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A Representação da Mulher Negra na Teledramaturgia Brasileira: Um Olhar Sobre A Helena Negra de Manoel Carlos

Arte e Cultura

Helena negra - Uma Helena diferente de todas as outras.

RESUMO

A partir da década de 1980 os negros começaram a interpretar mais personagens nas telenovelas que é considerado um espaço para construção de identidades, porém a imagem sempre foi estereotipada com papéis que remetem às desigualdades entre negros e brancos. Pretendemos, a partir da análise da primeira protagonista negra de uma telenovela do horário nobre da Rede Globo, emissora de maior destaque na história da teledramaturgia brasileira, e da primeira Helena negra de novelas do autor Manoel Carlos, analisar como a mulher negra tem sido representada nesse espaço. O objetivo é compreender se a mulher negra consegue o mesmo destaque que as brancas quando fogem do estereótipo de empregada doméstica para interpretar protagonistas e de classe média.

Palavras-chave: Mulher negra. Teledramaturgia. Representação Social.

LISTA DE TABELA

Tabela 1. Personagens negros nas telenovelas do horário nobre da Rede Globo – 2000 a 2009  32

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Fig.1: Helena - Laços de Família 44
Fig.2: Helena - Mulheres Apaixonadas 48
Fig.3: Helena – Páginas da Vida 51
Fig.4: Helena - Viver a Vida 54
Fig.5: Helena negra – Viver a Vida 56

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 10
CAPÍTULO I 14
SER NEGRO NO BRASIL É... 14
1  HISTÓRICO E AVANÇOS 14
CAPÍTULO II 24
OS NEGROS NA TELEDRAMATURGIA, UM ESPAÇO PARA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES 24
2  TELEDRAMATURGIA BRASILEIRA E REDE GLOBO DE TELEVISÃO 24
2.1  Telenovela: Marca registrada da Rede Globo 27
2.2  Os negros na teledramaturgia 29
CAPÍTULO III 39
HELENA NEGRA: A PROTAGONISTA SECUNDÁRIA 39
3   MANOEL CARLOS E SUAS HELENAS 39
3.1  Laços de família 42
3.1.1 Vera Fischer – A Helena capaz de tudo pelos filhos 43
3.1.2 Área de serviço: o ambiente das personagens negras 45
3.2 Mulheres Apaixonadas 46
3.2.1 Cristiane Torloni – A Helena capaz de tudo pela própria felicidade 47
3.2.2 Classe média e baixa: mulheres negras marcam presença nos dois núcleos 48
3.3  Páginas da Vida 49
3.3.1 Regina Duarte – A Helena solidária, justa e determinada 50
3.3.2 Cadê os negros? 51
3.4  Viver a Vida 51
3.4.1 Taís Araújo – A primeira Helena negra e secundária 53
3.4.2 Helena negra: submissão e humilhação no horário nobre 55
3.4.3 Núcleo negro – A família de Helena 62
4  CONSIDERAÇÕES FINAIS 64
REFERÊNCIAS 68

 

INTRODUÇÃO

Os brasileiros que gostam de novela, que têm o hábito de assisti-las e se envolvem com as tramas devem se lembrar de poucos atores negros que interpretaram personagens de destaque. Por outro lado, nos lembramos com mais facilidade de alguma atriz negra que tenha interpretado uma empregada doméstica. Isso porque a representação da mulher negra, e dos negros em geral, na teledramaturgia brasileira é ínfima, como mostra a obra “A negação do Brasil: O negro na telenovela brasileira” (2004), em que o autor, Joel Zito Almeida de Araujo, analisou telenovelas transmitidas entre 1963 e 1997, pela TV Tupi, TV Excelsior e Rede Globo. Só a análise das 98 novelas exibidas pela Rede Globo, nas décadas de 1980 e 1990 revelou que, exceto as que tinham a escravidão como tema, em 28 delas não apareceu nenhum afro-descendente. E, em apenas 29 o número de atores negros contratados conseguiu ultrapassar a marca de dez por cento do total do elenco (ARAÚJO, 2004). Quando apareceram, foram mostrados de maneira estereotipada. Os papéis destinados a eles, na maioria das vezes, eram empregados domésticos, subordinados aos patrões brancos. As personagens negras eram mostradas de forma subalterna e negativa, destacando-se os aspectos da sensualidade.

Esse projeto tem como objetivo, assim como as obras que formam sua base teórica, impulsionar debates sobre a questão racial na mídia, em especial na teledramaturgia, pois este é, no Brasil, um dos principais espaços para construção de identidades, por se tratar de uma paixão nacional que atrai audiência e envolve a sociedade em diversos temas sociais. Letícia Rodrigues (2007), em seu artigo “O negro e a mídia: Recepção da telenovela por integrantes do Movimento Negro de Santa Maria”, citando Jesus Martin-Barbero (2006), afirma que a mídia é essencial no processo de construção da identidade negra, pois é o meio para formação de opinião junto à sociedade.

A identidade contemporânea, como a identidade étnica negra, está continuamente construindo-se e modificando-se, e a mídia atua neste processo, inclusive para seu reconhecimento social. O que esses indivíduos querem não é tanto ser representados, mas, sim, reconhecidos: fazerem-se visíveis socialmente em sua diferença. (MARTIN-BARBERO apud RODRIGUES, 2007)

Diversos temas sociais, como o racismo, são abordados e estudados segundo a ótica das teorias de representações sociais que, de acordo com Denise Jodelet (2005), são responsáveis por nos fazer compreender fenômenos do homem e a interagirmos com a sociedade a partir de aspectos coletivos.

Enquanto sistemas de interpretação, as representações sociais regulam a nossa relação com os outros e orientam o nosso comportamento. As representações intervêm ainda em processos tão variados como a difusão e a assimilação de conhecimento, a construção de identidades pessoais e sociais, o comportamento intra e intergrupal, as acções de resistência e de mudança social. Enquanto fenômenos cognitivos, as representações sociais são consideradas como o produto duma actividade de apropriação da realidade exterior e, simultaneamente, como processo de elaboração psicológica e social da realidade (JODELET, 2005)

As primeiras teorias sobre representações sociais surgiram com Serge Moscovici em 1961 com a obra “A psicanálise, sua imagem e seu público”. Hoje é a base para diversos trabalhos científicos e de análise no campo das ciências sociais. Jodelet também deu sua contribuição com obras como “As representações sociais” (2001) e a mais recente, “Loucuras e representações sociais” (2005).

A partir das representações é que são estudados comportamentos da sociedade em relação a indivíduos pertencentes a grupos distintos, como raça, religião e gênero. Para produção desse trabalho será abordado, por exemplo, como a mulher negra se encaixa na teledramaturgia brasileira pela ótica das representações sociais. Como elas são apresentadas à sociedade e como esta a recepciona.

A partir de obras de Denise Jodelet (2001; 2005), Serge Moscovici (1961), Joel Zito Almeida de Araújo (2004) e estudiosos que dão continuidade às suas teorias, vamos abordar a questão da representação da mulher negra na teledramaturgia brasileira, usando como referencial a análise da personagem Helena da novela Viver a Vida de 2009 (a primeira e única Helena negra), interpretada pela atriz Taís Araújo. A representação desta personagem será comparada com outras três “Helenas”, de novelas transmitidas pela Rede Globo, entre 2000 e 2009, no horário das 20h e 21h e escritas pelo autor Manoel Carlos.

Para tanto, como primeira etapa, foi feito um levantamento sobre o espaço ocupado pelas mulheres negras nas novelas transmitidas pela Rede Globo nos últimos dez anos, também no horário nobre, sendo um total de 15 novelas. A partir dos resultados dessa análise inicial, um recorte foi feito. Dessa seleção, escolhemos analisar a fundo as protagonistas das tramas do autor Manoel Carlos, as “Helenas”, desse período, o que equivale a quatro novelas, sendo elas: Laços de Família (2000); Mulheres Apaixonadas (2003); Páginas da Vida (2006) e Viver a Vida (2009/2010).

A escolha das novelas de Manoel Carlos se deu pelo fato de a atriz Taís Araújo ter sido escolhida para interpretar a primeira Helena negra e jovem de uma obra do autor, e também por ser a primeira protagonista negra de uma novela do horário nobre da Rede Globo. A análise será feita em comparação com outras três Helenas, personagens criadas pelo autor que sempre tem grande destaque e importância para o desenrolar das tramas,  por estas serem sempre interpretadas por reconhecidas atrizes brancas.

A proposta deste trabalho é analisar como a personagem central das tramas de Manoel Carlos foi representada em sua primeira versão negra. Buscaremos responder às questões quanto ao destaque dado a ela (e se, realmente, houve esse destaque), se influenciou o fato dela ser negra ou jovem, e ter protagonizado outros conflitos e problemas, diferentes dos vividos pelas Helenas brancas, por serem mais velhas.

No primeiro capítulo faremos um levantamento sobre a história dos negros e a atual situação no Brasil, que concentra uma das maiores populações negra do mundo fora do continente africano. O capítulo problematiza, a partir de levantamento de dados e da história, como que após 120 anos da abolição da escravatura, os negros, que correspondem à metade da população brasileira, ainda sofrem com discriminação, preconceito e uma nítida desigualdade social. Mostraremos como o governo está agindo para reduzir essa dessemelhança com a criação de projetos e leis favoráveis a essa grande parcela da população que, por falta de oportunidades, acabam integrando o grupo das minorias no Brasil.

No segundo capítulo, começaremos a analisar o objeto desse projeto, com um histórico sobre a teledramaturgia no Brasil e sobre o espaço ocupado pelos negros nessa programação televisiva que passou a ser considerada uma paixão nacional entre os brasileiros. Serão analisados, em especial nas novelas do horário nobre da Rede Globo dos últimos dez anos, os papéis mais desempenhados pelos negros, em especial, as mulheres.

Já no terceiro capítulo, entraremos no corpus do trabalho com a análise das quatro personagens escolhidas das tramas do autor Manoel Carlos, em especial, da Helena negra, interpretada pela atriz Taís Araújo. Buscaremos elucidar a dúvida sobre o destaque dado a essa personagem e se o fato de ser negra influenciou em algum momento. Sem deixar de avaliar a questão da idade, que por ser mais jovem e viver problemas diferentes das outras protagonistas, pode ter colaborado para seu destaque na trama.

O acompanhamento da programação televisiva por si só já demonstra a falta de bom senso dos empresários do ramo e de autores de telenovelas por não mostrarem o país plural e rico em etnias em que vivemos. Imperam na mídia em geral, como no telejornalismo, comerciais de TV, filmes e em especial nas telenovelas, a imagem branca. Para fazer um comercial de produtos de beleza lá está a bela modelo loira. No jornalismo, quem consegue se lembrar facilmente de profissionais negros do telejornalismo além dos conhecidos Glória Maria e Heraldo Pereira da Rede Globo? E na teledramaturgia, os negros que aparecem são mostrados de maneira estereotipada.

CAPÍTULO I

SER NEGRO NO BRASIL É...

1 HISTÓRICO E AVANÇOS

Desde 1987 o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE inclui nos questionários da pesquisa a pergunta sobre como o brasileiro se autoclassifica dentre as cinco opções de raças: Branca, amarela (orientais), preta, parda (incluindo mulato e o mestiço) ou indígena. Conforme consta na “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira”, lançado pelo IBGE em 2009 com dados do Censo do ano anterior, a percepção da população brasileira está mudando em relação à sua raça.

No passado ainda recente, a distribuição por cor da população refletia as características históricas dos modos de colonização do País. Nos últimos anos, como a questão racial assumiu uma importante dimensão cultural, política e ideológica, a autoclassificação vem progressivamente apresentando contornos de autopercepção, a partir dos debates públicos que têm sido cada vez mais amplificados nos meios de comunicação atuais. (IBGE, 2009)

Com essa mudança na percepção do brasileiro em relação à sua cor, comparando-se os resultados dos Censos de 1998, 2003 e 2008, percebe-se uma redução na população branca e um aumento na parcela considerada negra, que inclui quem se autodefine pardo e preto. Porém, o ideal do “branqueamento” da população brasileira que se deu com a mestiçagem, ainda faz com que boa parte dos que poderiam ser definidos como pretos se autoclassifiquem como pardos.  O aumento ainda é maior nessa parcela da população.  De qualquer forma, em 2008, 50,6% da população brasileira se autodeclarou negra.

O orgulho negro da atriz Camila Pitanga, que apesar de possuir traços atribuídos aos brancos, se declara preta por ser filha de pai preto, ainda é fraco entre a população que durante décadas sofreu com a escravidão e que até hoje carrega os resquícios desse período. Conforme destaca Mário Theodoro (2008), no livro “As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição” do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, após o período escravocrata a visão racista que persistiu foi a de que a partir dali só haveria progresso com o branqueamento da sociedade. Os efeitos desse pensamento ainda refletem nos dias atuais com a persistência do preconceito e da desigualdade social entre negros e brancos em relação à renda, ao mercado de trabalho, acesso à educação de qualidade, e ao tratamento que a mídia, que nos representa simbolicamente, dá ao assunto.

A atriz Camila Pitanga, que também já foi vitima do preconceito racial, em entrevista para uma matéria da Revista Veja (1998) falou sobre sua indignação com o ideal do branqueamento que ainda domina o pensamento de grande parte da população.

Por mais que eu insista em reafirmar as minhas raízes negras, as pessoas sempre acham o contrário. [...] É algo bastante incômodo e tão terrível quanto o mais puro preconceito. [...] Já me acostumei a ser parada nas ruas por pessoas que estranham o fato de a minha pele ser clara, meus traços finos e meu cabelo liso. Perguntam por que insisto em dizer que sou negra, sendo “tão bonitinha”. É um absurdo. [...] Já fiquei muito triste com esse tipo de atitude, mas hoje encaro com mais naturalidade. Não liguei, por exemplo, para os comentários que escutei depois de ter sido capa da revista Raça Brasil. Alguns fãs escreveram e me disseram que não entendiam o fato de eu ter sido entrevistada por uma publicação dirigida para os negros. Repito: eu sou negra (VEJA, 1998) .

O preconceito racial é fortalecido pelo ideal do branqueamento que, segundo Luciana Jaccoud (2008) em texto também escrito para o livro do IPEA, consolidou-se nas décadas de 1920 e 1930, ou seja, um passado recente em que a elite brasileira considerava a questão racial um problema a ser resolvido. Essa ânsia da elite branca em resolver o problema racial estava presente nos debates políticos da década de 1920, ainda no final do governo de Getulio Vargas, conforme Andréas Hofbauer (2006), em que foi apresentado projetos de lei na Câmara dos Deputados para impedir a imigração de pessoas pretas e fortalecendo a imigração de europeus que possuíam as características mais desejáveis para futuras gerações, conforme entendimento dos governantes.

No Congresso, debatiam-se não apenas formas de incentivo à imigração européia; foram também apresentados projetos que propunham a proibição da imigração de asiáticos e africanos. [...] Ainda no final do Estado Novo, Getúlio Vargas justificaria a assinatura de um Decreto-Lei (1945) que devia estimular a imigração européia com as seguintes palavras: ‘[...] a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características básicas mais desejáveis de sua ascendência’.” (HOFBAUER apud JACCOUD in THEODORO, 2008)

Em comparação com esse passado recente, percebe-se uma tímida melhora na situação a partir da década de 1980, em que o Movimento Negro começa a se organizar e suas ações com o intuito de combater o preconceito racial começam a se destacar. Pressionado pelo movimento, o governo começa a propor medidas para inclusão da população negra e para combate à desigualdade racial. Um exemplo foi a classificação do racismo como crime na Constituição de 1988, seguida de outras leis com o mesmo propósito.

A partir do final da década de 1980, pode-se identificar a consolidação de uma segunda geração de iniciativas, que tiveram por objetivo intensificar o combate à discriminação e ao racismo por meio de sua criminalização. Foi nesse sentido que a constituição de 1988 classificou o racismo, até então enquadrado como contravenção pelo ordenamento jurídico brasileiro, como crime inafiançável e imprescritível. Já em 1989, foi promulgada a chamada Lei Caó, que definia como crimes de preconceito as ações que impedissem ou dificultassem o acesso ou o atendimento em espaços públicos, comerciais e a empregos, em função da cor ou raça, determinando penas de reclusão para os diversos casos que tipifica. (JACCOUD in THEODORO, 2008)

Dentre as ações que começaram a ser desenvolvidas pelo governo, em função do fortalecimento do Movimento Negro, está a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP, ligada ao Ministério da Cultura, também em 1988, para fortalecimento da cultura afro-brasileira.  A partir desse período o assunto referente à desigualdade racial começou a ser discutido mais amplamente. Em 1990, conforme Jaccoud surge uma onda de políticas públicas para combater a discriminação racial. Projetos de Lei começaram a entrar em pauta e inicia-se a discussão referente ao racismo institucional, levando à criação de ações por parte de órgãos do governo federal.

