Topo
pesquisar

A INTERNET COMO MEIO DE DIFUSÃO DO RAP DE MACAÉ

Comunicação e Marketing

Análise da internet e de suas demais características, as características socioculturais do rap e como os rappers na cidade de Macaé utilizam a internet e suas demais ferramentas.

índice

1. RESUMO

A internet, a partir da web 2.0, tornou-se a principal forma de comunicação bilateral, onde o indivíduo deixou de ser apenas receptor para também se tornar produtor de conteúdo. Dessa forma, pessoas que antes não tinham possibilidade de se expressar ganharam voz com esse meio de comunicação. O mesmo ocorre com a disseminação de culturas variadas. Isso permite, portanto, que os rappers da cidade de Macaé, no estado do Rio de Janeiro, tenham a possibilidade de divulgar suas produções (músicas e clipes) e a divulgação de shows. Além disso, permite que o rap, uma das quatro características do movimento Hip Hop, que surgiu principalmente entre os negros que viviam nas periferias das cidades dos Estados Unidos na segunda metade do século XX, se desenvolva como característica principal de expressão cultural e de resistência social de jovens negros e pobres, permitindo assim a possibilidade de romper preconceitos que há muito tempo são alimentados por setores mais privilegiados da sociedade.

Palavras-chave: Cibercultura. Internet. Rap. Hip Hop.

ABSTRACT

The internet, from web 2.0, has become the main form of bilateral communication, where the individual has ceased to be just receiver to also become content producer. In this way, people who previously had no possibility of expressing themselves gained a voice with this medium of communication. The same happens with the spread of varied cultures. This allows the rappers of the city of Macaé, in the state of Rio de Janeiro, to be able to promote their productions (music and clips) and the release of shows. In addition, it allows that rap, one of the four Hip Hop movement characteristics, that arose mainly among the blacks that lived in the peripheries of the cities of the United States in the second half of the twentieth century, develops like main characteristic of cultural expression and social resistance development of black and poor young people, thus allowing the possibility of breaking prejudices that have long been fed by more privileged sectors of society.

Keywords: Cyberculture. Internet. Rap. Hip Hop.

2. INTRODUÇÃO

O início do século XXI tem sido marcado pela profusão de manifestações das mais variadas formas, sejam elas culturais, estudantis ou até mesmo de cunho político. Os personagens desse processo histórico, que continua em andamento e que insiste em deixar marcas profundas, elegeram a internet como principal forma de anunciar a proliferação do que ocorre a todo instante e também do que está por vir na história da humanidade.

Isso se dá pelo fato de que dentro desse meio desenvolveu-se um universo construído pela interação entre homem e máquina. O ciberespaço, por conveniência e necessidade que o ser-humano tem de se comunicar e de ser ouvido, tornou-se uma extensão do universo real, o ambiente físico e palpável no qual todas as formas vivas em conjunção com a natureza interagem e se afetam.

Dentro desse universo virtual, indivíduos criaram ferramenta de interação social a longa distância e de aprendizado, tendo acesso a arquivos textuais ou audiovisuais inseridos por usuários localizados em lugares variados do globo. Ferramentas de pesquisa (Google), de compartilhamento (YouTube, Soundcloud) e as redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram) aproximaram as pessoas, sem que estas tenham a necessidade de um encontro em um mesmo espaço físico, mas sim virtual.

A ideia de desenvolver tal trabalho se deu por contatos anteriores deste pesquisador com rappers da cidade de Macaé que tiveram início no final de 2014, resultando em vídeos amadores disponíveis no YouTube (Grupo United Rap: https://www.youtube.com/watch?v=pACENY3- Wr0 e Rap no Terminal – Macaé, RJ: https://www.youtube.com/watch?v=PKfC2oVihtk), além de atividades acadêmicas como o curta documentário “Eu vivo Macaé” – United Rap (também disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=_LOx_NO4z6U).

Neste Trabalho de Conclusão de Curso, buscou-se analisar como os rappers macaenses encontraram seu espaço na internet, através do uso das ferramentas por ela disponibilizadas, para compartilharem seus conteúdos e como isso é feito por eles, tendo como hipótese de que esta é um contraponto a impossibilidade destes de se comunicarem com a sociedade através de meios de comunicação tradicionais como o jornal impresso, rádio e a TV.

Para isso, iniciou-se no primeiro capitulo uma ampla análise da internet e de suas demais características, sendo esta conhecida por seu formato democrático de comunicação, permitindo que o usuário que nela se move seja ao mesmo tempo receptor e autor de conteúdo comunicacional. Autores e pensadores relacionados a ciência da comunicação como Manuel

Castells, Pierre Lévy e Raquel Recuero ajudaram a nortear a pesquisa feita sobre temas como internet, ciberespaço e cibercultura.

No segundo capitulo, buscou-se entender as características socioculturais do rap, sem de forma alguma separá-lo do movimento Hip Hop, e como os rappers se relacionam com esse estilo musical e com a mídia tradicional desde a metade final do século XX aos dias atuais.

Por fim, dedicou-se o terceiro e último capitulo a analisar, através de cinco entrevistas em profundidade realizadas com os rappers Dom Rhuann, Fiel, Kalil, Antônio Rastaman e Narciso Beats, – com perguntas elaboradas pelo que foi exposto nos dois primeiros capítulos –, visando conhecer como estes e outros que trabalham com o rap na cidade de Macaé utilizam a internet e suas demais ferramentas. Além disso, buscou-se entender como o rap os influencia como indivíduos e como estes percebem a realidade a sua volta através desse que é mais do que uma forma de expressão musical, mas também de manutenção de uma identidade e de reflexão social.

3. CIBERCULTURA - TRAMA QUE COMPÕE O AMBIENTE VIRTUAL

Pode se considerar quase impossível imaginar o mundo ou uma sociedade atual não conectada à internet. Esse novo universo que se apresenta é uma extensão do nosso universo natural, onde surgem a cada momento novas possibilidades de interação entre indivíduos ou entre homem/computador e até mesmo com o espaço urbano.

Como diz Castells (1999), o desenvolvimento cultural de uma sociedade sofre intervenção direta pela forma como esta se comunica. Portanto, o surgimento de novas tecnologias é o que possibilita a transformação e evolução de símbolos e crenças, características estas que constituem o fator identitário de uma determinada cultura.

Esse mundo virtual tem desenvolvido sua cultura e sociabilidade em seu interior, segundo o filósofo francês Pierre Lévy (1999), devido a criação de novos programas computacionais, além do aumento da capacidade tecnológica e de suas potencialidades, possibilitado pela incessante fusão de novas técnicas. Essa interação homem/computador permitiu a criação de novos símbolos e crenças, servindo como alicerce para o surgimento da cibercultura.1

De acordo com Lévy (1999, p. 127), a cibercultura é uma forma de cultura constituída pela “interconexão, criação de comunidades virtuais e as inteligências coletivas” de usuários dentro do ciberespaço, praticando a “comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária”.

Para Bolsoni (2014, p. 47), “há o sentido de uma conexão generalizada, o que implica na alteração da forma de comunicação todos-para-todos”. Este segue dizendo que fatores como colaboração e cooperação “são palavras de ordem neste novo contexto sociocultural pós- moderno. Nesse sentido, pode-se afirmar que a cibercultura indica que tudo está em todos os lugares”.

Essa nova cultura, diz Castells (2003), é uma elaboração também cultural caracterizada por princípios e valores daqueles que desbravaram esse espaço.

A cibercultura é a interação entre as singularidades dos usuários e o ciberespaço que, segundo Lévy (1999, p. 111), é um local “vazio, sem conteúdo particular”. A cibercultura, portanto, cultiva, em consonância com esse espaço, uma ação coletiva de “comunicação virtual: cada computador do planeta, cada aparelho, cada máquina, do automóvel a torradeira, deve possuir um endereço na internet” (LÉVY, 1999, p. 127).

André Lemos (2003, p. 11) define cibercultura “como a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro- eletrônicas que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70”.

Para efeitos de comparação, Lévy (1999) usa o impacto da escrita na sociedade para que se entenda melhor o que é a cibercultura.

A escrita abriu um espaço de comunicação desconhecido pelas sociedades orais, no qual tornava-se possível tomar conhecimento das mensagens produzidas por pessoas que encontravam-se a milhares de quilômetros, ou mortas há séculos, ou então que se expressavam apesar de grandes diferenças culturais ou sociais. A partir daí, os atores da comunicação não dividiam mais necessariamente a mesma situação, não estavam mais em interação direta (LÉVY, 1999, p. 114)

Ainda segundo Lévy (1999, p. 127), a cibercultura se dá através da interconexão, que “constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras, cava um meio informacional oceânico, mergulha os seres e as coisas no mesmo banho de comunicação interativa. A interconexão tece um universal por contato”.

De acordo com Bolsoni (2014, p. 49), existe por parte do usuário que está navegando pelo ciberespaço um desejo muito grande pela conectividade ao procurarem por “um momento de interação e colaboração, o que resulta em uma mudança na atitude daquele que deseja adquirir conhecimento e trocar experiências”. Isso porque este indivíduo se permite estar em um espaço que lhe propicie adquirir novas composições culturais.

A segunda característica, possibilitada por essa interconexão, é a comunidade virtual, que segundo Lévy (1999, p. 127), “é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais”.

Dessa forma, Lévy (1999, p. 130) diz: “Um grupo humano qualquer só se interessa em constituir-se como comunidade virtual para aproximar-se do ideal coletivo inteligente, mais rápido, mais capaz de aprender e de inventar do que um coletivo inteligentemente gerenciado”. A interconexão, as comunidades virtuais e as inteligências coletivas, diz Lévy (1999, p.113), possuem um caráter universalizador, pois tendem “a interconexão geral das informações, das máquinas e dos homens” que ocorre devido “aos projetos de seus criadores e às expectativas de seus usuários”.

O desenvolvimento do digital é, portanto, sistematizante e universalizante não apenas em si mesmo, mas também, em segundo plano, a serviço de outros fenômenos tecno- sociais que tendem à integração mundial: finanças, comércio, pesquisa científica, mídias, transportes, produção industrial etc (LÉVY, 1999, p. 113).

Continuando nesse aspecto universalizante da cibercultura, que, nesse caso, é, para Lévy (1999, p. 117), uma descentralização e, ao mesmo tempo, mistura de aspectos socioculturais humanos dentro do ciberespaço numa “espécie de aqui e agora virtual da humanidade”, afirmando:

ainda que levem a uma reunião por meio de um aspecto de sua ação, essas máquinas de produção de universal decompõem de outras formas diversas micrototalidades contextuais: paganismos, opiniões, tradições, saberes empíricos, transmissões comunitárias e artesanais. E tais destruições de locais, são, por sua vez, imperfeitas, ambíguas, já que os produtos das máquinas são, por sua vez, sempre fagocitados, relocalizados, misturados com os particularismos que gostariam de transcender (LÉVY, 1999, p. 117).

Ou seja, dentro da democracia permitida pelo ciberespaço, há uma mistura ainda difícil de ser separada entre o que é produzido no real e no virtual, já que são as produções humanas que as possibilitam. Com efeito, há toda uma carga de subjetividade2 inserida no meio virtual. Quanto a isto, Lévy (1999, p. 117) diz que são os usuários “que decidem em última instância, deliberadamente ou na semi-inconsciência dos efeitos coletivos, do universo cultural que constroem. É preciso ainda que tenham percebido a possibilidade de novas escolhas”.

O que ocorre, segundo Lévy (1999, p. 118), é uma deriva das ideologias socioculturais dentro do ambiente digital, sendo que “o ciberespaço dissolve a pragmática da comunicação que, desde a invenção da escrita, havia reunido o universal e a totalidade”.

Dessa forma, não há um controle da cultura do real dentro do ciberespaço, tornando, em certo sentido, as interações humanas mais globalizadas, não apenas no sentido da comunicação espacial, entre indivíduos que vivem em locais diferentes, mas também por essa troca cultural, registrada em diferentes regiões e nacionalidades.

Porém, a essa fusão do universalizante e do totalizante, Lévy (1999) faz uma análise das mídias de massa como o rádio e a televisão, que são uma via de mão única, onde apenas o meio é emissor, cabendo ao indivíduo consumidor da informação o papel de receptor.

Na cibercultura, essa relação se torna mesclada, pelo fato de que a interconexão e a programação do ciberespaço permitem que o usuário seja tanto consumidor de informação quanto produtor de conteúdo, acabando assim com essa diferenciação. Henrique Antoun (2009, p. 235) complementa tal pensamento ao dizer que esse novo meio de se comunicar permite que surjam interesses entre as pessoas, podendo haver a troca de ideias, opiniões ou de sentimentos mais profundos, havendo assim uma independência do indivíduo por parte “dos grupos de opinião da imprensa ou das massas de consumo da mídia irradiada”, permitindo também novas possibilidades de consumo da informação.

O correio, o telefone, a imprensa, as editoras, as rádios, as inúmeras cadeias de televisão formam a partir de agora a extremidade imperfeita, os apêndices parciais e sempre diferentes de um espaço de interconexão aberto, animado por comunicações transversais, caótico, turbilhonante, fractal, movido por processos magmáticos de inteligência coletiva. (LÉVY, 1999, p. 118).

3.1 O surgimento da cultura virtual

Segundo André Lemos (2005, p. 2), a cibercultura tem seu desenvolvimento com o surgimento da micro-informática nos anos 70, com a convergência tecnológica e o estabelecimento do personal computer (PC)”.

Para Lévy (1999, p. 125), isso se deu por meio de um movimento chamado Computer for the People, nos anos 70, na Califórnia, que “quis colocar a potência do cálculo dos computadores nas mãos dos indivíduos, liberando-os ao mesmo tempo da tutela dos informatas”.

“O crescimento da comunicação baseada na informática foi iniciado por um movimento de jovens metropolitanos cultos que veio à tona no final dos anos 80” que, além disso, “exploraram e construíram um espaço de encontro, de compartilhamento e invenção coletiva” (LÉVY, 1999, p. 125-126).

Em contrapartida, Lemos (2003, p. 12) afirma que o pensamento racional impostos a sociedade pela modernidade fez com que se racionalizasse o uso das tecnologias como elemento dominador sobre a natureza a tal ponto, que “a cibercultura seria uma atualização dessa requisição, centrada agora na transformação do mundo em dados binários para futura manipulação humana (simulação, interatividade, genoma humano, engenharia genética etc)”, dando a esta um formato que não se limita apenas a comunicação.

Não podemos compreender a cibercultura sem uma perspectiva histórica, sem compreendermos os diversos desdobramentos sociais, históricos, econômicos, culturais, cognitivos e ecológicos da relação do homem com a técnica. A cibercultura nasce no desdobramento da relação da tecnologia com a modernidade que se caracterizou pela dominação, através do projeto racionalista-iluminista, da natureza e do outro (LEMOS, 2005, p. 12).

De acordo com Souza et al (2010, p. 3), a evolução da economia em nível mundial na década de 80 mostrou que “o avanço da tecnologia apontaria para a criação de paradigmas de âmbitos culturais, econômicos e sociais. O desenvolvimento da Internet foi, sem dúvida, o marco culminante para a expansão da Cibercultura”.

Segundo Santaella (2003, p. 26), aliado a isso, nos “anos 80, começaram a se intensificar cada vez mais os casamentos e misturas entre linguagens e meios, misturas essas que funcionam como um multiplicador de mídias”.

Como mídias hibridas, Santaella (2003, p. 26) refere-se ao surgimento de aparelhos eletrônicos de uso profissional, familiar ou pessoal como os “aparelhos para a gravação de vídeos, equipamentos do tipo walkman e walktalk, acompanhados de uma remarcável indústria de videoclipes e videogames”, fundamentais para o desenvolvimento do mercado de entretenimento.

Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e consumo individualizados, em oposição ao consumo massivo. São esses processos comunicativos que considero como constitutivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção de mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar. Por isso mesmo, foram esses meios e os processos de recepção que eles engendram que prepararam a sensibilidade dos usuários para a chegada dos meios digitais cuja marca principal está na busca dispersa, alinear, fragmentada, mas certamente uma busca individualizada da mensagem e da informação. (SANTAELLA, 2003, p. 27).

A criação dessas novas mídias, continua Santaella (2003, p. 27), propicia um novo desenvolvimento cultural, que possibilita a “segmentação e diversificação, e a hibridização das mensagens”. Castells (1999) diz que o uso dessas tecnologias permitiu que as pessoas criassem

seus próprios conteúdos, fosse para entretenimento familiar, como a gravação em arquivo de vídeo de atividades como férias ou celebrações, que pudessem ser guardadas para a posterioridade.

Com o tempo, surge a possibilidade de uma convergência da cultura das mídias para o meio digital, que possibilita um entrelaçamento entre elementos textuais, visuais e audiovisuais em apenas um espaço, fazendo com que a cibercultura ganhe força como ação de comunicação e construção social dentro do ciberespaço.

A convergência tanto pode ser entendida como um processo “de cima para baixo” em que as empresas de mídia aproveitam as potencialidades da tecnologia para distribuir os seus conteúdos por meio de diferentes canais e múltiplos dispositivos, como pode ser um processo “de baixo para cima”, à medida que os consumidores de informação “aprendem” a usar estas novas tecnologias para terem controle sobre o seu consumo e produção de informação (MORENO, 2013, p. 120).

Essa nova trama permitiu que as pessoas construíssem, dentro desse novo universo, um sentimento de que estão em um local onde é possível uma livre comunicação, não só com outros indivíduos, mas também com elementos inseridos nesse espaço, que fazem parte de suas características.

A década de 90, segundo Castells (1999, p. 443), é determinante para o desenvolvimento da cibercultura, quando surgem milhares de comunidades virtuais em todo o mundo, “a maioria delas com base nos EUA, porém se expandindo cada vez mais em âmbito global”.

Com o surgimento dessas comunidades, Castells (1999, p. 443) diz que surge uma nova forma de comunicação social, causando “uma sensação de comunidade, mesmo que efêmera, e talvez trouxesse algum alívio a pessoas carentes de comunicação e auto-expressão”.

3.2 Interações sociais no ambiente virtual

O ciberespaço não é um território paralelo ao nosso, mas que está ligado ao nosso. É um universo maquínico que se desenvolve junto ao território real. É um universo antes de tudo comunicacional, entre dois ou mais indivíduos (multidão), ou dois computadores, ou até mesmo uma terceira possibilidade: entre homem e computador (COSTA; SOUZA, 2005).

Essa nova interação mais profunda entre homem e tecnologia não determina o surgimento de uma nova sociedade como diz Castells (1999), mas sim o desenvolvimento daquela que buscava, através de novas formas de se comunicar, interligar seus aspectos culturais já existentes a um novo espaço comunicacional, construindo, dessa forma, uma comunidade virtual.

As comunidades virtuais estruturam-se por conjuntos de afinidades e de aspirações. A geografia não representa mais um impedimento, nem um ponto de partida. Os grupos de discussão avolumam-se, não importando as nacionalidades dos indivíduos ou os fusos horários que os separam (MORAES, 1997, p. 46).

Para Costa e Souza (2005, p. 7), “quanto mais intenso o contato entre as culturas, sejam coletivas ou individuais, maior a intensidade das transformações que irão ocorrer”. O surgimento das novas possibilidades de comunicação que vieram a reboque com a evolução da computação e da internet permitiu, de acordo com os autores, uma troca igualitária na comunicação entre indivíduos.

A esse intenso contato cultural permitido pelas características do ambiente virtual, Maffesoli (2001, p. 30) diz que “as potencialidades do ciberespaço estão longe de esgotar, mas já testemunham o enriquecimento cultural que está sempre ligado à mobilidade, a circulação, sejam as do espírito, dos devaneios e até das fantasias”. Ou seja, a comunicação incessante entre indivíduos ou com a máquina permite cada vez mais a expansão e uma roupagem deste local que se trafega com tanta intensidade.

Isso porque, diz Castells (2003), a internet

fue diseñada como una tecnología abierta, de libre uso, com la intención deliberada de favorecer la libre comunicación global. Y cuando los indivíduos y comunidades que buscan valores alternativos em la sociedad se apropriaron de esa tecnología, ésta amplificó aún más su carácter libertário, de sistema de comunicación interactivo, abierto, global y em timpo escogido (CASTELLS, 2003, p. 6).3

A análise que Recuero (2009) faz do advento da internet é que esta permitiu uma maior liberdade de se expressar e de se socializar. Isso satisfaz necessidades e desejos dos indivíduos em se comunicar de uma forma mais facilitada, pela rapidez garantida pelo uso da tecnologia, sendo que esta premissa irá influenciar, diz Castells (1999), não só a comunicação, mas também diversos setores da sociedade contemporânea.

Para Antoun (2009, p. 235), a internet e as inovações que nela surgem permitem uma economia, devido ao fato de que “os problemas de ação coletiva podem ser resolvidos de modo simples e econômico”.

Levando em conta o processo comunicacional, dois aspectos são de grande importância, segundo Recuero (2009), para se entender essa interação social no meio virtual: os atores (usuários do ciberespaço) e suas conexões (socialização do usuário no ciberespaço).

Estes atores, os usuários desse espaço são indivíduos que carregam suas características socioculturais do ambiente real para o virtual. Recuero (2009, p. 24) diz que estes são identificados neste local por deixarem pistas de quem são pelo “reconhecimento de padrões de suas conexões e a visualização de suas redes sociais através desses rastros”.

Os usuários, levados a se conectarem por necessidades e desejos, são os formadores dessas ligações, surgindo assim diversas redes de comunicação pelo ciberespaço. “Como partes do sistema, os atores atuam de forma a moldar as estruturas sociais, através da interação e da constituição de laços sociais” (RECUERO, 2009, p. 25).

Nas artérias labirínticas da Internet, os usuários têm a chance de assumir-se como atores comunicantes. Seus deslocamentos não se balizam mais pelos imperativos de governos, de especialistas ou de corporações. Como um feixe de neurônios, a Internet tece ramificações que vão do uso individual ao de grupos, dos grupos às redes nacionais e internacionais. Cada um inscreve sua identidade na rede na mesma medida em que elabora sua presença no trabalho constante de seleção, combinação e interação com as áreas de sentidos (MORAES, 1997, p. 47).

Para haver essa comunicação entre os indivíduos, Recuero (2009) diz que são necessários meios para que estes possam inserir suas características pessoais. Não de uma forma concreta, mas sim através de um conjunto de elementos textuais e visuais. Ainda de acordo com Recuero (2009, p. 27), o uso da imagem ou foto, que o uso de palavras não é o bastante para conhecer alguém. Se faz necessário então o uso de “rostos, informações que gerem individualidade e empatia, na informação geralmente anônima do ciberespaço”. É possível também, com essa fusão entre real e virtual, que o usuário desenvolva uma identidade híbrida.

Assim diz Castells (1999) sobre a construção identitária de um indivíduo:

entendo por identidade o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado. Para um determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo, pode haver identidades múltiplas. No entanto, essa pluralidade é fonte de tensão e contradição tanto na auto-representação quanto na ação social (CASTELLS, 1999, p. 22).4

Segundo Recuero (2009), logo que se faz a análise identitária do indivíduo no ciberespaço, é possível entender como são formadas as conexões. São padrões que possibilitam a constituição de interações entre indivíduos. É nesse momento, diz a autora, que há comunicação no ambiente virtual e que, já lembrado nas palavras de Moraes (1997, p. 46), são laços que surgem primeiro “de afinidades e aspirações”.

3.3 O desenvolvimento histórico da sociedade através do meio virtual

O surgimento dessa tecnologia que é a internet permitiu que as pessoas pudessem, de uma forma igualitária, trocar informações entre si. Além disso, permite que essa troca seja feita com mais facilidade e uma velocidade nunca antes vista.

Essa sociedade integrada pelo meio virtual teve seus primeiros passos através de grupos que decidiram partilhar seus conhecimentos, seguindo para o uso da comunicação pelo motivo que for, além de se tornar um importante meio de disseminação ideológica.

Os grupos de discussão que vão emergir nos anos 80, constituindo a rede USENET e a base das comunicações virtuais então nascentes, organizavam-se em torno da partilha do conhecimento sobre algum tópico ou tema. Esta maneira de se ordenar torna as redes sociais visíveis e duradouras, contribuindo para o seu crescimento e proliferação (ANTOUN, 2009, p. 235).

Na década de 90, segundo Antoun (2009), as comunicações no meio virtual irão tomar um patamar que irá sedimentar a internet como o grande meio de comunicação do final do século XX e para o início deste século XXI.

