gaúcho e do Adriano isso faz parte do mundo em que estão embutidos, são pessoas com muito dinheiro e que não tiveram uma formação e acham que podem comprar o mundo. Eu sou contra o jornalismo fofoca, desde que o assunto não interfira dentro de campo.

Entrevista 4 - Ary Rocco

Ary Rocco
Colunista de futebol do programa “No Mundo da Bola”, pela Rádio Jovem Pan AM. Entrevista concedida via e-mail, no dia 11 de novembro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Ary Rocco: O que acontece, hoje, com o jornalismo de uma forma geral é o culto a celebridade. Diante disso, o esporte, e o futebol de forma mais especial, é um prato cheio para isso. Os atletas são, hoje, personagens da Indústria do Entretenimento. Assim, vendem jornais, revistas e dão audiência na TV e no rádio. Essas notícias são divulgadas nos cadernos de Esporte por três motivos: 1) porque seus personagens são esportistas (os mesmos fatos provocados por artistas de televisão e/ou da música são divulgados nos cadernos de Cultura e Artes e Espetáculos. É a mesma lógica); 2) porque, em geral, e principalmente em alguns dias da semana, como a terça-feira ou a sexta-feira, quando não aconteceram jogos nos dias anteriores, os cadernos de Esporte apresentam dificuldade de boas pautas. Assim, fatos dessa natureza são interessantes para atrair o leitor e ocupar esse espaço; 3) atraem leitores e vendem jornais. É a lógica capitalista do jornalismo.
Por fim, e acredito ser interessante você observar isso, o que chama mais atenção, em minha opinião, é o fato do Esporte e suas personalidades ocuparem espaço em revistas de Cultura e Comportamento. A revista Rolling Stone, por exemplo, dedicada a Comportamento e Artes, já colocou em sua capa: Ronaldo Fenômeno, Lionel Messi, Ronaldinho Gaúcho (vestido de rapper), Romário (de terno e gravata) e Anderson Silva (vestido de Michael Jackson). Para mim, isso significa uma completa absorção do esporte pela indústria do entretenimento.

Entrevista 5 - Kleber Vieira

Kleber Vieira
Editor do caderno de esportes do Jornal O Povo do Rio
Entrevista concedida via e-mail, no dia 2 de outubro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Kleber Vieira: Concordo que são matérias que não tem caráter esportivo, e deveriam estar nas páginas de fofoca e afins. Infelizmente, a crônica esportiva (assim como outras editorias) está cheia de amadores, pessoas que saem das faculdades sem base do que seja, realmente, notícia, e transformam qualquer coisa em manchete. Entenda, há exceções, e nem toda manchete é, necessariamente, uma notícia. Notícia é o homem morder o cachorro, não o cachorro morder o homem, o que é um fato absolutamente trivial. Mas há jornalistas  mal instruídos, que fazem da falta de notícia o seu espetáculo. Aí, criam o que vemos por aí. Pegam o cachorro que mordeu o homem e falam sobre o pedigree, ou a falta dele, da raça, cor, tamanho, e transforma o animal em um monstro, passível de execução ou prisão por crime hediondo, e coisas do gênero. Ou seja, um fato absolutamente corriqueiro se transforma num circo. E com a criação das redes sociais, a coisa ficou ainda pior. Pois o espetáculo se propaga como rastilho de pólvora. A maioria das pessoas, e incluem-se aí alguns jornalistas, hoje, não checa as origens, as fontes; escreve unilateralmente, sem ouvir o outro lado, e transforma qualquer coisa em espetáculo. Por isso, o número crescente de processos na Justiça, de desmentidos e erratas, de direitos de resposta, e até agressões por parte de pessoas que se sentem ofendidas com determinadas reportagens. É claro que não concordo. Acho que deveria estar em outro lugar. Dentro do noticiário esportivo só serve para criar certa animosidade do torcedor contra o jogador, principalmente do torcedor fanático, que não raciocina direito, e acha que a paixão pelo clube está acima de qualquer coisa, até mesmo da integridade física e moral das pessoas e das instituições.

Entrevista 6 - Evaldo José Palatinsky

Evaldo José Palatinsky
Radialista, da CBN Rio.
Entrevista concedida via e-mail, no dia 9 de outubro de 2012.

Diego Pexiolini – Como você vê a espetacularização da notícia no futebol?

Evaldo Palatinsky: O interesse do público pelos assuntos extra-campo acabam sendo o responsável por pautar algumas publicações nas diferentes editorias. Explico: o jornal quer vender; a tv, o rádio e a internet, querem audiência; e essas abordagens, na maioria das vezes, são as que mais dão retorno imediato. Quer perceber a diferença? Basta você postar um texto analisando taticamente, com toda seriedade, a atuação de um jogador de futebol. Você terá x de retorno. Mas, se postar que soube de fonte segura que esse mesmo jogador passou a noite numa Boate da Zona Sul, seu retorno será x + 10. E aqui reside um problema grave: vale a divulgação de qualquer coisa, mesmo ligada à vida privada, em nome da audiência? O papel do editor, o papel do chefe de reportagem o papel do próprio jornalista que deve sempre ter uma visão crítica do seu próprio trabalho, tudo isso é fundamental para que se respeitem os limites da fronteira ética. Quantas injustiças irreparáveis foram cometidas com publicações que eram falsas ou de fontes duvidosas? Precisamos pensar sobre isso e discutir permanentemente em nossas universidades e redações.


Publicado por: diego de lima pexiolini barbosa

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