Outra iniciativa de destaque por parte do governo foi a criação, em 2003, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR para fortalecer essa discussão e alavancar as ações criadas até então. E vale ressaltar que todas as ações foram criadas e desenvolvidas graças ao Movimento Negro que se fortaleceu.

Com a criação da SEPPIR abriu-se as portas para que as mulheres negras tivessem mais oportunidades no poder. A secretaria foi coordenada pela ministra Matilde Ribeiro, mas o envolvimento em um escândalo foi utilizado pela mídia e políticos oposicionistas para desvalorizar a criação da SEPPIR. Em 2008, Matilde Ribeiro fez uso indevido dos cartões corporativos e foi pressionada a pedir demissão do cargo. Porém, o seu caso poderia ter sido tratado pela mídia como o de outros políticos que se envolvem em falcatruas piores, mas foi abordado de forma discriminatória, ressaltando o fato de ser uma mulher negra.

Sueli Carneiro (2009) em texto publicado na Revista Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, relembra que foram divulgadas charges de críticas à ex ministra de cunho racista.

Na mídia, proliferaram charges sobre ela que extrapolaram em muito o objeto central da irregularidade de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári. Como se esses traços de identidade falassem por si só e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo. (CARNEIRO, 2009)

Além do tratamento diferenciado que foi dispensado à ex ministra, mulher e negra, em comparação com o tratamento recebido por outros tantos políticos que cometem desvios de conduta, geralmente, homens e brancos, pressionaram pela demissão de Matilde Ribeiro e pela extinção da SEPPIR, pela qual o presidente Luis Inácio Lula da Silva lutou para criar e que era uma realização para o Movimento Negro. O que mostra a falta de tolerância de alguns membros do governo em relação à batalha pelo fim das desigualdades de cunho racial, em pleno século 21.

Adicional e imediatamente, promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua base. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça, mas a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial por que seu titular cometeu desvio de conduta? Veiculou-se na imprensa que o Presidente Luis Inácio Lula da Silva estaria particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria de Igualdade Racial, que era uma antiga reivindicação do movimento negro e por cuja criação o Presidente teria sido muito criticado. Segundo o Presidente, a atitude de Matilde Ribeiro acabou dando argumentos a seus adversários, para os quais a Secretaria não teria função. Teria dado força para aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e que, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e, consequentemente, esvaziam de sentido essa Secretaria. (CARNEIRO, 2009)

Apesar de muitas vezes não receber apoio de bases que compõem o governo e da própria mídia, outras ações de combate à desigualdade racial e fortalecimento da população afro-brasileira merecem destaque como a luta para implantação da Lei nº 10.639/2003 que determina a inclusão no currículo do Ensino Básico da história e cultura afro-brasileira e o sistema de cotas para negros nas universidades federais, conforme destaca Jaccoud (2008).

A ex ministra da assistência e promoção social, e ativista da causa, Benedita da Silva, também negra, destaca em entrevista ao site Memória Lélia Gonzalez que a inclusão da história e da cultura africana é importante em um país onde grande parte da população é afro brasileira. Ela colaborou com seus projetos enquanto deputada federal e senadora. Foi ela quem criou ainda em 1988, o Projeto de Lei 857 que inclui a disciplina de história e cultura da África no currículo escolar.

Quando um povo conhece a sua história, quando tem informação, quando sabe de suas origens, ele se assume, não tem perda de identidade. E isso, além de aumentar o seu conhecimento, faz com que aprenda a conviver com as diferenças e não se torne vítima, porque eu considero também vítima as pessoas que praticam o racismo. E não teremos de achar que a intelectualidade faz parte apenas da cultura européia, pois temos, na nossa identidade, uma formação a partir de todo um conhecimento de origem africana. (BENEDITA DA SILVA, 2005)

O sistema de cotas para ingresso no ensino superior ainda levanta polêmicas, mas tem como objetivo proporcionar ao negro as mesmas condições na universidade, já que a desvantagem em relação à população branca no acesso ao ensino básico é de quase dois anos. Pesquisa do IBGE   mostra que, em 2009, pessoas de cor branca com 15 anos ou mais tinham 8,4 anos de estudo, enquanto que os negros tinham 6,7. Essa diferença leva a outra desvantagem gritante, a do não acesso às universidades e posteriormente a empregos menos valorizados e reconhecidos, contribuindo para um ciclo vicioso de desigualdade. Em 2009, entre jovens de 18 a 24 anos a porcentagem de brancos cursando o ensino superior era de 62,6% e de jovens negros era de 28,2% para pretos e 31,8% para os pardos (IBGE, 2009).

Em seu artigo, “Pensando o significado das cotas sociais e raciais nas universidades públicas brasileiras”, o psicopedagogo Gregório Durlo Grisa (2010), destaca que o preconceito racial ainda está presente na sociedade brasileira, e que as cotas são necessárias para reduzir a desigualdade que afasta a população negra das possibilidades de ascensão social. Além de levar às universidades públicas, em especial à área cientifica, “novos projetos, novas ideias e um redirecionamento da curiosidade epistemológica, que foi sempre guiada pelo olhar da elite branca brasileira”.

Na sociedade neoliberal, o preconceito racial, além de se manter essencialmente vivo, cumpre novas funções e ganha novas formas de aplicação, ainda mais eficientes no intuito de manter o sujeito negro fora dos espaços de conhecimento que oportunizariam algum tipo de ascensão social. [...] As classes populares brasileiras, que estão à mercê de todos os tipos de problemas sociais, são compostas majoritariamente por negros e pardos, e isso deve ser levado em conta, não só como um dado, mas como uma importante característica da sociedade. Por isso, a democratização das universidades públicas via cotas sociais e raciais (políticas em processo de constante aperfeiçoamento), significa a ampliação do acesso dessas classes populares ao conhecimento.  (GRISA, 2010) 

Apesar da tentativa em avançar na formulação de políticas públicas de combate à desigualdade e discriminação racial, estas ainda não ganharam a força necessária para combater esse mal, resquício de uma época de escravidão. Estudiosos defendem que é preciso conhecer a raiz do problema para que as políticas obtenham o sucesso esperado.

A ação governamental tem se estruturado em torno do problema da desigualdade racial ou do objetivo da promoção da igualdade racial. Contudo, a desigualdade racial, antes de ser um problema em si, é o resultado de processos diversos, nos quais o racismo e seus desdobramentos, o preconceito e a discriminação, destacam-se como fontes primárias. Combater as desigualdades raciais sem enfrentar suas causas parece apontar para uma ação de limitada eficácia, senão fadada ao insucesso. (THEODORO, 2008)

Há especialistas que defendem cotas sociais e não raciais para trazer para a universidade a população de baixa renda, na qual está grande parte da população negra. Seria uma forma de combater o mal pela raiz, já que a desigualdade racial está diretamente ligada à social. Como opinou o antropólogo George de Cerqueira Leite Zarur, na audiência sobre políticas de reservas no ensino superior, realizada no Supremo Tribunal Federal em março de 2010. Para ele “Se negros e pardos são maioria entre os pobres, serão os maiores beneficiários de políticas de combate à pobreza”.

O Brasil é um país com uma desigualdade social relevante, apesar dos avanços dos últimos anos em que parte da população saltou para a classe C. Porém, a desigualdade social está intimamente ligada à racial. A diferença na distribuição de renda da população branca em relação à população negra inclui-se pretos e pardos, é exorbitante. Segundo dados do IBGE, no período de 1998 a 2008, da parcela mais pobre da população, 25,4% declararam-se brancas, enquanto que 73,7% eram negros. Na ponta inversa da pirâmide social, a parcela mais rica, ou seja, a minoria que detém maior parte da riqueza do país era predominantemente branca. Apenas 15% eram pessoas pretas ou pardas.

Outra lei de extrema importância nessa batalha pela igualdade racial no país e talvez a de maior destaque foi sancionada pelo presidente Lula em julho de 2010. O Estatuto da Igualdade Racial começou a ser discutido em 2000 com o Projeto de Lei nº. 3.198/00 de autoria do senador Paulo Paim e em 2003 começou a ser discutido no Congresso Nacional com o PL 213/03. Em 2006, ainda em tramite, o texto do estatuto sofreu mais modificações com um substitutivo, em que Paim lamenta que a discriminação racial ainda persista na sociedade e no Brasil em pleno século 21, e destaca que, apesar da matéria do estatuto ter sido aprovada com unanimidade no senado em 2005, sofreu resistências por parte de alguns deputados no plenário da Câmara, o que ele compara com as dificuldades enfrentadas pelos abolicionistas do passado.

O texto de 2006 dispõe de ações que visam a garantia de direitos fundamentais e igualitários à população afro-brasileira. Dentre as ações podemos destacar: “os direitos fundamentais das mulheres negras; a herança cultural e a participação dos afro-brasileiros na história do país que será garantida pela produção veiculada pelos órgãos de comunicação; políticas voltadas para a inclusão de afro-brasileiros no mercado de trabalho”.

Todos sabemos que a cor não determina a capacidade de um ser humano, ela é apenas uma diferença, assim como o tamanho dos pés, como a cor dos olhos, como a altura, como a forma dos cabelos. Temos orgulho de sermos o que somos, mas é vergonhoso vivermos em um mundo onde os negros são tratados como seres inferiores. Lamentamos pelo atraso e pelas marcas que esse tratamento, sinônimo de desumanidade, registram na história da nossa Nação. A fim de eliminarmos o racismo, o preconceito e as discriminações, muito tem sido feito, mas ainda há muito a se fazer. Atualmente estamos articulando a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial na Câmara dos Deputados. A resistência faz com que recordemos as dificuldades dos abolicionistas do passado (PAIM, 2006)

O projeto sofreu várias modificações durante os quase dez anos de tramitação até ser aprovado pela Câmara dos Deputados em setembro de 2009.  O Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado após acordo entre governo e oposição e com a retirada de pontos considerados polêmicos no texto original, como a regularização de terras quilombolas e um percentual de atores e figurantes negros para programas de TV. Esse último entra diretamente no tema desse projeto que discute sobre o espaço que o negro ocupa na teledramaturgia brasileira, o que veremos com mais detalhes no próximo capitulo. Dentre as ações destacadas por Paim no texto de 2006 está que “o sistema de cotas buscará corrigir as inaceitáveis desigualdades raciais que marcam a realidade brasileira”, porém foi um dos pontos modificados no texto aprovado na Câmara. Apesar de ter sido comemorada por movimentos negros e por parlamentares favoráveis à extinção do preconceito e discriminação arraigados na nossa sociedade, o texto aprovado também recebeu criticas. Uma das criticas partiu do deputado Daniel Feliciano (PDT/BA), que considerou que ‘esse relatório suprime a essência de muitas coisas que já haviam sido conquistadas em anos de luta”.

O Estatuto da Igualdade Racial com o texto final sancionado pelo presidente Lula após quase um ano de sua aprovação no Congresso, exclui qualquer tipo de cotas, o que para especialistas era parte fundamental, que realmente garantia a igualdade entre negros e brancos. Mas muitos consideram que a aprovação do estatuto já é uma vitória, pois mostra que o Brasil reconhece que o preconceito e a desigualdade estão presentes na sociedade como destacou o antropólogo Kabengele Munanga (2010).

O documento foi praticamente desfigurado. O fato de reconhecerem que há preconceito no Brasil e que algo precisa ser feito já é alguma coisa. Mas o texto não contempla a expectativa da população negra, porque um dos problemas do Brasil – a ausência de igualdade – foi removido. (MUNANGA, 2010) 

O texto de 2006 trazia no capitulo IX que trata dos meios de comunicação a distribuição de cotas para atores e figurantes negros em produções a serem veiculadas pelas emissoras de televisão, em especial às mulheres negras, visando garantir uma mistura de raças na programação para fortalecer a cultura afro. O capítulo abrangia também a publicidade a ser veiculada na TV e em salas de cinema através do artigo 75.

Art. 74. Os filmes e programas veiculados pelas emissoras de televisão deverão apresentar imagens de pessoas afro-brasileiras em proporção não inferior a vinte por cento do número total de atores e figurantes.

§ 1º Para a determinação da proporção de que trata este artigo será considerada a totalidade dos programas veiculados entre a abertura e o encerramento da programação diária.

§ 2º Da proporção de atores e figurantes de que trata o caput, metade será composta de mulheres afro-brasileiras. (PAIM, 2006)

A programação que trata o artigo 74 inclui a teledramaturgia que costuma não valorizar essa diversidade de que dispõe o mundo artístico. Um exemplo é a novela Passione, que está sendo transmitida pela Rede Globo no horário das 21h. O elenco dispõe de poucos atores negros. Até o momento foi possível identificar o ator Rodrigo dos Santos, que interpretou Noronha, o funcionário corrupto da metalúrgica da família que faz parte do núcleo principal, e que inclusive já foi retirado da trama por meio de um assassinato. O outro ator é Pedro Lobo, que vive Amendoim, um menino de rua que está aguardando para ser adotado. E a atriz Carol Macedo, que interpreta Kelly, uma adolescente que vivia com a avó que a oferecia para os clientes de sua pensão.

O texto, através das cotas, era uma tentativa de vermos mais atores negros não só nas novelas e programas televisivos, mas em todo tipo de programação e publicidade veiculada pelos meios de comunicação, inclusive revistas de beleza e moda que também quase não valoriza a diversidade existente em nosso país. A única revista que valoriza a raça negra é a Revista Raça Brasil, por ser voltada especialmente para esse público. O lançamento dessa publicação direcionada, segundo texto publicado na edição especial pelos dez anos da revista, em 2006 foi vista com pessimismo por alguns que diziam: “Negro não tem poder aquisitivo, negro não tem autoestima, não tem escolaridade. Por que então fazer uma revista para negros? Vai ser um fracasso” (REVISTA RAÇA BRASIL, 2006). Para rebater as criticas, a publicação foi um sucesso e já está na 148ª edição. Mudou a visão de empresários e publicitários que começaram a investir em produtos étnicos e em modelos e atores negros para comerciais, como destacou o publicitário Nizan Guanaes, fundador e presidente da Agência África.

Mudou muito a publicidade, nos últimos dez anos em relação aos negros. Tanto que hoje tenho uma agência que se chama África. Hoje preto é chique. Quem quer ser moderno, se veste de preto. As modelos negras cada vez fazem mais sucesso. Os homens mais desejados são negros. A essência da raça negra reflete-se em todas as culturas. Onde há negro pelo mundo há mais alegria e musicalidade. E essa influência reflete-se na propaganda. O negro está nos comerciais mais sofisticados do planeta. Acredito que a revista Raça, nesses últimos 10 anos, foi fundamental para este novo cenário. Ela conseguiu, de uma maneira bacana, falar da causa negra sem exageros, sendo chique (REVISTA RAÇA BRASIL, 2006) 

Mas é provável que elencos pobres de diversidade como o da atual novela das oito da Rede Globo ainda impere na programação televisiva e que apenas modelos brancas continuem estampando capas de publicações, pois o texto do Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo presidente Lula retira qualquer tipo de cota, não deixando clara a garantia dos direitos iguais aos negros.

Art. 44. Na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas, deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, sendo vedada toda e qualquer discriminação de natureza política, ideológica, étnica ou artística (ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL, 2010) 

Diante dos dados expostos nesse capítulo, podemos dizer que ser negro no Brasil, um dos países com maior população negra do mundo fora do continente africano, é ser refém de um passado inglório à espera de avanços nas políticas públicas para combate à desigualdade e discriminação. É esperar que essas ações possibilitem acesso à educação de qualidade e, consequentemente, a iguais oportunidades no mercado de trabalho.

CAPÍTULO II

OS NEGROS NA TELEDRAMATURGIA, UM ESPAÇO PARA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES

2 TELEDRAMATURGIA BRASILEIRA E REDE GLOBO DE TELEVISÃO

A telenovela é uma obra audiovisual dividida em capítulos e transmitida pelas emissoras de televisão. No Brasil, a primeira novela surgiu na década de 1950 e era transmitida pela TV Tupi duas vezes por semana. O gênero só começou a fazer parte da vida diária dos brasileiros em 1963, graças ao uso do videoteipe. E a TV Excelsior foi a primeira emissora a investir no modelo, importado da Argentina, com a produção 2-5499 Ocupado, de Dulce Santucci (SEDEK, 2008).

Marcello Chamusca e Márcia Carvalhal no artigo (2005) “Teledramaturgia: Uma discussão sobre as narrativas seriadas” usam trecho do texto de Arlindo Machado (2000) escrito para a obra “A televisão levada a sério”, para explicar que a novela é um dos tipos de narrativas seriada transmitidas pela televisão que desenvolve um enredo, contando a história dos personagens por meio de ganchos de um capítulo para outro, deixando sempre um mistério no ar para despertar a curiosidade do telespectador para que este continue acompanhando a trama e garantindo sua audiência.