Isso, diz o autor, pelo fato de que os grupos de interação descobriram que por sua independência e liberdade de uso por qualquer pessoa, diferente de meios de comunicação como os jornais, revistas, rádios ou TVs, pode levar suas lutas sociais e políticas para a internet.

Nos anos 90, o poder integrador das páginas web e do universo WWW trouxeram para a comunicação distribuída a reunião dos diferentes movimentos em ações coletivas, seja para empreender uma luta comum, seja para construir uma atividade comum. A dinâmica da distribuição das informações e dos debates desenvolvidos pelos grupos de discussão se alia à gestão do conhecimento como um bem comum de todos das páginas web e sítios virtuais (ANTOUN, 2009, p. 237).

Para Antoun (2009, p. 237), é um exemplo de luta social o movimento Zapatista (1994), que considera seu combate, através da informação na internet, contra o estado e as corporações, como sendo “o principal exemplo deste poder e a principal escola de aprendizado para ONGs e movimentos sociais”.

Essa nova possibilidade, devido a integração entre pessoas e as potências apresentadas, permitiram a capacidade de mobilização de indivíduos e grupos em diversos pontos do globo, como os que deram início aos movimentos Occupy, a Primavera Árabe (2011), com protestos que derrubaram governos em países do Oriente Médio, e as Jornadas de Junho de 2013, que ocorreram em várias cidades do Brasil, quando milhões de brasileiros foram as ruas do país para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, a Copa do Mundo de 2014 e a corrupção.

Segundo Carneiro (2012, p. 8),5 em todas estas e outras manifestações que ocorreram no mundo (Indignados, na Espanha, e Geração à Rasca, em Portugal) e da mesma forma: “ocupações de praças, uso de redes de comunicação alternativas e articulações políticas que recusavam o espaço institucional tradicional”.

Esse poder de mobilização só foi possível com o surgimento, nos anos 2000, da Web

2.06 e, com ela, ferramentas como os blogs, redes sociais como o Twitter, que, segundo Rufino (2009, p. 10), é um serviço permite que os usuários escrevam até 140 caracteres por vez, é um recurso para troca de informações, onde a característica fundamental é a comunicação por mensagens curtas”, e o Facebook, ferramenta onde a interação social se desenvolve através dos “comentários a perfis, pela participação em grupos de discussão ou pelo uso de aplicações e jogos. É um espaço de encontro, partilha, discussão de ideias” (PATRÍCIO; GONÇALVES, 2010, p. 594), e os serviços de stream, que permitem a um indivíduo que esteja acompanhando algum protesto possa transmiti-lo ao vivo, por meio de seu aparelho smartphone, para outras pessoas conectadas à internet.

Seu grande diferencial é a ativa participação do usuário. A possibilidade de alguém comum passar a gerir conteúdo. Ou seja, o usuário deixa de ser um receptor passivo, e torna-se um agente de disseminação de informações através de ferramentas como Blogs, Chats, Fóruns, Micro-bloggings, Sites de relacionamento, etc. Uma nova comunicação interativa entre os usuários ou entre usuários e sistemas e as próprias informações que circulam na web (SILVA, 2011).

Através dos tempos, esta vai se tornar uma rede integradora de elementos sociais como a economia, a educação, transporte e comunicação. A isso, Manuel Castells deu o nome de Sociedade em Rede.

Para Castells (1999), rede

é um conjunto de nós interconectados. Nó é um ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. São mercados de bolsas de valores e suas centrais de serviços auxiliares avançados na rede dos fluxos financeiros globais. São conselhos nacionais de ministros e comissários europeus da rede política que governa a União Européia. São campos de coca e papoula, laboratórios clandestinos, pistas de aterrissagem secretas, gangues de rua e instituições financeiras para lavagem de dinheiro, na rede de tráfico de drogas que invade as economias, sociedades e Estados do mundo inteiro. São sistemas de televisão, estúdios de entretenimento, meios de computação gráfica, equipes para cobertura jornalística e equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação (CASTELLS, 1999, p. 566).

3.4 Um território integrado ao real

Na definição de Pierre Lévy (1999, p. 92), ciberespaço é um “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. Manuel Castells (1999, p. 89) complementa tal pensamento, ao dizer que é um sistema “distribuído numa rede montada ao redor de servidores da web que usam os mesmos protocolos da Internet, e equipados em megacomputadores, em geral diferenciados entre servidores de bases de dados e servidores de aplicativos”. Segundo Costa e Souza (2005, p. 3), “o Ciberespaço é o ambiente, o espaço constituído com base em uma comunicação, em linguagens e diálogos homem-máquina, máquina-máquina” e que “acontece nos programas no qual se é possível navegar pela rede. O software”.

Para Monteiro (2006, p. 33), o ciberespaço é “um espaço de inscrição virtual a partir da mídia digital e da hibridização de linguagens”, desenvolvendo assim um espaço de desenvolvimento de expressões culturais e de ampliação de vários setores como o comercial, econômico e social.

Ainda de acordo com Costa e Souza (2005),

o Ciberespaço, onde acontece a cibercultura, é um ambiente de pertencimento, onde há identificação por área e de origem. Em muitos momentos, as identificações ligadas às antigas tecnologias de identificação (identidade, cpf, nacionalidade, etc) são solicitadas para que novas identificações sejam realizadas no ciberespaço, permitindo acesso às tribos da cibercultura, e atribuindo novas identidades (COSTA; SOUZA, 2005, p. 6).

Levando em consideração a evolução das tecnologias digitais, Castells (1999) amplia o uso do ciberespaço a todas as áreas de interesse e de vivência do ser humano como a casa, ambiente de trabalho, comércio e transporte público, criando uma rede que se interconecta.

Esses dispositivos, muitos deles portáteis, comunicam-se entre si, sem necessidade de sistema operacional próprio. Assim, o poder de processamento, os aplicativos e os dados ficam armazenados nos servidores da rede, e a inteligência da computação fica na própria rede: os sítios da web se comunicam entre si e têm à disposição o software necessário para conectar qualquer aparelho a uma rede universal de computadores (CASTELLS, 1999, p. 89).

De acordo com Lévy (1999, p. 92-93), esse ambiente “condiciona o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação que é, parece-me, a marca distinta do ciberespaço”. Além de dizer que “tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todo os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação”.

Uma vez que uma informação pública se concentra no ciberespaço, ela está virtual e imediatamente à minha disposição, independentemente das coordenadas espaciais de seu suporte físico. Posso não apenas ler um livro, navegar em um hipertexto, olhar uma série de imagens, ver um vídeo, interagir com uma simulação, ouvir uma música gravada em uma memória distante, mas também alimentar essa memória com textos, imagens etc (LÉVY, 1999, p. 93-94).

Complementando o pensamento de Lévy (1999), em relação a produção de informação no ciberespaço, Moreno (2013, p. 117), citando Hamelink (1997), diz que a linguagem estabelecida neste território é digital e binária. “A digitalização é o processo pelo qual a informação, seja ela veiculada por texto, som ou imagem, fixa ou em movimento, é convertida na linguagem binária usada pelos computadores”.

Essa conversão é necessária pelo fato de que os “computadores não são capazes de entender outra informação que não aquela que puder ser convertida em ‘0’ e ‘1’, exatamente porque a sua linguagem é matemática” (MORENO, 2013, p. 117).

Essa tradução da língua digital para a binária proporciona ao usuário uma série de possibilidades. Uma delas, segundo Lévy (1999, p. 93), é o possível “acesso a distância” que as configurações dessa linguagem permitem para que se chegue as várias funcionalidades introduzidas no computador, de forma que este “execute, em alguns minutos ou algumas horas, cálculos (cálculos científicos, simulações, síntese de imagens etc.) que meu computador pessoal levaria dias ou meses para executar”.

Navegando pelo ciberespaço, o usuário pode encontrar qualquer tipo de informação nele inserido. De certa forma, isso criou um certo tipo de conforto e praticidade. Para buscar um livro ou comprar algo, não se faz mais necessário ir a uma livraria ou biblioteca para acha-lo ou ir em um supermercado ou loja para que se encontre determinado produto. A isso, Lévy (1999, p. 189) chama de substituição, em que não se exige que alguém vá a um lugar físico em busca de algo. “Os benefícios são muitos: desafogamento dos centros urbanos, melhoria da circulação de automóveis, redução da poluição”.

Em relação a educação, a falta de tempo impede, por exemplo, que um indivíduo, trabalhando, consiga concluir da melhor forma possível seus estudos. Uma maneira de facilitar tal tarefa são a educação a distância (EAD). Pensando num futuro para a educação, Lévy (1999, p. 189) propõe a criação do que chama de teleuniversidades e de outras formas mais práticas de ensino “interativos e cooperativos acessíveis de qualquer ponto do território” do que a construção de universidades.

O ciberespaço é efetivamente um potente fator de descentralização e de deslocalização, mas nem por isso elimina os “centros”. Espontaneamente, seu principal efeito seria antes o de tornar os intermediários obsoletos e de aumentar as capacidades de controle e de mobilização direta de nós de poder sobre os recursos, as competências e os mercados, onde quer que se encontrem (LÉVY, 1999, p. 190).

3.5 Os caminhos para uma nova evolução social

Ao longo do tempo, a criação de novas tecnologias tem surgido de momentos de urgência da humanidade. Portanto, as tecnologias da comunicação derivam de uma necessidade que um indivíduo tem de se comunicar com o outro. Assim, é inevitável pensar que não são as tecnologias que determinam uma sociedade, mas sim uma sociedade que elabora um tipo de ferramenta a ser empregada em uma época específica.

Segundo Moreno (2013, p. 119), “as tecnologias têm consequências sociais que derivam primeiro da própria sociedade e só depois das tecnologias”. Para Castells (1999, p. 91), isso se dá pela “importância de contextos históricos específicos das trajetórias tecnológicas e do modo particular de interação entre a tecnologia e a sociedade”.

Durante as duas décadas finais do século XX e o alvorecer do XXI, para uma maior integração social, os indivíduos foram obrigados a caminhar por um espaço totalmente diferente daquele que se buscou com tanto desejo durante os anos 60, 70 e 80 do século passado.

A viagem espacial exigiu de nações como os Estados Unidos e a antiga União Soviética um esforço para descobrir e construir novas tecnologias. O desenvolvimento inicial era normalmente voltado com o objetivo de servir às forças armadas e só algum tempo depois para o uso civil.

De acordo com Castells (1999, p. 99), “a primeira revolução na tecnologia da informação foi norte-americana, com tendência californiana”, onde “cientistas e industriais de outros países tiveram um papel muito importante tanto na descoberta como na difusão das novas tecnologias”.

O forte impulso tecnológico dos anos 60 promovido pelo setor militar preparou a tecnologia norte-americana para o grande avanço. Mas a invenção do microprocessador por Ted Hoff, enquanto tentava atender ao pedido de uma empresa japonesa fabricante de calculadora de mão em 1971, resultou dos conhecimentos e habilidades acumulados na Intel, em uma estreita interação com o meio de inovação criado desde 1950, no Vale do Silício (CASTELLS, 1999, p. 98).

De certa forma, Castells (1999, p. 98) diz que “a disponibilidade de novas tecnologias constituídas como um sistema na década de 1970 foi uma base fundamental para o processo de reestruturação socioeconômica dos anos 80”.

Na verdade, na década de 1980, o capitalismo (especificamente: as principais empresas e governos dos países do G-7) passou por um processo substancial de reestruturação organizacional e econômica no qual a nova tecnologia da informação exerceu um papel fundamental e foi decisivamente moldada pelo papel que desempenhou. Por exemplo: o movimento empresarial que conduziu à desregulamentação e liberalização da década de 1980 foi decisivo na reorganização e crescimento das telecomunicações, sobretudo depois do desmembramento da ATT, em 1984. Por sua vez, a disponibilidade de novas redes de telecomunicação e de sistemas de informação preparou o terreno para a integração global dos mercados financeiros e a articulação segmentada da produção e do comércio mundial (CASTELLS, 1999, p. 98).

O rumo que o mergulho da sociedade no ciberespaço trouxe para o mundo real, físico, é uma possibilidade, segundo Lévy (1999), do uso da tecnologia digital, que atingiu setores da sociedade, além de permitirem uma facilidade de práticas cotidianas. Castells (2003, p. 58) dá como exemplo o surgimento nos anos 90 do e-commerce, permitindo uma “descentralização interna de grandes corporações, que adotaram estruturas enxutas, horizontais de cooperação e competição, coordenadas em torno de metas estratégicas para a firma como um todo”.7

Esse caráter horizontal permitiu ainda na última década do século XX, segundo Castells (1999), a criação de sistemas operacionais livres como o Linux, sendo uma opção e, ao mesmo tempo, um contraponto aos softwares desenvolvidos pela Microsoft. Um dos principais diferenciais do Linux é que nenhuma de suas ferramentas são pagas, diferente, por exemplo, dos pacotes Office do sistema Windows (Microsoft).

Mas o fator significativo no êxito do Linux foi seu interminável aprimoramento em consequência da contribuição de milhares de usuários, que descobriam novos usos e aperfeiçoavam o software, depois divulgando esses aperfeiçoamentos em Rede, gratuitamente, retribuindo assim o presente técnico que havia recebido. Esse esforço constante e multifacetado para melhorar a comunicabilidade da rede constitui um notável exemplo de como a produtividade de cooperação tecnológica através da rede acabou por aperfeiçoá-la (CASTELLS, 1999, p. 441).

Muito se tentou, diz Castells (1999, p. 442), privatizar a internet, torná-la através de corporações já existentes uma extensão de seu poder, seja pelo controle cultural, econômico, social e comunicacional. Porém, o autor coloca três características do ciberespaço: “penetrabilidade, descentralização multifacetada e flexibilidade. Alastram-se como colônias de microrganismos”.

Assim, o que se vê no ambiente virtual, principalmente nesse início de século XXI, é uma disposição dos usuários de comporem em conjunto com dezenas, centenas, milhares de outros usuários, projetos que visem não só ajudar outras tantas pessoas a terem acesso a informação, como a produção de livros, que é escrito por vários autores, sem também que estes não percam tempo na procura de editoras que queiram publicar suas obras nem mesmo gastar com a impressão destes.

Outras tantas possibilidades permitem que o usuário ajude a financiar, de forma coletiva, projetos que não podem ser quase ou totalmente custeados por seus desenvolvedores.

3.6 A internet e as ferramentas de comunicação no meio virtual

Por não haver uma possibilidade de representação física no meio virtual, o usuário cria formas através de meios de se comunicar. Uma simulação do seu eu neste local. Sua representação virtual em que constrói características humanas as quais desejar.

Isso só é possível através de uma conexão entre computadores que permitiu o surgimento de algo que iria revolucionar a comunicação humana e toda uma maneira de ver e de se pensar a sociedade em que vivemos.

Segundo Moraes (1997, p. 100), a “Internet (inter-net) é o produto de uma malha de redes que não pode ser entendida como uma rede individual, e sim como um sistema organizado cooperativamente e em forma global para o intercâmbio de comunicação”. Complementando, Canabarro e Borne (2013, p. 3) dizem que esta “consiste em um conjunto de protocolos computacionais que, fundamentalmente, habilita a interoperação de computadores e redes distintas”.

Esta rede das redes se explora através de dispositivos de hipertexto, considerado um texto que usa um sistema de conexão associativa e ao qual se encontra associado outro dispositivo chamado hipermídia, que permite ao hipertexto o emprego dos multimídias (imagem, som, diferentes tipos de linguagem e suportes) (MORAES, 1997, p. 100).

Segundo Castells (2003),

los usos de Internet se plasman en su desarrollo como red y en el tipo de aplicaciones tecnológicas que van surgiendo. Los valores libertarios de quienes crearon y desarrollaron Internet, a saber, los investigadores académicos informáticos, los hackers, las redes comunitarias contraculturales y los emprendedores de la nueva economía, determinaron una arquitectura abierta y de difícil control (CASTELLS, 2003, p. 1).8

Essa rede de computadores é usada com diversos propósitos, sejam eles os de pesquisa, busca por informação ou, para Moraes (1997), a comunicação humana (de forma imediata, através de chats e páginas de bate-papo, ou, como diz o autor, em uma forma acrônica, via email), baseando-se em uma ideia de horizontalidade e de livre uso das ferramentas disponíveis. Uma das potencialidades surgidas na internet é o uso das webpages, que, de acordo com Antoun (2009, p. 235), “foram construídas a partir da necessidade de se fazer de forma simples, fácil e dinâmica a produção de um documento virtual com o material produzido de modo independente e disperso sobre certo assunto” que antes seria relegado apenas aos meios convencionais de comunicação como o rádio e a TV, além de ser uma ferramenta de poder, pela força que poucos possuíam de passar a mensagem da forma que lhes convinham.

Dessa forma a internet se apresenta como um meio alternativo para quem ainda não tinha tal poder se comunicar e se expressar, dependendo apenas de uma ferramenta (computador) e de suas potencialidades (aliadas as da internet), viabilizando uma comunicação ampla que desenvolva, além de tudo, afetos, mesmo com aqueles indivíduos que estão separados por longas distâncias, sendo este um espaço que presa pela coletividade, que, de certa forma, contribui não só para uma harmonia por parte daqueles que povoam o ciberespaço, mas também para que estes mantenham as bases de uma sociedade, que são as de se comunicar, mantendo uma constante transformação do indivíduo, em seu aspecto particular, e do grupo ao qual pertence.

Tim-Berners Lee criou o universo das teias de comunicação para automatizar a confecção de documentos a partir do material espalhado na rede. Deste modo, o endereço virtual do sítio atrairia e ordenaria textos, imagens, sons e vídeos disponibilizando um documento organizado informacionalmente. As páginas web fi zeram da Internet um espaço hipermediatizado, gerando um local concentrador de informações sobre alguém, algo ou algum assunto. Este espaço foi apropriado pelos participantes das comunidades virtuais, criando os sítios das comunidades ou seus anexos que disponibilizavam seus diversos materiais. (ANTOUN, 2009, p. 235-236).

Com a criação de Lee, necessidades e desejos vão surgindo por parte de quem usa a internet. Sites como YouTube – assim também como o Vimeo –, segundo Burgess e Green (2009, p. 14), são ferramentas de vídeos alimentadas por “produtores de mídia e detentores de direitos autorais como canais de televisão [...] a pequenas e médias empresas em busca de meios de distribuição mais baratos ou de alternativas aos sistemas de veiculação em massa”, desenvolvido através de um esforço feito sempre de forma coletiva, sendo “um sistema de cultura participante”.

Outros sites como o SoundCloud possibilitam a inserção de arquivos de áudio.

Essa rede destaca-se pelo limite maior de músicas compartilhadas e por ser uma interface mais simples e intuitiva – que não contém chat e não armazena fotos (somente o avatar). Cria-se uma visualização gráfica de cada faixa compartilhada, na qual é possível fazer comentários e, a partir da “própria música”, interagir com outros ouvintes e produtores. (GALAS, 2011, p. 1).

Para isso, diz Renó (2007), basta que o usuário faça um rápido cadastro, inserindo dados pessoais, para ter acesso as opções oferecidas por estes sites.

“A internet permite acessar informação, educação ou entretenimento com um potencial de irresistível atração horizontal, baseado no fato de que qualquer um pode emitir conteúdos, além de recebê-los”. (MORAES, 1997, p. 102).

Reunindo todo esse conteúdo em um único local, ferramentas de busca como o Google dão a oportunidade por quem quer que seja procurar qualquer tipo de informação à deriva no ciberespaço. Para Oliveira et al (2012, p. 55), este “é visto como a maior e mais utilizada base de buscas da atualidade, pois sua forma inovadora e de fácil manuseio, contendo diversas fontes de informação, de diversos campos”, que também “atrai cada dia mais usuários, tornando-se ferramenta inicial e muitas vezes final, ou até mesmo única, de qualquer tipo de pesquisa”.

Para Bucci (2009),9 essas ferramentas de compartilhamento de arquivo permitem ao usuário guardar suas memórias e materiais digitais, ou que podem ser digitalizados, tendo a oportunidade de lhes ser uteis em uma futura aplicação.

Com o tempo, o Google foi se tornando mais do que uma mera ferramenta de busca, tornando-se, entre muitas outras coisas, uma empresa que permite a publicidade de diversos sites.

A tecnologia envolvida no serviço de publicidade da Google é formada por dois programas, o Google Adwords e o Google Adsense. O Adwords é o programa da Google que atua em sua ferramenta de busca, além de outros produtos da empresa como o Gmail, Google Maps, Picasa, entre outros, e na chamada Google Network, que é a rede de páginas da Internet geridas por terceiros, mas que usam o programa para disponibilizar publicidade relevante relacionada ao conteúdo ou aos resultados de busca que oferecem. Essa rede também abrange outras formas de mídia como vídeo, televisão e transmissões de rádio. (GONZALEZ, 2011, p. 18).10

Todas estas ferramentas de compartilhamento nasceram com o desenvolvimento da web 2.0. Dessa nova era pela qual passa a internet, foram surgindo locais onde as pessoas poderiam se comunicar com facilidade e rapidez. As redes sociais seriam uma espécie de ambiente urbano dentro da internet. Uma ferramenta de livre comunicação, confraternização, troca de ideias e de debates públicos, onde o usuário pode se aproximar de um grupo segmentado ou até mesmo milhares de pessoas ao redor do mundo ao mesmo tempo.

Os sites de redes sociais permitem aos atores estarem mais conectados. Isso significa que há um aumento da visibilidade social desses nós. A visibilidade é constituída enquanto um valor porque proporciona que os nós sejam mais visíveis na rede. Com isso, um determinado nó pode amplificar os valores que são obtidos através dessas conexões, tais como o suporte social e as informações. Quanto mais conectado está o nó, maiores as chances de que ele receba determinados tipos de informação que estão circulando na rede e de obter suporte social quando solicitar. (RECUERO, 2009, p. 108).

De acordo com Recuero (2009), assim como o Google, redes sociais como o Facebook descobriram que permitir a publicidade em sua programação, devido a quantidade de usuários e conexões que possuem, poderia ser uma fonte de obtenção de lucro, já que é gratuito fazer parte desta rede. Além disso, as grandes marcas entenderam que criar material publicitário para a internet, ainda mais com a possibilidade de atingir uma grande quantidade de pessoas, tornou- se um excelente negócio.

Para Recuero (2009, p. 109), o aumento da visibilidade na rede possibilita que empresas e indivíduos tenham amplo acesso a esse capital social, podendo “intencionalmente aumentar sua visibilidade no Twitter, por exemplo, utilizando-se de artifícios para aumentar o número de seguidores, apenas para popularizar seu blog”.

E não só as grandes marcas se beneficiaram destas ferramentas. Usuário individuais, pequenos grupos, produtores de conteúdo, artistas, músicos e políticos ganharam a chance que talvez não teriam com tanta facilidade quanto nos ditos meios tradicionais de comunicação (rádio, impresso e televisão) de divulgarem seja lá o que quiserem.

Um grupo musical, por exemplo, pode produzir o clipe de uma música, inseri-la no YouTube e, ainda no site, compartilhar seu conteúdo no Facebook ou no Twitter. Dependendo do tamanho de sua rede de conexões, é possível que o resultado seja positivo do ponto de vista da visibilidade.

3.7 A evolução da internet ao longo das cinco últimas décadas

Como boa parte da tecnologia usada pelas pessoas foram antes fontes de uso militar, com a internet não poderia ser diferente. De acordo com Castells (1999), após o início da corrida armamentista e espacial, o departamento de defesa norte-americano teve de tomar medidas preventivas para evitar o vazamento de informações que pudesse comprometer a segurança dos Estados Unidos durante o período da Guerra Fria.

A primeira rede de computadores, que se chamava ARPANET – em homenagem ao seu poderoso patrocinador – entro em funcionamento em 1º de setembro de 1969, com seus quatro primeiros nós da Universidade da Califórnia em Los Angeles, no Stanford Research Institute, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e na Universidade de Utah. Estava aberta aos centros de pesquisa que colaboravam com o Departamento de Defesa dos EUA. (CASTELLS, 1999, p. 82-83).

Ainda de acordo com o autor, cientista que contribuíam com o programa começavam a ter acesso de forma a criarem sua própria rede de comunicação. Com isso, houve uma divisão, nos anos 80. A ARPANET (ARPA – Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos) teria por finalidade a comunicação com fins científicos e a MILNET com a comunicação militar.

Segundo Tait (2007), a internet teve grande parte de uso voltado para as áreas científica e acadêmica, tendo seu uso comercial apenas no final da década de 80.

Em relação ao Brasil, no ano de 1987, na Universidade de São Paulo é realizada a primeira reunião de pesquisadores de todo o país para discutir o estabelecimento de uma rede nacional para fins acadêmicos e de pesquisa, com compartilhamento de acesso a redes internacionais. (TAIT, 2007, p. 1).

A autora continua esse histórico ao dizer que a internet entrou na vida das pessoas no início da década de 90 com o surgimento de empresas que assumiram um compromisso comercial de disponibilizarem tal ferramenta, fazendo com que não ficasse mais restrita ao uso militar ou de pesquisas científicas e acadêmicas.

Isso ocorreu, segundo Castells (1999, p. 83), devido a exigência de empresas, que desejavam que a internet se tornasse privada. “Uma vez privada, a Internet não contava com nenhuma autoridade surpervisora”. Sendo assim, possibilitou-se que diversos indivíduos ou grupos fizessem parte importante do desenvolvimento dessa nova tecnologia de comunicação.

O sucesso da internet se tornou tão rápido que, segundo Moraes (1997), no ano de 96, o número de pessoas conectadas ao redor do mundo passava dos 50 milhões.

Depois de 20 anos de uso quase exclusivamente acadêmico, este conjunto de protocolos de comunicação, que se pode definir como uma macromídia, se assemelhava a uma pequena emissora de televisão, um jornal local ou uma revista especializada que, entretanto, não parou de crescer desde que, em 1989, se criou a Web, ou teia de aranha. Em 1992, já havia 50 servidores Web; em fins de 1996, mais de 400 mil. (MORAES, 1997, p. 99-100).

De acordo com Tait (2007, p. 2), o número de usuários aumentou ainda mais com o surgimento do comércio eletrônico e cada vez mais o aparecimento de novas condições deste se comunicar. “Hoje a internet faz parte da rotina do trabalho, do estudo e da vida das pessoas”.

A internet se sedimentou como um veículo em que o indivíduo se tornou ao mesmo tempo emissor e receptor no século XXI, com a criação de redes sociais e de sites de compartilhamento de arquivo. Isso porque, continua Tait (2007, p. 2), “a tecnologia continua proporcionando novos serviços via Internet, com o aumento da capacidade de armazenamento e de velocidade da transmissão de dados”. Tudo isso para suprir as angustias dos usuários, que a cada momento fazem com que a internet seja cada vez mais prática em termos de comunicação e busca por informação.

Segundo Moraes (1997), a grande diferença da internet para os meios de comunicação de massa é a sua possibilidade de aglutinação de várias mídias em um mesmo espaço e pela forma como a informação é distribuída para as demais pessoas. “A comunicação se nutre de cada participante que se conecta através dos protocolos e do modelo de cliente-servidor na comunicação de dados” (MORAES, 1997, p. 101).

Essa nova possibilidade de informação não seria possível, diz Castells (1999, p. 82), se não houvesse, nas três décadas que finalizaram o século passado, “uma fusão singular de estratégia militar, grande cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural”.

Com a disseminação do uso da internet, que está de um modo geral ao alcance da sociedade, movimentos culturais têm usado o ciberespaço para divulgar suas produções, criando assim novas possibilidades pela capacidade de conexão que se consegue principalmente no mundo virtual.

Dessa forma, os rappers têm nesse meio alternativo uma forma de levar a público suas canções, disponibilizando-as para download, além de poder ser uma fonte de renda. Há também na internet, por sua forma democrática de comunicação, um contraponto aos meios de comunicação tradicionais, que divulgam o conteúdo que lhe convir.

4. RAP - PRODUÇÃO CULTURAL E RESISTÊNCIA SOCIAL

Assim como a internet permitiu a um grupo de pessoas a pratica da liberdade de expressão, em uma sociedade dominada por meios de comunicação de via única, um movimento sociocultural (o Hip Hop que, segundo Rocha et al (2001), foi pensado pelo DJ Afrika Bambaata, na década de 60, para denominar o encontro entre DJs e MCs, além de servir para apaziguar os conflitos que ocorriam em diversas regiões periféricas dos Estados Unidos) surge como uma oportunidade de indivíduos - marginalizados por sua cor e classe social numa sociedade institucionalizada por valores culturais caucasianos (em se tratando da cultura ocidental), capitalistas e de autoridade patriarcalista - terem uma chance de se expressar e mostrar ao resto do mundo quem são.

Pensando dessa forma, pode se considerar tanto as pessoas que interferiram no desenvolvimento da internet quanto do Hip Hop (ambos surgidos na década de 70) como indivíduos que decidiram lutar de forma cultural, com o objetivo de reivindicarem seus interesses enquanto cidadãos, além de promoverem a contracultura a partir desses meios, do ponto de vista de uma disputa contra os valores estabelecidos na sociedade ocidental.

Uma atitude corroborada pelo filósofo e sociólogo alemão Karl Marx (1818-1883), ao dizer que “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (MARX, 1997, p. 21).11

A colocação de Marx se dá do ponto de vista de que eventos relacionados a história humana levam as pessoas a trilharem caminhos criados a partir de uma certa obrigatoriedade na tomada de decisões impostas para contornarem ou concertarem pontos determinados desse processo para que um possível equilíbrio seja estabelecido. No caso dos negros que viviam na América do Norte (principalmente nos Estados Unidos), a arte (no caso, o Hip Hop) foi um dos vários meios encontrados para que estes pudessem ao menos se alentarem frente as dificuldades impostas pelo passado. Diante do que é estabelecido pelo autor, a história do negro americano foi desenvolvida por eles próprios, mas não do jeito que estes imaginavam. Uma história em que foi necessário um combate por vezes violente contra a própria violência, o preconceito, a segregação e a falta de direitos básicos como a educação que lhes permitissem viver uma vida digna e em igualdade a outra parcela mais privilegiada daquela sociedade.

Nas exigências de uma realidade que a história da humanidade cria, indivíduos, unidos por uma causa que lhes dizem respeito, buscam formas de interpretar e expor suas dificuldades em contrapor o pensamento social majoritário. Uma luta por transformação social, cultural e espiritual que também pretende deixar um legado de consciência para as gerações futuras.

Nesse processo, pode-se considerar o Hip Hop como movimento12 social e cultural. “[...]o hip hop é um movimento social ou uma cultura de rua? A indefinição abre espaço para o uso aleatório de ambas as aplicações” (ROCHA et al, 2001, p. 17).

Hip Hop

é um conjunto de manifestações culturais: um estilo musical, o rap; uma maneira de apresentar essa música em shows e bailes que envolve um DJ e um MC; uma dança, o break; e uma forma de expressão plástica, o grafite. Também cabe, portanto, a caracterização do hip hop como uma cultura de rua, que é o conceito mais utilizado pelos seus próprios integrantes (ROCHA et al, 2001, p. 19).

O fator que leva o Hip Hop, segundo Rocha et al (2001, p. 19), a ser considerado um movimento de caráter social é a sua capacidade de unir elementos políticos, culturais e sociais.13 A principal força desse movimento ocorre através “de atividades culturais e artísticas, [onde] os jovens seriam levados a refletir sobre sua realidade e a tentar transformá-la”.

Para isso, é necessário entender os elementos do Hip Hop, cada um com seu significado para a construção desse movimento. O rap é a voz, o integrante musical do Hip Hop, que trata de desenvolver suas canções também com a necessidade de mostrar a insatisfação de um grupo de pessoas – no caso, os negros – contra um modo de vida que os tornavam indivíduos inferiores diante de uma sociedade que os negava até mesmo como seres humanos, sendo este um drama vivido desde a escravidão.

O break é o movimento, a dança do Hip Hop, elaborada de forma robótica, era uma forma de protesto, segundo Rocha et al (2001, p. 47) contra a Guerra do Vietnã. Os breakers, “por meio de passos da dança simulavam os movimentos dos feridos de guerra” e de veículos como o helicóptero, que eram usados em ataques aéreos. Os dançarinos imitavam o movimento de autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados a essa juventude, imersa em uma situação de exclusão econômica, educacional e racial (ROCHA et al, 2001, p. 18).

O grafite é o visual, o texto do Hip Hop grafitado com spray nos muros das cidades – que, no caso, não é praticado apenas por esse movimento, mas também pelo Punk, que tem o grafite como “meio de comunicação e uma marca identificadora deste movimento cultural”, com características multiculturais e de cunho anarquista (LARA, 1996, p. 48) –, que ainda de acordo com o autor, “significava uma alternativa para o jovens deixarem as páginas policiais dos jornais e configurava-se como um meio de expressão cultural e artística com grandes potencialidades” (LARA, 1996, p. 50).

Esses ingredientes políticos, culturais e sociais introduzidos no Hip Hop surgem pela necessidade de afirmação do negro, principalmente em um histórico de segregação racial vivido nos Estados Unidos, onde se consolida como movimento social. “O hip hop não foi inventado, ele nasceu naturalmente no gueto, recebeu a forma dos negros e excluídos e hoje auxilia o povo a encontrar uma identidade” (MOTTA; BALBINO, 2006, p. 10).

Fazendo um complemento ao que diz Rocha et al (2001) em relação ao Hip Hop como sendo um movimento social e cultural, Rose (1994) diz que o

Hip-hop is a cultural form that attempts to negotiate the experiences of marginalization, brutally t runcated opportunity, and oppression within the cultural imperatives of African-American and Caribbean history, identity, and community. It is the tension between the cultural fractures produced by postindustrial oppression and the binding ties of black cultural expressivity that sets the critical frame for the development of hip-hop (ROSE, 1994, p. 21).14

Construindo uma identidade própria que tinha por objetivo uma resistência racial e identitária, a população negra norte-americana tinha em Martin Luther King Jr. e Malcolm X, seus grandes líderes. O assassinato desses dois líderes gerou “conflitos inter-raciais, contribuindo também para a criação de mártires e mitos, que deixaram como lema a exaltação dos negros, fortalecendo a autoestima da raça” (MOTTA; BALBINO, 2006, p. 12).

As comunidades negras se insurgiam por todo o país, sob a inspiração de líderes como Martin Luther King, Stokely Carmichael e Malcolm X. A luta contra todas as formas de discriminação racial se desdobrou no grande movimento de resistência contra a Guerra do Vietnã. Esse motim crescente alcançou um pico em 1968, com a irrupção da revolta estudantil, o surgimento da freak generation e da contracultura, consumando-se num espasmo com o gesto punk em 1976. Durante todo esse percurso a música funcionou como o elemento aglutinador e animador do confronto político e cultural, e era sempre música de raízes negras (SEVCENKO, 2001, p. 113-114).

Essa soma entre cultura e movimento social leva, não só um indivíduo, mas sim um grupo, uma minoria, a um estágio de empoderamento,15 através dos elementos que o Hip Hop lhes concede.

Para unificar todos esses elementos, é comum que grupos ligados ao Hip Hop se reúnam em certos locais, denominados de posse, nos quais desenvolvem uma série de atividades que possibilitam o empoderamento do indivíduo como “estudos e eventos, produzindo arte, interferindo na linguagem e na metodologia educacional, reivindicando políticas públicas e propondo resistência, independência, autenticidade, atitude”, que, no Brasil, teve início com a posse Sindicato Negro, sediada no espaço da Praça Roosevelt, em São Paulo (ROCHA et al, 2001, 10).

O conceito posse é originário do hip hop norteamericano, utilizado para definir os interesses comuns das associações de grupos ligados ao hip hop (grafiteiros, dançarinos de break, rappers, DJs). Além do trabalho artístico, as posses paulistanas costumam desenvolver atividade comunitárias e educativas, como, por exemplo, realização de palestras em escolas, campanhas de recolhimento de donativos e agasalhos, etdc (cf. ANDRADE, 1996; SILVA, 1998).

Além disso, as posses servem como espaço de fortalecimento da identidade de indivíduos que nela participam e integram, servindo de resistência cultural que, para o negro, é o seu maior bem diante das dificuldades impostas pela sociedade em que vive.

Assim como o Hip Hop, o Punk surge na década de 70 (primeiro na Inglaterra e, em seguida, se espalhando para outras partes do mundo) como uma forma de expressão cultural de cunho político e social desenvolvida por uma juventude que não demonstrava ter esperança diante da realidade que se apresentava e que se revoltava com as atitudes tomadas por seus governantes. As pessoas, as culturas e as localidades eram diferentes, mas tinham como ponto de relação a música como forma de expressão.

Os punks tinham suas formas de se expressar, que se apresentavam através de suas vestimentas, atitudes e também no estilo musical, que derivava do rock. Garbin et al (2006), citando Shuker (1999) e Abramo (1994), analisa

o punk como uma subcultura jovem associada diretamente com a música, que rapidamente expandiu-se para muitos centros urbanos do mundo. Mesmo sendo o punk um movimento extremamente urbano, logo sua abrangência chegou a outros cantos do planeta, através da mídia escrita, televisiva, impressa... Esses jovens, através da construção de um estilo que incluía a música e um visual chocante e causador de estranheza, manifestavam seus descontentamentos e seus repúdios à hegemonia cultural da época (GARBIN et al, 2006, p. 5).

Esse tipo de manifestação política – direcionada ao sistema financeiro capitalista, ao controle de estado e a padronização do ensino nas escolas, que faziam com que os estudantes não pudessem pensar por conta própria – pode ser encontrada nas letras das músicas da banda Sex Pistols como Anarchy in the U.K: “Eu quero ser um Anarquista/ Ficar bravo, destruir!”, God save the Queen: “Deus salve a rainha/ Seu regime fascista/ Fez de você um retardado” – ambas do álbum Never Mind the Bollocks Here's the Sex Pistols (1977) – e School are prision: “E esses 13 anos de prisão/ Não me ensinaram a amar/ Eles dizem que tiveram suas razões/ Tudo que vem de cima/ Não se esqueça das estações/ Dentro de sua fábrica/ Há uma coisa que eles não podem lhe ensinar/ É como se sentir livre” – do álbum Pirates of Destiny (1997).

Retornando a história do negro nos Estados Unidos, com o fim da escravidão no país, em 1865, Checco (2010, p. 5) diz que os “negros, como não queriam voltar a trabalhar para seus antigos senhores, foram em direção das cidades, onde então começou um forte movimento de segregação para com eles”, o que fez com que se organizassem “de maneira conjunta nos seus próprios espações, as periferias das cidades e os guetos”, levando-os também a criarem características culturais próprias como o rap.

O rap, segundo Righi (2011), é uma sigla que significa, em inglês, rhythm and poetry (ritmo e poesia). Macedo (2011) considera a possibilidade de que as características desse gênero musical provêm de uma tradição oral africana, em que os Griots (contadores de histórias das tribos africanas), criavam narrativas e disponibilizavam conhecimentos passados por gerações, mas não as escreviam em nenhum material que possibilitasse o uso da escrita.

Os antecedentes do rap residem nas diversas formas da música popular que incluem narrações de histórias: o blues falado (talking blues), as passagens faladas da música gospel e a música de chamado e resposta. Suas influências formais mais diretas encontram-se no final da década de 1960, nos “toasters” dos DJs do reggae (um estilo de discussão) e nos estilos despidos da música funk, particularmente em James Brown, com seus “fluxos de consciência” sobre um funk elementar de fundo (SHUKER, 1999, p. 231-232).

Esses elementos da cultura e de outros ritmos negros, já nos Estados Unidos, permitiram que indivíduos desenvolvessem novas composições musicais, misturando ritmos e características, elaborando um estilo hibrido. “Os rappers fizeram suas próprias mixagens - sampling - a partir de uma série de fontes musicais, sobrepondo a fala e a música - rapping - em uma forma improvisada de poesia urbana” (SHUKER, 1999, p. 232).

Para Macedo (2011, p. 3), os elementos musicais do rap levaram-no a ser considerado um gênero de baixa qualidade, “pois suas letras não seguem a métrica formal das rimas e versos da canção, por não serem produzidas com instrumentos musicais, mas pela escolha e combinação de fragmentos de músicas já gravadas, para produzir uma nova música”.

De acordo com Moassab (2011), os rappers não estão preocupados em produzir um estilo musical com uma linguagem formal, mas sim com a linguagem que usam na rua, sendo uma extensão de seu linguajar cotidiano, um fator que torna o rap parte da cultura dessas pessoas.

Em um dos versos de “Negro Drama”, dos Racionais MCs, é afirmado que: “gíria não, dialeto”. Quer dizer, não se trata de “linguajar rude” ou “pobre”, mas ao contrário, é um mecanismo de coesão do grupo, no qual ele se reconhece e pensa seu mundo. A insistência neste modo de falar implica em criar um confronto contra a imposição externa dos vocabulários da língua culta e de suas regras gramaticais e a construção de um modo próprio de se expressar (MOASSAB, 2011, p. 144).

O rap, diz Hinkel (2008), é produzido pelo DJ (Disc Joquey) e pelo MC (Mestre de Cerimônia). Em eventos produzidos, o DJ fica responsável pelo arranjo da música, com seus aparelhos de mixagem de som ou produção de ruídos, conhecido como o scratch, quando se desliza o disco, com as mãos, no aparelho de som. Já o MC tem o papel de compor e cantar a música.

Suas produções musicais possuem temas diversos, que vão desde a discussão social, relacionada a problemas vividos em sua maior parte pelos negros que vivem nas periferias como a violência, crime, pobreza, marginalização, exclusão social e preconceito, até letras que narram a ostentação vivida por alguns rappers, que conseguiram se estabelecer economicamente através da venda de discos e de shows.

Dessa forma, segundo Hinkel (2008) e Moassab (2011), existem duas linhas de produção de rap, que se relaciona como parte de um movimento social, que discute as problemáticas ligadas a pessoas que vivem à margem da sociedade, e o rap de entretenimento, considerado vazio de significado e que não teria qualquer possibilidade de produzir uma luta social, sendo ligado a questão da ostentação, onde se fala de dinheiro, carros e mulheres.

Mesmo o rap de protesto, diz Shuker (1999), divide-se em duas vertentes, tendo letras pacifistas, mesmo as vezes tendo um tom mais pesado como do grupo brasileiro Racionais MCs ou do rapper Sabotage (1973-2003), e, por outro lado, a produção de músicas que exaltam o uso da força bruta como forma de luta por espaço na sociedade.

Os valores e as posturas políticas anti-autoridade em algumas músicas de rap também atraíram uma crítica considerável. A música “Fuck the Police” do grupo NWA (Niggers With Attitude), de Los Angeles – em seu álbum de estreia, Straight Outta Compton (Priority, 1989), atacado pelos críticos por sua descrição de vida de um gueto negro –, e a música “Cop Killer”, de Ice-T, causaram polêmica e pedidos de proibição das apresentações e das gravações dos artistas (SHUKER, 1999, p. 54).

A separação dos estilos de rap se dá, de acordo com Shuker (1999), entre: 1) o hardcore rap, que trabalha em suas letras a luta social do negro e dos marginalizados; 2) o reggae rap, uma mistura entre o rap, pelo fato da música não ser cantada e sim falada, com o ritmo e a batida do reggae; 3) o rap feminino, que segue um caminho por uma luta de igualdade entre mulheres e homens no rap; 4) o Dayse Age rap, que tem uma sonoridade que remete o soul e o funk; 5) e o gangsta rap, onde predomina o machismo, sexismo, ostentação e a apologia à violência e as drogas.

De acordo com Moassab (2011, p. 57), uma vertente mais rentável do rap acabou ganhando maior notoriedade na grande mídia, tendo “uma forte influência dos rappers estadunidenses como Eminem, Snoop Dog, 50 Cent ou Marcelo D2, no Brasil”.

Além dessas variações do gênero trabalhadas por diversos grupos, há no Brasil, por exemplo, a mixagem de estilos musicais brasileiros que se entrelaçam com o rap, segundo Alves (2008) e Macedo (2011), pelos elementos similares que possuem entre si. O autor diz que uma dessas similaridades é o uso da rima, que no Nordeste é utilizado pelo gênero musical conhecido como repente.

De acordo com Alves (2008), o repente tem outra semelhança com uma modalidade do rap que é o freestyle onde criam-se canções através do improviso e do conhecimento que o rapper tem que poderá ser empregado nas letras. Em batalhas de rimas, feitas em locais públicos como praças, tanto os praticantes do rap quanto o repente desenvolvem suas rimas naquele instante.

Também no rap se pratica uma modalidade de repente chamada Freestyle, ou seja, arte de improviso na rima, com técnicas similares às dos poetas cantadores do Nordeste, sobretudo os emboladores, pelo ritmo acelerado dos versos, suas rimas sonantes, seus verbos e a extensão dos textos escritos (ALVES, 2008, p. 21).

Em sua maioria, o rap é ouvido e produzido por jovens (SHUKER, 1999; ALVES, 2008; MACEDO, 2011). Além de ser uma produção que dá voz as lutas de grupos diversos, é fonte de aprendizado e também de lazer para estes.

Nas palavras de Andrade (1999),

na ação pedagógica, o grupo fortalece sua identidade étnica e geracional como condição única para a superação do mundo da exclusão, do mundo da violência simbólica. Reafirmam, como jovens, sua capacidade de apresentar idéias, compartilhar opiniões e sugerir mudanças sociais. Promovem, como negros, o cultivo à auto-estima e à luta pelo direito à cidadania (ANDRADE, 1999, p. 91).

4.1 A história do rap nos Estados Unidos e no Brasil

A história do rap como uma forma de protesto e de linha de defesa cultural da população negra em locais dos três continentes americanos (Norte, Sul e Central) tem suas raízes, por razões óbvias, na cultura africana, principalmente devido as colonizações na África, que causaram a escravidão de sua população, a destruição de parte de sua cultura e modo de vida, e sua consequente ida como mão-de-obra explorada para os países colonizadores para países de da Europa e da América.

Embora seja um fenômeno consolidado recentemente, ele revisita e reelabora cantos, danças e batuques da cultura negra africana difundidos a partir dos processos expansionistas do colonizador Europeu e pelo consequente tráfico de escravos para o Caribe, no século XVI, e para o Continente Americano, no século XVII. As marcas deixadas pelos regimes escravistas vivenciados na Europa, na América e no Caribe durante os séculos seguintes repercutem em nossas sociedades atuais (RIGHI, 2011, p. 33).

Segundo Dutra (2006) e Moassab (2011), o rap, como se conhece hoje, nasceu nos anos 70 nos Estados Unidos, em bairros segregados (guetos), reduto de negros e latinos, como, por exemplo, o Brooklyn e o Bronx, em Nova Iorque, ou em cidades como Chicago e Detroit, diz Sevcenko (2001), que ao sofrerem com a decadência econômica, em decorrência da crise econômica mundial que afetou o setor automobilístico do local, causou a demissão de muitos negros, que também haviam migrado da região Sul do país para estes dois locais.

Esse gênero musical já tinha um caráter de luta social, mas que era usado inicialmente para embalar as festas que ocorriam nos bairros, seja para animar as pessoas ou para apaziguar os ânimos, principalmente no que se refere a briga entre gangues rivais (ROCHA et al, 2001).

Era uma forma desenvolvida, segundo as autoras, pelos DJs Afrika Bambaataa e Kool Herc, considerados pelos estudiosos do rap e da cultura Hip Hop como sendo dois dos principais difusores destes elementos nos Estados Unidos. “À época, os próprios DJs animavam e encorajavam a multidão recitando palavras e versos rimados em tom reivindicatório, nos quais abordavam fatos do cotidiano marginalizado em que viviam” (RIGHI, 2011, p. 41).

Porém, as características que vão produzir o rap enquanto ritmo e poesia, além do uso do canto falado e do uso de aparelhos tecnológicos, como o sound-system, surgem do toaster, que é, segundo Rocha et al (2001) e Righi (2011), um evento onde pessoas se reuniam em um local público, na Jamaica, para realizarem discursos ideológicos em relação aos problemas sociais sofridos por estas. Tais características foram levadas por Kool Herc, nascido na Jamaica, para os Estados Unidos.

No final da década de 1960, a Jamaica vivia o que os analistas costumam chamar de “estado de violência endêmica” desencadeado pela proliferação sem controle da miséria entre a população, reflexo da crise instaurada nos anos 1930, decorrente da “grande depressão econômica mundial” que foi a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929. Esse cenário de escassez de recursos e de crise social fez com que muitos jovens deixassem a Jamaica rumo aos Estados Unidos da América, levando consigo toda sua cultura, suas reivindicações e seus estilos musicais jamaicano- africanos (RIGHI, 2011, p. 37).