Esse tipo de construção é teleológico, pois ele se resume fundamentalmente num (ou mais) conflito(s) básico(s), que estabelece logo de início um desequilíbrio estrutural, e toda evolução posterior dos acontecimentos consiste num empenho em restabelecer o equilíbrio perdido, objetivo que, em geral, só se atinge nos capítulos finais (MACHADO apud CHAMUSCA E CARVALHAL, 2005).

Ainda segundo Machado, a narrativa seriada tem origem na Idade Média e se modernizou com o surgimento do Folhetim, literatura publicada nos jornais no século XIX. E o modelo de dramaturgia seriada usada hoje pelas emissoras de TV é baseado no cinema de 1913.

Chamusca e Carvalhal destacam que estudiosos acreditam que foi a necessidade de manter o mercado que a própria televisão criou que a levou a desenvolver programação em série como as telenovelas. Esse mercado, conhecido como indústria cultural, começou no início do século XX, com a produção e industrialização massiva de obras do cinema e da música, recebendo várias críticas dos autores da Escola de Frankfurt como Theodor Adorno e Max Horkheimer (1986) que chegaram a criar o conceito de Indústria Cultural. No texto “A indústria cultural: O esclarecimento como mistificação das massas”, da obra “A Dialética do Esclarecimento”, os autores deixam claro que essa industrialização cultural transformou a essência da obra em negócio, em monopólio cultural, e que esse sistema surgiu nos países industriais liberais.

O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. [...] A técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. [...] O sistema da indústria cultural provém dos países industriais liberais, e é neles que triunfam todos os seus meios característicos, sobretudo o cinema, o rádio, o jazz e as revistas. É verdade que seu projecto teve origem nas leis universais do capital.  (ADORNO e HORKHEIMER, 1986)

As novelas são responsáveis por influenciar atitudes e modismos no Brasil e nos países para onde são exportadas. Algumas tramas, como as do autor Manoel Carlos, pautam a agenda social brasileira com temas como aborto, racismo, alcoolismo, violência doméstica através do merchandising social, que Marcio Schiavo (1995) classifica como educativo, mas perigoso, pois colabora para influência que a televisão exerce sobre o imaginário da população. Apesar de ainda serem mais abordados nas novelas transmitidas no horário entre 20h e 21h da Rede Globo, tem se estendido a outros horários e emissoras.

O merchandising social pode ser utilizado para educar a população, mas pode ser um instrumento perigoso de manipulação e controle da sociedade. Seu discurso é persuasivo, levando o telespectador a ter uma opinião ou adquirir um comportamento parcial, provocados por interesses que não lhes são próprios. O objetivo da ação de merchandising é estimular o mecanismo empático, identificatório com a realidade reproduzida na telenovela, o que proporciona uma forma de manipulação da opinião pública, pois o público passa a crer e fazer uso dos valores transmitidos pela telenovela, os incorporando no seu dia a dia. (SCHIAVO, 2002 apud FIGUEIREDO-MODESTO e ROSA, 2010)

Segundo histórico presente no artigo “Telenovela, agendamento e temáticas sociais: Uma relação sistêmica e progressiva” (2010), de Claiton César Czizewski, até a década de 1960 as tramas eram voltadas para o melodrama e praticamente não discutiam nenhum tema social. Na década de 1970, em plena ditadura militar, a telenovela passou a ser um meio de denúncia e crítica com tramas que abordavam assuntos que refletiam problemas sociais e políticos do país, porém, enfrentaram problemas com a censura que chegou a modificar o roteiro das novelas Dinheiro Vivo e Os Gigantes, ambas de 1979, que pretendiam criticar diretamente a violência e a situação política da época. A teledramaturgia só começou a abordar temas polêmicos e pautar a agenda social do país com mais ênfase a partir de 1990 com a novela Barriga de aluguel, de Glória Perez, em que se discutiu a ética em casos de inseminação artificial em mães de aluguel.

A partir daí, temas como a importância da doação de órgãos e da prevenção contra o câncer de mama, abordados nas novelas da Rede Globo, De Corpo e Alma (1992/93) e História de Amor (1995/96), passaram a ser inseridos nas tramas de vários autores e ajudam a mudar a realidade. Além de campanhas que chamam a atenção do público como a busca por crianças desaparecidas, promovida dentro da novela de Gloria Perez, Explode Coração transmitida em 1995 e que foi considerada a campanha de maior repercussão na realidade brasileira até então.

Nesse momento, o diálogo entre ficção e realidade manifestava um claro objetivo de reflexão. Dessa vez, a audiência indicava ter entendido a proposta. Durante o período em que esteve no ar a telenovela De Corpo e Alma (1992-3), houve um crescimento no número de doações de órgãos. No caso específico do coração (objeto de doação na trama), o aumento foi de dois para 20. Caso semelhante aconteceu em História de Amor (1995-6), que tematizou o câncer de mama. Por conta disso, o autor Manoel Carlos recebeu uma carta do Instituto Nacional do Câncer, na qual era divulgado um significativo aumento da demanda por exames preventivos, conforme recomendavam os personagens da história. (CZIZEWSKI, 2010).

José Roberto Sedek (2008) destaca que esse poder de influência da telenovela, considerada hoje uma paixão nacional, e da própria televisão, junto à população brasileira é comprovado pela grande audiência que as emissoras têm no horário de transmissão das tramas.

No Brasil, frequentemente, mais da metade dos aparelhos de TV ligados sintonizam a mesma telenovela, que, em contato diário com os espectadores, lança modas, induz comportamentos, opina acerca de polêmicas, presta serviço e participa do cotidiano do país. É inegável a influência das telenovelas e da TV na vida cultural, política e comportamental da sociedade brasileira. (SEDEK, 2008)

Sedek destaca também que, devido a essa grande audiência e ao poder de influência que exerce junto à sociedade, essas produções televisivas atraem a atenção e interesse de empresas que investem em anúncios para mostrar seus produtos dentro do enredo, o que também ajuda a influenciar modismos. “Os anunciantes que destinam recursos para as emissoras obviamente preferem que seus produtos sejam mostrados quando há mais gente assistindo ao canal” (SEDEK, 2008)

Todos esses fatores dão às histórias que compõem as novelas, características de realidade. No artigo “A telenovela e o Brasil: Relatos de uma experiência acadêmica”, Solange Martins Couceiro de Lima, Maria Lourdes Motte e Maria Ataide Malcher (2000) mostram exatamente essa característica da teledramaturgia brasileira em abordar e dramatizar temas do cotidiano, em uma mistura de ficção e realidade, que levantam discussões sociais e influenciam comportamentos.

A interação que a telenovela estabelece entre os cotidianos da ficção e da realidade constitui uma das peculiaridades da telenovela brasileira que, ao desenvolver um cotidiano em paralelo, dialoga com ela, numa dinâmica em que o autor colhe, a partir de suas inquietações, aspectos da realidade a serem tematizados ou tratados como questões de importância em sua ficção. [...] A simples familiaridade com discussões bem orientadas sobre preconceitos, alcoolismo, drogas, violência, hábitos de higiene e saúde sinaliza um avanço na telenovela e da sociedade, que incorpora novos dados/ informações/conhecimento e/ou comportamentos. (LIMA, MOTTE e MALCHER, 2000)

Claudio Cardoso Paiva (1999) lembra que além de ser um gênero que pauta a agenda social brasileira, a telenovela é difusora de grandes obras literárias que marcaram a história da cultura. E o Brasil passou a ser reconhecido no mundo inteiro por suas obras televisuais, um exemplo é a grande audiência das novelas brasileiras na China, Rússia e Portugal.

2.1 Telenovela: Marca registrada da Rede Globo

A história de sucesso da teledramaturgia brasileira começou em 1951, um ano após a inauguração da televisão no país, ainda na extinta TV Tupi. Atualmente, só a Rede Globo de Televisão produz cerca de 2.500 horas de telenovelas por ano. E é a emissora de maior renome nessa área, com 252 novelas lançadas ao longo dos seus 45 anos. Essa fama começou em 1965 com a primeira novela que exibiu, Ilusões Perdidas, de Enia Petri. Hoje é responsável por 35% da produção de novelas no Brasil e detentora de maior parte da audiência nacional nos horários de transmissão das tramas. Exporta as produções para diversos países na Europa, África e América Latina. Sendo que a primeira trama a ser exportada para o exterior foi O bem amado, vendida para o Uruguai em 1973.

Segundo o Guia Ilustrado “TV Globo: Novelas e Minisséries” (2010), os horários fixos para transmissão de teledramaturgia foram instituídos em 1970 quando a telenovela passou a ser um produto comercial. Os horários estipulados pela Rede Globo foram pensados para públicos diferentes: 1) 18h é reservado para tramas românticas e histórias leves; 2) 19h vai ao ar novelas com histórias de comédia; 3) 20h ou 21h é famoso por tramas polêmicas que abordam temas que pautam a agenda social brasileira. Este é considerado o horário nobre da emissora, por reter maior audiência durante a transmissão da chamada “novela das oito”.

A liderança absoluta da telenovela do horário nobre não se deve ao acaso ou a artimanhas exteriores a ela. É o espaço da cultura brasileira, onde a realidade penetra, se torna ficção e retorna, maquiada, como não poderia deixar de ser, mas por profissional que entende da arte: não trabalha para desfigurar mas para realçar traços e atenuar deformações da realidade, às vezes escondida, por vezes insuportável. (LIMA, MOTTE e MALCHER, 2000)

O motivo para essa grande audiência da novela das oito pode ser explicada pelo fato de ser transmitida em um horário em que as pessoas costumam chegar do trabalho e se sentam para relaxar e assistir televisão com a família, mas pode ser considerada também como uma forma de mostrar que apesar do público gostar de ficção, prefere não se distanciar da realidade ao dar mais atenção a tramas que podem conter símbolos e assuntos do seu próprio dia a dia. O termo “novela das oito” foi criado por produtores, telespectadores e pela mídia justamente para indicar essa familiaridade e predominância do horário, da emissora e do programa, conforme Ondina Fachel Leal (1998), que destaca também que

A novela das oito é o programa que por maior período de tempo na história da televisão no Brasil mantém o mais alto índice de audiência e a maior dispersão de audiência entre as diferentes classes sociais. É um programa característico da Indústria Cultural, no sentido de ser racionalmente produzido visando um público massivo. [...] O aparelho de televisão, a imagem da novela das oito, o domínio da informação em detalhes sobre as estórias das novelas, são referentes importantes e parte de um sistema de significados que tem sentido e existência nas condições de sua recepção, nas vidas e vivências dos indivíduos que a captam.  (LEAL, 1998)

A emissora que detém maior parte da audiência da novela das oito é a Rede Globo de Televisão que entrou no ar dia 26 de abril de 1965, no Rio de Janeiro. Quatro anos depois começou a ser transmitida em rede e em 1975 já tinha uma programação nacional. Atualmente alcança 99,5% da população brasileira em 98,44% dos municípios e é diariamente assistida por mais de 183 milhões de brasileiros, por meio de 122 retransmissoras, sendo 117 afiliadas, segundo informações disponibilizadas no site da emissora.

2.2 Os negros na teledramaturgia

Se analisarmos as primeiras novelas transmitidas no Brasil até as atuais, veremos que os negros nunca tiveram muito espaço nesse campo.  Joel Zito Almeida de Araújo (2004) fez um estudo com esse viés e o resultado é dramático, mostrando que a imagem dos negros nas novelas em que aparecem sempre foi estereotipada, salvo raras exceções que só vieram aparecer na década de 70, em que começaram a escalar mais atores negros, inclusive com o primeiro personagem negro de classe média.

Uma rápida análise do histórico das novelas transmitidas pelas TVs Excelsior, Tupi, Cultura, Paulista, Rede Record e Rede Globo, mostra que poucas vezes os negros aparecem e na maioria das vezes em que integram o elenco é em papéis secundários e sem importância, tanto que sequer chegam a serem citados nos resumos das tramas, exceto quando se trata de escravidão.

Influenciada pelas produções americanas, a TV brasileira não soube e ainda hoje tem dificuldades em representar grande parcela de sua população na teledramaturgia. O ideal do branqueamento está presente também nas produções televisivas. Um exemplo claro pode ser destacado relembrando a novela A Cabana do Pai Tomás, de Hedy Maia, transmitida pela Rede Globo em 1969. Os protagonistas da novela eram o escravo Tomás e sua esposa Tia Cloé, interpretada pela atriz Ruth de Souza. Para ficar clara a influência de obras americanas, essa novela foi inspirada no romance Uncle Tom’s Cabin  de Harriet Beecher Stowe que foi importante para o movimento abolicionista dos Estados Unidos. Não haveria problemas na adaptação brasileira, inclusive pode ser considerada uma das poucas que teve uma atriz negra como um dos destaques, a polêmica está no ator que interpretou o protagonista Pai Tomás, Sergio Cardoso era branco. A produção do personagem pode ser considerada uma afronta aos atores negros que tinham capacidade suficiente para desempenhar o papel. Sérgio era pintado de preto, usava peruca e colocava rolhas no nariz e na boca, técnica conhecida como blackface, também copiada do cinema americano. (Guia ilustrado TV Globo, 2010).

Porém, algumas obras devem ser lembradas como as que valorizaram de alguma forma os atores negros, dentre elas, podemos citar a novela O Direito de Nascer, transmitida pela TV Tupi em 1964, em que a atriz negra Isaura Bruno interpretou uma criada negra que criou desde bebê o protagonista da trama. Filho de uma moça que engravidou do namorado e foi abandonada é dado a empregados pelo avô, foi roubado por Mamãe Dolores que o criou com todo carinho maternal. Mamãe Dolores fez tanto sucesso e, apesar de não ter sido a protagonista, foi uma das personagens mais importantes da história, que comoveu o público e chamou a atenção de revistas que a idolatravam.

A atriz ficou conhecida pelo papel de Mamãe Dolores, porém o sucesso foi passageiro, ela ainda chegou a integrar o elenco de outras três novelas. Mas segundo cita Araújo (2004), em relação de atores consagrados que se tornaram ídolos nos primeiros anos da teledramaturgia brasileira, não consta o nome de nenhum ator afro-brasileiro, nem mesmo o da aplaudida Isaura Bruno. (ISMAEL FERNANDES apud ARAÚJO, 2004).

Outras poderiam ser citadas como exemplos de obras que deram algum destaque aos atores negros, porém ainda assim não podem ser consideradas de tanta importância em vista do que os atores negros poderiam desenvolver.  A história da telenovela no Brasil não deixa claro quem foi o primeiro ator ou atriz negro a interpretar o papel de protagonista. Podemos destacar o papel de Ruth de Sousa em A Cabana do Pai Tomás, da Rede Globo; o ator Zózimo Bulbul que interpretou o personagem Rodney na novela Vidas em Conflito, da extinta TV Excelsior, em 1969; a atriz Yolanda Braga com a personagem Clotilde em A Cor da Pele, da também extinta TV Tupi, em 1965, que inclusive foi a primeira novela a abordar o preconceito racial.

Porém, a personagem que entrou para história como sendo a primeira protagonista negra da teledramaturgia brasileira contemporânea foi Xica da Silva, que revelou a atriz Taís Araújo, já em 1996, na novela homônima transmitida pela extinta Rede Manchete.

Os atores citados, apesar de serem pioneiros na representação do negro na teledramaturgia deixam clara a desigualdade entre brancos e negros nesses mais de 40 anos de história. A eles sempre foram reservados papéis secundários como escravos, empregados/as domésticos, marginalizados, enfim, o núcleo pobre da trama. Poucas vezes interpretaram um papel no núcleo rico, sendo a mais recente lembrança de uma família negra de classe média a da novela A Favorita, transmitida pela Rede Globo em 2008. Porém, apesar de serem da classe média a imagem não deixou de ser estereotipada. A família desajustada era composta pelo pai, Romildo Rosa (Milton Gonçalves) que era um deputado corrupto que lucrava com o tráfico de armas; a filha Alícia (Taís Araújo), uma “patricinha”  sustentada pelo pai, mesmo o acusando constantemente de ser um político ladrão; e o filho Diduzinho (Fabrício Boliveira) um jovem alcoólatra que não consegue fazer nada de importante na vida, nem mesmo ter sucesso na política.

Em 1969 foi ao ar pela TV Excelsior a novela Vidas em Conflito, de Teixeira Filho, em que o personagem Zózimo Bulbul foi um dos destaques. Foi a primeira novela a contar com um núcleo negro importante e a mostrar a primeira família negra. Segundo destaca Zito, o propósito do autor era discutir temas raciais como o casamento inter-racial, mas a experiência não foi bem aceita pelo público e o enredo foi sendo modificado para acabar com esse núcleo.