De acordo com Shuker (1999, p. 232), com a popularização do rap entre os jovens negros, estes o transformaram em uma forma de sobreviver, ao gravar discos, sendo que as grandes gravadoras não tinham interesse no rap, fazendo com que os rappers gravassem “em selos independentes e inicialmente em singles de doze polegadas, principalmente no selo Sugar Hill Records, em Nova Iorque”.

Segundo Dutra (2007) e Macedo (2011), o rap se torna no final dos anos 70 e durante toda a década de 80 um sucesso pela grande quantidade de discos vendidos e, consequentemente, pelo interesse da mídia. “No fim dos anos 70, o Sugar Hill Gang de Nova Jérsei gravou pela Sugarhil Records o ‘Rappers Delight’ que foi um grande sucesso de vendagem e apresentou o rap para o grande público da indústria fonográfica” (DUTRA, 2007, p. 17).

Sete anos depois o grupo Run-DMC de Nova Iorque lançou a música Suckers MCs fundindo rap com hard rock, que chamou mais uma vez a atenção para o rap no cenário da música popular norte-americana vendendo mais de 2 milhões de discos. A partir daí o rap fez sua estréia na indústria fonográfica saindo do cenário underground para conquistar o mercado de discos (DUTRA, 2007, p. 17).

Ainda nos anos 80, o rap tem sua difusão no Brasil. Segundo Righi (2011, p. 63), os “registros de que as primeiras manifestações públicas de RAP no Brasil surgiram em shows apresentados em 1986 no Teatro Mambembe, em São Paulo, pelo DJ Théo Werneck”. O autor (2011, p. 63) (apud BARBOSA; RIBEIRO, 2008) diz que “o primeiro registro fonográfico totalmente de RAP nacional foi a coletânea Hip-Hop Cultura de Rua, lançada em 1988 pela gravadora Eldorado”.

De acordo com Rocha et al (2001), a profissionalização das gravações de rap no país ocorre a partir de 1991, através de gravadoras alternativas, que, desde o início, foram a principal dos rappers de gravarem seus álbuns, possibilitando a entrada destes no mercado fonográfico brasileiro.

Segundo Rocha et al (2001, p. 35-36), de “1991 e 1994, mais de dez coletâneas foram gravadas, reunindo parte significativa dos grupos que apareceram nos principais focos de concentração de rappers da década de 1980”. A luta para que seus álbuns fossem gravados foi árdua, levando quase duas décadas para encontrarem seu espaço no cenário musical.

É só no final da década de 90 que o rap vai ter seu reconhecimento estabelecido no Brasil com o lançamento do disco Sobrevivendo ao inferno (1997), dos Racionais MCs, que vendeu mais de um milhão de discos. A partir do sucesso do grupo paulista é que a mídia começa a dar o devido valor ao rap nacional, diz Rocha et al (2001).

4.2 A relação do rap com a mídia

Uma das dificuldades passadas pelo rap são as questões relativas a como a mídia recebe e como é sua percepção em relação a este gênero musical. Esse embate entre rap e mídia é por muitas vezes alvo das críticas dos rappers, que se sentem deixados de lado pelos grandes meios de comunicação, seja por causa da forma em que suas letras são interpretadas seja pela falta de interesse em saber o que estes pensam sobre a realidade em que vivem. Em 2006, o rapper carioca MV Bill foi entrevistado pela revista Isto É, onde fala sobre tais problemas.

O Jornal da Globo disse que meu trabalho era uma mistura de armas, drogas e música ruim e devia parar na Justiça. Isso, sem sequer ter ouvido a minha música. Mesmo assim, dois dias depois desse comentário essa música ruim foi usada no seriado Brava gente e no domingo seguinte no Fantástico, na mesma emissora. Diga-se de passagem, sem que eu tivesse autorizado. Que música ruim é essa, afinal? (FILHO, 2006).16

Para Silva (apud ROCHA et al, 2001), os meios de comunicação nunca estiveram propensos a dar atenção ao rap. Moassab (2011, p. 57) complementa ao dizer que essa busca por espaço levou canais como a MTV a divulgar estilos de rap, desassociados daqueles que trabalhavam a crítica social em suas letras, como o gangsta, “de caráter comercial e de exaltação da identidade negativa, com uma estratégia evidente de conquista de novos públicos”. Isso impossibilita que o resto da sociedade tivesse noção dos problemas enfrentados nas periferias.

Segundo Júnior (2014), outra forma que a mídia tem de abordar o rap é relacionando-o a apologia à violência, como o caso do grupo Facção Central, que, com suas letras pesadas, faz críticas ao elitismo e a violência policial. Em 1999, o grupo gerou polêmica ao gravar o rap “Isso aqui é uma guerra”.

A letra é bastante agressiva e aponta que os periféricos se afirmam socialmente através do crime, sendo uma forma de responder a sociedade pela exclusão. Na música, o grupo afirma “O Brasil só me respeita com um revólver”, como também cita que “A minha quinta série só adianta/ Se eu tiver um refém com meu cano na garganta”. A Justiça determinou a proibição da veiculação da música, alegando que era uma forma de incitar a violência. A proibição foi bastante destacada na mídia. A versão mais veiculada foi a de que um grupo de rap estava incitando a violência, através de uma música e, por isso, a veiculação da música foi censurada. A temática ganhou repercussão com promotores e comentaristas sociais condenando a postura do grupo (JÚNIOR, 2014, p. 5).

Ainda de acordo com Júnior (2014), após as críticas e as acusações de apologia à violência, o Facção Central colocou em sua faixa de introdução de seu disco A Marcha Fúnebre Prossegue (2001) áudios em que a mídia faz tal relação.

De acordo com Rocha et al (2001), grupos como os Racionais MCs sempre evitaram a mídia, tendo essa como difusora do elitismo brasileiro e a consequente exclusão das minorias, além da constante associação do rap a violência.

Estes jovens são constantemente vítimas de discriminação social e racial, vistos pela mídia como delinquente, violentos, desinformados e desqualificados profissionalmente, contrapostos a um modelo de “adolescência formal. A mídia tem um forte papel na construção do imaginário ao retratar as periferias como o lugar do “perigo” (MOASSAB, 2011, p. 74).

A aversão criada pelos rappers em relação a mídia é tão grande, segundo Júnior (2014), que esta é considerada uma das principais inimigas em relação ao que se propõe o rap, pois, durante os anos 90, muitas reportagens tinham um tom negativo quando o assunto era este gênero musical.

Essa questão fica evidente em uma entrevista concedida em 2011 a MTV pelo rapper Dexter, ao dizer que “não é interessante pra mídia divulgar um show do Racionais, do Dexter, ou de outros que seguem a mesma linha, a não ser que ela vá lucrar com isso” (HEBREU, 2012).17

Em 2013, o rapper GOG postou em sua página no Facebook uma crítica, que depois foi republicada pelo site RND (Rap Nacional Download), em que fala como o rap é visto pelos meios de comunicação, principalmente a Rede Globo, e de certa forma, mesmo que indiretamente, aos rappers que participam de programas televisivos.

Cada um faz da sua vida profissional o que bem quiser. Inclusive EU. Por isso expressei aqui a “minha opinião” e relação com a mídia televisiva, Rede Globo. Uma das justificativas para essa “dificuldade de relação” é que, historicamente, ela sempre esteve distante das causas, e sempre preconceituosa com que diz respeito às canções. Pertenço a primeira geração do Hip Hop brasileiro, uma geração que revolucionou, e passou DISTANTE dessa mídia, hoje vista, como essencial para que possamos ser divulgados, mais conhecidos. Em tempo, mas que conhecido, seja reconhecido. E aí: fomos mais fortes SEM a Rede Globo!!! (MORAIS, 2013).18

Além de criticar a mídia, rappers como Dexter e GOG tecem observações, de certa forma críticas, sobre a aproximação de alguns integrantes do rap com a mídia. Na mesma entrevista para a MTV, Dexter diz que por não realizarem raps tão contestadores, rappers como Emicida, Criolo e Rashid acabam ganhando mais espaço nos meios de comunicação. “Não estou de forma alguma menosprezando o trabalho dos meus companheiros, mas o nosso rap nunca apareceu e não é feito para aparecer na televisão” (HEBREU, 2012).

No mesmo caminho, GOG, em seu depoimento no Facebook, usa palavras mais fortes ao criticar tal aproximação ao dizer: “Tem uma parte significativa que preferiu esquecer o passado. Eu não” (MORAIS, 2013).

“Não desviar na reta do fim das vozes do início” – Trinta anos depois, tenho essa regra como prática diária. A minha geração, ou melhor, alguns membros dela, sonhavam com auto gestão, com um nós por nós, em fazermos nós mesmos o nosso diálogo, bater de frente com todos esses que trabalham para nos alienar, para que nada mude, e por aí vai… (MORAIS, 2013).

Tomando como oposição ao pensamento de GOG, o rapper Emicida tem uma postura diferente, ao dizer, em entrevista à revista Trip, em 2011, que o rap deve começar a se desassociar ou não ficar na obrigação de sempre levantar a temática social em suas letras.

“Tento construir coisas que gerem mais coisas pro próprio rap, embora eu não me sinta muito à vontade quando as pessoas obrigam a gente a estar vinculado ao social. Quem tem obrigação de mudar essa porra é o governo, não é grupo de rap” (SANCHES, 2011).19

O próprio Emicida vê essa radicalização de uma parte dos produtores de rap com relação a mídia como uma situação que deve começar a ser mudada. “Você tem que ir onde tem respeito, onde as pessoas falam com você. Tipo, sou preto de favela, quero mudar essa situação e não vou lá falar com as pessoas do outro lado, vou ficar aqui reclamando?” (SANCHES, 2011).

A posição de Emicida é altamente criticada pelo rapper Elemento, principalmente em relação a uma entrevista que o primeiro concedeu ao jornal Estado de S. Paulo, em 2010, ao dizer que, quando um álbum de rap aparece em algum edital, “sempre acabam contemplando trabalho social, aquele discurso padrão de rap” (WERNECK, 2010) e que sua música é bastante influenciada pelo samba.20

Elemento vê este como uma espécie de marionete da grande mídia, ao dizer o que esses meios de comunicação querem ouvir. “O caso é que, na entrevista em questão, o Emicida fez o jogo da grande mídia (no jornal mais conservador de São Paulo). A elite brasileira aceita ‘tolerar’ o rap, assim como fez com o funk, pois já percebeu que é um ‘mal que veio pra ficar...’” (ELEMENTO, 2010).

Emicida se desvincula do rap nacional ao dizer que aposta em novas fórmulas. Se diz influenciado pelo grande samba de raiz, o que agrada os setores da classe média que consomem "cultura popular" e acham o rap americanizado. Critica os editais, os quais julga "tendenciosos, por premiarem trabalho social e não qualidade". "Bela fala" de crítica a um procedimento transparente de repasse de verbas (coincidentemente em ano eleitoral), diferente do balcão de negócios que geralmente acontecia no poder público na área de cultura, para o qual ele fecha os olhos, obviamente (ELEMENTO, 2010).

De acordo com Júnior (2014), o rapper Gabriel, o Pensador, consegue, em um bom relacionamento com a mídia, trabalhar seus temas. “Apesar de ser branco e rico, ele cantou várias músicas sobre questões que interessavam aos ideais do hip hop, como igualdade social, condenação aos corruptos e racismo”. Problemas estes relegados, em sua maioria, a parcela negra, que forma a maior parte da sociedade brasileira e é a que mais passa por dificuldades em seu dia a dia.

Em contraponto a esta problemática com relação as mídias tracionais (impresso, rádio e televisão), os rappers tem buscado constantemente meios alternativos de se comunicar e de distribuir conteúdo, seja por rádios comunitárias ou pela internet (ROCHA et al, 2001).

A afirmação das autoras é corroborada pelo rapper Emicida, que em uma entrevista para o site G1, em 2014, diz que o uso de meios alternativos contribui, por exemplo, “na medida em que é mais barato e rápido gravar uma música e soltar na internet do que correr atrás de uma plataforma física pra divulgá-la” (‘AINDA SE SABE..., 2014).

Como ferramenta de combate e ação, os representantes das manifestações culturais alternativas e oposicionais utilizam, também, a tecnologia. Aliado da globalização e de uma reengenharia que tem dado voz às expressões da cultura comum em várias partes do mundo, esse elemento se apresenta para a sociedade por meio da popularização de equipamentos eletrônicos e digitais, criação de novos suportes e, principalmente, pela utilização da internet (ASUMPÇÃO, 2009, p. 1).

Dessa forma, continua Asumpção (2009, p. 4), “a produção popular, marginal e emergente busca um espaço de convivência com o hegemônico a partir do preenchimento de brechas ainda não ocupadas” e, dessa forma, “nos últimos anos o país presencia o aumento da circulação de produções audiovisuais amadoras e o surgimento e fortalecimento de ‘produções periféricas’, ambas amplamente distribuídas pela internet”.

A internet permitiu então que indivíduos que não teriam espaço na mídia convencional terem a oportunidade de ganhar voz por outros meios. Campos (2004) cita o caso do site Bocada Forte, um dos maiores portais sobre rap e Hip Hop em atividade no Brasil.

A história do site está intrinsecamente vinculada ao desejo de um jovem – André Cesário - que aspirava divulgar o trabalho do Urbanos MC's12, grupo de Rap do bairro onde mora, Jardim Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo. A forma mais acessível que encontrou para abrir esse caminho, foi utilizar-se da Internet como veículo. Com esse propósito, ele afirma: “eu tinha que colocar isso na mídia de qualquer forma. Depois de algumas pesquisas, logo percebi que as mídias convencionais, além de serem preconceituosas com o Rap, eram caras ... percebi então, que a Internet poderia ser a saída.....fiz um cursinho, só prá saber como era a linguagem da Internet e tô aí até hoje” (CAMPOS, 2004, p. 70).

De acordo com Simões (2008), a internet possibilitou uma igualdade entre rappers profissionais e amadores, pelo fato de que agora os dois compartilham o mesmo meio de comunicação para distribuir seu conteúdo.

O autor afirma também que torna possível, pelo alcance que permite, que grandes produtoras do mercado fonográfico também aumentem sua capacidade de expansão comercial e, por outro lado, permite o crescimento de artista que ainda estão no início de sua carreira. Sabendo usar as ferramentas certas de forma correta, tem a chance de atingir seus objetivos, seja o de propagar o rap e o que este representa, ou de alavancar comercialmente suas produções musicais.

Dessa forma os rappers da cidade de Macaé (RJ) encontraram para trabalhar suas canções, disseminando o rap através da rede. Uma grande aliada no momento em que buscam atingir o maior número de usuários do ciberespaço, para que estejam cientes da existência desse gênero musical que não só repercute nas letras as situações diárias de quem vive na periferia, mas que torna possível mostrar que o rap é um estilo de vida para quem o pratica.

5. A INTERNET COMO MEIO DE DISSEMINAÇÃO DO RAP MACAENSE

Para se ter um maior entendimento deste capitulo, fez-se necessário a realização de uma análise de como se desenvolveu a internet, desde sua criação aos dias atuais, e o rap, no cenário nacional e internacional.

E é com a síntese desses dois elementos que podemos analisar como os rappers da cidade de Macaé tem usado a internet e as ferramentas que esta lhes dispõe.

Para isso, este autor realizou um total de cinco entrevistas, entre os dias 24 de maio e 14 de junho de 2016, de aproximadamente 1 hora, com os rappers Rhuann Carllos da Silva Pinto, (Dom Rhuann – Família Free Rap), 20 anos, Rafael Camargo de Oliveira (Fiel), 24 anos, Antônio Carlos Barros Vasconcelos (Antônio Rastaman – Família Free Rap), 17 anos, Luiz Eduardo Tavares Gonçalves (Kalil – Família Free Rap), 17 anos, e Walace de Souza Narciso (Narciso Beats – MóResponsa Records), 21 anos, embasadas nos conceitos da pesquisa qualitativa, com o intuito de se fazer um estudo em profundidade para que se pudesse conhecer melhor os entrevistados e desenvolver com detalhes o objetivo proposto neste trabalho.

Nas entrevistas, foram realizadas uma série de perguntas, fundamentadas nos assuntos discutidos nos capítulos 1 e 2.

As perguntas feitas buscaram entender a visão dos entrevistados com relação ao rap, a forma encontrada por eles para se comunicarem com a sociedade e como estes lidam com seus dilemas pessoais e do ambiente em que vivem – já que apenas o rapper Antônio Rastaman vive em um bairro de classe-média alta (Bairro da Glória), enquanto que Dom Rhuann (Malvinas) e Fiel, Kalil e Narciso Beats (Parque Aeroporto) vivem em bairros considerados periféricos da cidade de Macaé. Dos cinco, Fiel e Narciso Beats completaram o ensino médio enquanto que os outros três continuam cursando.

Também foram feitas perguntas sobre a internet, que, mais do que um meio de comunicação e pesquisa, é um universo sincronizado ao universo real, que possibilita a uma grande quantidade de usuários se conectarem entre eles, permitindo a troca de informações e conteúdo, com o intuito de se buscar amizades, conhecimento e aliados em lutas sociais dentro e fora do mundo virtual.

A quantidade de entrevistas se justifica pelo fato de que as informações, obtidas através das entrevistas, ajudam a entender a composição do rap na cidade.

Com base nas informações dos entrevistados, será feita uma análise para identificar como a internet tornou-se o principal meio de comunicação dos rappers macaenses. O que deve ser feito compreendendo a história destes personagens com o rap, suas ligações e influências com esse ritmo musical, para que se possa entender como a internet se apresenta neste processo, pois assim como este meio virtual, o rap é um meio de conectar e aproximar pessoas, criando um estilo de vida e uma compreensão crítica do mundo e do lugar ao qual vivem e interagem.

5.1 O rap como influência musical e visão de mundo

Como toda história surge de uma rede de causas e efeitos que se conectam incessantemente e a todo momento, é importante esclarecer como foi o primeiro contato destes cinco jovens com o rap, que se deu na infância, e se assemelha com relação ao que escutavam, tanto em nível nacional como internacional, desde grupos como Racionais MC’s, Facção Central, a rappers como Sabotage, Tupac, The Notorious B.I.G, 50 Cent e Eminem.

Meu primeiro contato com o rap, eu era muito novo, foi quando eu tava nos Estados Unidos. Bem novo. Foi de influência dos meus pais. Do meu próprio pai, que meu pai já gostava também. E também pela cultura ao redor que eu tava, entendeu. Pelas influências que eu tava. Porque lá é bem black, né. Eu morava em Atlanta. Então as paradas lá são bem soul, bem blues. Então o que envolve um pouco também do rap, né. Com o jazz e etc. Porque o jazz, na verdade, é a mãe de todos. E o rap veio das influências locais mesmo de onde eu morava (FIEL, 2016)

O rap se tornou uma marca forte em todos eles porque se torna uma forma crítica de se pensar desenvolvida através da criatividade. Para Dom Rhuann (2016), rap é uma forma de se expressar, “de falar em cima da batida o que eu quiser e para poder passar as visões do que eu queria, as vivências, o que eu vivi, o que eu ouvia”. Este continua dizendo que também é uma “forma de falar do sistema, do governo”. Segundo Kalil (2016), o rap não é só uma forma de fazer críticas, mas serve também para “te mostrar que o mundo não é só sujeira. Também mostra o lado bom do mundo”.

De acordo com Narciso Beats (2016), a importância que esse gênero musical teve em sua vida foi significativa, “porque 90% de quem eu andava antes do rap tá morto ou preso”.

Acho que pela minha trajetória de vida, foi a que mais me identifiquei. Eu já vivi muita coisa. Tendo só 24 anos eu já passei por muita coisa. E o rap, ele descreve muito...ainda mais...com todo respeito...ainda mais para um cara que é jovem e negro, entendeu? Ele expressa mais o jovem negro do que outro tipo de música. A verdade, a dificuldade, o preconceito...os números, as estatísticas...o Hip Hop fala muito sobre isso. Os outros gêneros de música, assim, é música pra você se divertir, pra você viajar mais. O Hip Hop fala o que você precisa ouvir, entendeu? Que se eu não sair do gueto, eu vou ser mais um. Eu preciso sair, eu preciso de uma melhoria. Eu preciso buscar, eu preciso alimentar minha mente, entendeu? E o Hip Hop ajuda nisso bastante (FIEL, 2016).

Torna-se perceptível que o rap é um acréscimo cultural como uma forma de ensino, que permite ao indivíduo ter uma ideologia, algo em que se apegar, mas não no sentido em que esses jovens apenas recebem a mensagem e obedecem, mas sim no sentido de criar indivíduos contestadores, que possuam uma liderança para si próprio e para aqueles que escutam suas músicas e acabam criando uma percepção própria de mundo.

Mas é a verdade, né, cara? A verdade dói, a verdade assusta, a verdade dá medo. Tem coisas ocultas que se a pessoa souber...fica com medo, entendeu? A verdade dói. Infelizmente essa é a verdade. A gente tem que mudar. A gente que ter liderança. Tem que parar de...tem que criar líderes e parar de criar seguidores. Na nossa educação não tem como a gente criar lideres, só seguidores. Você só vai para a vitrine de trabalho. Formou? Formou! Próximo! (FIEL, 2016).

Ao longo dos tempos, alguns rappers tinham essa liderança, muito mais pelo que diziam suas músicas, que nada mais eram do que um reflexo de suas próprias vidas e da visão que tinham em relação a sociedade. “Eu escutei muito Tupac21 quando eu era novo. Então tinha muita coisa que o Tupac falava que dava uma liderança pra gente, que tava no escuro naquela época”. (FIEL, 2016). Para Kalil (2016), essa influência por parte do rapper norte-americano se deu “mais ou menos uns dois anos atrás, quando eu ingressei, que eu entrei no primeiro grupo [Un-Lock Rap]. Foi um aprendizado”, servindo também como forma de diminuir a raiva que tinha de tudo, o que acontecia “ouvindo umas músicas. O estresse que eu tinha eu descontava em letras. Servia como inspiração. Foi um calmante”.

Além disso, todas as suas vivências e percepções se tornam referência no momento de escrever uma letra de rap: “Acho que tudo é inspiração. Tudo é poesia, na verdade. O vento, as dificuldades, a superação...tudo é inspiração” (FIEL, 2016).

Influencia bastante. Porque tem vezes que eu já passei por umas situações de preconceito. Aí eu quero pegar...eu tô com raiva disso ou não gostei disso...eu pego e escrevo no papel. Ou se eu passo em frente a uma escola e tá faltando lanche. Eu fico com aquilo na cabeça e escrevo sobre isso. Esse é o cotidiano influenciando no rap. Ou quando eu leio ou vejo algo que não me deixou satisfeito eu pego e escrevo (ANTÔNIO RASTAMAN, 2016).

Para Narciso Beats (2016), o que o influencia na sua escrita são os momentos que já passou em sua vida ou as situações que ocorrem no dia a dia, quando vê “mendigo na rua e uma pessoa jogar cinco centavos fora, eu vou ficar arrasado. Eu vou escrever sobre aquilo. Porque é uma parada que eu já vi acontecer na minha frente”.

Outro elemento que os influenciam são as músicas que escutam, que variam desde o rap a outros estilos, como diz Fiel (2016), que tem como referências o jazz, o soul e o blues. Já Kalil (2016) tenta imprimir em seu estilo o rock. Essa variedade de gêneros musicais permite a eles elaborarem e incrementarem algum beat Box22 com que trabalham.

5.2 A internet como fonte de conhecimento sobre o rap

A internet tem sido para estes uma fonte infindável de conhecimento próprio, sendo a principal fonte de busca para se refinamento intelectual e como forma de aprimoramento em relação ao rap. De acordo com Fiel (2016), seu aprofundamento no rap se deu através da curiosidade em escutar o que as letras de rap diziam, “porque a internet é uma biblioteca, se você souber usar ela. Aí você acaba pesquisando e acaba vendo mais conhecimento, mais coisas que você não aprende no dia a dia”. De acordo com Dom Rhuann (2016), em complemento a Fiel, diz que “desde a primeira vez que gravei. A primeira vez para conhecer, depois para divulgar mesmo. Depois fui descobrindo como aumentar a divulgação nessas redes sociais, patrocinando, pagando”.

Ferramentas como Youtube, diz Antônio Rastaman (2016) foram sua fonte inicial com relação ao rap, indo “pesquisar os artistas que a galera fala. Alguém me falava de um rap e eu ficava ouvindo”.

Foi quando eu entrei no 5º Artigo. Em 2011. Foi quando tava começando o Facebook. A galera falou pra fazer. Não era tão conhecido. Não era igual hoje. Ai eu fui e fiz. Tinha grupos de Hip Hop do Rio, de Botafogo, da Lapa. Tinha de todos os lugares. Ai eu comecei a entrar em todos os grupos. Você vai entrar no meu Face e vai ver quantos grupos de rap eu tenho lá. E toda vez que eu lanço um som eu divulgo em todos os grupos. Porque é uma forma de mostrar seu trabalho. E foi aí que eu comecei a mostrar meu trabalho e pesquisar sobre o Hip Hop. E ver sobre roda cultural, que foi uma parada que me interessou também. Foi através da internet (NARCISO BEATS, 2016).

Para Kalil (2016), complementando Narciso Beats, esse contato se deu quando estava no grupo Un-Lock Rap, quando foram gravar uma música, depois disso “a gente criou a página do grupo. Começamos a divulgar bastante na internet, usando o Facebook”.

Assim, pode-se perceber a internet sendo usada como a ferramenta para a qual foi desenvolvida durante as décadas finais do século XX, tornando-se referência na busca por conhecimento geral.

Outro fator de vital importância para a potencialização da internet é a sua capacidade cada vez maior de encurtar o espaço/tempo, de modo que uma informação ou algum tipo de conhecimento esteja à disposição do indivíduo em questão de segundos, dando nova forma à comunicação a distância. Segundo Dom Rhuann (2016) e Fiel (2016), a busca por informações sobre o rap se dão nos sites Rap 24 Horas23 e Rap Nacional.24

Para Dom Rhuann (2016), a internet dá essa possiblidade, exemplificando que “antigamente, para saber que um grupo de rap de São Paulo foi criado, até a gente saber aqui, eles já tinham lançado outro CD. Hoje em dia o cara lançou uma música, já tá na internet”.

Essa ferramenta permite também um compartilhamento em larga escala de informação e conteúdo e que, por poder ser considerado um universo, está em constante expansão. Qualquer tentativa de se afirmar que a internet alcançou sua máxima capacidade de desenvolvimento tecnológico é constantemente derrubada pelo que esta vem apresentando.

Importante ressaltar também que a internet vem demonstrando ser um ambiente, não só de conexão, comunicação ou de busca por conhecimento, mas também de liberdade de expressão. Característica que se conecta fortemente ao rap, no sentido de que este um meio de um indivíduo se expressar livremente sobre quaisquer coisas, sobre as mazelas da sociedade e sobre o que sentem de uma forma geral.

A internet torna-se também uma forma de divulgação, pois o rap fala de situações que talvez não tenham a atenção de meios de comunicação convencionais como o impresso, o rádio e a TV. Esse é, por exemplo, o pensamento de Fiel (2016) quanto a grupos que não caminham lado a lado com a mídia.

Eu acho que eles nunca irão. Os próprios Racionais, o Eduardo...acho que eles nunca irão com o mesmo alinhamento da mídia porque não vai mudar. Vai ser sempre aquilo. O poder vai ser sempre de quem tem dinheiro e a minoria vai ser sempre manipulada. Uns ou outros vão conseguir, mas vai ser sempre assim, entendeu? (FIEL, 2016).

Porém, Fiel (2016) diz que podem a vir a participar de programas de TV que estimulem suas participações.

Para Dom Rhuann, Fiel e Kalil, essa realidade não se mostra muito diferente do que eles vêem acontecer no cenário nacional. De acordo com Kalil (2016), por exemplo, “a rádio não vai querer que um bando de moleques venha falar mal do governo, falar umas verdades. Eles não gostam. Eles gostam daquelas musiquinhas pop, leve. Rádio, TV”. Complementando, Dom Rhuann (2016) diz que “a letra do rap não bate com a mídia. Porque muitas vezes o rap faz música contra a mídia. Não são a favor da manipulação da mídia. Mas quando é um rap romântico ou meio zoeira, a mídia abraça”. “O rap vai muito contra o sistema. Então eu acho que eles têm medo dos MCs”, diz Fiel (2016).

Já Antônio Rastaman e Narciso Beats pensam nessa situação de forma diferente. Segundo Antônio Rastaman (2016), houve a oportunidade de gravar uma música, na Rádio 101 FM, de Macaé, porém “eu fiquei um tempo afastado do rap e acabou que deixei de lado. Meu irmão foi numa festa e entrou em contato com o pessoal da rádio. Foi meio que na amizade”. De acordo com Narciso Beats (2016), existe uma exigência por parte de quem escuta música antiga e por quem trabalha em rádio, mas acha também que “pode ser falta de interesse da galera daqui de se manifestar pra isso, pra acontecer” de o rap chegar as rádios da cidade. Porém, este concorda que existe um preconceito com o rap, “que não goste da letra, achar que aquilo é muito forte.

5.3 A internet como ferramenta de divulgação do rap macaense

O crescimento do rap na cena cultural macaense tem permitido a criação de vários grupos desse gênero, tornando-o conhecido na cidade. Soma-se também o fato de que a internet alcança um grande número de indivíduos.

E é nessa abertura que a internet cria, que rappers como Dom Rhuann, Fiel, Antônio Rastaman, Narciso Beats e Kalil tem encontrando uma forma de divulgarem suas produções, desde a criação de um beat a um clipe. Tem contribuído para essa divulgação ferramentas como o Facebook, Twitter, Instagran, Whatsapp, Youtube e o Soundcloud.

Geralmente quando eu posto um trabalho, a primeira coisa que eu faço é lançar no Facebook e lá mesmo falar pra galera que eu vou postar alguma coisa no Youtube. Eu posto uma música no Youtube e vou passando pra galera no Whatsapp e pelo Facebook, que eu vou marcando uma galera, vou compartilhando e peço pra compartilhar no Facebook pra expor o trabalho. E no Soundcloud também (ANTÔNIO RASTAMAN, 2016).

De acordo com Narciso Beats (2016), essas ferramentas têm sido de grande importância devido ao fato de que permitiu com que alcançasse outras pessoas e grupos de fora de Macaé, assim “toda vez que lanço um som [no Facebook] eu divulgo em todos os grupos” como, por exemplo, dos bairros de Botafogo e Lapa, no Rio de Janeiro. “As vezes daqui você pode passar seu som pra um maluco lá no Rio Grande do Sul e ele gostar e divulgar, ficar conhecido lá”, continua Narciso.

O que se pode ver perceber também nessas ferramentas é que elas se interconectam, desenvolvendo uma ponte entre elas, de forma que uma pode ser acessada através da outra e vice-versa.

Eu uso mais o Facebook. O Facebook hoje é uma ferramenta fundamental, porque tem muita gente que tá ligada no Facebook 24 horas. E toda hora que você coloca uma postagem tem uma pessoa que tá vendo. E hoje o Facebook tem aquela forma de patrocínio, né? Você paga o patrocínio que ele fica alí 24 horas, 15 dias, 30 dias, e a pessoa vê aquilo em continuum, todos os dias, e provavelmente alguns vão ter a curiosidade: “Cara, vou escutar, né? O que essa música tá falando”. E acaba abraçando a ideia do cara. Acaba trazendo uma pessoa que gosta mais da sua música. O Facebook hoje é uma das maiores ferramentas. Tem também o Instagram. Mas o Instragram não tem a mesma função do Facebook. Acho que o Facebook tem mais poder hoje em dia. É onde você vai trazer ela pro Youtube pra ela ver uma música (FIEL, 2016).

O Facebook e as outras demais ferramentas possibilitam que um usuário que deseja compartilhar seu conteúdo possa impulsioná-lo. Ou seja, patrociná-lo. Para isso, basta que o usuário tenha uma conta na rede social. O impulsionamento permite ao usuário escolher o público a ser alcançado por localidade, idade e sexo. Porém, é necessário que se pague uma taxa relativa ao tempo em que este deseja que seu conteúdo seja patrocinado. Tal ferramenta tem sido usada por todos os rappers entrevistados.

Segundo Antônio Rastaman (2016), seu grupo Família Free Rap25, composto, além dele, por Dom Rhuann e Kalil já fizeram uso dessa ferramenta uma única, assim como Fiel e Narciso Beats. “A gente criou um clipe, postamos no Youtube e compartilhamos o link na nossa página [do Facebook]. Aí de lá [do Youtube] a gente impulsionou”, diz.

Deu uma ajuda legal. Ajudou bastante. A gente gastou acho que só uns vinte reais. Ganhamos bastante likes. A quantidade de pessoas que viu aumentou. Uma música que a gente lançava tinha quinhentas visualizações, agora tá dando mil. Nosso último clipe que a gente lançou, Triste Realidade,26 teve mais de mil visualizações (KALIL, 2016).

Outros clipes da Família Free Rap no Youtube, “Várias Profissões”,27 “Então Vem”28 e “Queremos Mudança”29 tiveram 737, 469 e 553 visualizações respectivamente, que foram verificadas para este trabalho no dia 20 de junho de 2016.

O patrocínio divulga 24 horas. Se você não usar o patrocínio, você mesmo tem que divulgar. E as vezes você não tem tempo pra ficar divulgando. Então, você sabe que o patrocínio tá ali divulgando, ganhando mais uma curtida, compartilhando, pessoas dando mais visualizações, conseguindo mais público pra você, pra sua música. Pra reconhecerem mais seu trabalho, sua arte (FIEL, 2016).

No entanto, é consenso que todo eles esbarram em problemas financeiros para alcançarem seus objetivos com o rap. Para Fiel (2016), fazer do rap uma profissão ainda não é uma realidade próxima. Segundo Narciso Beats (2016), complementando o que disse Fiel, a venda dos beats tem lhe ajudado financeiramente, porém “não pode vender caro. A galera aqui não compraria um beat caro. Só se for um conhecido. Se for um Neo Beats, um WC Beats, Mr. Brake”.

A internet também os tem ajudado a se profissionalizarem, possibilitando com que ganhem dinheiro com o rap. As conexões que fazem lhes ajudam a conhecer outros rappers, além de conseguirem trocar informações com eles.

De acordo com Narciso Beats (2016), esse universo sem fronteiras permitiu a ele ter contato com um rapper de São Gonçalo, que abriu na outra cidade o MóResponsa Records,30 de Narciso. “E através dele eu tô tendo contato lá pra ver se eu consigo me apresentar numa roda cultural lá. Uma roda grande, que todo mundo vai”, diz.

O Facebook também permite que os rappers divulguem os eventos em que irão participar. Assim, pode-se perceber que esse universo virtual se conecta com este universo físico. É possível estimar pela página do evento quantas pessoas devem ir para assistirem as apresentações. De acordo com Narciso Beats (2016), “se fosse só no boca a boca, um carro de som divulgando, até ajuda, mas não funciona tanto quanto um evento no Facebook. Porque você convida seus amigos e esses convidam outros amigos”.

Antigamente, se você quisesse fazer um evento teria que fazer no boca a boca. Telefone, ligar. O Facebook faz chegar em tantas pessoas tão rápido. De hoje pra amanhã você consegue chegar em muita gente, compartilhando no Facebook. Isso ajuda bastante nos eventos, nos meios de divulgação (KALIL, 2016).

Dessa forma, é possível traçar um paralelo com as informações de pensadores como Manuell Castels e Pierre Lévy de que esse universo virtual criou conexões, não só do usuário com a internet e suas ferramentas, mas também com outros indivíduos, permitindo a criação de nichos ao qual se identifica, além transformar nossa concepção do que é espaço/tempo. A isto, se chama cibercultura.

Complementando o pensamento de Lévy, a análise que Castells faz sobre a internet é de que esta propicia ao indivíduo uma liberdade que, por conseguinte, pode carregar para o nosso universo, criando uma revolução pela liberdade de pensamento.

E como a internet cria essa ponte entre esses dois universos, o rap, de maneira singular as suas características, faz o mesmo, permitindo uma ponte entre a realidade do rapper com a de quem escuta suas canções.

De acordo com Andréia Moassab, o rap cria suas próprias regras, de forma que minorias como o negro e o cidadão que vive na periferia se identidade com algo, tornando-se um grupo coeso, para que sobrevivam às dificuldades do cotidiano.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada teve como principal objetivo verificar, através de entrevistas em profundidade, como a internet possibilita que os rappers da cidade de Macaé, no Rio de Janeiro, compartilhem seus conteúdos (músicas, clipes, textos e eventos), sem depender de outros meios de comunicação como o jornal impresso, ou o rádio e a TV.

As entrevistas com os rappers da cidade apontaram algumas questões a serem levadas em consideração acerca do tema proposto neste Trabalho de Conclusão de Curso, ao mostrarem que não são apenas esses meios ditos tradicionais de comunicação que levam esses jovens a buscarem a internet como principal alternativa de se comunicarem.

Isso porque, ao serem analisadas não só as entrevistas, mas também o conteúdo disponível no capítulo 2 – principalmente algumas falas do rapper Emicida, que conseguiu conquistar seu espaço nos meios tradicionais –, alguns rappers percebem que a mídia como a TV é um espaço que abre espaços para músicas como o rap. Fiel (2016), ao ser perguntado por este pesquisador se esse estilo musical não perde sua essência, diz que acha “que não. Porque tava na hora disso ter acontecido. Igual aconteceu nos Estados Unidos. Só que a nossa mídia é mais manipuladora. Nossa mídia tem um controle maior que a mídia de lá, nos Estados Unidos”. No entanto, percebe-se que o rap que trabalha mais as críticas sociais continua em processo de afastamento da mídia tradicional. Primeiro, porque esse tipo de rap vê a mídia como uma forma de alienar a sociedade e de não mostrar a real situação vivida pelas minorias como negros, pobres etc. Do outro lado, a mídia, segundo Rocha et al (2001) e Moassab (2011), indicam que o estilo de rap que vai, por exemplo, para a TV é mais romantizado ou comercial.

Em contrapartida, Fiel (2016) aponta que, para que as pessoas sejam mais conscientes dessa manipulação midiática, é necessário que se tenha uma educação de maior qualidade.

Outro fato que se percebe é que os rappers macaenses já conseguem, mesmo que aos poucos, seu espaço na internet para que impulsionem o rap da cidade. Porém, mesmo que os grupos tenham uma aproximação (em parcerias, troca de informações e eventos), estes ainda não conseguem trabalhar toda a potencialidade que o rap e o movimento Hip Hop proporciona, como a conscientização e os trabalhos sociais.

Em Macaé, não existe o conceito da posse, tão características nas periferias das cidades do estado de São Paulo. Dentro disso, o rapper Narciso Beats (2016) diz ser importante que um rapper ou grupo esteja “ajudando o outro. Sem nada de separação, de intriga. Eu acho a parte mais importante do rap é a união. Se não tiver união, o rap não vai andar”.

Talvez pelo fato de haver uma diferença de locais em que os rappers de Macaé moram, que variam de bairros de classe média ou na periferia, e também pela possibilidade de não haver um grande conhecimento histórico do movimento Hip Hop é que não ocorra esse sentimento de identidade.

Finalizando, as análises e as entrevistas realizadas possibilitam que outros trabalhos acadêmicos sejam realizados em Macaé, por exemplo, dentro do campo da educomunicação, estudando como o rap ou até mesmo o Hip Hop é trabalhado (e se é trabalhado) nas escolas; na sociologia, analisando o rap e o Hip Hop do ponto de vista social; ou antropológico, verificando como os grupos categorizados dentro do movimento Hip Hop se organizam e se comportam.

7. REFERÊNCIAS

ABRAMO, H. W. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo: Scrittta, 1994.

AINDA SE SABE, muito pouco sobre o hip hop, diz rapper Emicida. G1, Vale do Paraíba, 21 fev 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/musica/noticia/2014/02/ainda-se-sabe-muito-pouco-sobre-o-hip-hop-diz-rapper-emicida.html>. Acesso em 29 set 2015.

ALVES, Valmir Alcântara. De repente o rap na educação do negro: o rap do movimento hip- hop nordestino como prática educativa da juventude negra. João Pessoa: UFPB, 2008. Disponível em: <http://tede.biblioteca.ufpb.br:8080/bitstream/tede/4870/1/arquivototal.pdf>. Acesso em 25 set 2015.

AMARAL, Adriana. A potência do imaginário de Neuromancer nas origens da cibercultura. In: Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2008.

ANDRADE, Elaine. Hip-Hop: Movimento negro juvenil. In ANDRADE. E. (org). Rap e educação, rap é educação. São Paulo: Summus/Selo Negro, 1999.

ANTOUN, Henrique. Web 2.0 e o futuro da sociedade cibercultural. In: Revista Lugar Comum, Nº 27, p. 235-245, 2009. Disponível em: <http://uninomade.net/wp-content/files_mf/112203120942Web%202.0%20e%20o%20Futuro%20da%20Sociedade%20Ciberculturl. pdf>. Acesso em 08 set 2015.

ASUMPÇÃO, Gleice Aparecida de. A trilha do rap brasiliense nos caminhos da comunicação alternativa. In: I Encontro de Pesquisadores em Comunicação e Música Popular. São Luis: UFMA, 2009. Disponível em: <http://musica.ufma.br/musicom/trab/2009_GT7_03. pdf>. Acesso em 29 set 2015.

BARBOSA, Márcio; RIBEIRO, Esmeralda (Organizadores). Bailes – Soul, Samba-rock, Hip Hop e Identidade em São Paulo. São Paulo: Quilombhoje, 2008.

BOLSONI, Evandro Paulo. Sociabilidade em redes sociais: a re-construção da identidade. Paraná: Linkania, 2014. Disponível em: <http://issuu.com/evandrobolsoni/docs/livro_digital_-_sociabilidade_em_re/1>. Acesso em 07 set 2015.

BRANDÃO, Guilherme. Instrumento vocal – Beatbox. Blog Cultura da rua, 14 fev 2012. Disponível em: <http://culturadaruarap.blogspot.com.br/2012/02/beatbox-instrumento-vocal. html>. Acesso em 13 jun 2016.

BUCCI, Eugênio. Comunicação digital. In: Cultura digital.br. Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2009. Disponível em: <http://culturadigital.br/blog/2009/09/26/baixe-o-livro-cultura digital-br/>. Acesso em 14 set 2015.

BURGESS, Jean; GREEN, Joshua. YouTube e a revolução digital. São Paulo: Aleph, 2009.

CAMPOS, Silvana Isabel F. G. Hip hop na internet: o site Bocada Forte como espaço hipertextual de construção e expressão de uma cultura jovem. Brasília: UnB, 2004. Disponível em: <http://www.bdae.org.br/dspace/bitstream/123456789/2221/1/tese.pdf>. Acesso em 31 set 2015.

CANABARRO, Diego Rafael; BORNE, Thiago. Ciberespaço e Internet: Implicações Conceituações para os Estudos de Segurança. In: Boletim Mundorama. Brasília: UnB, 2013. Disponível em: <http://mundorama.net/2013/05/19/ciberespaco-e-internet-implicacoes-concei tuais-para-os-estudos-de-seguranca-por-diego-rafael-canabarro-e-thiago-borne/>. Acesso em 12 set 2015.

CARNEIRO, Henrique Soares. Rebeliões e ocupações em 2011. In: Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo, 2012.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Internet, libertad y sociedad: una perspectiva analítica. In: Polis, Revista de la Universidad Bolivariana, vol. 3, nº 4, 2003. Disponível em: <http://polis.revues. org/7145>. Acesso em 09 set 2015

O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CHECCO, Guilherme Barbosa. Negros protagonistas: cinema e música na integração racial americana. São Paulo: PUC-SP, 2010.

COSTA, Marco A. B.; SOUZA, Carlos H. M. Abordagens antropológicas do ciberespaço e da cibercultura. In: Revista Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2005. Disponível em: <http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/164913370240515589548494073 408862492935.pdf>. Acesso em 09 set 2015.

DUTRA, Juliana Noronha. Rap e identidade cultural. In: XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Brasília, 2006. Disponível em: <http://www.anppom.com.br/anais/category/46-etnomusicologia?download=593:rap-e-identi dade-cultural>. Acesso em 25 set 2015.

Rap: identidade local e resistência global. São Paulo: UNESP, 2007. Disponível em: <http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/95121/dutra_jn_me_ia.pdf?sequence=1>. Acesso em 25 set 2015.

ELEMENTO. Emicida, a Mídia e o Rap. Blog do Elemento, 08 abr 2010. Disponível em: <http://www.blogdoelemento.blogspot.com.br/2010/04/emicida-midia-e-o-rap.html>. Acesso em 29 set 2015.

ENTÃO Vem. Família Free Rap. Macaé, 28 out 2015. Disponível em: <https://www.youtube. com/watch?v=2ky XTQboWiQ>. Acesso em 13 jun 2016.

FAMÍLIA Free Rap. Disponível em: <https://www.facebook.com/familiafreerap/?fref=ts>. Acesso em 13 jun 2016.

FILHO, Francisco Alves. O rapper conta como filmou o contundente documentário sobre os meninos do tráfico. IstoÉ, São Paulo, 28 mar 2006. Disponível em: <http://istoe.com.br/18899_ A+VOZ+DO+MORRO/>. Acesso em 28 set 2015.

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. São Paulo: Paz e Terra, 1986.

GALAS, Ramiro. O conceito de música experimental no ciberespaço: uma pesquisa etnográfica em comunidades virtuais de música. Brasília: UnB, 2011. Disponível em: < http:// compmus.ime.usp.br/sbcm/2013/pt/docs/arttec8.pdf>. Acesso em 15 set 2015.

GARBIN, Elisabete Maria et al. Identidades Juvenis em Territórios Culturais Contemporâneos. Unirevista, UNISINOS, v. 1, 2006.

GONZALEZ, Cristina de Oliveira. O modelo de negócio do Google: entre a eficiência técnico- científica e o imperativo econômico do retorno do investimento extrafiscalidade como instrumento de proteção ambiental do Brasil. In: Estudos de direito de autor e interesse público. V Congresso de Direito de Autor e Interesse Público. Florianópolis: FUNJAB, 2011. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/sites/default/files/publicacoes/anais-v-codaip-vers ao-final.pdf#page=15>. Acesso em 16 set 2015.

HAMELINK, C. J. New information and communication technologies, social development andcultural change. United Nations Research Institute for Social Development, Discussion Paper nº86. Geneva, 1997.

HEBREU, Anderson. Dexter: ‘A mídia que criar movimentinho paralelo ao rap’. Noticiário Periférico, jan 2012. Disponível em: <http://www.noticiario-periferico.com/2012/01/dexter- midia-quer-criar-movimentinho.html>. Acesso em 29 set 2015.

HINKEL, Jaison. A arte de ouvir rap (e de fazer a si mesmo): investigando o processo de apropriação musical. Florianópolis: UFSC, 2008. Disponível em: <https://repositorio.ufsc .br/x mlui/bitstream/handle/123456789/91706/254626.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em 22 set 2015.

JÚNIOR, Francisco C. G. M. Hip hop como identidade cultural negra e periférica: a aversão de rappers brasileiros à Rede Globo. Portugal: Universidade de Coimbra, 2014. Disponível em: <https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/27446/1/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20Carlos%20Guerra%20J%c3%banior.pdf>. Acesso em 25 set 2015.

LARA, Arthur Hunold. Grafite: arte urbana em movimento. São Paulo: ECA-USP, 1996. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/157954302/Arthur-Hunold-Lara-Grafite-Arte-Urbana-Em-Movimento-Tese-Mestrado-USP>. Acesso em 20 set 2015.

LEMOS, André. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, p. 11-23, 2003. Disponível em: <http://www.facom. ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/cibercultura.pdf>. Acesso em 07 set 2015.

Cibercultura e mobilidade: a era da conexão. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro: UERJ, 2005. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/r1465-1.pdf>. Acesso em 08 set 2015.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MACEDO, Iolanda. A linguagem musical Rap: expressão local de um fenômeno mundial. Paraná: Revista Tempos Históricos, 2011. Disponível em: <http://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/5708>. Acesso em 23 set 2015.

MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001.

MANSANO, Sonia Regina Vargas. Sujeito, subjetividade e modos de subjetivação na contemporaneidade. Revista de Psicologia da UNESP, v. 8, p. 110-117, 2009a.