As explicações dadas pelo autor do script foram que o público reagia negativamente ao tema, através de cartas; que os atores negros não têm condições satisfatórias de representar. [...] O recurso foi eliminá-los através da alteração do enredo. (COUCEIRO apud ZITO, 2004)

Nas décadas de 60 e 70, os negros interpretavam papéis de anjos da guarda dos brancos, sempre subordinados e raramente demonstravam orgulho de sua raça. A inclusão de uma família negra poderia ter sido considerada uma conquista, não fossem as manifestações contrárias do público, que deixa explícito o preconceito arraigado na sociedade. Foi também na década de 70 que se destacaram novelas sobre a escravidão.

Nas décadas de 80 e 90, os negros começam a desempenhar papéis de classe média e a sociedade já aceita com mais naturalidade, inclusive relações inter-raciais, porém ainda prevalecem personagens serviçais e classe baixa como empregadas subordinadas.

É mais fácil lembrarmos personagens para exemplificar esse tipo de papel como a empregada Zilda (Thalma de Freitas) que deixava clara sua subordinação à patroa Helena (Vera Fischer) em Laços de Família (Rede Globo, 2000). Mais visível era a idolatria da empregada Sheila (Priscila Marinho) pela patroa Melissa Cadore (Cristiane Torloni), em Caminho das Índias (Rede Globo, 2009). Sheila demonstrava ser capaz de tudo pela patroa, e sonhava ser como ela ao invés de valorizar sua raça, a imitava na vaidade usando os mesmos cremes e suportava com certo prazer a forma como era tratada, sempre com gritos e autoritarismo. Porém, em ambos os casos, as patroas também demonstravam gostar de suas empregadas negras, as tratavam bem e não demonstravam preconceito contra elas, mesmo Melissa com seu jeito deixava claro que Sheila era sua empregada preferida dentre as outras serviçais da casa, também negras.

Analisando o elenco negro das 15 novelas do horário nobre da Rede Globo entre 2000 e 2009, foi possível identificar dois professores, dois empresários, três músicos, um advogado, duas mães de santo, cinco modelos e cinco profissionais da saúde (médicos e enfermeiros), mas os papéis mais desempenhados por atores e atrizes negros foram de prostituta e marginal, com sete personagens identificados e o que predomina é o de trabalhador doméstico com 25 identificados entre governantas, arrumadeiras, faxineiras, cozinheiras e copeiras. Além de 47 personagens entre os quais foi possível identificar crianças, adolescentes, desempregados, donas de casa e outras profissões que apareciam apenas uma vez, além de outros que sequer foi possível identificar a profissão.

Tabela 1. Personagens negros nas telenovelas do horário nobre da Rede Globo – 2000 a 2009

Novela Período e horário de transmissão Autor Personagem negra/o
Laços de Família 05/06/2000
a
02/02/2001 – 21h
Manoel Carlos

- Aline (Ana Carbatti): médica

- Irene (Cléa Simões): governanta

- Marisa (Sônia Siqueira): empregada doméstica

- Zilda (Thalma de Freitas): empregada doméstica

- nome não identificado (Cris Vianna): empregada doméstica

- Nair (Nivia Helen): profissão não identificada, ex-mulher de Laerte

- Maria (Samantha Brandão): adolescente, filha de Aline

- Laércio (Luciano Quirino): médico esteticista

- Tide (Samuel Melo): criança, filho de Laerte

Porto dos Milagres  05/02/2001
a
29/09/2001 – 21h
Aguinaldo Silva e
Ricardo Linhares 

- Esmeralda (Camila Pitanga): baiana sensual, profissão não identificada

- Selminha Aluada (Tais Araujo): prostituta

-  Mãe Ricardina (Zezé Motta): mãe de santo

-  Rufino (Sergio Menezes): pescador

O Clone 01/10/2001
a
15/06/2002 – 20h30
Glória Perez 

- Deusa (Adriana Lessa): manicure e mãe do personagem central – o clone humano

- Lola (Léa Garcia): profissão não identificada

- Dalva (Neuza Borges): governanta

- Dona Mocinha (Ruth de Souza): dona de casa, avó do clone humano

- Carol (Thalma de Freitas): advogada

- Tião (Antonio Pitanga): profissão não identificada

- Basílio (Silvio Guindane): funcionário em um bar

Esperança  17/06/2002
a
15/02/2003 – 20h
Benedito Ruy Barbosa
e
Walcyr Carrasco

- Nhá Rita (Chica Xavier): empregada doméstica

- Julia (Sheron Menezes) empregada doméstica, filha bastarda do barão do café

- Chiquinho Forró (Cosme dos Santos): profissão não identificada

- Matias (Milton Gonçalves): profissão não identificada

Mulheres Apaixonadas 17/02/2003
a
11/10/2003 – 21h
Manoel Carlos

- Luciana (Camila Pitanga): médica

- Pérola (Elisa Lucinda): cantora

- Maria (Idelcéia Santos): empregada doméstica

- Adelaide (Lica Oliveira): professora

- Sonia (Priscila Dias): empregada doméstica

- Zilda (Roberta Rodrigues): empregada doméstica

- Jairo (Diego Jack) – criança

- Ataufo (Laerte de Freitas): músico

- Jeremias (Wilson Cardoso): motorista

Celebridade  13/10/2003
a
26/06/2004 – 20h
Gilberto Braga 

- Palmira (Adriana Alves): arrumadeira

- Zaíra (Janaina Lince): assistente em uma produtora

- Teresa (Michelle Valle): modelo famosa

- Iara (Sheron Menezes): copeira

- Regina (Aline Borges): empregada doméstica

- Bruno (Sergio Menezes): fotógrafo

- Comandante (Antonio Pitanga): comandante do Corpo de Bombeiros

- Tadeu (Alexandre Morenno): caixa de bar

Senhora do Destino  28/06/2004
a
12/03/2005 – 20h
Aguinaldo Silva

- Rita de Cássia (Adriana Lessa): profissão não identificada

- Marina (Ruth de Sousa): governanta

- Lady Daiane (Jéssica Sodré): adolescente (fica grávida)

- Larissa (Juliana Diniz): adolescente

- Cigano (Ronnie Maruda): marginal, ex presidiário

- Maikel Jeckson (Agles Steib): adolescente

América  14/03/2005
a
05/11/2005 – 21h
Gloria Perez

- Drica (Cris Vianna): profissão não identificada, imigrante nos EUA

- Diva (Neuza Borges) profissão não identificada

- Rainha do Forró (Eliana Pittman) – dançarina

- Nossa Senhora Aparecida (Tais Araujo): santa

- Feitosa (Ailton Graça): professor de mestre sala em escola de samba

- Drica (Thainá Menezes): criança

Belíssima  07/11/2005
a
07/07/2006 – 20h
Silvio de Abreu

- Monica (Camila Pitanga): empregada doméstica

- Dagmar (Sheron Menezes): garçonete

- Rita (Teca Pereira): empregada doméstica

- Lourenço (Lui Mendes): booker

- Isautino (Tony Tornado): profissão não identificada

Página da Vida 10/07/2006
a
02/03/2007 – 20h
Manoel Carlos 

- Luciana (Aline Aguiar): profissão não identificada

- Margareth (Carolina Bezerra): cozinheira

- Selma (Elisa Lucinda): médica

- Dorinha (Quitéria Chagas): empregada doméstica

- promotor (Alexandre Morenno): promotor de justiça

- Salvador (Jorge de Sá): adolescente, filho de empregada, adotado pela protagonista

- Pinhão (Marcos Henrique): criança

- Não identificado – garoto atropelado no primeiro capitulo

Paraíso Tropical 05/03/2007
a
28/09/2007 – 21h
Gilberto Braga e Ricardo Linhares

- Bebel (Camila Pitanga): prostituta

- Sandra (Débora Santiago): profissão não identificada

- Tatiana (Lidiane Lisboa): profissão não identificada

- Cristina (Nivia Helen): arrumadeira

- Eloisa (Roberta Rodrigues): garçonete

- Paulão (Babu Santana): profissão não identificada

- Evaldo (Flavio Bauraqui): ourives

- Claudio (Jonathan Haagensen): assistente de promotor de eventos

Duas Caras 01/10/2007
a
31/05/2008 – 20h
Aguinaldo Silva 

- Morena/ Condessa de Finzi-Contini (Adriana Alves): ex-prostituta que ficou rica

- Mãe Bina (Chica Xavier): mãe de santo

- Sabrina (Cris Vianna): empregada doméstica

- Gislaine (Juliana Alves): rainha de bateria de escola de samba

- Solange (Sheron Menezes): filha do dono da favela, não aceitava ser negra

- Evilasio (Lazaro Ramos): funcionário da Associação de Moradores da favela

- Misael (Ivan de Almeida): carpinteiro

- Ezequiel (Flavio Bauraqui): motorista

A Favorita  02/06/2008
a
16/01/2009 – 21h
João Emanuel Carneiro 

- nome não identificado (Márcia Otto): garçonete

- Jurema (Mariah da Penha): empregada doméstica

- Alicia (Tais Araujo): artista plástica, filha de deputado (classe média negra da trama)

- Paulina (Tatiana Tibúrcio): profissão não identificada

- Romildo (Milton Gonçalves): Deputado corrupto

- Didu (Fabrício Bolivieira): filho de deputado, alcoólatra

Caminho das Índias 19/01/2009
a
11/09/2009 – 21h
Gloria Perez

- Sheila (Priscila Marinho): empregada doméstica

- Suellen (Juliana Alves): garçonete

- Cema (Neuza Borges): empregada doméstica

- Ademir (Sidney Santiago): adolescente esquizofrênico

- Eliseu (Darlan Cunha): funcionário de serviços gerais

- Maico (Mussunzinho): adolescente

Viver a Vida  14/09/2009
a
14/05/2010 – 21h
Manoel Carlos

- Helena (Tais Araujo): modelo

- Edite (Elisa Lucinda): dona de pensão

- Sandra (Aparecida Petrowky): adolescente, fica grávida de um marginal

- Ronaldo (Cesar Melo): dono de pensão

- Benê (Marcelo Melo Jr.): marginal

- Paulo (Michel Gomes): adolescente

- Andre (Antonio Firmino): profissão não identificada

- Oswaldo (Laércio de Freitas): músico

- Neusa (não identificada): enfermeira que cuidou de Sandra no inicio da novela

Segundo levantamento do IBGE, em 2008, 50,6% da população brasileira era negra, considerando pretos (6,8%) e pardos (43,8%). Essa população, principalmente as mulheres, ainda sofre com a desigualdade racial em diversos campos, como o mercado de trabalho. Segundo a obra “Negros no Brasil: Dados da realidade” (1989), que faz parte do “Projeto Negro”, lançado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a mulher negra é “herdeira de uma dupla discriminação”, por ser mulher e por ser negra. Na década de 1980, em que foi realizado o levantamento, elas eram maioria no setor de prestações de serviços e no trabalho braçal, enquanto que nos cargos administrativos ocupavam apenas 3,9% das vagas.

O estudo “A mulher negra no mercado de trabalho: Inserção marcada pela dupla discriminação” (2005), realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) é mais recente, mas podemos verificar que a situação não mudou muito. O estudo analisou o mercado de trabalho em seis regiões metropolitanas no período de 2004-2005, e mostra que a maior parcela de ocupados em trabalhos vulneráveis que abrangem trabalhadores informais, autônomos e empregados domésticos é de negros, sendo ainda maior entre as mulheres negras que ultrapassa 50% em algumas regiões. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) também realizou estudo, em 2005, que mostra que nas regiões analisadas a diferença da ocupação da mulher negra (pretas e pardas) no trabalho doméstico é pelo menos o dobro em comparação com a mulher não negra (brancas e amarelas), e em Salvador, estado conhecido pela cultura afro, chega a ser mais que o triplo. 

Não seria ruim se a profissão não fosse desvalorizada pela sociedade, tanto que, segundo o estudo do DIEESE, caracteriza-se pela baixa remuneração, desigualdade de direitos em relação aos demais trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pela longa jornada de trabalho, além de estar entre as profissões com maiores índices de contratações ilegais.

Semelhante ao mercado de trabalho da realidade é a representação da mulher negra, e dos negros em geral, na teledramaturgia brasileira, como mostra estudo realizado por Araújo (2004), sobre a representação dos negros em telenovelas transmitidas entre 1963 e 1997, pela TV Tupi, TV Excelsior e Rede Globo.  Como destacado no inicio desse trabalho, ressaltando a análise só das décadas de 1980 e 1990 em que os negros começam a ascender na teledramaturgia, foram pouco representados, e raramente interpretavam personagens de classe social mais alta e em profissões de valor social reconhecido, destacavam-se os estereótipos que a sociedade insiste em atribuir a essa parcela da população.

Em poucos trabalhos identificamos atores negros nos papéis principais, de protagonistas ou antagonistas. [...] Se o personagem criado pelo autor não receber, na sinopse, referências sobre o seu pertencimento racial, o ator branco tende a ser escolhido. O afro-descendente só terá a sua oportunidade assegurada se existirem rubricas que evidenciem a necessidade de um ator negro. Se na construção do personagem for destacado um tratamento estereotipado, recorrendo aos arquétipos da subalternidade na sociedade brasileira, aumenta a possibilidade de construção para o ator negro. De um modo geral, ao ator afro-brasileiro estão reservados os personagens sem, ou quase sem, ação, os personagens passageiros, decorativos, que buscam compor o espaço da domesticidade, ou da realidade das ruas, em especial das favelas. (ARAÚJO, 2004)

Para Jesus Martin-Barbero (2006) a população negra quer ter reconhecimento independente de sua raça ou cor, principalmente junto à mídia que é a nossa representante simbólica, que dá voz à população, principalmente às minorias. A atriz Chica Xavier, em entrevista para a obra de Sandra Almada (1995), “Damas Negras: Sucesso, lutas, discriminação”, reforça esse pensamento de Martin-Barbero.

O negro ainda está muito aquém do seu lugar e a mulher negra mais ainda, porque a sociedade está muito longe de reconhecer que ela está ascendendo. Eu e meu marido lutamos pela educação de nossos filhos. Já conseguimos colocar duas filhas formadas. [...] Mas isso não é reconhecido. Eu queria que mostrassem na “telinha”, famílias com filhos formados, mulheres como eu, que vim de encadernadora da Imprensa Oficial da Bahia e cheguei a ser jornalista do serviço público. [...] Eu queria que mostrassem isso para ajudar essa gente a sair da senzala. Para animar essa gente a descer do morro, e dizer: ‘Eu vou estudar, não vou bater carteira. Eu vou colocar meu filho para estudar. Estou lavando roupa para fora, trabalhando na cozinha, mas amanhã minha filha vai lidar com um microondas na casa dela’. É preciso mostrar isso. Mas ninguém levanta essa bandeira. E nós, os atores, sozinhos, não temos força, porque não nos dão papel para mostrarmos isso. Nós poderíamos levantar essa bandeira no nosso trabalho, mas a bandeira que nos dão é encarar um fogão de lenha. [...] O que se constata, então, é que, na televisão, o preconceito racial se manifesta ostensivamente nos textos. (XAVIER in ALMADA, 1995)

A telenovela pode ser um espaço para que a população negra busque esse reconhecimento e mostre que tem potencial, apesar de não se encaixar no perfil considerado padrão pela sociedade. Porém, os papéis destinados na maioria das vezes para esses atores e atrizes, podem passar para a sociedade essa forma estereotipada, podendo, inclusive, influenciar o preconceito.

Segundo Paiva (1999), as novelas abriram espaço que mostram os valores da cultura de passagem do século onde a ficção e a realidade muitas vezes se confundem. As histórias e personagens das telenovelas interferem na opinião do mundo real.

A ficção brasileira se distingue pela maneira como os discursos das personalidades políticas e com poder de decisão se infiltram no corpo da trama. As fronteiras entre ficção e realidade por vezes não são muito nítidas; a ficção é frequentemente povoada por personagens reais e exibe traços da aparência visível da realidade brasileira (PAIVA, 1999).

A telenovela é responsável pela construção da realidade no imaginário do público, o que influência na construção de identidades. Essa influência pode ser um risco para a construção da imagem da mulher negra, pois a forma estereotipada como ela é vista nas telenovelas pode interferir na construção de sua imagem real. Marcos Paulo de Araújo Barros (2010) no artigo “Favela e representações de identidade: estereótipos em Viver a Vida”, destaca que:

Pensando na questão da interferência do imaginário coletivo, que por sua vez incide sobre a construção de modelos identitários, faz-se necessária a reflexão da identidade sendo configurada numa sociedade midiatizada, que caracteriza os tempos atuais. (BARROS, 2010)

A Rede Globo e o autor Manoel Carlos surpreenderam, inicialmente, ao apresentar um elenco com um núcleo negro bem sucedido financeiramente, formando uma família feliz e com uma protagonista que deixou a cozinha para ocupar as passarelas, como uma modelo famosa. A novela Viver a Vida poderia ter sido um presente para a população negra. Porém, foi considerado um fracasso não só de audiência, mas de representações sobre a questão racial como discutiremos no próximo capítulo.

CAPÍTULO III

HELENA NEGRA: A PROTAGONISTA SECUNDÁRIA

3  MANOEL CARLOS E SUAS HELENAS

O paulista Manoel Carlos Gonçalves de Almeida nasceu em 1933. Foi um dos atores pioneiros da teledramaturgia brasileira, porém deixou de atuar para produzir e dirigir diferentes programas na televisão com os mais variados perfis como show, musical e humor. Mas seu maior talento estreou na TV em 1978 com a novela Maria Maria e se confirmou no decorrer dos últimos anos com as dezoito obras de sua autoria, entre novelas e minisséries. Passou pela Rede Manchete e TV Bandeirantes e em 1991 retorna de vez para a Rede Globo com a novela Felicidade. A partir daí todas as suas novelas teriam como protagonista uma mulher com o nome de Helena e seriam um canal para difusão de merchandising social.

Suas obras também são facilmente identificadas pelas histórias que se passam no bairro Leblon, no Rio de Janeiro, e pelos nomes dos personagens que se repetem e que costumam ser interpretados por atores que já são figurinhas carimbadas nos elencos, como Jose Meyer que frequentemente faz par romântico com as protagonistas.

Maneco, como é chamado entre os artistas, valoriza a mulher em suas tramas, sendo os homens apenas secundários na vida das personagens, principalmente de suas protagonistas. Luciene dos Santos (2008) destaca em seu artigo “A representação da subjetividade feminina nas telenovelas brasileiras”, que a essência feminina sempre esteve presente na história da teledramaturgia brasileira e a partir da década de 1990 coube ao autor Manoel Carlos a “tradução da alma feminina” em novelas da Rede Globo.

O autor reunirá em diversas crônicas a cotidianeidade das mulheres contemporâneas, retratando seus diversos conflitos e tensões sociais. Irá discutir as relações humanas a partir do terreno da afetividade que se desenvolve em uma metrópole contemporânea, o Rio de Janeiro, privilegiando as questões do amor, da família, da paixão e da sexualidade. [...] Manoel Carlos tratou o texto de suas telenovelas de forma cada vez mais centralizada na perspectiva feminina. [...] Os homens aparecem mais frágeis dependentes das mulheres, experimentam uma incompletude diante da vida, principalmente nos personagens protagonistas. Todos procuram por um amor ideal e nenhum se satisfaz, no final se confrontam com a possibilidade de uma mulher com defeitos, ambiguidades morais e capazes de atitudes cruéis e egoístas, mesmo evocando um altruísmo e renúncia. (SANTOS, 2008)

Essas mulheres capazes de atitudes drásticas em nome do amor à família costumam ser as protagonistas que desde 1991, tradicionalmente, recebem o nome de Helena.  Em entrevista à revista Istoé Gente, em 2005, quando entrava no ar a novela Páginas da Vida, questionado sobre a escolha do nome o autor afirmou:

Ao contrário do que muita gente pensa, Helena não foi minha mãe, não é nenhuma filha, namorada ou ex-mulher. Helena nos remete à Helena de Tróia, da mitologia grega. Uma mulher forte, diferente, destemida, que faz sacrifícios incríveis, que é feliz e infeliz quase ao mesmo tempo. Uma mulher absolutamente atual 

Segundo a mitologia grega, Helena de Tróia era considerada a mulher mais bela do mundo, cobiçada por vários homens. Realmente, como afirmou Manoel Carlos, é semelhante às suas protagonistas que são sempre mulheres lindas e destemidas, admiradas por todos e capazes de tudo em nome do amor.  As Helenas das três novelas, sempre nos referindo ao período de 2000 a 2009, anteriores à Viver a vida, eram brancas e mais velhas, já tinham uma vida estruturada, inclusive profissionalmente, já haviam vivido grandes paixões e passaram dificuldades por amor à família, demonstrando garra para vencer os conflitos e superar os problemas de uma mulher madura. A Helena de Viver a Vida, interpretada pela atriz Taís Araújo que viveu sua terceira protagonista, era jovem e negra, porém já vivia uma carreira como modelo bem sucedida e também ajudava a resolver os conflitos familiares, além de seus próprios conflitos pessoais. E foi uma personagem esperada pelo público, pois seria a primeira protagonista negra de uma novela do horário nobre da Rede Globo e do autor que lança grandes debates sociais por meio de suas tramas. Esperava-se que ela trouxesse o debate da questão racial, mas surpreendeu e parte do público como militantes, membros do Movimento Negro, estudiosos como Joel Zito Almeida de Araújo e alguns noveleiros de plantão demonstraram descontentamento em entrevistas e páginas da internet.

Embora a intenção inicial do autor fosse ter pela primeira vez a Helena negra, isso não deu certo porque a Helena no início foi antipática porque era elitista, era esnobe e depois foi antipática porque era submissa. Então o sofrimento da Helena, no meu ponto de vista, na minha sensibilidade, foi rejeitado porque era um sofrimento de submissão. É diferente do sofrimento do personagem da Aline Moraes, que era um sofrimento de reerguimento, de superação. Enquanto Aline sofria para superar, a Helena sofria de submissão. Então ser boazinha neste caso pegou mal. Do mesmo jeito que pegou mal ser muito de elite. Muito acima do bem e do mal. Foi dessa forma que eu analisei a novela até onde eu vi. (ARAÚJO, 2010)

Vale ressaltar que a atriz Taís Araújo foi revelada aos 17 anos, quando interpretou, em 1996, na extinta Rede Manchete, a personagem Xica da Silva, que é considerada a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira contemporânea. E esteve em destaque em 2003, quando novamente viveu a personagem principal, desta vez em uma novela da Rede Globo. Interpretou a feirante Preta na novela Da Cor do Pecado, das 19h. Ambas, assim como a recente Helena, receberam críticas por não ajudar a mudar a visão que a sociedade tem das mulheres negras. Inclusive contribuindo de forma contrária como afirma Raquel Luciana de Souza (2010), no artigo “De Chica a Helena: Representações de gênero, raça e violência simbólica na mídia brasileira”. Souza ressalta, inclusive, que a novela Da Cor do Pecado trazia características que reforçavam a imagem estereotipada da mulher negra.

Em dezembro de 2003, criou-se um furor na mídia, em torno do fato de que a novela das 7 da noite teria sua primeira protagonista negra, Taís Araújo. Porém, simultaneamente, um duro golpe foi desferido nas esperanças de que a personagem trouxesse alguma redenção para a já dilapidada imagem das mulheres negras na televisão brasileira: o título da novela, A Cor do Pecado. A trilha sonora trazia a canção homônima, cuja letra discorre sobre a traiçoeira irresistibilidade da cor e do sabor da pele morena. Salta aos olhos, portanto, as óbvias e aflitivamente problemáticas implicações da associação direta da raça negra e a pele não branca com o pecaminoso ou a transgressão de preceitos cristãos. E a trama... Trazia mais uma vez, uma mulher negra pobre que encanta um branco rico com o seu charme e simplicidade, e que inexplicavelmente não consegue resistir aos encantos de sua pele, da “cor do pecado”. [...] Preta, assim como Xica e atualmente Helena, incorporam o pensamento hegemônico sobre raça e miscigenação, e sobre relações raciais e de gênero no país. Essas personagens possibilitam uma reiteração contemporânea das narrativas fantasiosas de Gilberto Freyre sobre o processo de colonização do Brasil, e, por conseguinte, do mito da democracia racial. Concomitantemente, as mesmas incorporam e se encontram inseridas em tramas que evidenciam as profundas contradições desses mitos fundadores e narrativas tradicionais. (SOUZA, 2010)

A representação da mulher negra será analisada aqui a partir do destaque e desempenho da Helena de Viver a Vida, em comparação com outras três Helenas da década de 2000, interpretadas por atrizes brancas e que desempenharam papéis de heroínas maternais. O questionamento que se faz é porque, ao contrário dessas heroínas brancas, que condizem com o padrão estético imposto pela sociedade, a Helena negra foi considerada um fracasso? Inclusive, recebendo várias críticas como a do jornalista Wander Veroni (2009) em que ele deixa claro que Taís Araújo não conseguiu atender as expectativas do público que esperava, mais uma vez, por uma personagem que trouxesse à tona o debate sobre a questão racial.

A Helena criada por Maneco não levanta a bandeira da cultura negra e, por isso, foi criticada por interpretar “uma branca”. Esse tipo de afirmação me dá “nó na garganta” e só reforça o preconceito velado que existe em nossa sociedade. [...] Seria a hora ideal para o Maneco colocar uma Helena firme, dona de si e determinada, assim como as Helenas que foram interpretadas por Vera Ficher e Christiane Torloni. A Helena virou a “Geni” de Viver a Vida, assim como a música de Chico Buarque. Todo mundo agora quer jogar uma pedra. Assim não dá! (VERONI, 2009)

A análise será feita em torno da construção de identidades criadas pelas produções televisivas em que a imagem da própria mulher costuma ser estereotipada, exemplo claro são as propagandas de cerveja que sempre traz uma mulher linda, sensual e seminua. Mas as telenovelas são um meio ainda mais preciso para discutir essas construções de identidades do feminino e em especial, da mulher negra. Roberta Casanova (2010) em seu artigo “Entre mocinhas e vilãs, a mulher. Uma análise sobre a imagem feminina em telenovela” destaca que o próprio público telespectador ajuda nessa construção.

Sendo a telenovela uma obra em aberto, onde a condução da história depende em boa parte da sua audiência, é possível afirmar que os telespectadores são co-autores dos folhetins. E, por isso mesmo, são também responsáveis por essas representações. Considerando que há pesquisa de opinião e grupos de análise qualitativa sobre as tramas melodramáticas e seus personagens, acredita-se que o papel da mulher nas telenovelas é endossado por um discurso social fortemente patriarcal. Apresentar personagens femininas engajadas, determinadas, auto-suficientes e realizadas, sem estereotipá-las ou puni-las, talvez ainda seja desconfortável para o horário nobre. (CASANOVA, 2010)

3.1 Laços de família

A novela Laços de Família foi transmitida pela Rede Globo no período de 05 de junho de 2000 a 02 de fevereiro de 2001, no horário das 21h. A novela de 209 capítulos trazia histórias sobre relações amorosas e de amor materno. Conquistou grande audiência por mostrar o sofrimento de pessoas com leucemia e ajudou a mudar a realidade ao abordar a importância da doação de medula óssea.  Além de outros problemas sociais como a vida de universitárias que se prostituiam para pagar a faculdade e a superação de portadores de necessidades especiais.

A história principal, que foi o drama da protagonista Helena (Vera Fischer) para salvar a vida da filha que tinha leucemia foi baseada em um caso real que aconteceu nos Estados Unidos. Manoel Carlos conseguiu aproximar o telespectador da realidade como afirma Rosemary Rodrigues (2006):

A aproximação entre telespectador e telenovela ocorre na medida em que o discurso novelístico apela para o que se tem de mais latente e pulsante nas pessoas: os desejos e as paixões. É apostando nessa paixão e identificação do povo brasileiro, que Manoel Carlos constrói uma novela nos moldes humanitários. Com o slogan sua vida pode ser uma novela, Laços de Família apela para a aproximação entre o telespectador e os dramas de cada personagem, apontando que essa novela é o mais próximo possível da vida de cada um. (RODRIGUES, 2006)

A trama foi vendida para mais de 65 países e influenciou em uma campanha para doação de medula óssea nos Estados Unidos, o que mostra o poder do merchandising social presente nas obras de Manoel Carlos.

Estima-se que essa foi a novela das oito mais vista desde 1997, com uma média de 46 pontos registrados pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), chegando ao pico de 61 pontos no capitulo em que a personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspou a cabeça.

3.1.1 Vera Fischer – A Helena capaz de tudo pelos filhos


Fig.1:
Helena – Laços de Família

A Helena da novela Laços de Família foi interpretada pela atriz Vera Fischer. Era uma mulher madura, viúva, mãe de dois filhos, Camila e Fred (Luigi Baricelli), e avó de uma menina. Nascida no Rio Grande do Sul se mudou para o Rio de Janeiro ainda jovem e se casou com o pai de Fred. Separou-se e voltou para a fazenda do pai no Sul, de onde foi expulsa ao engravidar de Camila.

Querida e amada pelos amigos e pela família, era sócia de uma clinica de estética e fazia parte do núcleo de classe média da novela, que nas tramas de Manoel Carlos vivem no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.

Uma loira bonita, elegante, sensual, independente e bem resolvida que atraia a atenção do núcleo masculino da trama. Envolveu-se com o médico Edu (Reynaldo Gianecchini), vinte anos mais jovem, que conheceu quando bateram o carro no primeiro capítulo. Começaram a namorar, mas sofreram com o preconceito por causa da diferença de idade, principalmente por parte da tia do rapaz. A filha Camila que morava no Japão, voltou para o Brasil e se apaixonou por Edu e Helena, em um ato extremamente maternal, abriu mão do namorado pela felicidade da filha.

Envolveu-se com Miguel (Tony Ramos), porém, mais uma vez colocou seu amor materno acima da relação. Quando descobriu que Camila tinha leucemia, demonstrou força e travou uma batalha pela cura da filha. Ao saber sobre um caso nos EUA em que um casal teve outro bebê para curar a filha com leucemia através das células do cordão umbilical, Helena não pensou duas vezes, terminou o namoro com Miguel e revelou um segredo que guardou durante mais de vinte anos. Contou para todos que o verdadeiro pai de Camila era Pedro (José Mayer), um primo com quem viveu um romance na juventude. Sem levar em conta a opinião das pessoas, engravidou dele novamente para tentar curar Camila e dessa tentativa bem sucedida nasceu Vitória.

Foi uma personagem de destaque e importante para o desenvolvimento da trama. As histórias de maior importância e a mais dramática a envolveram diretamente.  Foi uma personagem extremamente maternal que fez o papel de mãe protetora, heroína, capaz de tudo para salvação da filha, sem se importar com a opinião da sociedade.

Rodrigues (2006) destaca uma fala de Helena no capítulo 141, em que ela deixa claro que é capaz de tudo pelos filhos, até de abrir mão da própria felicidade, ao revelar a Miguel o porquê não aceita seu pedido de casamento.

[...] Fiquei pensando em tudo que eu já fiz pela felicidade dos meus filhos e em tudo que ainda sou capaz de fazer. Não existem limites, não existem barreiras no meu amor por eles. Pra muita gente, eu tô errada, eu sei! Pode se dar tudo aos filhos, menos a nossa própria felicidade. Mas, como uma mãe pode ser feliz se a felicidade dos filhos não tá incluída nessa felicidade? A minha mãe era assim! Por amor a mim, ela me acompanhou, ela deixou a fazenda para vir comigo pro Rio, ela abriu mão de tudo e acabou perdendo o meu pai. Acho que essa renúncia pelos filhos é um mal de família. Na minha vida tem sido assim! Eu abri mão do Edu pela Camila e, pela Camila, abri mão de você (RODRIGUES, 2006).

Foi uma das protagonistas de maior destaque do autor Manoel Carlos pela carga emocional que trouxe consigo. Foi capaz de fazer o público, principalmente o feminino, se envolver e se identificar com os dramas e atitudes da mãe que abdicou da própria felicidade pela harmonia e felicidade dos filhos.

3.1.2 Área de serviço: o ambiente das personagens negras

O núcleo negro da novela é formado basicamente por empregadas domésticas, inclusive Zilda (Thalma de Freitas) empregada de Helena, que é tratada com carinho pela patroa, como se fosse parte da família. Mas que desempenha um papel de anjo da guarda da patroa branca, o que não a diferencia das criadas negras das telenovelas dos anos 70. “Foi acentuada nos anos 70 a tendência de utilização do personagem negro como uma espécie de protetor do protagonista, representados por atores brancos.” (ARAÚJO, 2004)

Dentre os sete personagens identificados há uma médica, a única personagem que aparece com uma família. Além de mais três empregadas domésticas, dentre outras com profissão não identificada. As empregadas, a exemplo de Zilda que até comenta sobre alguns parentes que moram longe, mas que nunca aparecem e a governanta da família de Miguel que é tratada como se fosse da família dos patrões, mas que não aparece com nenhum parente de sangue, nenhuma delas tem relação familiar com pessoas de sua raça.

O elenco negro de Laços de Família é um exemplo para o trecho de Rufino dos Santos (1988) destacado no artigo “Da senzala à cozinha: Trajetória das personagens negras na telenovela brasileira” de Danúbia Andrade (2008).