MARX, Karl. O dezoito Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

MOASSAB, Andréia. Brasil Periferia(s): a comunicação insurgente do hip-hop. São Paulo: EDUC, 2011.

MONTEIRO, Silvana. O ciberespaço e os mecanismos de busca: novas máquinas semióticas. In: Revista Ciência da Informação. Brasília: IBICT, p. 31-38, 2006: Disponível em: <http://revista.ibict .br/index.php/ciinf/article/view/663/577>. Acesso em 15 set 2015.

MORAES, Dênis de. A dialética das mídias globais. In: Globalização, Mídia e Cultura Contemporânea. Campo Grande: Letra Livre, 1997.

MORAIS, Anderson. GOG deixa claro sua opinião sobre o Rap na grande mídia. RND, Porto Velho, 20 ago 2013. Disponível em: <http://www.rapnacionaldownload.com.br/9474/gog- deixa-claro-sua-opiniao-sobre-o-rap-na-grande-midia/>. Acesso em 29 set 2015.

MORENO, José Carlos. Do Analógico ao Digital: Como a digitalização afecta a produção, distribuição e consumo de informação, conhecimento e cultura na Sociedade em Rede. Portugal: Observatorio Journal, v. 7, p. 113-129, 2013. Disponível em: <http://www.scielo. mec.pt/pdf/obs/v7n4/v7n4a06.pdf>. Acesso em 09 set 2015.

MÓRESPONSA Records. Disponível em: <https://www.facebook.com/MoResponsaRecords/?fref=ts>. Acesso em 13 jun 2016.

MOTTA, Anita; BALBINO, Jessica. Hip Hop: a cultura marginal. São Paulo: UNIFAE, 2006. Disponível em: <http://www.academia.edu/download/34440289/hip_hop a_cultura_margina l.doc>. Acesso em 19 set 2015.

OLIVEIRA, Eliane Silva de Melo et al. Google: um fenômeno informacional? São Paulo: Revista CRB-8 Digital, p. 54-65, 2012. Disponível em: <http://www.revista.crb8.org.br/index. php/crb8digital/article/viewFile/70/72>. Acesso em 15 set 2015.

PATRÍCIO, Maria Raquel; GONÇALVES, Vitor. Facebook: rede social educativa?. I Encontro Internacional TIC e Educação, p. 593-598, 2010.

QUEREMOS Mudança. Família Free Rap. Macaé, 16 dez 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OqkmZlQtTUg>. Acesso em 13 jun 2016.

RAP 24 horas. Disponível em: <http://www.rap24horas.com.br/>. Acesso em 13 jun 2016.

RAP Nacional. Disponível em: <http://www.rapnacional.com.br/>. Acesso em 13 jun 2016.

RECUERO, Raquel. As redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

RENÓ, Denis. YouTube, o mediador da cultura popular do ciberespaço. In: Revista Latina de Comunicación Social. Espanha: Universidad de La Laguna, 2007. Disponível em: <http:// www.redalyc.org/pdf/819/81906217.pdf>. Acesso em 15 set 2015.

RIBEIRO, Paulo Silvino. Movimentos sociais: breve definição. Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/movimentos-sociais-breve-definicao.htm>. Acesso em 19 set 2015.

RIGHI, Volnei José. Rap: ritmo e poesia: construção identitária do negro no imaginário do RAP brasileiro. Brasília: UnB, 2011. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/ 10482/10853/1/2011_VolneiJoseRighi.pdf>. Acesso em 24 set 2015.

ROCHA, Janaina et al. Hip Hop: A periferia grita. São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2001.

ROSE, Tricia. Black Noise: Rap Music and Black Culture in Contemporary America. Wesleyan, 1994.

SANCHES, Pedro Alexandre. Emicida: Ninguém tem paciência comigo. Trip, São Paulo, 05 abr 2011. Disponível em: <http://revistatrip.uol.com.br/trip/emicida-entrevista>. Acesso em 29 set 2015.

SANTAELLA, Lúcia. Da cultura das mídias à cibercultura: Da cultura das mídias à cibercultura: o advento do pós•humano. Famecos, Porto Alegre, n. 22, 23•32, dez. 2003. Disponível em: <http://www.revistas.univerciencia.org/20index.php/fame cos/article/viewFile/229/174>. Acesso em 08 set 2015.

SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SHUKER, Roy. Vocabulário de música pop. São Paulo: Hedra, 1999.

SILVA, José Carlos G. da. Rap na cidade de São Paulo: música, etnicidade e experiência urbana. Campinas: IFCH-UNICAMP, 1998.

SILVA, Raquel Matos. As redes sociais e a revolução em tempo real: o caso do Egito. Porto Alegre: UFRGS, 2011. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/ 37496/000820279.pdf?>. Acesso em 20 set 2015.

SIMÕES, José A. V. Redes, internet e hip-hop: redefinindo os espaços de fluxo. In: VI Congresso Português de Sociologia. Portugal: Associação Portuguesa de Sociologia, 2008. Disponível em: <http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/308.pdf>. Acesso em 20 set 2015.

SOUZA, Alice R. P. et al. Cibercultura: um estudo contextualizador e introdutório. In: XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Caxias do Sul: RS, 2010. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-2207-1.pdf>. Acesso em 08 set 2015.

TAIT, Tania Fatima Calvi. Evolução da Internet: do início secreto à explosão mundial. Informativo PET Informática, 2007. Disponível em: <http://www.din.uem.br/~tait/ evolucao-internet.pdf>. Acesso em 16 set 2015.

TRISTE Realidade. Família Free Rap. Macaé, 21 abr 2016. Disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=TzxkUXVkN1M>. Acesso 13 jun 2016.

TUPAC: VIDA, e morte do maior rapper que o mundo conheceu. Beside Colors, 10 dez 2010. Disponível em: <http://besidecolors.com/tupac-morte-e-vida-do-maior-rapper-que-o-mundo-c onheceu/>. Acesso em 16 out 2016.

VÁRIAS Profissões. Família Free Rap. Macaé, 3 dez 2015. Disponível em: <https://www.you tube.com/watch?v=62718qRRL4k>. Acesso em 13 jun 2016.

WERNECK, Guilherme. Rapper Emicida se sente parte da tradição do samba. O Estadão, São Paulo, 26 mar 2010. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,rapper- emicida-se-sente-parte-da-tradicao-do-samba,529772>. Acesso em 29 set 2015.

8. APÊNDICE

Entrevista 1 – Rapper Dom Rhuann (24 de maio de 2016)

Qual é o seu nome completo?

Rhuann Carlos dos Santos Pinto.

Qual é a sua idade?

20 anos.

Qual é a cidade em que nasceu?

Macaé.

Qual é o bairro onde mora?

Malvinas.

Qual é a sua escolaridade?

Ensino fundamental completo, cursando o ensino médio.

Como foi seu contato com o rap?

De início eu escutava o Racionais, 50 Cent, Snoop Dog, o pessoal mais da gringa. Depois fiquei conhecendo o Sabotage, os caras daqui do Brasil. Mas, assim, de início, não era tanto rap. Era mais de improviso mesmo, de rimar, sem ser rap. Qualquer batida. Depois fui tendo contato com outros raps. Outros raps pra melhorar. Fui variando bastante.

Você tinha que idade quando teve contato com o rap?

Quando eu comecei, devia ter uns 11 anos. Era mais pra ouvir. Mas pra escrever, gravar, tem uns dois anos.

Quando você pensou em gravar e escrever músicas?

Foi quando, uns três anos atrás, quando eu comecei no rap lá na praça, nos eventos. Evento de roda. O pessoal chegava e improvisava. Eu cheguei de início, meio de canto, mais observando. Aí depois comecei a fazer junto com a galera, perdendo a vergonha. Nisso, teve uma certa vez que o grupo Pés Descalços, daqui de Macaé, veio e falou comigo: “Escreve uma letra e grava ela, que depois que você gravar a primeira, se você gostar, você grava mais”. Aí fui.

Você teve alguma influência para conhecer o rap?

Eu conheci sozinho mesmo.

Como que o rap influenciou sua vida?

Como meio de expressão. Ver que tinha liberdade de me expressar, de falar em cima da batida o que eu quiser e para poder passar as visões do que eu queria, as vivências, o que eu vivi, o que eu ouvia e falar de qualquer coisa. Tanto você pode falar do sistema, do governo, ou você pode falar de uma coisa romântica ou de um momento de diversão seu.

Quais são suas influências musicais no momento de escrever um rap?

Hoje em dia já mudou bastante. Fui conhecendo outros que me identifiquei mais. Hoje me identifico mais com o Sabotage, SMJ, até o Primeiramente, da nova geração, o Tupac, Notorious, Joy Bada$$, que é mais um Boom Bap clássico. E de outros estilos, tem uma galera da nova geração, que eu gosto, que é o Haikai, Costa Gold, o Barril de Rap, que eu conheci tem pouco tempo e já me identifiquei bastante.

E dos conhecidos daqui do Brasil?

Emicida, Crioulo não escuto tanto, mas tem umas músicas dele que eu gosto. Projota eu gosto, que é mais das antigas, e tem o 5º Andar, do Rio de Janeiro.

O seu dia a dia influencia no momento de produzir um rap?

Bastante. Eu costumo dizer que eu sou viciado em freestyle. Então, quando eu comecei a me dedicar, eu olhava onde passava e via as placas das lojas. Tudo rimava. O que eu observava bem. Hoje eu vi um menorzinho na rua, vendendo bala, só com um chinelo no pé. O outro ele tinha perdido. Sem camisa. Ali já veio uma reflexão. Olho os muros pichados, as frases. Só da pessoa ter feito aquilo já tem um motivo. Tudo é uma reflexão, que você pode colocar em uma letra e escrever, sair algo de bom para outra pessoa refletir e buscar melhorias também.

Tem outras coisas que lhe influenciam?

Tem muita coisa. Minha vida em si, meus erros, minha família, amigos. A partir do momento que você começa a refletir, aparecem várias paradas. Abre um leque na sua mente. O rap me ensina a pensar antes.

Você pensa o rap como profissão?

Busco como profissão, mas tento não pensar muito nisso, porque quando a gente faz o que gosta, a gente se diverte também. Mas não pode o momento de diversão ser maior que a profissão.

E quando você pensou no rap como profissão?

Quando eu vi que era possível. Quando vi que tinha uns caras que conseguiam viver disso. E a gente ainda consegue levar a mensagem, fazer o que gosta.

Quando você começou a usar a internet?

Quando tinha uns 13, 14 anos.

Como você começou a usar?

Em lan house, escola.

Quando começou a usar a internet para o rap?

Quando comecei a querer me aprofundar, querer gravar. Comecei a pesquisar. Comecei a pesquisar sobre e para expor meu trabalho. Aproveitei as mídias sociais e divulguei por elas.

Onde você busca suas pesquisas pela internet?

No Google, Youtube e sites de rap nacional. De site, tem o Rap 24 Horas e o Rap Nacional.

Quais ferramentas de compartilhamento você usa para divulgar seu material?

Youtube, Facebook, Instagram, Twitter e o Soundcloud.

Quando começou a usá-las?

Desde a primeira vez que gravei. A primeira vez para conhecer, depois para divulgar mesmo. Depois fui descobrindo como aumentar a divulgação nessas redes sociais, patrocinando, pagando.

Você conhece todas as formas de divulgação?

Creio que não. Mas a gente tem buscado conhecer mais.

Você tem tido facilidade em usar essas ferramentas?

As que descobri sei usar bastante. Hoje a internet é bem ampla. Você conhece outra forma de divulgação além da internet? O boca a boca.

É mais eficaz que a internet?

Não tanto. Mas é um meio bom também.

Que importância você vê na internet?

Vejo muitas. Porque cria muitas facilidades. Porque antigamente, para saber que um grupo de rap foi criado em São Paulo, até a gente saber aqui, eles já tinham lançado outro CD. Hoje em dia o cara lançou uma música, já está na internet.

As ferramentas da internet têm servido ao seu objetivo?

Tem sim.

Você tem alcançado mais pessoas com essas ferramentas?

Tenho sim. Tenho conhecido outros grupos de fora. Tanto que fiz várias amizades, de outras cidades, outros estados. Tem aquela troca, um divulga o trabalho do outro. As vezes fazer até uma parceria. O rap é isso. Ele acaba criando amizade. A música tem esse dom de unir.

Você tem tido contato com pessoas que não são de Macaé?

Eu tive contato com um grupo lá de São Gonçalo e um lá de Minas.

Você acha mais fácil compartilhar seu conteúdo na internet do que, por exemplo, em uma rádio?

Sim. Porque só depende da gente. Na rádio não depende só da gente. Depende também da disposição dos caras de querer. Porque muitas vezes a letra do rap não bate com a mídia. Porque muitas vezes o rap faz música contra a mídia. Não são a favor da manipulação da mídia. Mas quando é um rap romântico ou meio zoeira, a mídia abraça.

Entrevista 2 – Rapper Fiel (27 de maio de 2016)

Qual é o seu nome completo?

Rafael Camargo de Oliveira.

Qual é a sua idade?

Eu tenho 24 anos.

Onde você nasceu?

Eu nasci em Goiânia, estado de Goiás. Você mora em qual bairro de Macaé? Eu moro no Parque Aeroporto.

Qual a sua escolaridade?

Eu tenho o ensino-médio completo, mas eu tenho uns cursos técnicos de mecânica. Mecânica de aeronaves.

Você está trabalhando no momento?

No  momento  eu tô trabalhando  numa profissão  que eu nunca exerci na  minha  vida, que é barman.

Como foi seu primeiro contato com o rap?

Meu primeiro contato com o rap, eu era muito novo, foi quando eu tava nos Estados Unidos. Bem novo. Foi de influência dos meus pais. Do meu próprio pai, que meu pai já gostava também e também pela cultura ao redor que eu tava, entendeu. Pelas influências de onde eu tava. Porque lá é bem black, né. Eu morava em Atlanta. Então as paradas lá são bem soul, bem blues. Então o que envolve um pouco também do rap, né. Com o jazz e etc. Porque o jazz, na verdade, é a mãe de todos. E o rap veio das influências locais mesmo de onde eu morava.

Por que você foi para os Estados Unidos?

Eu fui, na verdade, para uma vida melhor. Porque na época a gente foi pelo México. Meus pais ainda moram lá. Eu voltei pro Brasil porque eu fui deportado. Eu morava lá pra uma melhoria.

E por que você foi deportado?

E pelo fato de que eu fui deportado? Eu fui deportado porque eu não tinha documentação. Eu era ilegal lá. Eu vim pelo México, então eu não poderia tirar uma carteira de motorista, uma identidade. Eu poderia estudar, mas seguir...fazer, vamos supor, uma graduação, uma faculdade...eu não poderia fazer uma faculdade. Então acabei caindo numa enrascada de dirigir sem carteira, essas paradas, etc...e fui deportado.

Você foi com que idade para lá?

Eu tinha 8 anos de idade quando fui pra lá.

E foi com essa idade que você teve contato com o rap...

Isso. Antes era mais samba, porque a minha família é toda do samba.

Como o rap influenciou a sua vida?

O rap praticamente me educou. Ele me educou muito, porque eu tava escutando muitas coisas que eu assimilava, que você via no cotidiano das pessoas. Igual a preservar a mulher, a não botar a mão na mulher. Eu escutei muito Tupac quando eu era novo. Então tinha muita coisa que o Tupac dava uma liderança pra gente, que tava no escuro naquela época, né. O rap praticamente me educou e mostrava, falava as verdades de outras pessoas pra você não seguir aquela verdade. Pra você alimentar as coisas boas e não cometer os mesmos erros.

Mas ele criava uma ideologia em suas músicas?

Não em todas as músicas. Mas em outras, sim. Tinha umas músicas que ele falava do estilo de vida dele, mas tinha muita música que ele era mais pessoal, ele era mais povo, né. Ele ouvia mais a população, as pessoas mesmo.

E o rap lhe permite pensar por conta própria?

Com certeza. O rap, na verdade, é um estilo de vida que você tem que alimentar. Hoje em dia tem um rap que...tem dois gêneros de rap. O boom rap e o trap. Tem aquele rap que as pessoas fazem como uma coisa mais pra gastação. Mas tem um rap que é um rap de conteúdo. Então você vai querer buscar, que você aprende, que você escuta uma coisa na música e você fala, cara o que ele tá falando? Então você vai lá e vai buscar. Igual...tem música do CD do Damian Marley com o Nas, que se chama Distant Relatives, que é Relativas Distâncias, que eles falam muitas coisas ocultas do mundo que a gente não aprende na escola. Então você acaba indo buscar pelo fato de que você escutou aquilo ali. Mas o que que é isso? Do que eles tão falando? É naquela curiosidade que entra a internet. Você vai pesquisar, porque a internet é uma biblioteca, se você souber usar ela. Aí você acaba pesquisando e acaba vendo mais conhecimento, mais coisas que você não aprende no dia a dia na escola.

No momento de produzir um rap, quais são suas influências musicais?

Eu escuto muito soul, jazz...Amy Winehouse, Erikak Badu. Eu escuto muita coisa fora do gênero do rap, porque acho que traz...o rap tem uma fórmula de seguir, mas a gente tem que estudar outras músicas, porque a melodia...as outras coisas...elas compõe tudo, pra você trazer uma harmonia diferente, entendeu?

E a letras desses outros estilos influencia...

Com certeza. O Legião Urbana influencia o cara que faz um rap...o Rappa influencia também. Tem outros gêneros de música que influenciam o rap.

Como que você conheceu essas músicas?

Através de pessoas. Eu sempre fui uma pessoa mente aberta. Eu sempre fui do rap, mas eu tenho um amigo que é do reggae, outro que é do rock, outro que é da MPB. E você tendo aquela conexão com as pessoas, você vai acabar gostando de gêneros diferentes...que a música é, além de só o rap. Então você vai expandindo outras portas...acabei conhecendo a MPB, acabei conhecendo o próprio blues, conhecendo o rock também. Aí você vai conhecendo um pouquinho de cada coisa.

Isso já na adolescência?

Isso já na adolescência.

E quais os estilos de rap que lhe influenciam? Você falou do Tupac. Tem algum nacional que lhe influencia?

De nacional...tem o Racionais, Emicida...esses caras...Crioulo. Os caras que vem com uma fórmula diferente. Eles já não são MCs. Eles já são músicos. Pela forma como eles expandiram em densidade. Eles fazem qualquer tipo de música. Mas o que me influencia muito...eu gosto muito de música antiga, old school. Músicas que as pessoas não tão muito ligadas.

A música lhe influencia no seu dia a dia?

Ah...com certeza. Eu não consigo ir trabalhar sem escutar uma música. Eu não consigo entrar dentro de um ônibus sem escutar uma música. O que eu acho que, assim, hoje em dia as pessoas não interagem muito. As pessoas não conversam com a outra dentro do ônibus. Então eu meio que prefiro viajar no próprio mundo, na minha própria galáxia. Então, música é acordar, dormir, que eu tô escutando música. Eu sou apaixonado por música.

Seu dia a dia influencia na criação de um rap?

Com certeza. O que eu vejo, tudo é inspiração. Eu tar aqui com você agora pra mim é uma inspiração. Acho que tudo é inspiração, tudo é poesia, na verdade. O vento, as dificuldades, a superação...tudo inspira. Basta você criar, né. Ter aquela criatividade pra você ter uma coisa pra criar. O que influencia também são entrevistas, são matérias. Coisas relacionadas mesmo a cultura da arte, da música, do Hip Hop.

E por que você se identifica com o Hip Hop?

Acho que pela minha trajetória de vida, foi a que mais me identifiquei. Eu já vivi muita coisa. Tendo só 24 anos eu já passei por muita coisa. E o rap, ele descreve muito...ainda mais...com todo respeito...ainda mais para um cara que é jovem e negro, entendeu? Ele expressa mais o jovem negro do que outro tipo de música. A verdade, a dificuldade, o preconceito...os números, as estatísticas...o Hip Hop fala muito sobre isso. Os outros gêneros de música, assim, é música pra você se divertir, pra você viajar mais. O Hip Hop fala o que você precisa ouvir, entendeu? Que se eu não sair do gueto, eu vou ser mais um. Eu preciso sair, eu preciso de uma melhoria. Eu preciso buscar, eu preciso alimentar minha mente, entendeu? E o Hip Ho ajuda nisso bastante.

Como você vê o rap hoje, pelo fato dele ter ido muito para a mídia?

Eu acho que foi bom. O Emicida fez uma coisa que precisava ser feita no Brasil. Ele abriu as portas pra muito MC que tava parado e hoje trabalha, graças ao que ele trouxe, entendeu? Mas eu acho que, assim, tem muita coisa que o rap nacional...tem umas coisas muito forçadas. Tem umas coisas críticas ainda. Mas eu não posso criticar. O maior público crítico é o público do Hip Hop. Porque o Hip Hop, ele tem o lado da verdade e tem o lado moda. Tem muita gente que faz pra ostentação, por dinheiro. E tem gente que faz por amor. Eu mesmo faço pelo amor. Não é de hoje que eu venho fazendo Hip Hop, entendeu? Antes do dinheiro vem o amor. Tipo, se for pra cantar numa periferia sem ganhar nada eu faço com a maior satisfação, entendeu? Eu quero passar a mensagem, eu quero tocar as pessoas e etc. Primeiro o amor, depois a condição financeira, entendeu?

Mas não acha que indo para a mídia, o rap não perde um pouco de sua essência crítica a própria mídia e ao sistema?

Eu acho que não. Porque tava na hora disso ter acontecido. Igual aconteceu nos Estados Unidos. Só que a nossa mídia aqui era mais manipuladora. Nossa mídia tem um controle maior que a mídia de lá, nos Estados Unidos. Lá...lógico que a mídia tem um controle também, mas as pessoas ainda buscam. Aqui as pessoas...elas estão tão vidradas na mídia que esquecem de ler um livro, de pesquisar, de conhecer, de querer o buscar. Lógico que a mídia tem culpa, mas acho que a culpa maior é da educação. A educação é que tem mais culpa, porque enquanto a educação não mudar, as pessoas vão ser manipuladas cada vez mais. Na verdade somos marionetes, né? Em cima do sistema que eles criaram.

Mas você acha que, por exemplo, o rap do Racionais, do Facção Central, vai ter um dia esse espaço na mídia?

Não. O Eduardo é um cara muito inteligente. Ele vai contra a mídia sempre. Ele não vai fechar com a mídia. E o Mano Brown acredito que...eles sabem o que tá acontecendo, eles sabem a forma que a mídia trabalha etc. Pode até acontecer, que eu já vi o Edi Rock, um dos protagonistas do Racionais, ir na mídia. Mas não foi num programinha de fazer bolo. Foi uma coisa que ele conversou, contou a história da vida dele e etc. Pode até acontecer deles irem na mídia, mas não vai ser aquela mídia...do MC fechar com a mídia em várias coisas. Pode ir no Programa do Jô, num de entrevista, pode ir num Danilo Gentilli, que é de entrevista também. Esses tipos de programa eles podem ir. Mas se for pra fazer bolinho, eles não vão. Acho muito difícil, porque os caras são muito revolucionários. O Eduardo é um cara muito revolucionário pra mim. Mano Brown também. Porque os caras vêm falando disso a 20 anos. Agora que o povo começou a acordar e tem gente que não acordou ainda, entendeu?

Você acha que eles evitam a mídia pelo fato desta ser vista como manipuladora?

Eu acho que eles nunca irão. Os próprios Racionais, o Eduardo...acho que eles nunca irão com o mesmo alinhamento da mídia porque não vai mudar. Vai ser sempre aquilo. O poder vai ser sempre de quem tem dinheiro e a minoria vai ser sempre manipulada. Uns ou outros vão conseguir, mas vai ser sempre assim, entendeu?

O fato das músicas do Racionais e do Facção serem muito pesadas também os impedem de aparecerem na mídia?

Mas é a verdade, né, cara? A verdade dói, a verdade assusta, a verdade dá medo. Tem coisas ocultas que se a pessoa souber...fica com medo, entendeu? A verdade dói. Infelizmente essa é a verdade. A gente tem que mudar. A gente que ter liderança. Tem que parar de...tem que criar líderes e parar de criar seguidores. Na nossa educação não tem como a gente criar lideres, só seguidores. Você só vai para a vitrine de trabalho. Formou? Formou! Próximo!

Você vê o rap como profissão?