As telenovelas são um planeta branco, aqui e ali salpicado de pretos _o chofer, a cozinheira, o policial... Realistas no sentido em que são essas de fato as profissões comuns dos negros reais, mas falsificados no sentido em que eles não têm família, não têm ideias nem sentimentos, salvo os dos patrões: são coisas, apêndices, e não pessoas. (RUFINO DOS SANTOS apud ANDRADE, 2008)

3.2 Mulheres Apaixonadas

A novela Mulheres Apaixonadas foi transmitida pela Rede Globo entre 17 de fevereiro e 11 de outubro de 2003 no horário das 21h. Com 203 capítulos, era uma trama urbana e realista que tinha como foco principal as mulheres e seus dramas e histórias de amor. O merchandising social esteve fortemente presente, através da abordagem de vários temas como o tratamento aos idosos, homossexualidade, alcoolismo, violência doméstica e a atuação do grupo MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas, através do amor doentio da personagem Heloisa (Giulia Gam), irmã da protagonista Helena.

Além de uma campanha contra o desarmamento, que levou às ruas do Rio de Janeiro cerca de 40 mil pessoas, inclusive atores da novela, na manifestação “Brasil sem armas”. Uma parceria do autor Manoel Carlos e da emissora com a ONG Viva Rio para pressionar a aprovação do Estatuto do Desarmamento, que estava em trâmite no Congresso Nacional na época.  O tema foi abordado em uma das cenas que mais comoveu o público, que foi a morte da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) depois de atingida por uma bala perdida no bairro do Leblon. A repercussão dos temas junto ao público ganhou visibilidade internacional.

Foi uma trama intensa que desenvolveu várias histórias em diferentes núcleos, mas que tinha como essência os dramas do universo feminino. No artigo “Mulheres Apaixonadas: A imagem da mulher contemporânea na telenovela”, Elaine Aparecida Souto Antunes (2009) reforça a capacidade que a novela tem de penetrar no cotidiano do público, por causa da semelhança entre real e ficcional.

A análise do primeiro capítulo demonstrou que Mulheres Apaixonadas, durante seus oito meses de exibição diária, desenvolveria temáticas que se identificam com aquelas vividas por muito dos seus telespectadores, procurando recriar na ficção a realidade que está no imaginário da população. A novela também propõe indiretamente um diálogo e uma reflexão sobre a posição da mulher na sociedade contemporânea, já que traz temáticas que ainda causam polêmica no início do século XXI (ANTUNES, 2009)

Mulheres Apaixonadas registrou 46,6 pontos de audiência na Grande São Paulo, segundo dados do IBOPE.

3.2.1Cristiane Torloni – A Helena capaz de tudo pela própria felicidade


Fig.2:
Helena - Mulheres Apaixonadas

A Helena de Mulheres Apaixonadas, interpretada por Cristiane Torloni, também branca, era uma mulher madura, elegante, recatada. Era carinhosa e amável com os empregados, família e amigos. Professora e diretora querida e respeitada por todos na escola onde trabalhava e que pertencia à família de seu marido, o músico Téo (Tony Ramos).

Helena e Téo não tiveram filhos, por isso adotaram Lucas (Vitor Hugo), que ela criou como se fosse seu filho biológico. Fazia parte do núcleo de classe média e morava no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Possuía uma vida familiar estável até reaparecer uma antiga paixão, o médico César (Jose Mayer). Com o casamento já abalado, ela não pensou na família e abandonou o marido para reviver um grande amor. Mostrou-se uma mulher confiante e segura, e fez de tudo para reconquistar César com quem se casou no final.

A trama central girava em torno do “conflito existencial” de Helena que sofre quando de “um sentimento de incompletude surge o desejo de separar-se do marido músico e tentar, numa busca pelo passado, rever uma grande paixão”. (SANTOS, 2009). Ela vai à busca de sua felicidade, não sem sofrer ao esbarrar em seus próprios preconceitos por se sentir infeliz ao lado de um homem que a ama e em um casamento aparentemente perfeito, mas deixa de se sentir culpada ao descobrir que Lucas era na verdade filho de seu marido Téo com uma ex-prostituta, como destaca Santos ao reproduzir Maria Carmen Jacob (2006).

O ato de confrontar-se com a mentira e traição do marido gerou na personagem Helena sentimentos de crueldade e egoísmo a ponto de dizer “que não sou uma heroína, sou uma mulher comum”. Constatação que reforça nossa análise de que a forma de enunciação proposta pelo autor retira o caráter tipificado das personagens ficcionais das telenovelas e as aproxima de um dizer cotidiano sobre a vida. (JACOB apud SANTOS, 2009)

Por ser solidária e tentar resolver os problemas da família e de amigos, praticamente todas as histórias da trama a envolvem direta ou indiretamente. Ela aparece em grande parte dos capítulos e sua presença é importante para o desenvolvimento da novela.

3.2.2 Classe média e baixa: mulheres negras marcam presença nos dois núcleos

O núcleo negro de Mulheres Apaixonadas está dividido entre classe média e baixa. E as mulheres estão presentes nas duas com uma médica, uma cantora e uma professora, na classe bem sucedida. Mas no núcleo pobre prevalece a profissão estereotipada de empregada doméstica com três personagens. Os nove personagens negros identificados têm ligação direta com a protagonista, inclusive as empregadas, uma delas é mãe de um afilhado de Helena. A novela foi a estréia de uma atriz negra que mostrou talento, mas como uma personagem estereotipada, a empregada Zilda (Roberta Rodrigues), uma mulher sensual que era assediada pelo filho adolescente de seus patrões.

Zilda traz um dos piores estereótipos atribuídos às mulheres negras, como destaca Lucia Loner Coutinho (2010) “Esta imagem da mulher negra lasciva, elemento corruptor da ordem familiar, representada de forma quase animalesca, é um dos maiores estereótipos que acompanham a cultura e imagem dos negros”. Ela destaca, citando Sueli Carneiro (2002), que essa imagem atribuída à mulher negra foi cravada na cultura brasileira devido às relações dos tempos de escravidão em que as escravas eram acusadas de corromper a ordem familiar por seduzir seus senhores. “A sociedade colonial e escravista contribuiu imensamente para a criação do mito de mulheres quentes, atribuído, até hoje as negras e mulatas pela tradição oral e disseminado no meio intelectual através da literatura” (Carneiro apud COUTINHO, 2010).

Não só através da literatura, como expôs Carneiro, mas também por meio da cultura brasileira. Essa sensualidade ligada à cor da pele é um dos únicos atributos, por exemplo, que coloca a mulher negra em evidência na mídia em época de carnaval, em que os meios de comunicação divulgam intensamente as belas mulatas com seus corpos seminus atraindo a atenção do público, em especial dos turistas.

Vale ressaltar também, que uma das personagens que integrava o núcleo de classe média era a médica Luciana, interpretada pela atriz Camila Pitanga que apesar de se autodeclarar negra sua figura é “quase um contrassenso num país em que a negritude está tão ligada à cor da pele. O título de mulher-negra-que-chegou-lá nem sempre é atribuído a ela, já que muitas pessoas preferem considerá-la branca”. (CAROL FREDERICO, 2006) 

3.3 Páginas da Vida

A novela Páginas da Vida transmitida pela Rede Globo no período de 10 de julho de 2006 a 02 de março de 2007, totalizando 203 capítulos, no horário de 20h, atraiu a atenção do público para a luta de uma mãe adotiva para fazer com que a filha com síndrome de down fosse aceita em uma escola de ensino regular. Chamou a atenção para o despreparo de escolas e professores para integrar alunos com necessidades especiais.

Abordou discretamente outros temas sociais como o preconceito racial sofrido pela personagem Selma (Elisa Lucinda). Ela era uma médica e melhor amiga da protagonista Helena, casada com o enfermeiro Lucas (Paulo Cesar Grande), era às vezes discriminada por pacientes por ser negra. As cenas em que a personagem sofria discriminação em seu ambiente de trabalho eram discretas. O preconceito foi abordado com mais ênfase quando a filha de Lucas foi morar com eles. Apesar de ter a pele morena, Gabriela (Carolina Oliveira) era extremamente preconceituosa e no início deixava claro que não aceitava a nova mulher do pai pela cor de sua pele.

Além da homossexualidade, do alcoolismo e do drama vivido por quem sofre distúrbios alimentares. Outro tema abordado, o sofrimento de portadores do vírus HIV, recebeu criticas do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Infectologia que recriminaram a forma como o médico Diogo, personagem de Marcos Paulo diagnosticou que um paciente era aidético apenas pela sua aparência.

A trama ficou com média de 46,8 pontos de audiência registrado pelo Ibope na Grande São Paulo. 

3.3.1 Regina Duarte – A Helena solidária, justa e determinada


Fig.3:
Helena – Páginas da Vida

Em Páginas da Vida, a atriz Regina Duarte viveu sua terceira Helena em tramas de Manoel Carlos.  Era uma médica obstetra bem sucedida e íntegra. Bonita, elegante, educada e simples, era muito querida por amigos e família.

Carregava consigo o sofrimento por ter perdido uma filha, fruto do seu primeiro casamento. Era mãe adotiva de Salvador (Jorge de Sá), um rapaz negro, e casada com Greg (Jose Mayer), com quem vivia uma relação estável até descobrir sua traição. Não se deixou abalar, deu a volta por cima e iniciou uma relação com um antigo amor que reapareceu em sua vida, o médico Diogo (Marcos Paulo).

A maior prova de amor dessa personagem foi o drama que viveu com a adoção de uma criança com síndrome de down, a pequena Clara (Joana Marcozel). Venceu preconceitos e lutou até conseguir que Clara estudasse em uma escola de ensino regular, sendo esse um dos assuntos mais abordados no decorrer da trama. Sofreu quando o pai biológico da menina apareceu e entrou na justiça pela guarda dela. Mostrou-se uma mulher forte e destemida, mas insegura, demonstrando o medo de perder uma filha pela segunda vez.

Helena adotou Clara quando fez o parto de Nanda (Fernanda Vasconcelos) que morreu na mesa de cirurgia, deixando um casal de gêmeos, que foi separado porque a avó dos bebês, Marta (Lilia Cabral) rejeitou a menina por ser portadora de síndrome de down. Helena adotou Clara, mas escondeu do restante da família dela que ela estava viva. Foi cúmplice de Marta na mentira, dizendo que a menina havia morrido. Porém, ao final, no julgamento pela guarda da menina ela foi redimida de qualquer culpa.

Solidária e justa, Helena não admitia preconceitos, o que é visível em várias cenas da novela como no primeiro capítulo em que se envolve em um acidente no trânsito. Ao bater na traseira de um carro que atropela um rapaz negro, ela desce e defende o rapaz que estava fugindo de um guarda e era agredido por uma multidão com xingamentos preconceituosos e acusado de ser ladrão, pelo fato de ser negro. Em outra cena, estava em um parquinho com Clara, quando um menino cai do escorregador e uma mulher acusa um menino negro que também estava no brinquedo, dizendo que só podia ter sido ele por causa da cor, ela não aceita e nos dois casos discute com as pessoas que faziam comentários preconceituosos.

3.3.2 Cadê os negros?

O autor tentou inserir a questão racial na trama, mas foi fraco em sua tentativa. Apesar de ter uma personagem de classe média exercendo uma profissão valorizada pela sociedade, sofria discriminação em seu próprio ambiente de trabalho. E apesar de ter uma protagonista branca justa que era indignada com cenas de preconceitos, a quantidade de papéis destinados a atores negros foi pequena, fazendo tímida a tentativa de Manoel Carlos.

No núcleo fixo da novela, poucos negros foram identificados, sendo apenas o filho adotivo de Helena, que apesar de aparecer quase sempre junto com a protagonista, não exerce nenhuma imposição na trama, é um personagem fraco. E entre as mulheres negras que foram possíveis identificar há a médica, Selma, amiga de Helena, e duas empregadas domésticas, além de uma com profissão não identificada.

3.4 Viver a Vida

Foi ao ar pela Rede Globo no período de 14 de setembro de 2009 a 14 de maio de 2010 no horário das 21h, com 209 capítulos. Foi a primeira novela de Manoel Carlos a ter uma atriz negra como a protagonista Helena.

É uma mistura de histórias de relacionamentos e dramas. Abordou alguns temas relevantes como alcoolismo e distúrbios alimentares, a superação de deficientes físicos e portadores de câncer. Além de abordar questões como infidelidade e relação entre pessoas com diferença de idade.

Viver a Vida bateu recorde de lucro com merchandising, porém, foi considerada o maior fracasso da década de 2000 em questão de audiência. O Ibope registrou uma média de 35,6 pontos na Grande São Paulo.

A novela recebeu várias críticas pela produção ruim e principalmente pelo tratamento dado à protagonista negra, interpretada pela atriz Taís Araújo. No artigo “Viver a Vida: Em cena, uma negra de joelhos”, as estudantes de letras vernáculas da Universidade Federal da Bahia, Gleiciele Oliveira e Shagaly Araújo (2009), deixam clara a insatisfação causada pela novela, em relação à questão racial e ao tratamento dado a protagonista em uma cena que chocou o país.

É lamentável observar que, em plena semana de comemorações da consciência negra, celebrada no dia 20 desse mês, uma grande parcela de indivíduos, que passou e passa por diversas condições difíceis, ocasionadas por uma segregação racial e social histórica, recebeu esse desagradável presente em rede nacional e viu, mais uma vez, a continuidade do reforço a um imaginário discriminatório de bases ideológicas e hegemônicas. Mais lamentável ainda é constatar que os atores negros migram das novelas com temática escravocrata para assumir os mesmos papéis de submissão na contemporaneidade, pondo a si e a nós todos de joelhos. (OLIVEIRA e ARAUJO, 2009) 

A novela foi criticada pela forma como abordou a questão racial, ou melhor, à falta de destaque dado á esse tema que poderia ter sido mais bem explorado, tendo em vista que contava com um núcleo negro com uma família inteira que poderia ter levantado a bandeira, e que coincidia com um período em que o movimento negro lutava para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso Nacional. Souza (2010) destaca que o fato de uma atriz negra ter assumido o papel de protagonista de uma novela do horário nobre da maior emissora do país não teve os resultados esperados, pois a trama não valorizou isso, pelo contrário.

A trama da novela explicita o pesado investimento em uma tentativa de manutenção de desigualdades raciais e de gênero, através da reiteração do mito da democracia racial, simultaneamente expondo as contradições e a violência física e simbólica imbuídas nessa ideologia que visa mascarar o racismo e o preconceito racial que estruturam a sociedade brasileira. Não tão coincidentemente, essas investidas se energizam dentro de um contexto histórico no qual organizações negras pautam uma série de medidas jurídicas e legislativas que visam corrigir as profundas desigualdades raciais no Brasil. (SOUZA, 2010)

3.4.1 Taís Araújo – A primeira Helena negra e secundária


Fig.4:
Helena - Viver a Vida

E finalmente, a Helena vivida por Taís Araújo que chamou atenção por ser a primeira protagonista negra de uma novela do horário nobre da Rede Globo. Nasceu em Búzios, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda adolescente e tornou-se uma modelo famosa e bem sucedida. Querida pela família e amigos, mas invejada por colegas de profissão, principalmente por Luciana (Aline Moraes) que seria peça chave no maior drama que a personagem viveria no decorrer da novela. Sempre muito preocupada com a família, sofria com os problemas vividos pela irmã mais nova, que se envolveu e engravidou de um marginal. Casou-se com Marcos (Jose Mayer), vinte anos mais velho e pai de Luciana. Porém, no final ficou com Bruno (Thiago Lacerda), que conheceu em Petra, na Jordânia.

Era uma mulher jovem, bonita e independente, valorizava seus traços negros como o cabelo crespo quase sempre natural, o que destacou suas raízes, pois como afirma Coutinho (2010), depois da cor da pele, o cabelo é o maior símbolo da raça negra, podendo assumir uma postura identitária.

Os cabelos da mulher negra representam um exemplo das dificuldades de adequação a um padrão de beleza europeizado. Na realidade o cabelo é um dos principais focos de preocupação estética entre as negras, e é tópico de extensa discussão, podendo ser considerado como símbolo de uma posição política. Cabelo dos negros é, depois da cor da pele, o maior símbolo estético de estigma, sofrendo uma desvalorização evidente. (COUTINHO, 2010)

Fazia parte do núcleo bem sucedido financeiramente, relembrando em alguns momentos sua origem simples e as dificuldades que passou para chegar ao topo da carreira. No primeiro capítulo, durante uma entrevista para um programa de TV, Helena fala de sua amiga Ellen com quem divide o apartamento no Rio de Janeiro. Uma das poucas cenas em que deixa claro que sofreu racismo para chegar aonde chegou, porém a forma como fala demonstra também seu próprio preconceito.

Somos da mesma idade, vivemos juntas as mesmas emoções da adolescência. E também porque no colégio, no clube, em todos os lugares que nós frequentávamos, nós éramos a minoria, as exceções, porque eu sou negra e ela é nissei. Ai numa escola de classe média, de brancos normais como eles dizem, nós éramos as únicas diferentes, as únicas anormais.  (Viver a Vida, cap. 1, 2009)

Até se casar com Marcos, a personagem vivia em um apartamento no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Depois se mudou para o bairro dos nobres das tramas de Manoel Carlos, o Leblon.

Segundo Joel Zito Almeida de Araújo (2010), em principio foi uma boa ideia colocar uma Helena negra em uma profissão reconhecida, bem sucedida, mas o padrão de vida acabou fugindo da realidade, o que gerou uma antipatia junto ao público, levando em consideração que o que mais destaca uma protagonista é o sofrimento, a batalha, a exemplo das outras Helenas da década de 2000 que tiveram que lutar pela vida da filha com leucemia (Laços de Família), suportar a infelicidade no casamento e a dor de ter sido enganada (Mulheres Apaixonadas) e a batalha pela felicidade de uma filha adotiva com síndrome de down (Páginas da Vida).

Desde o início eu achei uma espécie de armadilha porque essa dificuldade dos autores de telenovela no Brasil de entender a história do negro, de entender a condição de ser negro no país, acaba provocando essa dificuldade de reapresentação. No inicio da novela eu achei interessante ter a Taís Araújo em um papel de uma mulher que era uma modelo internacional reconhecida. Porque ser modelo significa ser o melhor, o mais belo. Digamos, representa algo de especial na sociedade. E a Tais nesse lugar da novela eu achava que era simbolicamente muito especial para a sociedade brasileira, para a juventude negra e branca ver uma mulher negra nesse posto, sendo disputada na trama da novela, sendo invejada por outras pelo seu lugar de modelo. [...] Então, o que eu estou chamando de armadilha é porque no inicio o padrão de vida daquele grupo de elite do qual a protagonista fazia parte era tão ostensivo que eu acho que criou antipatia com a personagem. E é obvio que é uma característica de toda heroína de telenovela é o sofrimento, é a dor. Tanto que a verdadeira protagonista foi a personagem da Aline Moraes exatamente por conta do acidente, por ela ter se tornado paraplégica. Isso comoveu o publico.    (ARAÚJO, 2010)

Rebeca Oliveira Duarte (2009), cientista política do Observatório Negro, fez uma crítica dura sobre o fato de a Rede Globo ter colocado no ar duas protagonistas negras, Taís Araújo em Viver a Vida e Camila Pitanga representando a faxineira Rose em Cama de Gato, transmitida no horário das 19h, no momento em que o Movimento Negro lutava pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial que previa cotas para atores e atrizes negros.

Não havia data melhor. Em plena semana da Consciência Negra, a teledramaturgia global reafirma, mais uma vez, a pura reprodução de imagens, palavras e ideais racistas em horário nobre. Ao elencar a atriz negra Taís Araújo para protagonista de sua novela das nove, a TV Globo, através de seu funcionário Manoel Carlos, parecia querer responder ao Estatuto da Igualdade Racial idealizado pelo movimento negro que não seria necessário estabelecer cotas para atrizes e atores negros; bem, parece não ter sido à toa que justamente no momento de uma decisão histórica quanto ao conteúdo do referido Estatuto, a Globo tenha lançado ao ar duas novelas com protagonistas negras, atrizes que inclusive têm uma postura racial condizente às suas trajetórias, como são Taís Araújo e Camila Pitanga. Nas entrelinhas, previa-se uma forjada justificativa à sociedade das “desnecessárias” cotas raciais para os meios de comunicação, já que este espaço vem sendo ocupado pelo núcleo negro da Globo. Convenhamos, uma jogada de mestre; assim, evita-se o “mal maior” para a Consciência Branca do comando global, que é obedecer a lei e fazer cumprir os direitos da pessoa, da população e dos povos negros.  (DUARTE, 2009)

3.4.2 Helena negra: submissão e humilhação no horário nobre


Fig.5:
Helena negra – Viver a Vida

Na tentativa de conquistar a amizade de Luciana, Helena viajou para um desfile em Petra, na Jordânia, e a levou. Passou toda a viagem suportando, calada, as ironias e desaforos da enteada, até o dia do retorno ao Brasil em que as duas brigaram, Helena perdeu a paciência e esbofeteou o rosto de Luciana.  E a impediu de ir com ela em um carro separado, obrigando-a a viajar em um ônibus com as outras modelos, justamente o veículo que se envolveu em um acidente que deixou Luciana tetraplégica. Helena se sentia culpada pelo que aconteceu à sua enteada e chegou a se humilhar, se ajoelhando diante de Teresa (Lilia Cabral) para pedir perdão, levando uma bofetada no rosto, que a ex-mulher de seu marido disse estar devolvendo pela filha.  Além de suportar, mais uma vez calada, que Teresa jogasse na sua cara, assim como fez Luciana em Petra, o aborto que ela realizou no inicio da carreira.

Essa cena foi uma das mais criticadas da novela, pois mostrou uma Helena que, apesar de protagonista, não fugiu dos papéis de submissão e humilhação destinados aos personagens negros. Luciana Brito (2009) destacou essa cena como sendo um exemplo da dificuldade em retratar o público negro libertando-se do pensamento que os ligam aos tempos de escravidão.

A Helena negra é culpada por ter abortado, por ter casado com um homem branco e por não ter “cuidado” devidamente da enteada, numa relação que muito nos lembra mucama e sinhazinha. Ao que me parece, é muito difícil para a dramaturgia brasileira esconder este ranço ordinário da mentalidade escravocrata e racista.(BRITO, 2009) 

As críticas partiram de todos os lados, é possível identificá-las em blogs de telespectadores e em artigos de acadêmicos e estudantes, principalmente de estudiosos ligados à militância pelo fim das desigualdades raciais no Brasil. Como pode ser visto nesse trecho abaixo descrito.

Noite de segunda-feira, 16 de novembro de 2009. Exibição de novela. Na cena, duas personagens discutem. Uma negra e outra branca. A primeira chora e ouve passivamente as ofensas da última... minutos a fio. A negra, evidentemente, ajoelha-se diante da personagem branca para pedir perdão por uma culpa questionável. E, por fim, recebe uma bofetada da mesma, em uma subserviência irritante. Em um primeiro momento, a descrição parece referir-se a alguma novela "de época", na qual o tempo e o espaço ficcional situam-se em um Brasil escravocrata e a mulher do senhor de engenho esbofeteia uma de suas mucamas. No entanto, fala-se aqui de mais um capítulo da novela Viver a Vida, cujas personagens concentram-se no Rio de Janeiro do século 21, e que as atrizes Lília Cabral e Taís Araújo, Teresa e Helena, respectivamente, contracenam um dos momentos mais fortes e infelizes da teledramaturgia brasileira. (OLIVEIRA e ARAUJO, 2009)

Diante da importância das Helenas nas novelas de Manoel Carlos, esse papel nas mãos de uma atriz negra poderia ter sido a chance de mostrar a capacidade dessa parcela do meio artístico, tão pouco explorada nos elencos de grandes autores. Porém, ao contrário, o autor foi acusado de não abraçar a questão racial como poderia.

Araújo (2010) afirmou em entrevista que o papel de protagonista para uma mulher negra foi desperdiçado com essa personagem que foi uma tentativa velada da elite da teledramaturgia, de esconder o racismo que ainda está arraigado na cultura do nosso país tão plural e rico em etnias.

A chance foi estragada pela trama da novela e por essa falta de sensibilidade e falta de educação daqueles que produzem a telenovela para a questão racial. A elite brasileira quer ignorar a questão racial, uma vez que não quer lidar com as consequências da escravidão e com a falta de políticas sociais para a população negra pós-escravidão. A elite quer fazer de conta que nós somos um país sem o problema do racismo. Aqueles que trabalham na elite econômica e cultural, que estão no topo das telenovelas, têm uma certa afinidade com esse pensamento. (ARAÚJO, 2010)

E a Helena negra recebeu críticas também por não ter se destacado como as outras, interpretadas por atrizes brancas, sempre tão enfáticas e consideradas as heroínas das tramas. Em relação à questão racial, segundo crítica do autor Aguinaldo Silva em entrevista ao jornalista Valmir Moratelli, do IG, a personagem não deixou explicito o orgulho negro. “O que falta a essa Helena (papel de Taís Araújo) é o componente racial. Você não pode ter uma atriz negra na novela como se fosse uma branca”. 

No início da novela, até o acidente, Helena tinha algum destaque, apesar de ser menos do que merecia em relação às outras Helenas do Maneco. Depois disso, as atrizes Aline Moraes e Lilia Cabral roubaram a cena. A primeira como uma modelo em início de carreira que teve os sonhos interrompidos e que precisaria enfrentar o drama e superação de uma cadeirante. E a segunda como a mãe destemida, capaz de brigar com todos pela felicidade e bem estar da filha e que foi, inclusive, considerada a verdadeira Helena de Viver a Vida, pois seus dramas, e a coragem com a qual os enfrentou, se assemelham aos dramas das protagonistas anteriores, como os da Helena de Vera Fisher em Laços de Família. Essa opinião compartilhada por muitos telespectadores é evidenciada pela jornalista Mariana Aguirre (2010):

Não que Taís Araújo seja uma má atriz, mas sua Helena é superficial. Não passa de uma coadjuvante legalzinha. Já Tereza, faz com que torçamos por ela. A mulher forte, que ainda nutre a paixão pelo ex-marido mesmo ele sendo cafajeste, que ama as filhas a ponto de brigar até com a melhor amiga. [...] E a Helena, bom a Helena é aquela que fica se beijando com o Thiago Lacerda e conversando com o Osmar (produtor da agência de modelos interpretado pelo ator Marcelo Valle). Secundária apenas. A Helena, em Viver a Vida, pra mim é a Tereza, a Mulher com M maiúsculo mesmo. 

O papel de Helena no decorrer da trama foi desvalorizado, ela passou a ser vítima de sua própria culpa, por ter abortado, por ter se casado com Marcos, por ter revidado à invasão de Luciana à sua vida particular e às humilhações da enteada, e culpada até mesmo por um acidente o qual ela sequer poderia prever. Ao retornar com Luciana para o Brasil, sofre mais humilhações. Cenas mais discretas, porém não menos reveladoras que se ajoelhar e apanhar de sua antagonista branca.  Ela foi ignorada por toda a família de Luciana, inclusive pelo próprio marido que rejeita até mesmo o filho que ela revelou estar esperando. E como não poderia deixar de ser, ele também jogou em sua cara os erros cometidos no início da carreira dizendo que a notícia da gravidez veio em uma má hora, e que se ela foi capaz de fazer um aborto no passado, poderia muito bem fazer novamente. Mostrou-se uma mulher forte ao escolher entre Marcos e o filho, mas talvez por castigo, ela sofre um aborto espontâneo, sendo impedida de exercer o papel de mãe e se redimir do pecado que cometeu no inicio de sua carreira e que acarretou em todas as humilhações que veio a sofrer. Duarte (2009) destaca a desvalorização da personagem de Helena, diante de suas antagonistas, nos lembrando, inclusive, do que disse Araújo (2004) de que “ao negro foi reservado participar do mundo da classe média e dos ricos, apenas na ótica do segmento branco da população.”

A suposta protagonista da novela, a personagem de Helena, após ser retirada de seu núcleo familiar negro para transitar exclusivamente num núcleo branco e assim ser sujeita a traições e humilhações, é posta de joelhos diante de uma de suas antagonistas brancas – já que, para uma negra, não basta uma só antagonista, devendo vir elas em número de três: a amante do marido, a filha mimada e infantilizada do marido e a ex-mulher do marido. A idéia de protagonista negra, na Globo, enfim foi definida claramente. Uma heroína que, se inicialmente surgia diante de um drama familiar, afirmando um núcleo negro protagonista, como âncora, marco e raiz, veio sendo reduzida dramaturgicamente a pobre vítima de suas três antagonistas brancas, tendo estas enfim recebido mais espaço de visibilidade que a suposta protagonista. O papel, de central, tornou-se periférico, apoio para a virada de jogo das outras atrizes, que passam a receber os aplausos da população e das “críticas” noveleiras de plantão, prontas para limar a atriz negra por seu papel “sem graça”. (DUARTE, 2009)

Manoel Carlos, que logo no início da novela anunciou que Taís Araújo seria uma Helena diferente de todas as outras, respondeu às críticas, em entrevista à jornalista Patrícia Villalba do jornal O Estado de S. Paulo, dizendo que a intenção era dar destaque à superação de Luciana e defende que o importante é a onipresença da protagonista que está em todos os lugares.

A novela fala de superação. E a superação-símbolo da novela é a da Luciana. É natural que ela seja, portanto, o centro das atenções. O papel do protagonista não deve ser medido pela sua presença, mas pela sua onipresença, que é a presença em todos os lugares. E a Helena ocupa essa posição. Tudo se relaciona a ela, a começar pelo acidente com Luciana, que é o que deflagra a história que eu estou contando. Está lá nos dicionários: protagonista "é o personagem em torno do qual se constrói a trama". É a Helena, portanto. A Luciana é uma consequência, mas obviamente de imensa importância. (VILLALBA, 2010) 

Não foi só a presença apagada de Taís Araújo, mas o papel da Helena negra não convenceu o público, não teve emoção como as outras protagonistas de Manoel Carlos. Foi ai que pesou a maior diferença entre elas, não só pelo fato de ser jovem e negra, mas faltou o protagonismo. A personagem era superficial e artificial até no relacionamento com Marcos, que foi considerado um casamento sem paixão, sem emoção. O que poderia ter sido um dos destaques da novela por ser um relacionamento inter racial e com uma grande diferença de idade.

No inicio da trama Helena era uma mulher independente, famosa e bem sucedida. Característica, inclusive, presente em todas as Helenas de Manoel Carlos, que contradiz o estereótipo feminino geralmente retratado na mídia e em especial nas telenovelas como destaca Rosália Duarte de que até a década de 1990 a figura feminina era

Retratada como ineficaz profissionalmente e menos competente que os homens em todas as áreas que não dizem respeito ao trato doméstico, para a mídia a mulher ideal é jovem, magra, linda, feminina, submissa e delicada e está irremediavelmente condenada à condição de objeto sexual, de esposa e de mãe. Frágil e indefesa, ela precisa de um homem que a proteja dos perigos do mundo; por isso, vive em função da busca do grande e definitivo amor de sua vida. O homem é a metade que lhe falta, complemento indispensável sem o qual não há identidade feminina (ROSÁLIA DUARTE) 

A relação com Marcos só serviu para mostrar que à mulher negra continua valendo a imagem retratada na mídia até a década de 1990, e para destacar ainda mais os estereótipos de subserviência atribuídos às mulheres e aos negros. Ao se casar com Marcos, um milionário branco, ela é frequentemente pressionada por ele a abandonar sua carreira. Passa a ser esse um dos motivos pela decadência do casamento inter-racial da novela das oito.

Em Viver a Vida, Marcos, um homem branco riquíssimo oferece a Helena a segurança e conforto material que sua profissão de modelo (supostamente) não permitiria. Afinal de contas, no contexto de um país que nega o protagonismo negro tanto na mídia de massa quanto em livros didáticos, a imagem de uma mulher negra bem sucedida não pode se sustentar sem o aparato de um homem branco. Marcos passa a ser aquele que endossa a presença e o sucesso dessa personagem, passando a ser principal protagonista da trama, praticamente vivendo à sua sombra, tornando essa mulher negra mais palatável, pelo menos para os parâmetros tradicionais de subserviência historicamente vigentes na mídia brasileira. (SOUZA, 2010)

Coincidentemente, ou não, a subserviência já despontava na criação da personagem que seria interpretada pela atriz Taís Araújo, conforme descreve o autor em entrevista publicada no site da Rede Globo.