Se eu puder, com certeza. Vai ser uma alegria pra mim, entendeu? Mas eu sou daquele tipo de cara que vive um dia após o outro. Porque hoje eu trabalho como barman. Aí eu posso ser mandado embora. E amanhã? Entendeu? Eu continuo fazendo as músicas. Eu trabalho como barman. Eu saio do serviço 4 horas da manhã. Eu chego em casa, eu tiro 1 hora pra escrever. E as vezes a mente não trabalha como deveria trabalhar, porque sua mente tá tão cansada, que eu chego em casa 3, 4 linhas e vou dormir. Eu já acordo no outro dia pra vir trabalhar. Eu como...correria...vem trabalhar. Pra mim não tem como falar. Se eu tivesse uma condição de viver só disso, aí era outra história.

Mas você pensa nisso?

Eu penso. Mas primeiro eu preciso buscar uma certa melhoria, um conforto, pra começar a trabalhar e investir. No momento, eu tô vivendo um dia após o outro, entendeu? Eu tô procurando uma melhoria de emprego. Me qualificar no mercado primeiro, pra depois eu pensar nisso. Porque eu sei que não vai ser rápido. Interesse eu tenho.

Como você começou a usar a internet?

Na época de Orkut. Antes disso eu mexia na internet porque eu gostava de...porque já tinha o Youtube...e eu gostava de olhar a batalha de MCs. Naquela época tinha muita batalha dos MCs de Filadélfia. Aí a internet veio disso...de música, de site de relacionamento...Orkut e etc. Depois disso eu acabei vendo que a internet é uma biblioteca, principalmente, se você souber usar ela.

E quando você começou a usar a internet para o rap?

Já tem uns três, quatro anos, que eu comecei a usar a internet pra procurar, pra ler, pra estudar outros músicos, pra estudar a própria música, entendeu? Pra estudar outros gêneros também pra você trazer pro rap. O MC precisa de base. A gente cria uma base. Então tem muita coisa que a gente escuta, a gente mescla. Então a gente acaba estudando outros tipos de música pra tentar criar um beat, né? Ou pro MC criar uma letra. Você acaba estudando outros gêneros. Você acaba estudando outros artistas. Conteúdo também, porque você tem que sempre ler.

Quais são suas fontes de pesquisa sobre o rap na internet?

Eu uso mais o Rap 24 Horas.

Segue alguém em específico nas redes sociais?

Eu sigo mais produtores. Acompanho o trabalho deles, que a mídia tá sempre divulgando.

E qual é a ferramenta que você mais usa?

Google. O Google é o search pra gente. Então não tem um site especifico. Eu vou lá, coloco uma parada e aparece. Tá achado.

Quais ferramentas da internet você usa no momento de compartilhar uma produção?

Eu uso mais o Facebook. O Facebook hoje é uma ferramenta fundamental, porque tem muita gente que tá ligada no Facebook 24 horas. E toda hora que você coloca uma postagem tem uma pessoa que tá vendo. E hoje o Facebook tem aquela forma de patrocínio, né? Você paga o patrocínio que ele fica alí 24 horas, 15 dias, 30 dias, e a pessoa vê aquilo em continuum, todos os dias, e provavelmente alguns vão ter a curiosidade: “Cara, vou escutar, né? O que essa música tá falando”. E acaba abraçando a ideia do cara. Acaba trazendo uma pessoa que gosta mais da sua música. O Facebook hoje é uma das maiores ferramentas. Tem também o Instagram. Mas o Instragram não tem a mesma função do Facebook. Acho que o Facebook tem mais poder hoje em dia. É onde você vai trazer ela pro Youtube pra ela ver uma música.

Você usa essa ferramenta de patrocínio para impulsionar uma produção no Facebook?

Já usei. Não to usando ela agora pela condição financeira, porque você tem que pagar uma taxa. Mas eu já usei.

Eu você sentiu alguma diferença de uma postagem impulsionada para uma normal?

Com certeza. Dá resultado.

Qual é o resultado?

O patrocínio divulga 24 horas. Se você não usar o patrocínio, você mesmo tem que divulgar. E as vezes você não tem tempo pra ficar divulgando. Então, você sabe que o patrocínio tá ali divulgando, ganhando mais uma curtida, compartilhando, pessoas dando mais visualizações, conseguindo mais público pra você, pra sua música. Pra reconhecerem mais se trabalho, sua arte.

E tem diferença na quantidade de curtida com o patrocínio?

Com patrocínio a gente chega a 100, 150. Aí vai, entendeu?

Você usa outra ferramenta para compartilhar seu conteúdo?

Coloco no Facebook, no Youtube. Mas no Facebook a gente coloca mais pra divulgar mais, entendeu?

Além da internet, você divulga suas produções em outros meios?

Só em rodas culturais. Você chega no palco e divulga.

E tem a mesma eficácia que a internet?

Não. Com certeza, não.

Por que?

Porque a internet conecta as pessoas.

Você tem contato com outros rappers que não são de Macaé?

Tenho muito contato com MCs de Goiânia, São Paulo, nos Estados Unidos. Mas contato pela internet, entendeu?

Você tem conseguido divulgar suas produções em outros lugares?

Com certeza. Sempre através da internet.

Você conseguiu divulgar em que lugares?

Em Goiânia, São Paulo, Bahia, Minas, fora do país. Até no México e Peru já chegou. Porque eu conheci várias pessoas de quando eu morava fora que eu ainda mantenho contato, que gosta do que eu faço. “E aí, como que tá o som, tal. Manda uma música. Quando tiver uma música nova me manda”. Eu tenho uma tia que mora lá no Paraguai, Bolívia, sei lá, fazendo medicina, e ela pede direto. O marido dela gosta, amigo dela passa pra amigo e por ai vai.

Você avisa pelo Facebook quando vai participar de um evento?

Eu compartilho sim. Divulgo pra galera ir. Pra fortalecer mesmo a cena do movimento.

É grande a quantidade de pessoas que informam pelo Facebook que vão comparecer a um evento?

É grande.

E essas pessoas que dizem que vão ao evento levam outras pessoas?

Tem pessoas que levam até mãe, parente, que acaba conhecendo a cultura, acaba gostando. Leva prima que vem de fora.

Pensando nisso, a internet consegue aproximar as pessoas do ambiente urbano?

Com certeza. Porque se fosse só de boca a boca não ia. A internet é uma forma de conectar, trazer as pessoas, de convidar, né? Pro evento, de divulgar o evento também. Porque o boca a boca é muito difícil.

Você acha que os meios de comunicação de Macaé têm interesse em divulgar algo relacionado ao rap?

Eles não procuram explorar muito a cultura não.

Por que?

Eu acho que eles acreditam que tem coisa mais importante pra eles divulgarem.

Você já tentou divulgar alguma coisa nas rádios de Macaé?

A gente nunca pensou porque a gente tem medo da rádio não abrir espaço.

Mas isso é porque eles talvez não tenham interesse no tipo de música que vocês fazem?

O rap vai muito contra o sistema. Então eu acho que eles tem medo dos MCs.

Entrevista 3 – Rapper Antônio Rastaman (13 de junho de 2016)

Qual é o seu nome?

Antônio Carlos Barros Vasconcelos.

Qual é a sua idade?

17 anos.

Cidade em que nasceu?

Nasci em Cabo Frio, mas vim pra Macaé com 1 ano.

Você mora em qual bairro?

Bairro da Glória.

Qual é a sua escolaridade?

2º ano do ensino médio.

Como foi seu primeiro contato com o rap?

Desde pequeno, quando eu tinha uns 9 anos, que eu comecei a ouvir rap com os meus irmãos. A gente começou escutando alguma coisa de Racionais, Sabotage. Depois com meu pai, que ele gostava de escutar muito Gabriel, O Pensador. E o meu irmão do meio começou a cantar alguma coisa de Facção Central e eu comecei a ouvir. Se bem que teve alguns artistas internacionais que eu comecei a escutar com uns amigos de escola. E desde lá que eu curtia o rap, que era uma parada que tava em mim desde pequeno.

Você pode citar alguns desses artistas?

A galera botava muito Eminem, 50 Cent, alguma coisa de Notorious e Tupac também.

Como que o rap lhe influenciou?

O rap quando eu comecei não me influenciava. Porque eu não comecei de uma maneira séria. A primeira música que eu lancei foi em 2013. Eu comecei mais pra ver como é. Fazer um rap e gravar. Mas depois eu comecei a gostar e a ver que aquilo poderia render frutos. Não dinheiro, mas como consciência social. Então, a partir dai que começou a influenciar diretamente na minha vida, porque eu comecei a andar mais com a galera do rap, comecei a questionar mais as coisas da sociedade. Mudou minha visão sobre muitas coisas.

E quando você percebeu que o rap pode influenciar a sua forma de ver o mundo?

Quando eu parei de escutar só a melodia do rap e comecei a prestar mais atenção nas letras, foi ai que eu vi que essa ideia pode mudar uma forma de pensar. Essa ideia pode trazer uma coisa nova. Fazer a pessoa pensar diferente. Assim que o rap transforma a visão.

Quais são suas referências musicais no momento de produzir um rap?

Quando eu escrevo ou faço um beat não sou influenciado por algum som. Não diretamente. É mais pelo que tô sentindo no momento. Eu vô pensando naquilo e passo pro papel.

O dia a dia lhe influência no momento de produzir um rap?

Influencia bastante. Porque tem vezes que eu já passei por umas situações de preconceito. Aí eu quero pegar...eu tô com raiva disso ou não gostei disso...eu pego e escrevo no papel. Ou se eu passo em frente a uma escola e tá faltando lanche. Eu fico com aquilo na cabeça e escrevo sobre isso. Esse é o cotidiano influenciando no rap. Ou quando eu leio ou vejo algo que não me deixou satisfeito eu pego e escrevo.

Você pensa o rap como profissão?

É uma diversão que não deixa de ser um investimento. É um investimento para o futuro. Uma coisa que pode vir a ser meu ganha pão.

Como você começou a usar a internet?

Com uns 8, 9 anos. Na escola, na aula de informática, depois em casa, só pra brincar.

E quando você começou a usar a internet para o rap?

Desde que eu conheci o Youtube. É lá que eu vou pesquisar os artistas que a galera fala. Alguém me falava de um rap e eu ficava ouvindo. Quando eu lia uma matéria sobre alguma pessoa que faz rap.

Quais ferramentas você utiliza?

Tem o Soundcloud, que a galera daqui usa bastante. Joga as músicas deles lá. E o Facebook, que tem as páginas de grupo. Aí por lá mesmo a gente entra e vê os eventos que tão rolando em Macaé.

Você conhece as ferramentas de compartilhamento da internet?

Geralmente quando eu posto um trabalho, a primeira coisa que eu faço é lançar no Facebook e lá mesmo falar pra galera que eu vou postar alguma coisa no Youtube. Eu posto uma música no Youtube e vou passando pra galera no Whatsapp e pelo Facebook, que eu vou marcando uma galera, vou compartilhando e peço pra compartilhar no Facebook pra expor o trabalho. E no Soundcloud também.

Você chegou a usar a ferramenta de impulsionamento do Facebook?

A gente já usou uma vez a ferramenta de impulsionar publicação, que foi pra um clipe que a gente lançou uns dois, três meses atrás. A gente criou um clipe, postamos no Youtube e compartilhamos o link na nossa página. Aí de lá a gente impulsionou. Um amigo falou pra gente que podia pagar e pagou duzentos reais pra publicação.

Por que vocês não continuaram?

Foi porque esse nosso amigo falou que ia pagar pra divulgar. E a gente tá guardando dinheiro pra comprar o beat de um artista famoso, que é o Neo Beats. E a partir dái vai ajudar na música, por que é um beat diferente, e na divulgação, porque é um beat de um cara famoso, que vai postar na página dele. Por isso que a gente não achou necessário ficar impulsionando agora.

A rede social ajuda na divulgação de um trabalho?

Com certeza. É a nossa forma de divulgação. Antigamente devia ser muito difícil divulgar um CD. O cara ia fazer duzentas cópias e ia sair entregando na rua?

Qual a importância do uso dessas ferramentas de compartilhamento?

É importante porque é uma forma de a gente divulgar e de não ter que pagar tão caro por isso. É mais fácil divulgar pelas redes sociais. Porque rede social tá todo mundo lá e tem uma possibilidade muito grande da galera ver, ter uma visibilidade melhor. Gente de outro lugar vai olhar, porque vai ficar lá, exposto.

Qual é o propósito das redes sociais?

A gente tá conectado com as pessoas e é por lá que você conhece outros artistas. Você arruma contatos bons por lá as vezes.

Você tem tido contato com outras pessoas fora de Macaé?

Sim. Eu tenho contato com gente de Campos, Rio das Ostras, Cabo Frio, Goiânia.

Além da internet, você usa outras formas de compartilhar conteúdo?

Eu diria que as nossas apresentações é uma forma de compartilhar. A gente se apresenta sempre e compartilha por lá. Mas a internet é a melhor forma de divulgação.

Você já teve algum contato com outro meio de comunicação que não a internet?

Uma vez eu tive a oportunidade de gravar na 101. Mas eu fiquei um tempo afastado do rap e acabou que deixei de lado. Meu irmão foi numa festa e entrou em contato com o pessoal da rádio. Foi meio que na amizade.

Você acha que os rappers preferem compartilhar suas produções na internet pelo fato de que, por exemplo, na TV ele não poderia expor certas músicas?

A TV tem essa coisa de alienar, de censurar. Na internet você não vê isso. É por isso que a galera prefere divulgar pela internet. Você pode falar o que você acha.

Entrevista 4 – Rapper Narciso Beats (14 de junho de 2016)

Qual é o seu nome completo?

Walace de Souza Narciso.

Qual é a sua idade?

Tenho 21.

Cidade onde nasceu?

Macaé.

Qual é o bairro onde mora?

Parque Aeroporto.

Qual a sua escolaridade?

Segundo grau completo.

Você está trabalhando no momento?

Trabalho mesmo com o rap.

Como foi seu primeiro contato com o rap?

Desde quando eu era menor, sempre escutava rap americano. Só que eu não conhecia como rap. Pra mim era música comum. Só com os meus 14, 15 anos que eu comecei a ouvir Racionais que eu vim a me interessar bastante e tive interesse pelo beatbox, que me trouxe até a cultura. Ouvia muito Fernandinho Beatbox. Quando eu conheci o Marcelo D2. Eu vi um show dele, vi o Fernandinho fazendo um beat. Vi num vídeo do Youtube. Eu comecei a pesquisar sobre ele e comecei a treinar beatbox. Isso me trouxe pra cultura em si, porque com o beatbox eu entrei no grupo 5º Artigo, em 2011, e a gente vinha fazendo um trabalho de rap. Eu não escrevia. Tava começando a produzir, a fazer beat. Com o tempo eu fui querendo escrever. Eu me identifiquei com aquilo. Eu consigo colocar meu dia a dia no papel, passar para uma música. Porque o rap  é feito para expressar sua realidade.

E como você conheceu o rap?

E achei um CD de rap em casa. Eu lembro que tinha músicas do 50 Cent, Rihanna, Eminen. Depois que eu ganhei um computador que eu fui vendo de quem era. Quando eu tive uma internet melhor eu fui pesquisando, me aprofundando.

Como o rap influenciou sua vida?

O rap mudou a minha vida, porque 90% de quem eu andava antes do rap tá morto ou preso. E influencia porque eu não consigo viver sem o rap. Tenho que ouvir, pra me influenciar mesmo no dia a dia.

No momento de produzir um rap, quais são suas influências musicais?

De nacional e internacional eu escuto um pouco de cada. O que eu tô ouvindo muito ultimamente é o Cacife Clandestino, Costa Gold. De internacional tem o Rick Ross, Drake. Porque eu tenho estudado a vertente do trap. Eu gosto do trap porque ele permite você se expressar do seu jeito, sem vergonha. Você pode falar o que você quiser. Tenho um amigo meu que tá saindo do crime, ele veio do Rio, e tá cantando sobre tudo o que já passou. É uma coisa pesada, mas é uma parada que vai ajudar no dia a dia da menorzada que vai ouvir, que o que ele tá escutando não é brincadeira.

Seu dia a dia influencia na criação de um rap?

O que me influencia é tudo o que eu já passei e tudo que eu sei que eu vou passar. As vezes, quando eu tô muito puto com um político, eu vou lá na letra e detono ele. Se eu ver um mendigo na rua e uma pessoa jogar cinco centavos fora, eu vou ficar arrasado. Eu vou escrever sobre aquilo. Porque é uma parada que eu já vi acontecer na minha frente.

Você pensa o rap como profissão?

Eu tô tentando levar o rap pro lado profissional. É difícil. Aqui em Macaé então é mais difícil. Porque aqui a cultura tá crescendo. Tem vários grupos já, mas a cultura ainda não é valorizada pelos locais. Antes da cultura ser valorizada por alguém de fora, tem que ser valorizada pela cidade.

E quando você começou a pensar nisso?

Quando eu era do 5º Artigo eu já pensava em viver de rap, mas eu tava nem ai para o dia a dia em questão financeira. Eu fazia show, ia pra fora, ia pra Campos, mas gastava do nosso bolso, porque a gente que pedia pra tocar mais. Porque pra você ser chamado pra tocar, você tem que ter um certo conhecimento. Ninguém vai te chamar. Nem conheço o grupo, vou gastar dinheiro pra trazer eles aqui? Mas isso faz parte da caminhada mesmo. Hoje em dia por isso que eu quero levar ele pra profissão. Pela caminhada. E eu quero viver disso. Porque eu gosto de tar ali passando a mensagem. E quando eu olho no olho das pessoas elas tão se identificando. Por enquanto eu tô tentando viver de beats. Tô tentando porque aqui não pode vender caro. A galera aqui não compraria um beat caro. Só se for um conhecido. Se for um Neo Beats, um WC Beats, Mr. Break.

Quando você começou a usar a internet?

Comecei a usar na época da net da Velox. Na época não foi nem pelo rap. Em 2009, 2010. Ali eu fiz Orkut, jogava uns jogos online. Mas isso foi meu acesso a internet. Pra diversão.

E quando começou a usar para o rap?

Foi quando eu entrei no 5º Artigo. Em 2011. Foi quando tava começando o Facebook. A galera falou pra fazer. Não era tão conhecido. Não era igual hoje. Ai eu fui e fiz. Tinha grupos de Hip Hop do Rio, de Botafogo, da Lapa. Tinha de todos os lugares. Ai eu comecei a entrar em todos os grupos. Você vai entrar no meu Face e vai ver quantos grupos de rap eu tenho lá. E toda vez que eu lanço  um som eu divulgo  em todos os grupos. Porque é uma  forma    de  mostrar seu trabalho. E foi aí que eu comecei a mostrar meu trabalho e pesquisar sobre o Hip Hop. E ver sobre roda cultural, que foi uma parada que me interessou também. Foi através da internet.

Quais ferramentas da internet você utiliza?

Soundcloud. Pra postar música e ouvir também. Porque muita gente posta lá.

Usa outras ferramentas?

Eu edito. E quando eu tenho uma dúvida e vou no Youtube lá na hora.

Como você faz para divulgar algum material seu?

Quando eu produzo um beat ou uma música minha e quando eu vou postar eu crio um evento no Face para divulgar o lançamento. Ultimamente eu tenho colocado minhas músicas no Youtube, mas essa semana eu vou dar uma atualizada e colocar no Soundcloud.

O Youtube facilita mais no momento de postar uma música?

Facilita bastante. No Soundcloud ele tem mais visualização. Porque ele conta todas mesmo. No Youtube eu acho que ele acaba roubando um pouco. Se você dá play pelo Facebook eu não sei se conta lá no Youtube.

Como você usa o Facebook para divulgar um material ou evento?

Facebook eu uso o pessoal e o profissional. Pra postar beat, pra postar música, compartilhar e também pra produzir evento, mas quando eu produzo o Rap do Half, a gente cria pela página.

Você chegou a usar a ferramenta de impulsionamento do Facebook?

Eu só usei uma vez agora pra divulgar um EP. Tem três semanas. Eu botei um dinheiro lá e deixei divulgando. Eu achei que valeu a pena porque deu bastante visualização. Pelo tempo que eu deixei. E impulsionou bastante a página, que a MóResponsa Records, que é um estúdio meu.

Você conhece todas as ferramentas de compartilhamento?

Eu tô começando a conhecer agora o Spotify. O iTunes eu já ouvia falar, mas tem que pagar pra colocar música lá. Brevemente eu vou botar lá. Eu tenho que guardar um dinheiro pra botar minhas músicas lá.

Você pretende utilizar a ferramenta de impulsionamento nas próximas postagens?

Pretendo sim. Porque faz uma diferença. Porque se fizer sempre só vai ser mais ouvido. Não adianta você querer ganhar, viver de uma coisa e você vai ter que gastar. Tem que ter um certo investimento naquilo. Agora tudo o que eu ganhar eu quero investir em divulgação, publicação, em marketing. Isso é uma parte que eu descobri que é muito importante. É importante pra as pessoas verem ali o que vai chamar atenção pra elas clicarem e ouvir seu som. Até sua capa mesmo tem que ser uma coisa bem profissional. Se não for bem produzida, a galera as vezes no início da música já diz que não gostou. Você tem que trabalhar o melhor que você puder com o recurso que você tem. Eu tenho pouco recurso, mas eu trabalho da melhor forma que eu posso.

Você utiliza outras formas de compartilhamento de conteúdo que não seja a internet?

Boca a boca ajuda também.

E é mais eficaz que a internet?

Não é. Porque a internet tá em todo lugar. As vezes daqui você pode passar seu som pra um maluco lá no Rio Grande do Sul e ele gostar e divulgar, ficar conhecido lá. Porque se não tivesse a internet, o rap seria conhecido hoje, mas não seria como é. Poderia ter tantos grupos como tem, mas ninguém iria conhecer, tipo, o Costa Gold. Não conheceria Felipe Ret. Tem gente que precisa muito da internet, mas tem gente que só ajudou a impulsionar ainda mais seu trabalho.

E você acha que essas ferramentas têm servido ao seu propósito?

Tem bastante. Até porque, graças à internet tem várias páginas, tipo, Rap Nacional, Canal Rap RJ. São páginas que você pode fazer a divulgação por lá. Você vai pagar um certo valor pelo tanto de divulgação e pelo tanto de visualização como você quer.

Qual é o maior propósito das redes sociais?

O maior propósito das redes sociais é a divulgação mesmo. Divulgação e contato. Porque através da rede social você consegue contato pra qualquer coisa que você quiser. Porque tem gente que não tem condição de criar um site, mas tem condição de criar uma página no Facebook, porque é de graça. E ali ela pode botar todas as informações dela.

E ela tem permitido que você tenha contato com pessoas de outros lugares?

Sim. Até porque eu conheci um pessoal pra contato pra show. Tudo isso através das redes sociais. Ia lá no evento, procurava evento grande. Entrava em contato com a produtora. As vezes ligava. Um amigo meu, que eu conheci através da internet, que é o Jazz Beat, que é lá de São Gonçalo, ele fez uma intenção do MóResponsa Records, só que lá em São Gonçalo. Tá com um estúdio lá. A gente tá fechado juntos. Ele abriu o MóResponsa lá e tá trabalhando com a divulgação. E através dele eu tô tendo contato lá pra ver se eu consigo me apresentar numa roda cultural lá. Uma roda grande, que todo mundo vai. Através da rede social que eu tive esse tipo de contato. Como eu já tive contato com pessoas quando eu lancei o EP. Que mandaram mensagem pra mim lá na minha página, pedindo meu Face pra passar o link pra fazer um som comigo. Outros queriam comprar beat...que gostaram da produção. E tudo isso através da internet. Já vendi beat pra gente de São Paulo através da rede social. Ela te deixa livre.

Quais outros conteúdos relacionados ao rap você compartilha?

Eu compartilho normalmente os raps que eu gosto. Eu ouço uma música que eu gosto e eu já vou no Facebook e compartilho. Música de alguém conhecido daqui da cidade, de lançamento, eu sempre compartilho. Porque eu acho isso importante, um ajudando o outro. Sem nada de separação, de intriga. Eu acho a parte mais importante do rap é a união. Se não tiver união, o rap não vai andar.

Você já teve algum contato com outro meio de comunicação que não a internet?

Uma vez eu dei um CD para um tio que conhece um dono de rádio daqui de Macaé. Acho que da rádio 101 FM. Na época eu tava no 5º Artigo ai eu não sei se ele conseguiu mandar. Não levou pra frente não.

Você acha que os meios de comunicação daqui tem interesse em divulgar o rap?