Sempre pensei em criar uma Helena mais jovem, que abrisse um leque de novas possibilidades para o personagem. Uma mulher por volta dos 30 anos, bonita, bem sucedida no amor e na profissão, mas sentindo-se, mesmo assim, incompleta. Por obra do acaso, vê-se envolvida com um homem mais velho, divorciado, que vai lhe dar a felicidade desejada, mas à custa de muita luta e muito sofrimento. Essa era a Helena mais jovem que eu desejava criar já há algum tempo. Como também sempre quis escrever um papel para a Taís Araújo, que é uma atriz que admiro muito, achei que a possibilidade estava nessa história. E assim nasceu essa nova Helena.  (MANOEL CARLOS, 2010)

É mais que comum vermos atrizes negras interpretando empregadas domésticas, com seus estereótipos. Desta vez, a Rede Globo e Manoel Carlos surpreenderam, inicialmente, com um elenco “cheio” de atores negros em um núcleo bem sucedido financeiramente. Mas Duarte (2010) em seu artigo “Escrito nas Estrelas, Passione e o trabalho doméstico”, analisou as empregadas domésticas Vitória (Natália Dill) e Clara (Mariana Ximenes) de Escrito nas Estrelas e Passione, respectivamente, e destacou:

Via de regra, as trabalhadoras domésticas da novela não têm família, dramas pessoais, questionamentos, uma história própria a desenvolver na trama. As mammys ganham relativo espaço quando sua função é acalentar e carregar as dores de seus patrõezinhos; as ridículas, quando vão ao samba ou à gafieira mostrar como é divertida a vida do pobre. Mas hoje temos, na telinha, duas honrosas exceções. Sim, temos uma trabalhadora doméstica protagonista, no papel da mocinha da novela das seis; e uma trabalhadora doméstica antagonista, no papel da vilã, na novela das nove. Impressionante. Elas ganham drama próprio, falas caprichadas, closes estudados de seus rostos, olhares, sorrisos. Curioso que não erram palavras para os outros rirem e não vão ao samba, ao funk ou à gafieira. O detalhe fundamental: ambas são completamente brancas. (DUARTE, 2010)

Duarte observou que Taís Araújo trocou de lugar com a atriz Natália Dill, se levarmos em conta os papéis que brancos e negros costumam interpretar nas telenovelas da Rede Globo. Desta vez a bela mulher negra deixou a cozinha para ocupar as passarelas da fama, enquanto que a loira saia da favela para ocupar um espaço na área de serviço do núcleo rico da trama. Porém, nem assim a personagem negra se destacou mais que a branca, pelo contrário, a questão racial e o tratamento diferenciado foram camuflados através de um suposto papel de protagonista para a atriz Taís Araújo em Viver a Vida e uma família de classe média.

No caso de Escrito nas Estrelas, há ainda algo mais irônico. A mocinha é moradora de favela, não tem estudos e vive buscando trabalho de viração pra sobreviver. Bem, se formos construir esse perfil no Brasil perceberemos que, nessas condições, encontraremos majoritariamente mulheres negras. São as mulheres negras que ocupam a base da pirâmide social, com menos acesso aos seus direitos básicos; as trabalhadoras domésticas são, majoritariamente, negras. Se a Globo se utiliza disso tão bem para confinar as atrizes e os atores negros em papéis estereotipados e pouco desenvolvidos, por que não terem escolhido uma jovem negra para fazer o papel de Vitória/Viviane? Simples. Porque ela é protagonista de verdade (não uma protagonista de faz de conta como foram Preta e Helena). Porque ela, a personagem, ocupa a trama principal, tem falas elaboradas (apesar de mal interpretadas), forma um triângulo amoroso com os dois personagens principais - o espírito Daniel e o seu pai encarnado. Porque ela terá direito a estudar, a seguir seus sonhos, a fazer parte – realmente – da família, através do casamento e da maternidade. Por isso ela tinha de ser branca. (DUARTE, 2010)

A protagonista branca de Escrito nas Estrelas, como destacou Duarte, teve direito de sonhar, enquanto que a protagonista apagada de Taís Araújo passou grande parte da trama se lamentando e se culpando, inclusive, pelo que não tinha culpa alguma, além de ter sido ofuscada pelo drama de Luciana e para completar foi impedida de exercer o papel de mãe, ao sofrer um aborto espontâneo.

3.4.3 Núcleo negro – A família de Helena

A novela já começa mostrando o contraste do núcleo negro com cenas de Helena, uma modelo rica e famosa dando uma entrevista na bela cidade de Búzios, enquanto sua irmã mais nova, Sandrinha (Aparecida Petrowky), foge da policia em uma favela do Rio de Janeiro com o namorado marginal, também negro.

Os personagens negros da novela são a família de Helena, com a mãe e o padrasto que são donos de uma pensão em Búzios, o pai que é músico, a irmã e o sobrinho, o irmão adolescente e um ex namorado que também é modelo.

Não aparecem cenas em que deixam explicito o preconceito racial, mas há uma cena no capítulo 28 em que Edite (Lica Oliveira), Paulo (Michel Gomes) e Ronaldo (César Melo) mãe, irmão e padrasto de Helena, respectivamente, assistem pela televisão a posse do presidente dos EUA, Barack Obama, e discutem sobre o que poderá melhorar para a população negra. Paulo é um jovem que se mostra desacreditado com a possibilidade desse acontecimento ajudar a acabar com o preconceito racial no mundo, e relembra um caso de discriminação que sofreu, mas Ronaldo comemora e se diz esperançoso, demonstrando inclusive que conhece os direitos conquistados por essa parcela da sociedade.

Paulo: O que é que muda pra gente o carinha ganhar?

Ronaldo: Muda, muda sim, tem que mudar

Paulo: Vai acabar o preconceito por causa disso? Não vai. A senhora mesmo lembra mãe no ano passado, quando sumiu mercadoria naquele supermercado, sabe o que o rapaz disse? Eu fui o primeiro a ser revistado. Vamos revistar aquele negrinho ali porque ele tem cara de safado.

Ronaldo: Mas você não chamou a policia porque você não quis. Deu bobeira, o cara ia em cana. (Viver a Vida, Cap. 28)

Além de personagens figurantes que aparecem uma ou duas vezes como uma enfermeira que atende Luciana no Hospital, uma das modelos do grupo que desfilou em Búzios e moradores da favela onde moram Sandrinha e Benê (Marcelo Melo Jr.).

É valido relembrar o final dos personagens Sandrinha e Benê. Ela passa toda a novela apanhando dele, mas não o abandona mesmo depois que tem o filho, não desiste de seguir o seu amor. Até que chega um dia que, cansada de correr da polícia e sofrer com a violência do namorado, Sandrinha decide abandoná-lo, mas Benê promete mudar, deixar a tráfico de drogas, a bandidagem e conseguir um emprego digno. Ao sofrer um atentado, Benê resolve também se mudar da favela com Sandrinha e o filho. Vão morar em uma vila, onde vivem os amigos, brancos, de Helena, mas não se conforma e decide voltar para a favela, porém, com um emprego. O final seria perfeito, o jovem negro que se redime e muda de vida, para melhor, e vive feliz com a família, apesar de continuar morando em uma favela. Mas como afirma Araújo (2010) “É o único que não tem direito a se regenerar”. Benê é assassinado ao voltar para a favela, deixando Sandrinha sozinha, o filho órfão e os sonhos de que o jovem negro também tem direito de ter um final digno, pelo menos na ficção. Um final não muito animador para os jovens, negros e brancos, em especial os que vivem no mundo do narcotráfico, conforme analisa Araújo (2010).

Eu acho que falta sensibilidade. Imagina a quantidade de pessoas que vivem esse drama real. Que tipo de mensagem que você está dando para o jovem negro que com certeza vê o personagem porque a telenovela e a televisão é praticamente o único instrumento de lazer. Então que mensagem de desesperança, que tapa na cara esse jovem recebe. Enquanto as pessoas que são portadoras de deficiência física recebem uma mensagem de olha, você pode mudar de vida, você pode casar, ter filhos. Então, o jovem que passou pela ação do narcotráfico, eu diria que simbolicamente é uma cumplicidade com a exterminação desse jovem. É triste. Eu acho que essas coisas são feitas pela falta de reflexão, pela arrogância dessas pessoas que não querem refletir a questão racial e, portanto a condição do negro no Brasil. Essa arrogância faz com que os dramaturgos, o autor da telenovela e sua equipe errem na mão. Não param para pensar nisso. Porque não oferecer essa mensagem aos jovens, que estão com dúvida, com vontade de sair do narcotráfico. De oferecer essa mensagem que ele pode sair, que pode ter uma vida fora do mundo do crime. Porque não dar essa gota de esperança?  (ARAÚJO, 2010)

Muniz Sodré (1999) identificou quatro formas como o racismo midiático se apresenta, e podemos perceber pelo menos três delas na novela Viver a Vida, como a falta de visibilidade dada à questão racial, o afastamento de Helena da convivência com o núcleo negro e a riqueza exagerada da personagem que foge à realidade.

Sodré (1999) identifica quatro formas em que o racismo midiático semanifesta: 1) através da negação da existência do racismo, exceto em casos explícitos de preconceito, ou conflitos raciais; 2) apagamento de aspectos e exemplos positivos da cultura negra, ignorando ou “embranquecendo” as contribuições desta etnia ao país; 3) estigmatização da cor escura da pele, atribuindo a esta identidades ou características que não estão de acordo com a realidade da maioria; e 4) criação de um estado de indiferença entre os profissionais da mídia permitindo que exista uma supressão da realidade étnica em prol de interesses econômicos comerciais. (SODRÉ apud COUTINHO, 2010)

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da análise das Helenas de Manoel Carlos da década de 2000, podemos afirmar que Taís Araújo não foi uma protagonista de peso como as demais. Ela só reforçou os estereótipos atribuídos à imagem da mulher, em especial da mulher negra. Fugiu à regra das empregadas domésticas, mas não teve o espaço merecido. De nada adiantou ser rica, famosa e bem sucedida, se perdeu o brilho no meio da trama. Manoel Carlos deu a entender que queria mostrar que não existe preconceito na teledramaturgia, ao colocar uma mulher negra para interpretar o papel de uma modelo bem sucedida, mas ele se esqueceu de dar a ela o verdadeiro protagonismo, aquele em que a personagem tem dramas e superações de verdade que refletem a realidade do público que assiste e se identifica. Ser vítima de um erro do passado e ser humilhada por causa disso foi uma tentativa fracassada de dramatizar a personagem.

Dramas como os vividos por Vera Fischer em Laços de Família, em que abre mão da própria felicidade pela filha, e que luta incansavelmente pela sua vida. Ou os dramas amorosos vividos por Cristiane Torloni em Mulheres Apaixonadas, que mostrou que é possível abrir mão de um casamento infeliz e correr atrás da felicidade em uma idade madura, além de ter mostrado que amor de mãe não está no sangue, mas no coração ao continuar amando e zelando pelo filho mesmo sabendo que ele foi gerado de uma traição que ela própria sofreu. E o drama semelhante vivido por Regina Duarte em Páginas da Vida que deu a volta por cima depois de tantas perdas e mostrou-se forte e justa ao amar os filhos adotivos como se os tivessem carregado no ventre.  Essas histórias de amor materno, de força, coragem, determinação, independência e respeito sempre presentes nas vidas das Helenas e que faltou à Taís Araújo.

O drama do peso na consciência pelo aborto que fez para ascender na carreira de modelo foi abordado de uma forma caricatural. Mesmo sendo um crime, mesmo que a mulher carregue essa culpa pelo resto de sua vida, ninguém tem o direito de humilhá-la por isso, de invadir sua vida privada mesmo sendo ela uma celebridade. O único acontecimento que poderia ter devolvido o brilho à Helena de Viver a Vida era o filho que teria com Marcos, não fosse o castigo de mais uma vez passar por um aborto, dessa vez espontâneo, mas que tirou dela a chance de se redimir e viver a vida realmente.

A partir do pensamento de Roberta Casanova (2010) é possível afirmar, que foi desconfortável apresentar no horário nobre uma mulher independente, destemida e corajosa, negra, mas não o foi para as outras novelas em que as Helenas eram também independentes, fortes, determinadas, mas brancas, pois estas sempre foram aclamadas pelo público por levar cargas de emoção e dramatização que se equiparava à realidade do dia a dia das mulheres brasileiras.  Contestando o que foi levantado sobre a questão do próprio telespectador ser co-autor das tramas devido à audiência, seria possível afirmar que personagens negros, em especial a mulher negra, continuam não sendo bem aceitos pelo público, a exemplo da primeira família de classe média negra apresentada na novela Vidas em Conflito (1969), em que o autor precisou modificar o enredo para acabar com o núcleo que estava sendo rejeitado pelos telespectadores. Seria culpa então da Helena negra o fracasso de audiência que foi esta última novela de Manoel Carlos e em uma tentativa de reverter a situação, foi apagando a imagem de sua Helena “diferente”.

Entre imperfeições e falta de emoção, podemos destacar algo positivo que foi o fato de a Helena negra não ter cedido ao machismo do marido Marcos que a pressionou intensamente para que abandonasse sua independência financeira e profissional. Ela mostrou força e coragem para lutar pelas suas conquistas, mas foi o tempo inteiro pressionada e julgada por isso, diferente das Helenas brancas que eram bem resolvidas e respeitadas pelas suas escolhas e decisões.

O autor se defendeu das criticas que pipocaram na academia, nos movimentos sociais e na internet, afirmando que a ideia não era abordar a questão racial, que a atriz Taís Araújo não foi elencada pelo fato de ser negra, mas pelo talento. Afirmou que a trama era para falar de superação, o que foi mostrado através das conseqüências do acidente de Luciana, em que a massacrada, execrada, culpada foi ninguém menos que a personagem negra. Já que era para falar de superação, porque não mostrou a trajetória de Helena para chegar ao topo da carreira de modelo na qual a maioria que alcança o sucesso é de jovens brancas, excluindo as exceções como a modelo Naomi Campbel?

Tendo em vista a importância das telenovelas para construção de identidades devido à influência que exerce no imaginário da população, sendo importante para criar referências aos que assistem e se identificam com os personagens que criam modismos junto ao público é lamentável que a primeira Helena negra, que poderia ter feito desse papel uma bandeira na luta contra a desigualdade racial no país, tenha sido uma personagem secundária, e que aparece sim em todos os lugares como destacou Manoel Carlos como sendo o importante para protagonistas, mas quase sempre se martirizando pelo aborto que fez para ascender na carreira, pela culpa que pensa ter em relação ao acidente de Luciana e até pela dor de Tereza.

Na novela Mulheres Apaixonadas, a morte da personagem Fernanda, vítima de bala perdida no Rio de Janeiro, serviu para pressionar a aprovação do Estatuto do Desarmamento que foi sancionado pelo Presidente Lula em julho de 2004. A presença de um núcleo negro e de uma protagonista negra poderia ter ajudado a pressionar a aprovação do texto original do Estatuto da Igualdade Racial, mas a Rede Globo tentou mostrar que não há necessidade de cotas, já que a novela contava com um núcleo inteiro de negros bens sucedidos.

Diante dos dados apresentados podemos afirmar que a presença de personagens negros na teledramaturgia está se intensificando se comparado com épocas anteriores. E parte do público já começa a ver com bons olhos os papéis desempenhados por eles, inclusive de negros bem sucedidos e de relacionamentos inter-raciais. Um exemplo é que muitos se revoltaram pelo insucesso da Helena negra, o que foi amplamente divulgado em blogs não só de ativistas e estudiosos, mas de telespectadores e novelistas de plantão. Mas autores e empresários da mídia precisam se conscientizem sobre a necessidade de uma mudança na imagem estereotipada que ainda prevalece em anúncios publicitários, comerciais de TV e, principalmente, nas telenovelas. Os autores como Manoel Carlos, precisam levar em consideração que a população brasileira é negra e branca. Que as mulheres que assistem suas tramas não são apenas brancas, pelo contrário, as que realmente se envolvem são geralmente de classe baixa, em que predomina a população negra.

No grupo de classe popular a novela e a televisão são celebradas como uma fala moderna, culta e dominante e ao mesmo tempo como uma instancia de participação neste domínio. Aqui, a intensidade com que é vivenciada a novela lhe repõe uma dimensão da realidade. A novela é incorporada por partes, em segmentos, em personagens, em diálogos que são atualizados por significados peculiares ao grupo. [...] Ao contrário, no grupo de classe dominante, a novela é tida e desdenhada como popular, identificada como não fazendo parte do repertório erudito e é criticada como uma ficção não realista. (LEAL, 1998)

Referente ao primeiro capítulo, sobre o que é ser negro no Brasil, que abriga uma das maiores populações negra do mundo, podemos dizer que é ficar à espera que propostas de ações afirmativas para combate à discriminação racial, não só na mídia, mas em todas as esferas da sociedade, como as apresentadas na Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CONAPIR) e que são discutidas diariamente pelo movimento negro e ativista, sirvam para conscientizar a população de que vivemos em um Brasil plural, e em um mundo rico em etnias, onde o respeito às diferenças de cor, religião e opção sexual devem estar acima de qualquer tipo de preconceito. E que os responsáveis pela legislação do nosso país tenham consciência de que algo já está sendo feito, mas muito ainda precisa ser mudado. Governantes e ativistas precisam fazer parcerias para combater as desigualdades raciais arraigadas em nossa sociedade, através de campanhas de conscientização, principalmente nas escolas, pois o ser humano precisa aprender desde cedo que vivemos em um mundo igual para todos.

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Publicado por: Juliana Mendes Santana

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