Não. Até porque a galera que é de música antiga é exigente com música. Normalmente quem trabalha numa rádio, que bota a música é exigente com a música. Acho que pode ser falta de interesse da galera daqui de se manifestar pra isso, pra acontecer.

E existe preconceito com o rap?

Rola sim. Sempre rola. Tem muito menos, mas ainda tem sim. Pode ser que não goste da letra, achar que aquilo é muito forte.

Você acha que a internet é importante para a aproximar as pessoas do ambiente urbano, para levar elas a irem em um evento?

Acho que ajuda sim. Porque se fosse só no boca a boca, um carro de som divulgando, até ajuda, mas não funciona tanto quanto um evento no Facebook. Porque você convida seus amigos e esses convidam outros amigos.

Entrevista 5 – Rapper Kalil (14 de junho de 2016)

Qual o seu nome completo?

Meu nome é Luiz Eduardo Tavares Gonçalves

Qual a sua idade?

Eu tenho 17.

Qual a cidade em que nasceu?

Aqui mesmo em Macaé.

Qual é o bairro em que mora?

Parque Aeroporto.

Qual a sua escolaridade?

1º ano do ensino médio.

Como foi seu primeiro contato com o rap?

Meu contato com o rap foi muito cedo com uns rappers gringos. Antigamente não tinha muita internet. Uns seis, sete anos atrás, mais ou menos. Eu era novinho. Não tinha tanto acesso à internet. E o que eu ouvia era aqueles CDs piratas que a galera vendia. Aí um amigo meu, que era lutador, o João Paulo...ele comprava diretos esses CDs gringos, assim...o 50 Cent, Eminen, Tupac, Notorious. Aqueles bem antigos mesmo. Aí a gente ficava ouvindo. Aí com o tempo que eu fui me aprimorando, ouvindo som nacional.

Como o rap influenciou sua vida?

Ele começou a influenciar mais ou menos uns dois anos atrás, quando eu ingressei, que eu entrei no primeiro grupo. Foi um aprendizado. Acho que me deu bastante sabedoria, eu era um cara bem nervoso, estressado com tudo. Aí eu acabei me acalmando mais, ouvindo umas músicas. O estresse que eu tinha eu descontava em letras. Servia como inspiração. Foi um calmante.

No momento de produzir um rap, quais são suas influências musicais?

Eu gosto muito do Sabotage, Facção Central, Shawlin. Esses caras me influenciam bastante. O Racionais eu ouvi bastante, mas eu me identifiquei mais com os outros. Eles têm aquela realidade, mas não é tanto a que eu vi. Eles foram presos. Eu me identifico com o Sabotage por ter perdido uns amigos por causa das drogas. Aí eu já me identifico mais. O Shawlin, o que me chamou a atenção foi a levada dele, o jeito dele de distrair a pessoa mesmo criticando o governo. Eu fui muito influenciado também pelo rock, pelo reggae. O rap é melodia também, não é só batida não. Em algumas músicas eu gosto muito de lembrar a melodia do rock. Um agressivo, mas não tão agressivo. Tipo o grunge, o que o Nirvana fez. É um som que a música fica na sua cabeça. Tem aquele refrão irado que todo mundo guarda na cabeça. E dentro do rap, pra escrever, eu gosto muito do J. Cole. Ele tem umas melodias iradas, uma ideologia muito forte.

E porque você resolveu fazer rap?

Quando eu ia pro Rap do Half, lá no Aeroporto. Eu comecei a rimar e acabei gostando pra caramba. Hoje eu escrevo e canto. Produzo um pouco. Crio melodia.

O rap lhe influencia na forma de ver o mundo?

Ajuda a te mostrar que o mundo não é só sujeira. Também mostra o lado bom do mundo...da natureza...essas coisas.

O seu dia a dia lhe influencia no momento de criar uma música?

O que me influencia bastante é os rolês que a gente dá. Ir nas rodas culturais, ver a galera curtindo um som. Aí você já pega e tira uma letra. Muita coisa que a gente vê na rua. Essa injustiça.

Você pensa o rap como profissão?

Eu quero muito o rap como profissão. Mas eu me divirto muito também. Porque é duro. A gente perde noites de sono produzindo, gravando. Eu e o Rhuann tamos direto divulgando nosso trabalho em roda cultural. Rio das Ostras, Carapebus.

Como que você começou a usar a internet?

Mais pra diversão.

Como que você começou a usar a internet para o rap?

Foi no tempo que eu entrei pro Un-Lock. Eu e uns moleques juntamos dinheiro três meses pra gente conseguir gravar uma música. Quando a gente conseguiu gravar, a gente criou a página do grupo. Começamos a divulgar bastante na internet, usando Facebook. Foi em 2014 isso. Agora é só trabalho pelo Face. A gente divulga uns vídeos dentro do estúdio, tipo um backstage.

Você usa quais ferramentas da internet?

Eu uso praticamente as principais, que é o Youtube, Twitter, Facebook e o Instagran. A gente coloca os vídeos no Youtube e compartilha nas outras. Soundcloud a gente usa bastante também. Acho que onde a gente tem mais visualização é no Soundcloud. A gente tá estudando o Spotify e o iTunes pro CD que a gente vai lançar.

Você conhece todas as formas de uso dessas ferramentas?

Acho que não. Eu uso mais a forma de compartilhar, no Facebook, em grupos no Whatsapp, mandar link pros outros.

Já usou o patrocínio do Facebook, através do impulsionamento?

Já usei uma vez pra divulgar um trabalho no Facebook, pra divulgar a nossa página.

E foi possível notar a diferença de quando uma publicação é impulsionada para a que não é?

Deu uma ajuda legal. Ajudou bastante. A gente gastou acho que só uns vinte reais. Ganhamos bastante likes. A quantidade de pessoas que viu aumentou. Uma música que a gente lançava tinha quinhentas visualizações, agora tá dando mil. Nosso último clipe que a gente lançou, Triste Realidade, teve mais de mil visualizações. Sei que não é muito ainda, mas pra gente daqui de Macaé é bastante. A gente divulga no Facebook entre os chats de amigos. A gente tem uns amigos no Rio, em Minas, que também fazem música. Aí a gente divulga pra eles e eles divulgam pra galera de lá.

E vocês voltaram a fazer novos impulsionamentos?

A gente só fez daquela vez porque a gente ganhou um cachezinho de um show. Aí a gente separou um dinheiro pra cada um comprar o que tava precisando. Aí a gente falou: “Vamo impulsionar”. Aí a gente impulsionou pra ver se dava certo. A gente gostou, então pretendemos fazer de novo.

E por que vocês não continuaram?

Por falta de grana e de tempo também. A gente não tá divulgando porque a gente não lançou nada ainda. Isso tem pouco tempo. Agora a gente vai fazer um clipe e vai impulsionar ele. E lançando o CD a gente vai impulsionar bastante.

Além da internet, você usa outra forma de divulgação?

Hoje a internet é o meio mais acessível. Tem a rádio, mas pra gente é bem difícil. O nosso estilo musical tocar. Porque a rádio não vai querer que um bando de moleques venha falar mal de seu governo, falar umas verdades. Eles não gostam. Eles gostam daquelas musiquinhas pop, leve. Rádio, TV. É bem difícil pra gente. A divulgação é mesmo de internet e boca a boca. Você conversando com a galera.

Qual é a importância dessas ferramentas de compartilhamento?

Ajuda demais a divulgar nosso som. Acho irado quando a galera de fora de Macaé comenta nos links. Acho irado quando você sabe que o som chegou em tal lugar. Teve uma vez que uma mina de Recife comentou no Youtube. Eu acho que se não tivesse a internet a gente nunca teria chegado nessa mina.

Você compartilha conteúdo de outras pessoas?

Claro! Compartilho muito a música dos meus amigos, de outros grupos, fora de Macaé. Os caras que eu sou fã eu compartilho bastante. É um meio de ajudar. É irado quando alguém tá compartilhando seu som. É uma troca. Se todo mundo de Macaé um ajudar o outro, alguém daqui vai estourar. Não precisa que seja eu, o meu grupo. Mas alguém daqui de Macaé tem que estourar. Pra mostrar pra galera que não é só Rio, São Paulo, as capitais que tem um rap.

E você acha que tem sido boa a procura pelo conteúdo de vocês na internet?

A página da Free Rap tá bombando. A gente tá com mais de mil likes, acho que duzentos escritos no canal do Youtube. Acho que tá grande, porque a gente não tem muito. A gente vai fazer um ano de grupo. Depois que a gente começou a trabalhar bastante, que a gente lançar umas músicas porque a gente não tem nenhum trabalho grande na pista ainda. Não temos um EP, um CD. Acho que vai crescer depois do CD, que a galera vai ver que a gente tá trabalhando mesmo.

Qual é o propósito das redes sociais?

Acho que o propósito, quando foi criado mesmo, foi conhecer gente nova, interagir com pessoas de longe, criar novas amizades, divulgar trabalho.

A internet consegue aproximar as pessoas do ambiente urbano?

Antigamente, se você quisesse fazer um evento teria que fazer no boca a boca. Telefone, ligar. O Facebook faz chegar em tantas pessoas tão rápido. De hoje pra amanhã você consegue chegar em muita gente, compartilhando no Facebook. Isso ajuda bastante nos eventos, nos meios de divulgação.

Brisa (Fiel)

Olhos abertos observador inspirador
Das esquinas dos que vem do gueto procuro amor. Superando todo preconceito foda-se a cor, Passageiro então não perco tempo pra falador.
Me disseram até que eu tenho talento será senhor? Solto o coração em cada verso.
Sou doador nessa selva quem me guia é o rap meu salvador, Deus me livra desses click clack
Atiro...
Trabalho a mente e eu que sou o chefe " governador " E no meu mundo todo mundo sente um pouco de dor Só ameniza quando vai pra frente
Se superou
A vida é linda
Uns que não entendem nem reparou, Aí eu que tava lá vi a criança chorar
Depois de alguns segundos vi seu sorriso estampar Beleza dessa vida
É que a dor não vai durar
Se tá aqui se tá ali eu prefiro desviar.
No precioso silêncio da mente encontrei tudo,
Tudo que nesse escuro se tornou luz no meu mundo. Confiar aqui custa muito
São anos pra conquista
E è só questão de segundos pra perde ela de vista Fica a dica amigo
Fica te passo a fita
Quando a tecla é a mesma seu jogo só paralisa Visualiza mais não digita
Apenas sinta.
Teoria è fácil a pratica que complica, Só ganha quem arrisca
Aprende quem dedica
Ouvi que o homem forte em si mesmo se motiva,
Mas hoje até o mais forte pede a mão pra ser estendida É o que define a vida
Sai joias despercebidas O topo é plano
Eu nem me engano
Que gosto teria se eu chegasse sem meus mano Uns tão no céu
Fez seu papel Seja fiel
E que o caminho desse Nigga aqui não seja tão cruel Brisaaaa...

Suave (Narciso Beats)

Muitos cantam vitória Mas poucos vão vencer Loucos soberanos
Sábios prontos pra crescer
Seus sonhos nunca tiveram longe demais
É você que está indo para outra direção rapaz sou eu narciso, Mais um louco
Cabelo disfarçado magrelo Puro osso
Queimado de praia,
Portando uma joia uns nego tem inveja, Bate várias noia
Mas tô sempre suave na minha base Humildade, sagacidade é pra quem tem, Não é pra quem quer
Não importa o que aconteça mantenha sua fé A verdade é a pureza que sai do seu coração A mentira te invade e destrói todo seu pulmão Pela arte que eu faço com os meus irmãos Tem vários beats baseados em várias canções Tô suave
Gastando no meu flow a verdade, ILUMITATION people,
Bota pra subir que a vida vai se erguer Eu sei quem eu sou,
voce nao sabe quem é
Vai dizer, "é mais um louco lá de Macaé" Procede de cria e não de criado
Faço certo pelo certo, Então abraça o papo Você tem que saber jogar Jogue a sua sorte, Cuidado com o azar
Um jogador tem que ser nato pra vitória Ilumine seu caminho,
Pra chegar onde você quer não adianta cê ter força mas não conter a fé Guerreiro tenha fé,
Pra chegar onde quer
Tô suave gastando no meu flow a verdade, ILUMITATION people,
Bota pra subir que a vida vai se erguer

Triste Realidade (Família Free Rap)

Escrevo minha linha poema e verso E no resultado um rap controverso
Filosofia de rua na mente de um louco consciente
Do momento inspirador com o neurônio efervescente Pensamento aleatório constrói o caminho do rap Quem e interessado em grana e status não se mete Ganância destruindo lassos fortes de amizade
Amor verdadeiro virando falsidade
Realidade triste até demais gente dormindo no chão A vida e bem diferente da televisão
Propaganda consome todo seu interior
Não te vê como gente mas sim como um mero consumidor Humanidade desumana não sei se está perdida
O que será que se passa na mente de um suicida Pessoas fúteis gastam sua vida buscando o poder
Enquanto o irmão de bom coração jogado na rua sem ter o que comer O homem criou asas pra futuras gerações
Mas não soube lidar com suas próprias criações Matam seus irmãos desperdiçam sua vida
E rezam pedindo ao pai uma saída
Muitos vem procurando a felicidade 100% plena
Mas morrem sem achar, pois viemos a terra para passar por problemas Sorria você está sendo filmado pelas câmeras da sociedade
Que te descriminam te julgam te desmoralizam sem piedade Alienação roubo na copa esquema corrupto da Petrobras
E o povo sofrendo e morrendo nas filas imensas dos hospitais
O gigante acordou, se levantou, cuspiu e mais uma vez se deitou Multidões de eleitores com a cabeça alienada
Confiando seus votos em urnas totalmente manipuladas Antigos profetas já avistavam o futuro de destruição Acabamos com o mundo inteiro bem como dizia a premunição Não adianta chorar
O pranto se foi agora o que sobra e revolta vivendo o presente com o pé no futuro Pensando no passado sem volta os anos se repetem mais uma vez
Vários santos no natal festejamos no ano novo e enchemos a cara no carnaval Hoje vivemos na famosa nova desordem mundial
Fechem seus olhos tampe os ouvidos Não de atenção pra esse doente mental
Talvez o mais doente seja o ser mais racional Pare e pense repense mude seu ciclo de atitude Não busque riqueza e sim a sua total plenitude Mais um sobrevivente me apresento
Só Rastaman
Só a prova de que não se deve rebaixar ninguém Vivendo na babilônia realmente e difícil de ter paz
Ainda só novo mas já vi um pouco do que o ser humano e capaz Falo do consumo excessivo
Mano da obsolescência e de meninas grávidas na adolescência

1 O termo cibercultura é fortemente ligado ao nome do escritor de ficção científica William Gibson, que publicou em 1984 o livro Neuromancer. O próprio Pierre Lévy em seu livro Cibercultura (1999) atribui o termo ao autor. “No livro, esse termo designa o universo das redes digitais, descrito como campo de batalha entre as multinacionais, palco de conflitos mundiais, nova fronteira econômica e cultural” (LÉVY, 1999, p. 92). A obra de Gibson tornou-se icônica a ponto da jornalista e doutora em comunicação social pela PUC-RS, Adriana Amaral – que escreveu o posfácio da edição comemorativa dos 25 anos do livro (ver William Gibson, Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2008) –, dizer que “o impacto e a atração de Neuromancer perduram em um âmbito que extrapola o literário e entra na areia movediça dos fluxos de influência e das representações na cultura pop, tendo se disseminado em comerciais publicitários, histórias em quadrinho, games, filmes, moda, música e, até mesmo, no comportamento de gerações que já nasceram em um mundo científico-ficcional e no qual as distinções entre a vida real e virtual são cada vez mais tênues e se confundem a cada momento” (AMARAL, 2008, p. 307). Mas sua contribuição é ainda maior em relação aos elementos culturais ao qual se vê e vive quando um indivíduo está conectado à internet.

2 “(...) a subjetividade não implica uma posse, mas uma produção incessante que acontece a partir de encontros que vivemos com o outro. Nesse caso, o outro pode ser compreendido como o outro social, mas também com a natureza, os acontecimentos, as invenções, enfim, aquilo que produz efeitos nos corpos e nas maneiras de viver. Tais efeitos difundem-se por meio de múltiplos componentes de subjetividade que estão em circulação no campo social” (MANSANO, 2009, 111).

3 “foi desenhada como uma tecnologia aberta, de uso livre, com a deliberada intenção de favorecer a livre comunicação global. E quando os indivíduos e comunidades que buscam valores alternativos na sociedade se apropriaram dessa tecnologia, ampliaram ainda mais seu caráter libertário global e no tempo escolhido” (Tradução do autor da monografia). Ver em: CASTELLS, Manuel. Internet, libertad y sociedad: una perspectiva analítica. In: Polis, Revista de la Universidad Bolivariana, vol. 3, nº 4, 2003.

4 CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

5 CARNEIRO, Henrique Soares. Rebeliões e ocupações em 2011. In: Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo, 2012.

6 A Web 2.0 é uma evolução no uso e na percepção de como vemos a internet como ferramenta de comunicação. Nela, o usuário se comunica através do compartilhamento de informações, das mais variadas formas possíveis (textual, visual, auditiva e audiovisual), sendo usadas ferramentas como blogs, sites de compartilhamento de arquivos ou pelas redes sociais. Essa nova era da internet também é marcada pelo surgimento de novos aparelhos como o smartphone e o tablet, que permitem o consumo e o compartilhamento de informação em qualquer lugar e em qualquer hora do dia.

7 CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

8 “os usos da Internet moldaram-se através de seu desenvolvimento como rede e nos tipos de aplicações tecnológicas que vão surgindo. Os valores libertários dos que criaram e desenvolveram a Internet, a saber, dos pesquisadores acadêmicos, hackers, redes comunitárias contraculturais e dos empreendedores da nova economia, determinaram uma arquitetura aberta e de difícil controle” (Tradução do autor da monografia). Ver em: CASTELLS, Manuel. Internet, libertad y sociedad: una perspectiva analítica. In: Polis, Revista de la Universidad Bolivariana, vol. 3, nº 4, 2003.

9 BUCCI, Eugênio. Comunicação digital. In: Cultura digital.br. Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2009. Disponível em: <http://culturadigital.br/blog/2009/09/26/baixe-o-livro-culturadigital-br/>. Acesso em 14 set 2015.

10 GONZALEZ, Cristina de Oliveira. O modelo de negócio do Google: entre a eficiência técnico-científica e o imperativo econômico do retorno do investimento extrafiscalidade como instrumento de proteção ambiental do Brasil. In: Estudos de direito de autor e interesse público. V Congresso de Direito de Autor e Interesse Público. Florianópolis: FUNJAB, 2011. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/sites/default/files/publicacoes/anais-v- codaip-versao-final.pdf#page=15>. Acesso em 16 set 2015.

11 MARX, Karl. O dezoito Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

12 O conceito de movimento social está ligado normalmente ao seu caráter politizado, sempre objetivando mudanças sociais em relação a um determinado grupo. “Em linhas gerais, o conceito de movimento social se refere à ação coletiva de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por meio do embate político, conforme seus valores e ideologias dentro de uma determinada sociedade e de um contexto específicos, permeados por tensões sociais” (RIBEIRO, s.d., s.l.).

13 Esse movimento social seria conduzido por uma ideologia (ou pelo menos por certos parâmetros ideológicos) das hélices dos helicópteros, ficando “com a cabeça no chão e, com as pernas para cima, procura girar todo o corpo” (ROCHA et al, 2001, p. 47).

14 “Hip-hop é uma forma cultural que tenta transpor as experiências de marginalização da opressão e das oportunidades brutalmente truncadas dentro dos imperativos culturais da história, identidade e comunidades afro- americanas e caribenhas. É a tensão entre os rompimentos culturais, produzida pela opressão pós-industrial, e as uniões da expressividade cultural negra, que arma o cenário para o desenvolvimento do hip-hop” (Tradução do autor da monografia). Ver em: ROSE, Tricia. Black Noise: Rap Music and Black Culture in Contemporary America. Wesleyan, 1994.

15 Empoderamento é a capacidade que alguém tem de evoluir e de se fortalecer como indivíduo. Freire e Shor (1986, p. 72) dizem que, além de um processo individual, o empoderamento um projeto coletivo, ao dizer é “muito mais do que um invento individual ou psicológico. Indica um processo político das classes dominadas que buscam a própria liberdade da dominação, um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta”.

16 FILHO, Francisco Alves. O rapper conta como filmou o contundente documentário sobre os meninos do tráfico. IstoÉ, São Paulo, 28 mar 2006. Disponível em: <http://istoe.com.br/18899_A+VOZ+DO+MORRO/>. Acesso em 28 set 2015.

17 HEBREU, Anderson. Dexter: ‘A mídia que criar movimentinho paralelo ao rap’. Noticiário Periférico, jan 2012. Disponível em: <http://www.noticiario-periferico.com/2012/01/dexter-midia-quer-criar-movimentinho.html>. Acesso em 29 set 2015.

18 MORAIS, Anderson. GOG deixa claro sua opinião sobre o Rap na grande mídia. RND, Porto Velho, 20 ago 2013. Disponível em: <http://www.rapnacionaldownload.com.br/9474/gog-deixa-claro-sua-opiniao-sobre-o-rap- na-grande-midia/>. Acesso em 29 set 2015.

19 SANCHES, Pedro Alexandre. Emicida: Ninguém tem paciência comigo. Trip, São Paulo, 05 abr 2011. Disponível em: < http://revistatrip.uol.com.br/trip/emicida-entrevista>. Acesso em 29 set 2015.

20 WERNECK, Guilherme. Rapper Emicida se sente parte da tradição do samba. O Estadão, São Paulo, 26 mar 2010. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,rapper-emicida-se-sente-parte-da-tradicao- do-samba,529772>. Acesso em 29 set 2015.

21 Tupac Amaru Shakur, conhecido na cena rap como Tupac Shakur nasceu em Nova Iorque no dia 16 de junho de 1971. Sua carreira como rapper teve início em 1991, quando lançou o disco “2Pacalypse Now”. Suas músicas ficaram mundialmente conhecidas por seu forte apelo em relação a causa negra, além de outros temas sociais como pobreza e violência policial. Sua influência deriva desde cedo, através do histórico de luta de sua mãe pelo grupo Panteras Negras, além dos problemas vividos pelos negros na época nos Estados Unidos. O rapper foi assassinado no dia 13 de setembro de 1996, em Las Vegas, quando saia do local onde havia ocorrido uma luta do lutador de boxe Mike Tyson. Durante a curta carreira, Tupac lançou seis álbuns. No entanto, é o rapper que mais vendeu álbuns na história (TUPAC: VIDA..., 2010).

22 “Em um português bem claro o significado é ‘caixa de batida’. Na cultura hip hop e no rap em geral o beat Box tem muita importância, pois ajuda nas batalhas de mcs, nas composições de músicas sem batida e por isso é muito conhecido e as pessoas deram palavras para definir o beat Box como: som de boca e/ou percussão vocal onde a pessoa faz com a boca os efeitos que um DJ faz nas instrumentais” (BRANDÃO, 2012).

23 RAP 24 Horas. Disponível em: <http://www.rap24horas.com.br/>. Acesso em 13 jun 2016.

24 RAP Nacional. Disponível em: <http://www.rapnacional.com.br/>. Acesso em 13 jun 2016.

25 FAMÍLIA Free Rap. Disponível em: <https://www.facebook.com/familiafreerap/?fref=ts>. Acesso em 13 jun 2016.

26 TRISTE Realidade. Família Free Rap. Macaé, 21 abr 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v= TzxkUXVkN1M>. Acesso em 13 jun 2016.

27 VÁRIAS Profissões. Família Free Rap. Macaé, 3 dez 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch? v=62718qRRL4k>. Acesso em 13 jun 2016.

28 ENTÃO Vem. Família Free Rap. Macaé, 28 out 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2 kyXTQboWiQ>. Acesso em 13 jun 2016.

29 QUEREMOS Mudança. Família Free Rap. Macaé, 16 dez 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/wa tch?v=OqkmZlQtTUg>. Acesso em 13 jun 2016.

30 MÓRESPONSA Records. Disponível em: <https://www.facebook.com/MoResponsaRecords/?fref=ts>. Acesso em 13 jun 2016.


Publicado por: ANDRÉ SABINE MACEDO DE OLIVEIRA

DEIXE SEU COMENTÁRIO
PUBLICIDADE
  • SIGA O BRASIL ESCOLA
Monografias Brasil Escola